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Heloísa Tapajós: legitimação da música brasileira
[entrevista]
Erico
Baymma
Lançado no
final
de 2006, o Dicionário Houaiss
Ilustrado da
Música Popular
Brasileira vem
preencher
uma lacuna vital:
um mapeamento e o
reconhecimento
do trabalho de
artistas
no segmento musical. De
pesquisadores
a instrumentistas, de
reconhecidos medalhões a célebres
anônimos, colocando-os lado a lado, num
registro inédito em impressos,
construiu-se uma obra muito bem sedimentada.
Sobretudo,
a união
do Instituto Cultural
Cravo
Albin ao renomado Instituto Antônio
Houaiss trazem à vida a importância histórica
da interferência cultural de todos os agentes,
em qualquer
região, fora
de quaisquer (pré)conceitos
mercadológicos e de outra valoração.
Inicialmente
construído
sob a forma
de site, na
Internet, o Instituto
Cultural Cravo
Albin vislumbrou um
castelo
de sonhos e transformou-o concretamente em
referência de
pesquisa
na área musical - reconhecidamente
uma das atividades
mais
importantes da cultura brasileira tão plural, tão sensual, tão generosa em sua graça humana, além dos aspectos
mercadológicos.
Mesmo
contando com a proliferação de livros e estudos
acadêmicos sobre
a música, em
todos os estilos,
que tenhamos a
junção
de duas instituições referenciais a colocar seus pontos em um mapeamento primeiro,
tratamos, então, de uma celebração pontual
na história da
música
brasileira. Além
do rótulo de MPB, o
dicionário
abrange a música
brasileira
em uma
significante
mostra de suas
formas, estilos
e tendências.
Sabendo-se
que
grandes artistas
durante a vida
passaram e ainda passam por um crivo sistemático
que exige um
rótulo, o qual
não é devidamente
reconhecido - no que diz respeito a inexistência
da “Profissão: Músico” - temos agora o aval
confirmado de duas importantes instituições, com
reconhecimento e
referência
internacional,
sobre
mais uma grande
paixão-atividade humana, que é a música,
em todas as fases
de seu processo
entre os séculos
XX e XXI.
Tivemos a
honra
de entrevistar Heloísa Tapajós,
uma das pesquisadoras do Instituto
Cultural Cravo Albin, que
acompanhou toda a feitura de uma obra que certamente marca
a história,
também
no que, por
si, é história.
[EB]
EB
Começando pela gênese do projeto “Dicionário Cravo Albin”… quem
teve a idéia,
como
foi o processo?
HT
O projeto foi idealizado
pelo
Ricardo Cravo Albin. Começamos a
trabalhar
em 1999.
EB
99??? Há tanto tempo… é um
trabalho árduo…
HT
Sim, já
estamos trabalhando há 7 anos.
EB
Pois
é. Lindo
projeto! Qual
o objetivo
específico?
HT
O objetivo é
registrar
verbetes de
compositores
e intérpretes,
grupos, e ainda do
universo
paralelo da
música
(produtores musicais, pesquisadores, radialistas…),
além
de eventos
como
festivais de
música,
sites da internet
e por aí.
Trata-se realmente de um banco de dados, não é um projeto que nos imponha
conotações valorativas.
EB
Compreendo e acho que isso tem um enorme valor. Estive vendo um
vídeo antigo,
da Elis Regina, em
que
ela falava que
pretendia colocar em
pauta o valor
da profissão “Músico”. Que ainda hoje não está
reconhecida como profissão… Eu me cadastrei
em um
órgão de cultura
que não
tinha a profissão
músico… risos… Acho que este projeto
vem a somar MUITO
nessa perspectiva,
não?
HT
Muito! O
parâmetro
inicial para
a inclusão no projeto
era de “pelo menos um disco gravado”. Acontece que
conversamos bastante sobre isso e o
Ricardo (Cravo Albin) foi
muito
acolhedor na
idéia
de registrar verbetes
de instrumentistas,
ainda
que sem
trabalho solo.
Nós temos no Dicionário
vários verbetes
de instrumentistas e eu tenho muito orgulho por
estarmos fazendo esse
registro
tão importante.
EB
Pois
é… instrumentistas,
compositores,
agentes
culturais… Este é
um
projeto “à parte” da indústria que
valoriza o que existe tanto dentro
dela, como no
âmbito
do “normal da vida”. Todos precisavam deste aval
e muito há
por
se fazer. No caso,
o Instituto Cultural
Cravo
Albin - não entrando no
Dicionário
agora - tem mais
alguma proposta nesse sentido?
HT
O ICCA tem outros
projetos
em curso,
sim. Temos, por
exemplo, a
revista
Carioquice, cujo
conteúdo está disponibilizado no site
www.iccacultural.com.br.
Lá no site há
também
o espaço “Pérolas
do ICCA”, no qual dispomos (Paulo
Luna, Geralda Magela, Euclides Amaral e eu,
os
pesquisadores do
Dicionário), de uma coluna
própria
onde jogamos
nossos
textos,
entrevistas,
comentários sobre
discos e shows… Foi lançado ainda um catálogo com volumes sobre “Mulheres Compositoras”, “No
palco, os Festivais”, “Novos caminhos do choro”, “Clube
de Jazz e Bossa”, “Tons
e Sons do Rio
de Janeiro” e “Telenovela”. Houve também
a exposição sobre
a Rádio
Nacional, o projeto
MPBE (Música
Popular
Brasileira
nas Escolas),
com
mapas didáticos.
Temos algumas idéias
para
o ano que
vem, ainda em
fase de maturação, como
“Saraus musicais” a serem realizados
no ICCA e uma série
que
estamos pensando em
chamar
de “Perfis ICCA”. Há muito a ser feito, né? As idéias pululam!! (risos)
EB
Deixo registrada uma
proposta de expansão dos mapeamentos culturais,
pelo
que se diz “Cearencices”, por exemplo… risos… Seria bom
espalhar esta bola
pelo planeta
Brasil (em
seus
pequenos
satélites),
não?
HT
Fantástico! Essa
conversa
vai ser com
a Geralda Magela, a pesquisadora responsável
pela vertente
regional. Todas as
trocas
serão bem vindas. Aliás, esse é um parâmetro para nortear tudo em nossas vidas,
né?
EB
Super-interessantes
todos estes
projetos que
já estão sendo feitos… e, parece que estamos em
uma época especial
onde a cultura
e arte (musical,
principalmente) está trazendo de
volta a necessidade de inter-relacionamentos (que anuncia a ausência
em massa
de identidade, resgatando-a). Com a maior certeza, estamos no tempo
da saturação, limítrofe, que se não
alçarmos nosso
vôos
de ideais, poderemos sucumbir… e não vamos viver assim, né? E está bem claro que as propostas conjuntas estão sendo
mais
e mais efetivadas. Eu gostaria de saber um pouco sobre os pesquisadores do ICCA…
HT
A equipe é formada por
Paulo Luna (historiador, ele trabalha com a vertente tradicional, do início
de tudo até
1958), Geralda Magela (da área de Letras, trabalha
com a vertente
regional, a Jovem
Guarda e a música
romântica), Euclides Amaral (jornalista, trabalha com os
verbetes samba,
choro, rock, pop, gospel, funk) e eu (sou
socióloga e trabalho com
a vertente urbana
“da bossa
nova
em diante”).
De 1999 a 2006,
esse
trabalho teve coordenação
técnica e de
pesquisa
de Júlio Diniz, professor
doutor
do Departamento de Letras
da PUC-Rio. Ricardo Cravo Albin, além de presidente
do ICCA, é o supervisor de pesquisa. Todos
os verbetes do
Dicionário
passam pela
leitura
dele antes de entrarem no site.
EB
São,
então,
pessoas com
formação
específica,
em um
grupo bem
articulado para compor
uma obra tão
plural quanto
é se falar sobre
música popular
brasileira, ou
melhor, a música
brasileira - para
que se saia
do estigma da MPB,
ou
de outros
rótulos
de mercado
que
recaem sobre a
música
de uma forma negativa,
não é?
HT
Isso. Trabalhamos
com
o universo
que
nos é mais
próximo, sempre
trocando informações uns com os outros.
EB
Isso
é essencial,
saber que há um grupo
sincronizado com
um
trabalho desta importância.
E, agora, vamos à
gênese
do Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira?
HT
Vamos lá.
Sempre
tivemos a vontade de
ver
publicado em
livro
o resultado da
nossa
pesquisa e isso
só foi possível
a partir da parceria
do Instituto Cultural
Cravo
Albin com o
Instituto
Antônio Houaiss. Então, foi montada pelo Instituto
Antônio Houaiss uma equipe de lexicógrafos, coordenada por Vera Villar, que
condensou o conteúdo do site de modo que coubesse naquele formato
que foi publicado.
EB
Li
sobre o processo
de construção do Dicionário,
onde os lexicógrafos trabalharam sem juízo de valor. Como é visto por vocês a questão de colocar lado a lado medalhões
e “desconhecidos”? Eu acho maravilhoso, mas
já houve algum
“pronunciamento” contra?A “rigidez acadêmica” não
investiu contra
esse
dimensionamento “democrata”, sem hierarquias?
HT
Não, de forma
alguma! O Dicionário,
tanto
na versão virtual
quanto na versão
impressa, é mesmo
um banco
de dados para
subsidiar projetos,
programas, pesquisas… Nesse sentido, há que
se registrar tudo
o que for
possível,
tudo que
tiver uma existência real. Não se trata de um trabalho crítico, mas
sim de informação.
EB
Então… o “papel”, o Dicionário Houaiss, em si, vem trazer o quê a mais à vida?
HT
Bom,
realmente temos
um
conteúdo mais
completo na
internet.
Além disso, o
Dicionário
virtual tem a vantagem
de receber atualizações e complementações
diariamente, e é nisto que reside o nosso trabalho. Entretanto, não
há como minimizar
a função do
livro,
em sua
própria essência.
O livro,
entre
outras possibilidades, viabiliza uma consulta mais
rápida,
principalmente
quando você
está procurando informações variadas. Além do mais, a
essência do
conteúdo
está ali. Para
quem tem o livro
em mãos,
uma consulta ao site servirá para um
aprofundamento das informações. Há também a questão da legitimação conferida pelo Instituto Antônio Houaiss, ao
absorver
o conteúdo da
nossa
pesquisa em
sua linha
de Dicionários.
Finalmente,
não podemos esquecer
que o Dicionário
Houaiss Ilustrado de Música Popular Brasileira
é ainda uma
bela
obra de arte,
por conter
inúmeras caricaturas de mestres como
Nássara, Chico Caruso, Paulo Caruso, J.Carlos, K-Lixto, Lan, Loredano e outros. Eu, particularmente, assim
como você, sou
uma amante dos
livros, de uma maneira
geral.
Assim como
somos amantes dos
discos.
Por mais
que a internet
esteja facilitando a nossa vida, esses produtos culturais sempre
estarão presentes
nos
cenários em
que protagonizamos
nossa
vida, sejam eles
uma “casa no campo”, tipo aquela do Tavito e do Zé
Rodrix, ou um
apartamento na
cidade
(risos)…
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