Cícero Dias Cícero Dias
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revista de cultura # 56
fortaleza, são paulo - março/abril de 2007

editorial

Enquanto o carnaval não passa

A realidade é uma construção como qualquer outra. Séculos de filosofia para chegar a isto: a realidade pode ser reinventada. Hoje matamos melhor do que ontem. Também avançamos filosoficamente: nossos sofismas são mais ágeis, irretorquíveis. Já ninguém indaga para onde caminha a humanidade. Quanto mais avançamos, mais nos persegue a sensação de déjà vu. A história reflete um tipo de mecanização de seus avatares, que atendem em domicílio nacional ou internacional, onde quer que se localize a crise de ocasião, que também é uma crise de discurso.

O artista Hélio Rôla é um fascinado pelo filósofo Humberto Maturana. Sempre envia pela Internet trechos de reflexões do pensador chileno. Uma em particular se destaca: “A democracia não está na rotação, na eleição de representantes. Os sistemas eleitorais são artifícios para a apropriação das responsabilidades. A democracia está numa convivência na qual todos os cidadãos têm acesso à coisa pública, e a coisa pública são os temas que interessam a todos os cidadãos como co-participantes de uma convivência numa comunidade.” O que diz Maturana é um primeiro sinal da cruz para se identificar ausência de democracia, quando os representantes se escondem dos representados. A construção de Brasília acena neste sentido. Imaginemos o presidente despachando com seus ministros em plena Praça Dom José Gaspar (na Biblioteca Mário de Andrade), em São Paulo, ou no Rio de Janeiro, no prédio da Biblioteca Nacional, vizinha do Teatro Municipal, ou mesmo em Fortaleza, na Praça da Estação. Imaginemos um cenário onde presidente e seu ministério não se escondam dos representados. Brasília é uma cidade que inviabiliza este tipo prioritário de relação entre representantes e representados. Quem deveria fazer ponte, em uma democracia, eram as representações de classe trabalhista, por exemplo. Mas aí reside outra planilha de construção de cenário da realidade. Então, como este sistema venoso não se comunica entre si, não há como bombear sangue para o coração. Consequentemente não se realiza a nação.

Não se pode simplesmente dizer que o país é inviável, porque afinal vivemos aqui e de alguma maneira engendramos uma tônica cultural identificável. Há um conjunto de fatores que transcende a realidade cênica e garante que o Brasil de um Tom Jobim ou de um Hermeto Pascoal é mais amplo e respirável que a tábua metálica dos sete heróis nacionais que orgulhosamente Brasília definiu, cunhou e ostenta. Ou seja, Duque de Caxias, Tiradentes ou Hermes da Fonseca perderam o significado que supostamente algum dia tiveram. A cultura brasileira de alguma maneira cai por terra toda vez que é evocada. O representante tem por artimanha reduzir a uma categoria folclórica as feridas culturais do representado. Há uma TV Senado. Há ali um programa que se repete, tecla insistente que oferta a Praça dos Três Poderes como um museu especial, a rigor um artifício de mídia como qualquer um desses que inventam artistas da noite para o dia ou importam cadáveres estéticos. Há poucos dias um dos editores da Agulha reviu o filme Basquiat (Julian Schnabel, 1996) e não pôde deixar de pensar em seu equivalente brasileiro, Leonilson. Duas figuras patéticas separadas unicamente pelo suporte que os Estados Unidos dão a esse tipo de maquinação, já entranhado em sua cena urbana, enquanto que no Brasil o que salienta é a condição primata de nossa visão de mundo. Brasília é uma cidade pintada por um outro Basquiat igualmente encharcado de outra heroína.

Todo ano as alegorias do grande cenário do carnaval brasileiro se confundem de alguma maneira com as máscaras essenciais de nossa realidade. Em algum galpão, sigilosamente construímos a realidade nacional. O Brasil é um samba que perdeu o respeito pela ala mais nobre do samba. Mantém algum ritmo, sim, porém já não se sabe para onde foi o samba. Metáforas à parte, Astor Piazzolla enriquece o tango, não o nega jamais, amplia magistralmente sua perspectiva estética. À sua maneira, Radamés Gnattali, Hermeto Pascoal e Paulo Moura fizeram o mesmo em relação ao choro. As alegorias de fevereiro não são imposições culturais, embora beneficiárias das astuciosas modalidades de nossa renúncia fiscal. Samba, gafieira, choro, uma essência brasileira que enlouquece qualquer um em qualquer país do mundo, aqui assumem um plano curioso: marginalidade não relatada, em seu desdobramento, e raramente evocada, mesmo em palanque, em discurso. Um país não pode esquivar-se do que lhe é essencial em raiz. Não se constrói uma nação como o cenário de uma peça de teatro ou a arena de um rally.

Qual o futuro de um país com a extensão territorial do Brasil e com seu histórico fascínio pelo imediato, desprezo pela história, a recusa secular à perspectiva, à pesquisa e sedimentação de idéias, ao que toma tempo e não se deixa consumir pelas luzes da ribalta, um país tão incerto, tão insustentavelmente irreal, caipira, medíocre, que se orgulha de ser alegre e sagaz, vivaz e malandro? Em um país assim, como esperar que violência urbana, crime organizado, congresso mafioso, governo cínico possam de alguma maneira amanhã despertar de um pesadelo e converter-se em algo minimamente decente?

O que ainda chamamos Brasil é o que sempre chamamos Brasil. Esta condicionante nos inclina à perpetuidade. A intelectualidade que se dizia interditada pelo regime militar não avançou uma vírgula quando a democracia se estabeleceu. A classe artística não soprou em tubas esteticamente mais respiráveis quando enfim podia. Poluímos a democracia de uma maneira peculiar. O desastre ético deste país comprovadamente nada tem que ver com o sentido comum de liberdade. Brasília deveria ser apagada do mapa. No entanto, nos agarramos a este modelo como sendo nosso último recurso para sobreviver a nós mesmos. Por mais que doa dizer: o Brasil é um país liquidado. Até prova em contrário, como em tudo, na realidade.

Os editores

Cícero Dias

sumário

1 alberto beuttenmüller & a bienal de são paulo [entrevista]. vicente de percia
2 aspectos narrativos da poesia de josé régio: breves considerações sobre o "cântico negro". lucila nogueira
3 bruno widmann: lenguaje y figuración. miguel ángel muñoz

4
heriberto porto: as cartas musicais dentro e fora do baralho [entrevista]. floriano martins
5
jack hirschman: livre do todo: arcanos [entrevista]. thomas rain crowe
6
los cadáveres exquisitos. carlos m. luis
7
machado de assis visto da argentina. marta spagnuolo
8
milton de lima sousa: el poeta más desconocido del brasil. rodolfo alonso
9 os labirintos do real - sobre a literatura policial. nicolau saião & carlos martins
10
oscar sjöstrand: tejiendo lo sagrado y lo profano: presencias de encarnado espejo. milagro haack
11
teatro de maravilhas: algumas imagens dos sermões do padre antonio vieira. rodrigo petronio
12
todos os motivos de cícero dias. mário hélio
13
um diálogo com ná ozzetti [entrevista]. erico baymma
14
universalidade de jorge de lima. césar leal
15
victor garcía, o diretor argentino que abalou o teatro brasileiro. ana lúcia vasconcelos

artista convidado cícero dias [pintura, texto de césar leal]
resenhas livros da agulha aleyda quevedo rojas [por alicia ortega caicedo]
joão gomes filho raquel naveira rui nunes [por yara frateschi vieira] ruy ventura fábio massari manuel mora serrano caos portátil
música
discos da agulha margarita laso [por floriano martins]
elis regina [por erico baymma] mariana baltar [por erico baymma] novo quinteto paulo moura & cliff korman rodrigo rodrigues [por erico baymma] thaís gulin [por erico baymma] especial putumaryo world music [por cézanne pontes]
poesia
banda hispânica
cumplicidade 1 galeria de revistas  
cumplicidade 2
galeria de manifestos  
cumplicidade 3
galeria de arte

Cícero Dias

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
belkys arredondo
(venezuela)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
franklin fernández
(venezuela)
gary daher canedo
(bolívia)
jorge dávila vázquez
(equador)
jo
sé ángel leyva (méxico)
leo lobos (chile)
margaret randall (estados unidos)
maria estela guedes
(portugal)
nicolau saião (portugal)
richard-laurent barnett (estados unidos)
susana giraudo (argentina)

 

artista plástico convidado (pintura)
cícero dias

apoio cultural
jornal de poesia

traduções
éclair antonio almeida filho [inglês, francês
ð português]
marta spagnuolo [português ð espanhol]
floriano martins [espanhol
ð português]

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