revista de cultura # 55
fortaleza, são paulo - janeiro/fevereiro de 2007






 

Heloísa Tapajós: legitimação da música brasileira

[entrevista]

Erico Baymma

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Heloísa TapajósLançado no final de 2006, o Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira vem preencher uma lacuna vital: um mapeamento e o reconhecimento do trabalho de artistas no segmento musical. De pesquisadores a instrumentistas, de reconhecidos medalhões a célebres anônimos, colocando-os lado a lado, num registro inédito em impressos, construiu-se uma obra muito bem sedimentada.

Sobretudo, a união do Instituto Cultural Cravo Albin ao renomado Instituto Antônio Houaiss trazem à vida a importância histórica da interferência cultural de todos os agentes, em qualquer região, fora de quaisquer (pré)conceitos mercadológicos e de outra valoração.

Inicialmente construído sob a forma de site, na Internet, o Instituto Cultural Cravo Albin vislumbrou um castelo de sonhos e transformou-o concretamente em referência de pesquisa na área musical - reconhecidamente uma das atividades mais importantes da cultura brasileira tão plural, tão sensual, tão generosa em sua graça humana, além dos aspectos mercadológicos.

Mesmo contando com a proliferação de livros e estudos acadêmicos sobre a música, em todos os estilos, que tenhamos a junção de duas instituições referenciais a colocar seus pontos em um mapeamento primeiro, tratamos, então, de uma celebração pontual na história da música brasileira. Além do rótulo de MPB, o dicionário abrange a música brasileira em uma significante mostra de suas formas, estilos e tendências.

Sabendo-se que grandes artistas durante a vida passaram e ainda passam por um crivo sistemático que exige um rótulo, o qual não é devidamente reconhecido - no que diz respeito a inexistência da “Profissão: Músico” - temos agora o aval confirmado de duas importantes instituições, com reconhecimento e referência internacional, sobre mais uma grande paixão-atividade humana, que é a música, em todas as fases de seu processo entre os séculos XX e XXI.

Tivemos a honra de entrevistar Heloísa Tapajós, uma das pesquisadoras do Instituto Cultural Cravo Albin, que acompanhou toda a feitura de uma obra que certamente marca a história, também no que, por si, é história. [EB]

 

Óscar DomínguezEB Começando pela gênese do projetoDicionário Cravo Albin”… quem teve a idéia, como foi o processo?

HT O projeto foi idealizado pelo Ricardo Cravo Albin. Começamos a trabalhar em 1999.

EB 99??? Há tanto tempo… é um trabalho árduo…

HT Sim, estamos trabalhando há 7 anos.

EB Pois é. Lindo projeto! Qual o objetivo específico?

HT O objetivo é registrar verbetes de compositores e intérpretes, grupos, e ainda do universo paralelo da música (produtores musicais, pesquisadores, radialistas…), além de eventos como festivais de música, sites da internet e por . Trata-se realmente de um banco de dados, não é um projeto que nos imponha conotações valorativas.

EB Compreendo e acho que isso tem um enorme valor. Estive vendo um vídeo antigo, da Elis Regina, em que ela falava que pretendia colocar em pauta o valor da profissão “Músico”. Que ainda hoje não está reconhecida como profissão… Eu me cadastrei em um órgão de cultura que não tinha a profissão músico… risos… Acho que este projeto vem a somar MUITO nessa perspectiva, não?

HT Muito! O parâmetro inicial para a inclusão no projeto era de “pelo menos um disco gravado”. Acontece que conversamos bastante sobre isso e o Ricardo (Cravo Albin) foi muito acolhedor na idéia de registrar verbetes de instrumentistas, ainda que sem trabalho solo. Nós temos no Dicionário vários verbetes de instrumentistas e eu tenho muito orgulho por estarmos fazendo esse registro tão importante.

Óscar DomínguezEB Pois é… instrumentistas, compositores, agentes culturais… Este é um projeto “à parte” da indústria que valoriza o que existe tanto dentro dela, como no âmbito do “normal da vida”. Todos precisavam deste aval e muito por se fazer. No caso, o Instituto Cultural Cravo Albin - não entrando no Dicionário agora - tem mais alguma proposta nesse sentido?

HT O ICCA tem outros projetos em curso, sim. Temos, por exemplo, a revista Carioquice, cujo conteúdo está disponibilizado no site www.iccacultural.com.br. Lá no site também o espaçoPérolas do ICCA”, no qual dispomos (Paulo Luna, Geralda Magela, Euclides Amaral e eu, os pesquisadores do Dicionário), de uma coluna própria onde jogamos nossos textos, entrevistas, comentários sobre discos e shows… Foi lançado ainda um catálogo com volumes sobreMulheres Compositoras”, “No palco, os Festivais”, “Novos caminhos do choro”, “Clube de Jazz e Bossa”, “Tons e Sons do Rio de Janeiro” e “Telenovela”. Houve também a exposição sobre a Rádio Nacional, o projeto MPBE (Música Popular Brasileira nas Escolas), com mapas didáticos. Temos algumas idéias para o ano que vem, ainda em fase de maturação, comoSaraus musicais” a serem realizados no ICCA e uma série que estamos pensando em chamar de “Perfis ICCA”. Há muito a ser feito, né? As idéias pululam!! (risos)

EB Deixo registrada uma proposta de expansão dos mapeamentos culturais, pelo que se diz “Cearencices”, por exemplo… risos… Seria bom espalhar esta bola pelo planeta Brasil (em seus pequenos satélites), não?

Óscar DomínguezHT Fantástico! Essa conversa vai ser com a Geralda Magela, a pesquisadora responsável pela vertente regional. Todas as trocas serão bem vindas. Aliás, esse é um parâmetro para nortear tudo em nossas vidas, né?

EB Super-interessantes todos estes projetos que estão sendo feitos… e, parece que estamos em uma época especial onde a cultura e arte (musical, principalmente) está trazendo de volta a necessidade de inter-relacionamentos (que anuncia a ausência em massa de identidade, resgatando-a). Com a maior certeza, estamos no tempo da saturação, limítrofe, que se não alçarmos nosso vôos de ideais, poderemos sucumbir… e não vamos viver assim, né? E está bem claro que as propostas conjuntas estão sendo mais e mais efetivadas. Eu gostaria de saber um pouco sobre os pesquisadores do ICCA…

HT A equipe é formada por Paulo Luna (historiador, ele trabalha com a vertente tradicional, do início de tudo até 1958), Geralda Magela (da área de Letras, trabalha com a vertente regional, a Jovem Guarda e a música romântica), Euclides Amaral (jornalista, trabalha com os verbetes samba, choro, rock, pop, gospel, funk) e eu (sou socióloga e trabalho com a vertente urbana “da bossa nova em diante”).

De 1999 a 2006, esse trabalho teve coordenação técnica e de pesquisa de Júlio Diniz, professor doutor do Departamento de Letras da PUC-Rio. Ricardo Cravo Albin, além de presidente do ICCA, é o supervisor de pesquisa. Todos os verbetes do Dicionário passam pela leitura dele antes de entrarem no site.

EB São, então, pessoas com formação específica, em um grupo bem articulado para compor uma obra tão plural quanto é se falar sobre música popular brasileira, ou melhor, a música brasileira - para que se saia do estigma da MPB, ou de outros rótulos de mercado que recaem sobre a música de uma forma negativa, não é?

HT Isso. Trabalhamos com o universo que nos é mais próximo, sempre trocando informações uns com os outros.

EB Isso é essencial, saber queum grupo sincronizado com um trabalho desta importância. E, agora, vamos à gênese do Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira?

HT Vamos . Sempre tivemos a vontade de ver publicado em livro o resultado da nossa pesquisa e isso foi possível a partir da parceria do Instituto Cultural Cravo Albin com o Instituto Antônio Houaiss. Então, foi montada pelo Instituto Antônio Houaiss uma equipe de lexicógrafos, coordenada por Vera Villar, que condensou o conteúdo do site de modo que coubesse naquele formato que foi publicado.

EB Li sobre o processo de construção do Dicionário, onde os lexicógrafos trabalharam sem juízo de valor. Como é visto por vocês a questão de colocar lado a lado medalhões e “desconhecidos”? Eu acho maravilhoso, mas houve algum “pronunciamento” contra?A “rigidez acadêmica” não investiu contra esse dimensionamento “democrata”, sem hierarquias?

Óscar DomínguezHT Não, de forma alguma! O Dicionário, tanto na versão virtual quanto na versão impressa, é mesmo um banco de dados para subsidiar projetos, programas, pesquisas… Nesse sentido, há que se registrar tudo o que for possível, tudo que tiver uma existência real. Não se trata de um trabalho crítico, mas sim de informação.

EB Então… o “papel”, o Dicionário Houaiss, em si, vem trazer o quê a mais à vida?

HT Bom, realmente temos um conteúdo mais completo na internet. Além disso, o Dicionário virtual tem a vantagem de receber atualizações e complementações diariamente, e é nisto que reside o nosso trabalho. Entretanto, nãocomo minimizar a função do livro, em sua própria essência. O livro, entre outras possibilidades, viabiliza uma consulta mais rápida, principalmente quando você está procurando informações variadas. Além do mais, a essência do conteúdo está ali. Para quem tem o livro em mãos, uma consulta ao site servirá para um aprofundamento das informações. Há também a questão da legitimação conferida pelo Instituto Antônio Houaiss, ao absorver o conteúdo da nossa pesquisa em sua linha de Dicionários. Finalmente, não podemos esquecer que o Dicionário Houaiss Ilustrado de Música Popular Brasileira é ainda uma bela obra de arte, por conter inúmeras caricaturas de mestres como Nássara, Chico Caruso, Paulo Caruso, J.Carlos, K-Lixto, Lan, Loredano e outros. Eu, particularmente, assim como você, sou uma amante dos livros, de uma maneira geral. Assim como somos amantes dos discos. Por mais que a internet esteja facilitando a nossa vida, esses produtos culturais sempre estarão presentes nos cenários em que protagonizamos nossa vida, sejam eles uma “casa no campo”, tipo aquela do Tavito e do Rodrix, ou um apartamento na cidade (risos)… 

Erico Baymma (Brasil, 1961). Músico e compositor. Gravou os CDs: Artesanato (1997) e ImageShadow (2003). Trilhas sonoras: Conto Logo, Quanto Louco (1991 - Prêmio de Melhor Trilha Sonora), O Alvo (1993), Eu chovo, tu choves, Eles chovem (1996 - Prêmio Destaque do Teatro Cearense, Direção Musical), A Guerra dos Bárbaros (2003), Inferno 1932 (2004), e Ballet Espaço Vazio (2004). Contato: erico@ericobaymma.com.br. Página ilustrada com obras do artista Óscar Domínguez (Espanha).

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