revista de cultura # 56
fortaleza, são paulo - março/abril de 2007






 

Machado de Assis visto da Argentina

Marta Spagnuolo

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Machado de Assis1. Todos amamos Machado

A aproximação à obra de Machado de Assis parece derivar em duas observações unânimes: por um lado, a sua atualidade, para qualquer leitor do mundo, por outro, a dúvida sobre todos os conceitos sociológicos de aquilo que deveria ser o “colonialismo”. Essa última observação sempre tem sido, em todo leitor estrangeiro que abre pela primeira vez um livro de Machado, a surpresa comum: ter que datar essa escritura na segunda metade do século XIX, em um país sul-americano, quando toda a sua experiência leitora prévia lhe assegurava a imaturidade continental de uma narrativa que começava a brotar, onde o grande romance burguês parecia impossível e o conto moderno, que dava seus deliciosos primeiros frutos em outras latitudes, tinha que estar, forçosamente, no horizonte. E resulta que não, que isso acontecera no Brasil. Durante todo o século XX, uns leitores antes, outros depois, iam descobrindo que “a carta” ou “o telegrama” – por falar como Machado – chegara-lhes tarde.

Tiremos a atenção, por um momento, da universalização do Machado “descoberto” na Inglaterra e nos Estados Unidos demasiado tarde, e celebrado – em especial durante os últimos anos – com os melhores protestos remetidos do Norte, cujo eco já deve estar chegando a Hollywood. E falemos, porém, de uma realidade mais próxima: o processo de “saída” de Machado, lento, silencioso – e ainda incompleto, mas anterior, em direção às próprias terras de América latina, onde ia ao seu encontro “o bom leitor”, quem jamais, para as recorrer, precisou de bússolas acadêmicas, e que, além do mais, sempre chega primeiro. Isto era inconcebível para Susan Sontag, que descobriu Machado pelos anos 60, através de um editor. Esse editor, como anterior diretor da Noonday Press (N. York) teria publicado a tradução de Memórias póstumas de Brás Cubas, segundo ela, em 1952 (provavelmente se refira à versão de William L. Grossman, editada em São Paulo em 1951, e em Londres em 1953; em Paris, a primeira edição em francês remontava-se a 1911). A incredulidade de Sontag a respeito do mundo hispânico expressava-se assim:

En realidad, Machado es aún menos conocido para los lectores de lengua española que para aquellos que lo leyeron en inglés. Memorias Póstumas de Brás Cubas se tradujo al español sólo en los 60, unos ochenta años después de haber sido escrito, y una década después de que se tradujo (dos veces) al inglés.

[Na realidade, Machado é bem menos conhecido para os leitores de língua espanhola do que para aqueles que o leram em inglês. Memórias Póstumas de Brás Cubas foi traduzido para o espanhol somente nos anos 60, oitenta anos depois de ter sido escrito, e uma década depois de ter sido traduzido (por duas vezes) para o inglês.]

A prestigiosa escritora – quem também aventurava que Borges “parece não o haver lido”, exibia estes conhecimentos no diário La Nación de Buenos Aires, aos 11 de novembro de 1990, perante os olhos atônitos de muitos leitores argentinos, que lembrávamos o muito que se leram as Memórias entre nossos velhos, devido àquela edição do popular “Club del Libro” (Buenos Aires, 1940, tradução de Francisco José Bolla), coleção que chegava por então a todos os cantos do país. Os mexicanos algo também haveriam tido para dizer, pois o Fondo de Cultura Económica a editara em 1951 (México, DF; trad. de A. Alatorre). Também foi em Buenos Aires onde se editou pela primeira vez Dom Casmurro em espanhol (Editorial Nova, 1943, trad. de Luís Bandizzone e Newton Freitas), com um atraso de sete anos em relação aos franceses (Paris: Institut International de Coopèration Intellectuelle, 1936) e um adianto de dez a respeito da versão inglesa de Hellen Caldwell, publicada em Londres e Nova York em 1953. Para a data em que Sontag nos espetava este artigo, publicado sem revisão pelo diário mais prestigioso do país, as traduções dos romances e dos contos de Machado multiplicaram-se na Argentina. Isso, apesar de que, no mesmo texto, a tenaz intelectual continuava nos ilustrando sobre a causa de nossa ignorância:

… [Machado de Assis] ha sido muy poco conocido y leído en el resto de América latina, como si todavía fuera difícil de digerir que el máximo autor que produjo América latina escribiera en portugués y no en español. Brasil tal vez sea el país más grande del continente (y en el siglo XIX, Río de Janeiro fue la ciudad más grande), pero siempre fue un país intruso, considerado por el resto de América del Sur –la América del Sur de habla española– con mucha condescendencia y hasta con racismo. Es mucho más probable que un escritor de alguno de esos países conozca en inglés cualquiera de las literaturas europeas o alguna literatura europea que la literatura de Brasil, donde los escritores son sumamente conscientes de la literatura hispanoamericana.

[… (Machado de Assis) tem sido muito pouco conhecido e lido no resto da América latina, como se ainda fosse difícil digerir que o máximo autor que produziu a América latina tenha escrito em português e não em espanhol. O Brasil talvez seja o maior país do continente (e no século XIX, o Rio de Janeiro foi a maior cidade), porém sempre foi um país intruso, considerado pelo resto da América do Sul – a América do Sul de fala espanhola – com muita condescendência e até com racismo. É muito mais provável um escritor de algum desses países conheça em inglês qualquer uma das literaturas européias, ou alguma literatura européia, do que a literatura do Brasil, onde os escritores são sumamente conscientes da literatura hispano-americana.]

Ela despreza que “o bom leitor” não necessariamente lê inglês e que em espanhol se costuma, também, praticar a tradução. É claro, no entanto, que nos países de América do Sul – incluído o Brasil – é muito mais provável que os leitores conheçam antes a produção européia que a de seus próprios vizinhos. Mas desconhecem a de qualquer um de seus vizinhos, ainda a dos outros hispano-falantes. O escasso conhecimento de textos literários entre o Brasil e o resto dos países da América do Sul é mútuo e não unidirecional. Um exemplo é Borges. Só depois que Borges foi durante meio século celebrado na Europa e nos Estados Unidos, Brasil contou com a tradução da sua Obra Completa. A respeito do “racismo” pelo qual América do Sul segregaria o Brasil, a imaginação, compreensivelmente atemorizada, da estadunidense, fazer-lhe-ia imaginar, também aqui, a existência de um Ku-Klux-Klan, neste caso literário, destinado a diferenciar os escritores brasileiros negros ou mulatos, dos brancos, que também os há. A regressão a essas imagens ter-lhe-ia gerado uma amnésia a respeito da composição étnica da população sul-americana, onde a mestiçagem entre brancos, indígenas e negros é quase absoluta, excetuando a Argentina, onde a mestiçagem aconteceu quase exclusivamente entre os conquistadoras e/ou os seus descendentes, e as etnias locais. E a dolência ter-lhe-ia impedido se perguntar por que há tantos venerados escritores hispânico-americanos que, na sua maior parte, dificilmente passariam uma prova de sangue de tal índole.

A pouca difusão de Machado no mundo hispânico não é somente de Machado e de toda a magnífica literatura brasileira; também o é de Eça de Queiroz e até do celestial Camões. Isso se deve a que, durante o processo independentista, tanto os povos da América hispânica quanto o Brasil olhavam para a Europa, mas não para a Europa de impérios em decadência como o espanhol e o português que os tinham colonizado, senão a Europa das Luzes, que presidiu as causas revolucionárias após a Revolução Francesa. De modo que, vamos pela ordem: tanto os países de América Hispânica quanto o Brasil, além de lerem em suas respectivas línguas, liam, primeiro, em francês, e mais tarde, em inglês, que o substituiu como segunda língua. Liam com o plausível objetivo de se comunicarem com “o resto do mundo civilizado”, entre o qual, segundo o critério de suas elites, não se encontravam os seus vizinhos continentais. Justamente o fato de que Machado lesse inglês abriu-lhe o caminho que necessitava em contato com Sterne, o que lhe reportou uma vantagem sobre outros escritores da sua época. Esse pobre comércio cultural entre os hispano-americanos entre si deveu-se, portanto, ao desinteresse fundado no menosprezo pelo local; e, em relação ao Brasil, tanto em um processo de ida quanto de volta, ao mesmo desinteresse, somado à preguiça de exercitar-se na leitura de uma terceira língua que, segundo o critério eurocentrista, a nenhum dos dois sectores ia-lhes ser funcional. Paradoxalmente, a brecha alargou-se no século XX – excetuando o curto período do “boom” – e não dá sinais de se estreitar agora, nem tão sequer com o avanço de Internet. Isso se pode interpretar como um dos traços caracterizadores de América latina. É um traço consistente na indiferença e no desconhecimento mútuos, com a exceção da música, que sempre ultrapassou toda fronteira, ou do turismo, para a minoria que o pode praticar. E, entre a Argentina e o Brasil, a exceção surge também pela rivalidade futebolística. Arrastamos essa lacra vergonhosa por demasiado tempo, e as condições atuais dos países da América do Sul tornam-se a cada vez mais desvantajosas: os excluídos não diminuem, crescem.

Cícero DiasAgora, pode acontecer que nos círculos de alta cultura, inclusive nos de meu país, apareçam muitos leitores declarados de Machado, após os elogios de Harold Bloom, as traduções de Gledson ao inglês, e alguns trabalhos críticos em português que, desde não há muito tempo, têm entrada franca no mundo acadêmico, junto ao idioma. Mas a possibilidade de uma difusão popular de Machado pela leitura está travada, pelo menos na Argentina, como a de todos os grandes escritores nacionais ou estrangeiros, pois a escola já nem garante a alfabetização na língua materna. Só o cinema ou alguma série televisiva poderia produzir uma aproximação de segunda mão. Seja-me, portanto, permitido, pois a minha pátria me deu uma vez a oportunidade de aprender a ler, que ofereça a minha visão de um escritor que, ainda que lhe pesasse a Jorge Amado, para quem não houve um homem menos amado, alguns tanto amamos.

 

2. Um velho testamento fluminense

…um querer mais do que nos cede a vida…

(Falenas)

Entre minhas caras leituras, a obra de Machado de Assis faz as vezes de um velho testamento fluminense. Cada uma de suas criaturas leva-me consigo por suas próprias gêneses, êxodos, cativeiros e errâncias interiores na procura da terra prometida, que não é mais que um lugar ambicionado sobre o qual pisam; essa terra pela que se sobe e se desce, entre os morros e a baia, ou que se recorre pelas mesmas ruas de um Rio de Janeiro que nunca é completamente possuído e, ainda menos, redimido por um Messias. E, do outro lado, o mar, azul desta vez, que não parece se abrir senão para deixar passo à barca, que fatalmente se imagina dourada, rumo a uma praia sobre a que pende, no alto da serra, uma mítica Petrópolis.

Em seus heróis e heroínas impuros, individualistas, desobedientes, postos os olhos em seus bezerros de ouro, está toda a carga humana do instinto de transcendência que, esquecido do sopro divino, se empenha em consegui-la no reino deste mundo, reduzido à escala de seus valores. E detrás, o bruxo que os move: dá-lhes oportunidades de redenção que eles se detêm a considerar para as rechaçar logo. O bruxo sacode-os para ver se apreendem a olhar além de seu próprio nariz. O bruxo está aparentemente seguro das suas intenções, mas ele não está muito seguro, porém, da sua própria pureza. O escândalo do leitor – que Machado torna um mais de seus personagens – é a fórmula maligna que o deixa indefenso em suas mãos, até que, sem saber como, percebe que também ele está sendo vaiado. Isso acontece a cada vez que, desprevenido, se reconhece nas dobras de algum personagem, e adverte a hipocrisia de seus espaventos. Se o círculo de eleição daquele é mais ou menos amplo, o leitor ainda se sente superior ao outro, com quem acaba de descobrir parecer-se em algo, mas, felizmente, não de tudo. É bastante fácil sentir-se superior a Palha, no momento em que termina por confessar-lhe a Sofia por que não pode expulsar de sua casa o chato namorado Rubião. Menos fácil é tentar deter a mão de Rubião que esconde em seu bolso a carta que evidencia a loucura de Quincas Borba, enquanto aguarda por um legado que, ainda que não o imagina em toda a sua magnitude, possa lhe assegurar o futuro. Mas a situação fica feia se o círculo se estreita, como em “El caso de la vara”, ou se fecha ao limite, como em “Pai contra Mãe”. Está seguro, leitor, de que você não lhe vai alcançar a vara à Sinhá Rita para que azote a pretinha Lucrecia, se com isso lhe vai evitar um destino que aborrece? Está seguro de que não vai caçar com violência uma escrava fugitiva a ponto de parir, se precisa da recompensa para lhe dar de comer a seu próprio filho?

Machado quase esgota a casuística sobre qual é o heroísmo possível na vida do bicho humano comum, que não nasceu para herói, para mártir ou para santo. E, porém, é um jogo ilusório. O que Machado faz é só projetar sobre cada indivíduo a sua olhada penetrante, enquanto lhe dá voltas do direito e do revés. Dá na mesma que o aprisione na rede de uma sociedade opressora ou que o coloque perante toda uma terra sem donos, como a que foi oferecida, da Arca, aos filhos de Noé. (“Na Arca”). Houve algumas pessoas que, por esta causa, o qualificaram de céptico. Eu não acredito nisso. É impossível figurar-se um céptico em um homem que dedicou uma vida inteira a escrever sem trégua. Em todo o caso, foi um céptico incompleto, impossibilitado de alcançar a ataraxia. Um moralista, enfim, sem clientela. Que tormento maior que esse?

Quando Machado é comparado com algum clássico da modernidade, não costuma faltar o nome de Kafka. Profundamente atormentado e com a consciência da inatingibilidade dos castelos, Machado modula a maior parte de sua obra narrativa sobre o tema do desejo, e sobre o custo moral que se esteja disposto a pagar por satisfazê-lo, que é tão grande como o déficit que se arrastará por não o alcançar. Inclusive quando se tem algo, deseja-se o que não se tem, qualquer que seja a altura ou a baixeza da aspiração: desde compor um réquiem e não centenas de polcas de sucesso (“Um homem célebre”), até alcançar um ministério e não uma intendência de província. (o Barista de Easú e Jacó). Poucos são os personagens que escapam à solicitação incontrolável de um interesse particular e, quando algum o faz, é só porque o anima uma paixão individual, mais nobre ou mais ingovernável, criada por outro que o acaba destruindo: o amor cavalheiresco de “X.” pela dançarina Maria (“Um capitão de voluntários”); a inesgotável amizade de Quintanilha por Gonçalves (“Pílades e Oretes”); a ligação doentia de Oliveira com Adriana (“Primas de Sapucaia!”). É empírico porque a sê-lo ensinou-lhe a vida, sabe que a definição do mundo de cada indivíduo será sempre a do canário; tudo dependerá de que ele saia, ou não, da loja de Belchior e, caso o faça, de aonde chegue. (“Idéias de canário”). Ele esteve nessa loja. E, quando alguém o ajudou a sair de lá, até esteve em um escritório de censor. Como Borges, sabe também que a arte nunca é platônica. De aí que não se lhe escapem indivíduos excêntricos (“Um erradio”; “A desejada das gentes”) ou sinistros (o Fortunato de “A causa secreta”). Sua narrativa breve, na que estão algumas de suas melhores páginas, como “Missa do Galo” ou “Teoria do Medalhão”, abrange uma grande variedade de registros, desde contos psicológicos, de comédia social, satíricos, fantásticos, alegóricos, até histórias cervantinas de ar pastoril, como “A parasita azul”. Isso faz com que seja quase impossível defini-lo em um único sentido.

Cícero DiasSegundo um dos últimos enfoques da obra de Machado, a segunda fase de sua obra, além da crítica social que fica evidente para qualquer um, acusaria uma percepção do que, depois de Marx, chamamos “luta de classes”. Roberto Schwarz encontra-a no romance considerado de ruptura entre ambas as fases, Memórias póstumas de Brás Cubas, através da forma em que se estrutura. A escritura seguiria uma regra que reproduz o funcionamento da sociedade escravista e burguesa, formulada a partir do princípio de “a volubilidade do narrador”. Esta, expressada na falta de respeito pelas normas, as ofensivas provocações ao leitor e outros traços similares, reproduziria a prepotência e a arbitrariedade da classe dominante brasileira da época. Disso deduzir-se-ia que Machado não envelheceu, porque as circunstâncias em que aprofundou seguem até hoje vigentes no Brasil (Cfr. Um mestre).

Sem intenção de minimizar a gigantesca desigualdade que condena à penúria a maioria de nossos irmãos brasileiros – ratificada, por outra parte, pelas frias estatísticas –, permito-me dissentir de Schwarz no que se refere aos motivos de sua atualidade. Se fosse a que propõe o respeitável crítico, sua vigência deveria se reduzir ao Brasil ou, quando mais, estender-se a todos os países subdesenvolvidos do planeta, incluindo toda a América latina. Todavia, é precisamente nos países ricos – em especial nos Estados Unidos, onde Machado está ganhando adeptos e, como conseqüência de sua potência difusora, sendo levado ao topo dos clássicos universais. Entretanto, na Argentina periférica, de onde escrevo, muitos temos crescido na adoração de Machado (não sem antes entrar no Brasil, durante nossa infância, pela porteira de “El Benteveo Amarillo”, que nos abriu Monteiro Lobato). Algo além do sociológico há de haver na obra de Machado, para que chegue a “envolver” leitores de tão diferentes latitudes e condicionamentos. Antonio Candido encontrou-o no encanto quase intemporal de seu estilo e desse universo oculto que sugere os abismos apreciados pela literatura do século XX (“Esquema”). Ainda que seja difícil precisar por que acontece isso com tal ou qual clássico – o universal e o intemporal são sempre misteriosos, parece-me mais acertada esta resposta. Mas, qualquer que seja a que se ensaie, teria a ver com algum momento em que se “ouça” pensar a uma de suas criaturas algo semelhante ao que pensa Brás Cubas em seu leito de morte, quando a chegada de Virgília indica que outro visitante se deve retirar:

O estranho levantou-se e saiu. Era um sujeito, que me visitava todos os dias para falar do câmbio, da colonização e da necessidade de desenvolver a viação férrea; nada mais interessante para um moribundo. (Cap. VI).

A respeito deste romance, que com Dom Casmurro, é um dos melhor recebidos pelo público estrangeiro, não parece convincente que sua composição responda a um propósito tão claramente programático, tendo em vista o contexto em que foi escrito e, inclusive, a posição pessoal do autor nesse contexto. O que sim é inegável é o já estabelecido pela crítica: que, a partir desse ponto de sua obra, Machado encontra uma forma mais efetiva de expressar seu sentido crítico a respeito da sociedade em que ele mesmo se mexia, e de fazê-lo com a maior impunidade possível. E que, nessa mudança, influenciou a sua leitura de Sterne. O que Machado toma de Sterne são certas formas que Candido chamou “arcaicas”. Contudo, são poucas e, no resto de sua obra, quase não as repete. As interpelações ao leitor para buscar a sua cumplicidade não as inventou Sterne; são recurso antigo na literatura. Sim é sterniano o uso delas para provocá-lo de maneira desconcertante, as interrupções e as conseqüentes digressões. No plano formal, isso é o que tomou Machado, e algum mínimo recurso tipográfico, menos funcional que ornamental. Quando começa a usá-las em Memórias soam inovadoras para um público que não lera Sterne, quem tardou bastante em influenciar na literatura européia central, quanto mais em escritores de língua hispânica ou portuguesa. (A primeira tradução do Tristram Shandy ao espanhol é de 1975, e sua influência foi recentemente assinalada nos escritores do “boom” da década de 1960, como Cortázar e, em especial, Lezama Lima). Mas Machado não toma nem o sentimentalismo de Sterne, nem suas constantes alusões sexuais mediante jogos de palavras, nem o cômico abuso do princípio da relação e associação de idéias de Locke que, em Sterne, cometem Walter e o Tío Toby, os quais possuem a arte de raciocinar corretamente a partir de idéias conectadas incorretamente. Também não há em Brás Cubas a impossibilidade de escrever sua vida, tarefa que Tristram se propõe e não pode concretizar nunca, porque se produz uma defasagem entre o tempo da escritura e o da vida, de tal modo que aquela sempre fica por detrás dos fatos. Do mesmo modo, a “Tristrampedia” que Wakter Shandy escreve para educar seu filho nunca pode ser aplicada, porque o menino cresce mais rápido. Tudo o qual expressa uma boa dose de desconfiança na linguagem para jogar sobre ela uma vida, o qual não se observa em Machado.

A lamentável pobreza da vida de Brás é, ao contrário, muito rápida de contar e, de fato, conta-se em sua totalidade. É um mostruário do fracasso, que o narrador alarga mediante reflexões, idas e voltas que buscam explicar as razões desse fracasso, já com as más argumentações de Brás, já com apelações a citações que cubram o vazio e, à vez, “enlameiem a quadra” para que nela escorregue o leitor. E esse é o ponto em que a Machado lhe serve Sterne. O uso extremo do subjetivismo que faz Sterne permite-lhe “inserir” nas reflexões de Brás, o absurdo de uma sociedade, expressado através desse tipo bastante freqüente em seu meio e em sua época, mas com uma linguagem que não foge da norma. O único que consegue Brás em sua vida é um título de bacharel outorgado pela universidade de Coimbra, onde se educavam muitos dos “filhos de família” do Brasil. Claro que, segundo se infere de seu relato, a obtenção do título deveu-se ao parecido que, em relação às exigências, a Universidade de Coimbra teria com seu pai. Pequeno detalhe do livro, que se agrega a outros insultos à burguesia emergente, enriquecida, ignorante, mas respeitada pela “opinião”, devido ao seu dinheiro e à “figuração” que este lhe permite. Machado põe a narração em boca desse pedaço de bobalhão que em vida foi Brás Cubas, quase seguro de que seus bobos conhecidos que posam de “medalhões” não compreenderão totalmente que, em qualidade de “defunto autor”, se desprestigia a si mesmo para desprestigiá-los. Julgá-lo-ão mais “diabo” que bobo e, por “mau”, insignificante, não desvelando, assim, sua ironia de ultratumba. Nesse sentido, Machado escreve para se desafogar contra alguns de seus contemporâneos cariocas. Não se adverte, em sua obra, a intuição de sua fama futura que outros autores se atreveram a profetizar. É sincero ao declarar que esse romance terá, “quando muito, dez” leitores. “Dez? Talvez cinco”. Em relação a isso, são úteis os dados proporcionados por Hélio de Seixas Guimarães (Os leitores): em tempos de Machado, no Brasil, a população alfabetizada constituía-se em 18%, e só 2 % dos brasileiros podiam comprar livros.

Cícero DiasO que ataca Machado são os “valores” sociais que, com mal dissimulado ressentimento, vê injustamente respeitados pela gente da mesma classe à que ele ascendera. Ele sim merece esse respeito, porque o conseguiu, não só com esforço, senão com talento. Com talento intelectual, que, para Machado, é um selo de aristocracia de espírito. De aí o desprezo irônico com que trata os “capitalistas”, homens que revelam “grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa”, como diz em Esaú e Jacó com referência a Agostinho Santos. A comicidade, que revela em que consistem essas “qualidades”, segue a linha inaugurada por Molière no século XVII, cujo alvo de burla é o burguês que, após colocar todas as suas energias em fazer dinheiro, quer comprar o refinamento por esse meio. O “parvenu”, o “new rich”, o “rastacueros” argentino e chileno, serão personagens típicos desta linha variável, na que se vai incorporando a desonestidade como origem do capital que, em diversos graus, ostentam os personagens de Machado. O “verdadeiro” Cotrim, que “possuía um caráter ferozmente honrado”, é um compêndio de iniqüidades; Cristiano Palha, além de inescrupuloso, amassa seu dinheiro manipulando o de Rubião e, ainda não o estafe, deixa-o de lado com um engano, uma vez que progrediu o suficiente. Santos aproveitou a ocasião da febre das ações, com a qual “ganhou logo muito, e fê-lo perder a outros”. As mulheres de berço pobre que se casam com homens ricos não se salvam das ironias de Machado, embora o autor lhes reconheça uma espécie de bom gosto, atribuído a seu sexo, que lhes permite um acomodamento mais rápido à nova situação. Aquela que segura Palha para que modere sua condição de parvenu, que a ele se lhe sai pelos poros, é Sofia:

Você esteve hoje insuportável; parecia um criado. […] Cristiano, fique mais senhor de si, quando tivermos gente de fora, não se ponha com os olhos fora da cara, saltando de um lado para outro, assim com ar de criança que recebe doce. (Quincas Borba, Cap. CXXXVII).

Mas Sofia não resiste à comparação moral com Fernanda, uma das “pessoas de qualidade” entre as que conseguira se introduzir aproveitando a epidemia de Alagoas, que lhe deu ocasião de organizar a comissão de damas. A senhora gaúcha, prima do petulante Carlos Maria, esposa de um deputado candidato a Ministro de Estado, “possuía, em longa escala, a qualidade da simpatia; amava os fracos e os tristes, pela necessidade de os fazer ledos e corajosos. Contavam-se dela muitos atos de piedade e dedicação” (C. CXVIII). Ela é quem se ocupa de Rubião quando Palha e Sofia o abandonam. O contraste entre Sofia e Fernanda destaca durante a visita de ambas as mulheres à última casa pobre onde morara Rubião. Todo o capítulo constitui uma posta em cena da epígrafe de Dante que precederá, anos mais tarde, a Esaú e Jacó: Dico che, quando l’anima mal nata… Cito o fragmento mais comovedor e ilustrativo:

D. Fernanda coçava a cabeça do animal. Era o primeiro afago depois de longos dias de solidão e desprezo. Quando D. Fernanda cessou de acariciá-lo, e levantou o corpo, ele ficou a olhar para ela, e ela para ele, tão fixos e tão profundos, que pareciam penetrar no íntimo um do outro. A simpatia universal, que era a alma desta senhora, esquecia toda a consideração humana diante daquela miséria obscura e prosaica, e estendia ao animal uma parte de si mesma, que o envolvia, que o fascinava, que o atava aos pés dela. Assim, a pena que lhe dava o delírio do senhor, dava-lhe agora o próprio cão, como se ambos reapresentassem a mesma espécie. E sentindo que a sua presença levava ao animal uma sensação boa, não queria privá-lo de benefício.

– A senhora está-se enchendo de pulgas, observou Sofia.

D. Fernanda não a ouviu. Continuou a olhar os olhos meigos e tristes do animal, até que este deixou cair a cabeça e entrou a farejar a sala. Sentira o cheiro do senhor. A porta da rua estava aberta; ele teria fugido por ela, se Raimundo não acudisse a prendê-lo. D. Fernanda deu algum dinheiro ao criado para que o fosse lavar e conduzir à casa de saúde, recomendando-lhe o maior cuidado, que o levasse ao colo, ou preso por um cordão. Nesta parte acudiu também Sofia, ordenando que a procurasse antes, em casa. (Cap. CLXXXVII).

Por sua posição econômica e social, Brás Cubas pertence a essa classe privilegiada. Seu tipo, definido em espanhol, é o do senhorito, freqüente no naturalismo: prepotente, inútil, irresponsável, cheio de tédio, que poderia tê-lo tudo e não consegue nada, e no qual geralmente se encerra uma genealogia. A aversão de Machado ao naturalismo despojá-lo de “grosserias” e o exime de certas condutas, em especial, da mais característica, que é o abuso de alguma mulher de classe inferior, geralmente criada da casa. Este tema falta por completo na ficção de Machado, até o ponto de que, se nos ativéssemos ao documentado em sua obra, seria inexplicável que no Brasil houvesse mulatos. (Só aparece uma vez, romanticamente tratado, num poema, “Sabina”, de Americanas, 1875).

A prova de que Brás é um tipo, e não a encarnação de toda uma classe, é que sua constituição difere da de todos os personagens masculinos protagonistas dos seguintes romances da segunda fase que, sem serem modelos éticos, não exibem os traços parasitários e estapafúrdios de Brás: Bento Santiago, Ezequiel Escobar, Paulo e Pedro Santos, o conselheiro Aires e o banqueiro Aguiar. E, embora seja certo que, como todos eles, Brás integra, segundo qualificação de Schwartz, uma classe dominante, não constituída por fidalgos senão por emergentes – recordem-se os brasões da família Cubas – não representa o sector dirigente. Se fosse de outro modo, não teria perdido sua pasta de deputado e, definitivamente, sua esperança de chegar a Ministro de Estado, por culpa do discurso em que propôs a utilidade de “diminuir a barretina da guarda nacional”.

A reação de burla unânime que provoca na Câmara dos Deputados indicaria que a conformam homens inteligentes e preocupados pelos assuntos “sérios”. No entanto, Machado registra um momento de transição, no qual, indivíduos do sector privilegiado não produtivo, como Brás, por meio da sua posição social e econômica alicerçada por seus ascendentes, têm entrada na direção política. Eles vão-na “contaminando” com uma classe “inferior”, como o é para Machado a dos mencionados “capitalistas”. De fato, o curto período que Brás exerceu como deputado serviu para que conseguisse, a Cotrim, o “fornecimento para o arsenal de marinha”. Isso ocasionará que, quando a Brás se lhe dê por fundar um diário opositor, o fiel cunhado lave as mãos, mediante sua hilária declaração em outro diário, segundo a qual “o atual ministério (como aliás qualquer outro composto de iguais capacidades) parecia-lhe destinado a promover a felicidade pública”. Veja, caro leitor, quanto duram os ministérios…

Cícero DiasParecido humor cáustico usa Machado, em Esaú e Jacó, ao destacar a inconsistência das idéias tanto dos conservadores quanto dos liberais, ainda que sem atacá-los como malversadores de dinheiros públicos (a incapacidade, o clientelismo e outros vícios, observam-se melhor em suas crônicas Balas de Estalo, 1883-1885, e Bons Dias!, 1888-1889).

Nesse romance, os pecados de Batista são ridiculamente pessoais: sua debilidade perante sua esposa e a sua necessidade visceral de reconhecimento. A burla que Machado faz de Batista é figurativa e direta. Este advogado, que chegara aos quarenta e tantos anos militando no partido conservador, fora exonerado de seu cargo de presidente de Província. Cedendo ao pedido de um irmão de sua mulher, outorgara uma concessão de águas a um espanhol. Os liberais aproveitaram a ocasião para acusá-lo falsamente de ter participação no negócio (“Cunhados e cunhadíssimos; É certo que são vivíssimos!”). Batista atribuía sua decisão ao fato de haver perdido as eleições. Desde então vivia atormentado pelas calúnias, e pela interrupção de sua carreira política. Desesperava-se por não conseguir nada, nem uma deputação, nem uma presidência, e esperava que, devido aos amigos que tinha no governo, algum dia o chamariam. Quando vencem os liberais, Batista cai no abatimento, crendo que tudo está perdido. Não assim D. Cláudia, que antes desfrutara das honras recebidas na Província, e tinha deles tantas saudades como dos ataques violentíssimos que Batista recebeu durante a campanha da oposição: “Ouvir chamar tirano ao marido, que ela sabia ter um coração de pomba, ia bem à alma dela”. Os argumentos com que convence Batista de que deve se fazer liberal dão lugar a uma das páginas mais desopilantes escritas por Machado. Após uma conversação do casal, em que a mulher vá descartando todas as patrióticas propostas do marido – quantos anos pensa esperar até que subam de novo os conservadores? que é isso de que pode fundar um diário? e se morre antes? – ela encontra por fim a solução:

D. Claudia olhó fixa para ele. Os seus olhos miúdos enterravam-se pelos dele avaixo, como duas verrumas pacentes. Súbito, levantando as mãos abertas:

–  Batista, você nunca foi conservador! (Cap. XLVII)

Os demais personagens que atuam na diração política são imaculados como o diplomático Aires, “sinceros”, “ardentes”, “ambiciosos”, “estudiosos” e “instruídos” como os gêmeos Santos quando chegam a deputados, e eficientes e escrupulosos com as contas, como o mencionado Batista.

A crítica mais feroz feita à classe dominante, que vive de rendas do antigo trabalho escravo, está em Dom Casmurro, e sai de uma idéia de Capitu, que assim resolve seu problema e, à vez, o da mãe de Bentinho, que não sabe como se desembaraçar de sua promessa. A beata D. Glória, como o melhor dos tartufos, não vacila em pagar sua dívida moral com a Santa Igreja Católica, trocando um órfão por Bentinho, a preço módico. Se o órfão tinha ou não vocação de clérigo, ou se era normal que houvesse uma mãe tão sofredora como ela por contrariar o destino de seu filho, isso não são perguntas que caibam em seu diminuto cérebro. Para lhe fazer justiça, é preciso dizer também não caberiam no mais ilustrado das autoridades eclesiásticas, que abendiçoam a permuta.

Em relação a Memórias póstumas de Brás Cubas, o que sim sinto, mais profundamente em cada releitura, é, antes que a sua “galhofa”, a sua “melancolia”. Já não me parece, além do mais, que esteja escrito com “tinta” senão com sangre. Se alguém, alguma vez, teve a impressão de que a Machado não lhe doera o sofrimento humano e a injustiça para com os desfavorecidos, lhe recomendo dar outra olhada neste romance, não sem lhe advertir que terminará chorando.

 

REFERÊNCIAS

Cándido, Antonio. “Esquema de Machado de Assis”. Prólogo a Machado de Assis: Memorial de Aires. Extraído del libro Varios Escritos, São Paulo, Duas Cidades, 1970, trad. Viviana Hemsi. Buenos Aires: Corregidor, 2002, p.9-30. ISBN 950-05-1421-4

Guimarães, Hélio de Seixas. Os leitores de Machado de Assis: o romance machadiano e o público de literatura nó século 19. São Paulo: Edusp/Nankin, 2004. ISBN: 85-86372-70-6.

Schwarz, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo. Sao Paulo: Duas Cidades/Editora 34, Coleçao Espírito Crítico, 2000. ISBN85-7326-117-3

Sontag, Susan. “Posteridades; el caso Machado de Assis”. Diario La Nación, Buenos Aires, 11 de noviembre de 1990. Sección 4ª, pp.1-2. 

Marta Spagnuolo (Argentina, 1942).  Escritora y profesora en letras por la Universidad Nacional de Buenos Aires. Ha publicado libros de cuentos, poesía y numerosos ensayos. Se especializa en literatura argentina y en los últimos años ha volcado su interés a la literatura brasileña. Tradujo al español tres libros de poemas de Floriano Martins, dos ya publicados, respectivamente, en México y en Caracas, y el tercero de próxima aparición. Contacto: martaspag@hotmail.com.  Pagina ilustrada com obras do artista Cícero Dias (Brasil).

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