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revista de cultura # 55 |
livros da agulha
Estreita é a ligação do poeta brasileiro Álvaro Alves de Faria a Portugal e muito em particular a Coimbra. Em 1998, participou do Terceiro Encontro Internacional de Poetas e, desde então, esse elo nunca mais foi quebrado. Logo no ano seguinte, publica “20 poemas quase líricos e algumas canções para Coimbra” (A Mar Arte Editora, 1999). Em 2002, publica em nosso país “Poemas portugueses” (Editora Alma Azul) e, de seguida, “Sete Anos de Pastor” (Palimage, 2005) e agora “A memória do pai” (Palimage, 2006). Entre outras iniciativas, organiza uma antologia de Poesia Brasileira Contemporânea-Brasil 2000, em comemoração aos 500 Anos do Descobrimento, integra outros volumes dedicados à Poesia e colabora em numerosos eventos culturais, como nas comemorações dos 800 anos da cidade de Idanha-a-nova, ao lado de outros nomes grados das letras portuguesas. Gravou entretanto uma entrevista na Universidade Aberta de Lisboa, para o programa “Entre Nós”, da RTP. Se bem que o livro hoje a ser apresentado seja “A memória do pai”, não poderei deixar de ter em conta “Sete anos de pastor”, pela afinidade existente entre ambas as obras, como pelo facto de a primeira apontada representar como que a continuidade natural da segunda. Por outro lado, porque a presença de algumas imagens conferem uma certa unidade aos dois volumes, como é o caso da permanência da figura do pastor, recuperada, por sua vez, da tradição literária portuguesa da marca, primeiro, vicentina, depois, camoniana e pessoana, prolongando-se agora na poesia de Álvaro Alves de Faria. Consubstanciado este tipo de imagética, de algum modo, a tradição lírica do nosso país, ou, numa perspectiva mais ampla até, a cultura portuguesa, em geral, com a qual o poeta brasileiro dialoga, resulta desse profícuo contacto, como frutos, obras como “Sete anos de pastor” e “A memória do pai”, num percurso marcado pelo regresso às origens ancestrais, numa busca constante das suas raízes e, simultaneamente, da sua identidade humana e poética. Nessa atitude, é bem sensível, e muito particularmente a nós, leitores, quando se aproxima da nossa maneira de ser quando aflora a saga dos Descobrimentos, revisita mitos da cultura portuguesa, como o drama de Inês de Castro, e presta tributo a Camões. Denunciando deste modo o início de uma nova fase da sua escrita, foi este livro composto em torno da lírica camoniana, que toma como subtexto, a ponto de o abrir com uma epígrafe da autoria do poeta português, que de algum modo remete para o processo sempre complexo da criação poética. Tem esta obra por base e como texto de partida o soneto de Camões “Sete anos de pastor Jacob servia”, que dá origem a um ciclo de poemas dedicados a Raquel, Lia, Labão e Jacob, antecedidos por outro mais pequeno, devotado inevitavelmente a Inês de Castro, que apenas conta com dois sonetos, e seguido ainda por outros 16 poemas para uma certa rainha. Todavia, não menos importante é a primeira parte chamada “Descobrimentos”, onde não só se anuncia o rumo da produção poética de Álvaro Alves de Faria, como aí se reflecte sobre os conceitos fundamentais da criação poética, sobre a escrita em si, a essência da poesia, o estatuto do poeta e sua função. É a poética da vida que aí está presente, com a presença inalienável da morte, da memória e do esquecimento, fundada na observação minimalista, na percepção apurada do universo, na fusão da dita percepção com a reflexão, na revelação fenomenológica do observado, que preparam e antecedem a grande viagem da vida. Não admira, por isso, que o autor, em declarações paralelas afirme: “A poesia ocorre. Toda a poesia, seja ela de onde for, sempre terá uma correspondência. A poesia tem seus entrelaçamentos. Toda a poesia, desde que seja ligada à vida do homem, da mulher, das crianças, dos bichos, das plantas, das pedras, do desespero, do grito. Toda a poesia (está) ligada à vida”. Por isso, quando, no poema “Os Navios”, trata dos “oceanos perdidos na fúria das palavras”, confere-lhes um novo sentido quando “Partem daqui esses navios que cortam o poema/ com o gesto urgente de quem vai morrer”. Nesse percurso, o poeta abre horizontes até então fechados no baú das memórias, rastreia o passado, conhecido apenas de forma esbatida e fragmentária através das fotografias descoradas, onde se perdem “os chapéus dos antepassados”, os rostos apagam palavras mudas”, e, entre eles, “O paletó de meu pai (que) era azul marinho”, reencontrando, desta maneira, a paisagem ancestral das ruas raízes, à qual confere uma certa feição bucólica: “Ovelhas cortam as montanhas/ e mastigam avencas junto às casas/ e às janelas do instante que pressente”. Reencontra o Portugal das memórias e povoa a sua poesia com imagens que esconjura da herança genética presente no sangue que lhe corre nas veias. Por esse motivo, o poeta torna-se o “Pastor à procura de caminhos/ sou assim/ entre a tarde e o fim de tudo”, um pastor de pessoana memória, ou então o “Faroleiro nos oceanos/ ilumino almas/ dessas que se perderam para sempre./.../ ilumino almas esquecidas/ como se a me salvar de mim”. Ocorrem, então, imagens e situações que não podem deixar de se associar a leituras de Fernando Pessoa, especialmente Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, onde Álvaro Alves de Faria busca a sinalização da sua poesia, que a par de Rilke, servira de referência para a Geração 60 de poetas brasileiros, especialmente de São Paulo. No entanto, procura noutros autores portugueses um reforço para seu discurso poético, como Almeida Garrett, Antero de Quental, Gomes Leal, Cesário Verde, António Nobre, Florbela Espanca, Mário de Sá-Carneiro, José Régio, José Gomes Ferreira, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, Sofia de Mello Breyner Andresen, Herbeto Hélder, Al Berto, Albano Martins, Nuno Júdice, Hélder Macedo, David Mourão Ferreira, Maria Teresa Horta, Luiz Neto Jorge, Ruy Belo, António Ramos Rosa, Vasco Graça Moura, Ana Marques Gastão, Egipto Gonçalves, que o poeta brasileiro tão bem conhece. Formalmente muito rico, a organização do seu discurso poético oscila entre expressivos poemas em prosa e gêneros consagrados, como o soneto, que o poeta renova e revitaliza com uma inspiração intrinsecamente inovadora. Apesar da observância rigorosa de forma - metro, ritmo e rima -, a linguagem adquire, em contrapartida, uma musicalidade e leveza (Vejam os “Poemas à Rainha e os Sonetos a Inês de Castro), verificando-se, no entanto, uma maior liberdade nas composições que, muito embora com a forma do soneto, se libertam da métrica tradicional e, noutros casos, da necessidade de rima. Além disso, verifica-se uma busca intensa e profunda de moldar o assunto ou os temas em causa em formas poéticas específicas, altamente cuidadas, daí resultando uma construção elaborada, poeticamente conseguida, distanciando-se, apesar de tudo, da via experimental seguida por poetas contemporâneos. Noutros casos, poemas há que se constroem com o som das palavras, num jogo fônico em que a musicalidade dos fonemas acentua e evidencia a mensagem, algo demiúrgico do discurso poético. Deste modo, conduz-nos o poeta por um meandro de sentimentos e emoções, levando-nos a acompanhá-lo num labirinto de descobertas, num esmiuçar de afectos em que a memória tem um espaço privilegiado. É através dela que o passado se revisita e adquire uma dimensão mítica, que as paisagens se reconstituem, que as imagens se sobrepõem e justapõem, como se de uma montagem tratasse, de modo a resultar desse exercício poético um reencontro com recônditas e poéticas dimensões da interioridade do autor. Não admira, por conseguinte, que o caminho apontado em “Sete anos de pastor” , o do reencontro com o passado dos seus avoengos seja retomado, inevitavelmente, na obra “A Memória do Pai”. Numa linguagem quase de feição mediúnica, o transe lírico transporta o leitor a um mundo interior em que se revela uma realidade que não é de todo desconhecida do leitor, pela familiaridade que um povo de viajantes tem com o tema da partida, a ânsia do regresso, ou os temores da reconstituição do percurso, mesmo que essa operação se possa verificar apenas no plano onírico. A enumeração referencial, num fluxo lírico de forte teor emotivo, arrasta o leitor num trajecto que o poeta julga realizar como caminhante solitário, mas que, na realidade representa o desbravar pioneiro de caminhos, em que todos o acompanhamos. Por isso, as imagens que a memória reencontra e que o coração revitaliza, os espaços que evoca, os rostos e as sombras que refere com maior ou menor nitidez, brotam do subconsciente e reconstituem um universo poético peculiar, e, por isso mesmo, sedutor, que sobrevive numa dimensão que Álvaro Alves de Faria molda e revela através da magia da palavra e do rito iniciático da poesia. Na recuperação do passado, o modo como domina e exprime o tempo, na escrita encantatória da História, contada de um prisma muito particular, descobre-se o viajante que deambula e interroga a cidade, o campo ou a aldeia, numa busca insatisfeita, à procura da mais tênue pista que denuncie algum vestígio de paragens familiares aos seus antepassados. Dando voz a todos quanto sonham reencontrar as suas raízes e, muito particularmente, aos filhos e descendentes de portugueses que sonham conhecer a terra onde os seus pais viram a luz do dia, é através das vozes, da palavra perdida, dos gestos repetidos, genialmente articulados na poesia de Álvaro Alves de Faria que se reconstitui esse processo sempre marcado pela intensidade emocional, que se cruza, por sua vez, com o reencontro de um passado mítico, na esteira de António Nobre, muito embora fiquem salvaguardadas as profundas diferenças entre ambos os poetas. A poesia torna-se, pois, “uma coisa sentimental e existencial”, assumindo as palavras do autor, e “Portugal é uma porta. Uma paisagem existencial. Uma paisagem poética”. E o que o leva a Portugal? “Tenho ido em busca de mim, se é possível entender. Em busca da minha poesia ainda possível. Talvez em busca da vida que me resta”. Filho de pais portugueses, busca, pois, dentro de si as suas próprias reminiscências. “Vou buscar-me onde me deixei. Vou em busca do ar para respirar./.../ Um poeta à procura da poesia. De Portugal pretendo apenas a poesia. Pretendo vestir-me de poesia. De Portugal pretendo-me apenas ser. Quem sabe renascer ?” Este livro “A Memória do Pai” abre-se com a dedicatória ao próprio pai, figura presente e condutora de quase toda a obra, aos familiares, aos amigos e, de modo afectivo, àquelas pessoas de Idanha-a-Nova, que preservam as tradições e que, de algum modo, evocam as memórias do passado. Os momentos em que o presente livro foi iniciado, evocados num texto inserido numa das primeiras páginas, seguido de uma epígrafe, desta vez de Francisco de Sá de Miranda, poeta de algum modo representativo do Portugal de antanho, dão lugar, depois, a uma introdução da responsabilidade de Carlos Felipe Moisés. Os 41 poemas que integram o volume iniciam-se, naturalmente, com a evocação da figura tutelar do pai. “Meu pai/ nunca soube/ que eu morri”, num poema construído de forma encaixada, com essa pequena estrofe a iniciar e a concluir a composição. E a essa imagem faz aderir a de um espaço mítico da terra das suas raízes, da aldeia com a sua igreja, das relações humanas nela estabelecidas, das ruas incertas de pedra, calcorreadas por sapatos antigos, das cegonhas nos ninhos, ou dos campos, do verde das montanhas, onde, na figura do pastor a olhar a tarde a afagar as ovelhas, reconhece também a imagem omnipresente do pai. Noutros cenários, esconjurados pelo poder da memória surgem as oliveiras dos campos, os rebanhos brancos ou outras memórias da História, assim como a reminiscência de um espaço algo incerto que persiste em impor-se. Outras vezes são, de novo, as fotografias que favorecem esse salto no tempo, recuperando a memória estilhaços do passado, a que a poesia dá forma, mas em que a figura do pai continua como motivo condutor, a dar unidade à obra. […] Por conseguinte, como alguma vez afirmou, se Álvaro Alves de Faria recentemente se sente um poeta português a viver no Brasil, assumindo tal atitude um assinalável significado político, é uma honra e um privilégio para o leitor português, entre os quais eu me incluo, a ceder em primeira mão à sua obra e poder acompanhá-lo em momentos como este. Mais do que considerá-lo como um olhar simultaneamente íntimo e estrangeiro sobre a nossa cidade e a nossa realidade, Álvaro Alves de Faria se afirma como um poeta nosso, como alguém que tão bem capta a singularidade da nossa maneira de ser e melhor saber exprimir. Eis porque vos lanço o desafio de lerem, direi mais, de devorarem seus livros. (Texto da apresentação do livro, no Teatro Gil Vicente, em Coimbra, onde o poeta fez uma leitura de poemas.) [Manuel Ferro]
Primeira vencedora da nova categoria contos do Prêmio Sesc Literatura, Lúcia Bettencourt homenageia, em seu primeiro livro, escritores consagrados como Jorge Luis Borges, Proust e Kafka. São textos que utilizam a própria literatura como matéria. No conto que dá nome ao livro, Borges, já cego, é ajudado por uma secretária que começa a interferir nas histórias. Em O inseto, a autora inverte a angustiante situação criada por Franz Kafka em uma de suas novelas mais famosas; e, em Os últimos dias de Marcel Proust, narra às vésperas da morte do escritor francês, às voltas com os personagens a que sua memória deu vida. Organizados sem obedecer a um único tema - “quis oferecer uma miscelânea”, diz ela -, os contos vão além das reflexões de Lúcia sobre suas leituras. São frutos, também, da observação e exploram a temática urbana contemporânea como “O divórcio”, em que uma mulher sente em plenitude a potencialidade de sua nova situação; e o bem humorado “Tatuado no braço”, em que a mãe é pega de surpresa pelo filho único, que traz, pela primeira vez, a namorada para dormir em casa. A figura feminina é recorrente e aparece mais uma vez como personagem principal em “Minha avó dançava charleston”, em que a escritora escreve com as lembranças da avó materna. Com segurança e domínio de veterana, Lúcia Bettencourt encantou um júri de primeira, que incluiu, entre outros, o jornalista Marco Polo Guimarães e o poeta Marcus Accioly. A premiação, em suas duas edições anteriores, revelou talentos como Marco Aurélio Cremaso, com Santo reis da luz divina - finalista do Jabuti 2005 -, e Eugênia Zerbini e seu As netas da Ema, adotado nas escolas paulistas. “A secretária de Borges tem imaginação, estilo e consistência. Imaginação porque as tramas, quase sempre engenhosas - ainda que em diferentes níveis de complexidade -, se solucionam com desenvoltura. Estilo porque a linguagem, rápida e direta, é bem tecida, sem frouxidões e revela a busca pela palavra exata e pela expressão o mais funcional possível. E consistência porque os personagens (por sinal, quase sempre mulheres) se impõem com diálogos, pensamentos e sensações que se desenvolvem naturalmente. Um livro que encanta tanto pelas histórias atraentes quanto pela escrita apurada de Lúcia. Livro de escritor maduro, pronto para a publicação” - Marco Polo Guimarães Lúcia Bettencourt é Ph.D. em Espanhol e Português pela Universidade de Yale, New Haven, Estados Unidos. Começou seus estudos em Literatura Portuguesa e Lingüística na Faculdade de Letras de Lisboa, Portugal. Formou-se em Português Literaturas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Concorreu com outros 550 inscritos ao “Prêmio Sesc de Literatura” e venceu com A secretária de Borges, seu primeiro livro. No ano passado, ganhou o “I Concurso Osman Lins de Contos” com o conto A cicatriz de Olímpia, publicado no primeiro volume da coletânea que leva o mesmo nome do concurso.
Bien podría decirse del poeta brasileño José Inácio Vieira de Melo (Dois Riachos, Alagoas, Olho d’Água do Pai Mané, 1968) que, en él, la fuerza de una nueva poesía no sólo se junta -en reflexiva y elevada alquimia- con el decir ‘pial’ o primitivo de buena parte de las letras anteriores, hermanadas más con la idiosincrasia del mito que con las rupturas habituales de las generaciones que le siguen, sino que además logra conciliar varios discursos en un tono mediático, existencial. Y es que, la verdad sea dicha, desde fenómenos como la antropofagia y los cantares pastoriles que suplantaron en el Brasil aquellos ataques modernistas que padecía el resto de nuestro continente, la poética imperante subrayó una suerte de primitivismo en el que lo lírico sometía algunas nociones subjetivas al terreno de la ruralidad, de ahí que en Vieira de Melo -cercano en todo caso a una poesía de raíces populares, ejemplo de ello es su primer libro Códigos do Silêncio, y posteriormente decantada tras la adopción de nuevos y poliformes guiños- el poema conlleve a un diálogo tangible entre lo geográfico, lo ancestral y una voz foránea a la retórica de esos acontecimientos que marcaron a poetas alagoanos como Jorge de Lima. En este, su cuarto libro, A Terceira Romaria, se hace claro el porqué de su título, dado que hay una multitud en compleja conversación, hay una turba de voces que revelan, como lo afirmara el poeta Lêdo Ivo, un “lirismo cortante como el filo de una navaja, una poesía que, antes árida, esconde y guarda una lluvia secreta”. De una voz en mutación, de la suma de vicisitudes y el personal universo en expansión que le lleva a terrenos metafísicos puede citarse Ciço Cerqueiro, uno de los poemas más representativos en A terceira Romaria y del cual Hidelberto Barbosa Filho nos informa con acierto en su prólogo: “la precisa transmutación de ese yo-poético asimila la singularidad de una mirada e idiosincrasia particular, por medio de una empata perceptiva, bien cercana a poetas en fase de maduración”. Esa “simbología cultural” es el guiño más visitado en la poesía de Vieira de Melo. Salta a la vista, además, su clara disposición al juego interdisciplinario, digamos que esa norma de transito que hace de un poeta joven, una especie de pequeño santuario de afectos. La alusión a sus autores, la estructura profunda que delata lo suyo y que a la vez crea lazos con esos amores ‘foráneos’: El sesgo, o más bien la influencia, de aquellos autores que asoman en el intertexto. Federico García Lorca por ejemplo, de quien Vieira de Melo ha sacado no sólo el título de su poema Bodas de sangre: “¿Qué belleza es esta que tanto me incomoda? (…) ¿O qué anuncian tus inquisidores y translucidos ojos?”. Luego, la cuestión se resuelve, hay formas y lenguajes en un dialogo, una puesta en escena desde el trópico -el verde Brasil- con un frío aire de requiebro gitano, teatro de sincretismos: “Todo en ti es doble, señora del amor brujo. / En tus manos se multiplican los gestos y las bendiciones / y con tus manos dices más que cien mil bocas juntas…”. Con Paraíso perdido, como Milton, el texto poético toma fuerza, sin tener que romper la simplicidad para demostrar que alude a una compleja maquina, la alquimia del verso es su fuerza para expresarse desde un universo tan pequeño, sin nada que le delate como artificial o esquivo:
Quizá no te
acuerdes de la flor De los poemas del libro, Construcción, es uno de esos raros o apológicos textos que hablan del Vieira de Melo anterior al autor que aflora de otros poemas en el libro, es decir, es algo más experimental en cuanto a su decir, como un ars poetica del joven que permanece tras el laboratorio de imágenes de A terceira Romaria. El sentido onírico que parece ocultarse en algunos trechos del libro demuestra hasta que punto Vieira de Melo ha sabido reunir en un solo espécimen poético tal cantidad de imágenes y recuerdos que no sólo la vivencia es la que se aflora, si no que hay un sin número de convidados que dicen lo suyo, otra vez esa ‘romaria’, las pasiones vitales en ebullición y una pluralidad sometida al bien de un universo particular. Finalmente, véase como la diversificación en significantes y temáticas hace que Vieira de Melo pueda salir airoso al acartonamiento del ‘arte pastoril’ del cual abrevaron sus poemas inaugurales, viene a revitalizar, tras una búsqueda más intuitiva y a la vez más universal, un discurso diletante y reconciliador, ese micromundo que ayuda a la poesía local o continental a salvarse de las taras que otras generaciones la han impuesto. El universo de José Inácio Vieira de Melo es precisamente eso, la mutación de una voz en conflicto con la estética que la cohabita, un asunto de magia literaria. [Carlos Andrés Almeyda Gómez]
Após ver/ler a série de gravuras em metal - Cárcere Privado -, de Valdir Rocha, só nos resta analisar em um memorial as figuras insólitas, angustiadas e angustiantes, que formam esta unidade singular “abc da intriga”, um manual antropomorfo da condição humana. As personagens de VR criam uma linguagem expressiva e única na arte brasileira. Para entendermos o seu processo de linguagem, vamos conceituá-la. Podemos definir uma linguagem em termos de sistema - elementos, relações, princípios, conceitos - mas não em termos de expressão. A linguagem da arte empobrece-se, academiza-se, caso o sistema prepondere sobre a expressão. O sistema é a gramática que o artista emprega para realizar sua obra. Essas regras existem para serem superadas pela expressividade. Quanto mais expressiva é uma obra, menos rigor no uso da gramática. Ao contrário, quanto mais o artista for subserviente às regras de um sistema, menos expressiva será sua obra. Nas gravuras de Cárcere Privado, há notável correspondência entre os idiomas verbal e visual. Há confluência de línguas entre os títulos dados às personagens (idioma verbal) e o risco arisco dos esgares faciais dessas figuras, todas encarceradas pelo corte cirúrgico do autor. O cirurgião-gravador não corta para curar, mas para fazer surgir o mal na face de cada um, ao analisar tais almas perdidas nos desvãos da vida. A poética de Valdir Rocha nessas gravuras é dramática, sem espaço para lirismo. Valdir Rocha é cirurgião que corta no metal para que aconteça na face do encarcerado o mal que lhe habita a alma. Essas figuras encarceradas são, ao mesmo tempo, vítimas e algozes de suas próprias condições humanas. As figuras de VR são expressivas, graças ao risco arisco de seu idioma plástico-visual. Não há intenção do autor de organizar um espaço nessas faces humanas com o rigor de um sistema fechado, mas, ao revés, recriar a frágil condição humana, vivente em seu próprio cárcere, em uma cela auto-imposta. São diversas as análises em obra tão rica de expressão. Poder-se-ia usar da fenomenologia, e afirmar que há uma imensidão íntima na busca de VR, ao tentar expressar o caráter humanóide dessas faces, ora cortada a buril, ora imersas em água-tinta. Mas a imensidão íntima é uma categoria filosófica do devaneio; e VR não devaneia, ao contrário, é objetivo e racional, quando talha o metal, como se quisesse cortar, ao mesmo tempo, a carne e a alma de suas figuras patéticas, todas perdidas na indecisão metafísica do Ser ou Não-Ser. Foi o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) que, em A Origem da Obra de Arte, uma conferência de 1936, definiu Arte como “a projeção da verdade do Ser, como obra”. Sintetizando, “a origem da obra de arte não se aparta do sentido Ser. O caráter problemático do Ser passa igualmente pela obra de arte, que se problematiza.” A pergunta pelo sentido do Ser adquire, em Ser e Tempo, um sentido originário: o da própria existência humana. Tais perguntas estão presentes nas figuras de Valdir Rocha. São faces humanas que pensam e fazem pensar sobre o caráter do Ser. Como no pensamento do filósofo, no qual “verdade é um acontecer-se, um fazer-se temporal, cujas figuras mundanas variam”, o mesmo ocorre nessa coleção de facetas humanas realizadas por Valdir Rocha. Gravura é a incisão, o sulco, o talhe produzido em material duro: metal, pedra, madeira, vidro, osso etc. A história da gravura inicia-se com a da própria humanidade. O nosso ancestral pré-histórico já gravava em pedra, barro, osso, deixando impressas nas paredes das cavernas suas mãos sujas de fuligem. Com o passar do tempo, o cavernícola aprendeu a expressar-se com símbolos, criando escritas. Devo lembrar que a primeira gravura em metal, de que se tem notícia, deu-se por acaso: o ourives (nielattore) florentino Maso Finiguerra, em 1451-52, manipulava o niello, quando a chapa, com tinta ainda quente, escapou-lhe das mãos, caindo sobre uma folha de papel úmido, deixando ali uma imagem. Nascia a calcografia. À época não havia gravadores, mas somente ourives ou armeiros. A água-forte usada em muitas das gravuras de Valdir Rocha teve outra história. Em 1500, o pintor Girolamo Francesco Maria Mazzola, dito Parmigianino (1503-1540), da Escola de Bolonha, descobriu o processo da água-forte, como era conhecido na época o ácido nítrico. Parmigianino, que amava a alquimia, mergulhou a lâmina de metal em solução de ácido nítrico, que atuou sobre o desenho, ação chamada hoje de “mordedura”. Depois disso, a gravura em metal passou por outros aperfeiçoamentos, como o ponteado, desenvolvido por Francesco Bartolozzi (1727-1815), aproximando a gravura de clima semelhante à pintura. Como afirmei neste mesmo texto haver uma confluência de linguagens, entre a verbal e a gráfica, procurei fazer um poema apenas com os títulos das obras de VR. Gostaria que o leitor experimentasse a mesma sensação, ao criar um poema com os títulos dessas gravuras brilhantes de Valdir Rocha. Eis o poema: Engolidor de Palavras
Espectador farsante [Alberto Beuttenmüller]
Aquí está la voz musical, misteriosa y limpia, de Francisco Magaña (Paraíso, Tabasco-México 1961), que actualmente vive en Comalcalco. Estos versos escritos sobre la piel incendiada de una manzana bermellón, manzana histórica, metafórica y mística, conforman el libro: “Fiebre la piel y a dónde la manzana”, que fue el ganador del Premio Internacional de Poesía Jaime Sabines en 2001. Magaña es poeta, editor y traductor, ha publicado diez títulos de poesía y dos traducciones. Ha sido becario del FECAT y del FONCA. En 1999 recibió el Premio de Poesía Carlos Pellicer para Obra Publicada. Además, del libro premiado con el Jaime Sabines y que ahora reseño con enorme placer para los lectores hispanoamericanos de Agulha, de Francisco Magaña, conozco, leído y disfrutado, el poemario: “Barra de Panteones”, Ediciones Monte Carmelo 2003, libro también premiado en Campeche con la distinción XLII Juegos Florales Nacionales de Ciudad del Carmen. En “Fiebre la piel y a dónde la manzana” el poeta descubre la alquimia de la manzana, esa fruta prohibida y brillante para la inteligencia y la fiebre de la pasión en diversas épocas. Manzana, del latín mallum, que significa desgracia, mal, desventura, vicio, como lo señala algún diccionario, y en este libro, el poeta corrobora, amplía y al mismo tiempo contradice este significado, pues en este libro la manzana se convierte en un fruto de amor, de profecías, un fruto que elimina la sed, el hambre y la enfermedad. Están muy olorosas las manzanas colgadas en aquellos grandes bosques floridos para siempre. Con este epígrafe de San Agustín se abre el libro que descubre los rostros de la manzana de La Biblia y su carga de pecado, pero también de la manzana de Alejandro Magno que al buscar el agua de la vida en la India, halló manzanas que prolongaban hasta 400 años la vida de los sacerdotes; y las manzanas del poder y los imperios; las de los Celtas que en su enorme tradición consideran a esta fruta magia pura, ciencia y revelación; las manzanas luminosas que Zola regaló a Cézanne en Aix-en-Provence como prueba de intacta y eterna amistad; y por supuesto, está la manzana que recupera los silencios del poeta Magaña, la manzana que él mismo confiesa y descubre en una línea: la manzana en abril es pájaro de luz. La manzana que es el pretexto literario para que una vez más la voz del poeta descubra lo que está escondido y requiere ser nombrado, desde las ventanas interiores, que cada poeta guarda, para develarlo con palabras. [Aleyda Quevedo Rojas]
[...] la experiencia onírica de la realidad que emana del derivar tiene un efecto demoledor inmediato sobre el horario calculado, pues en su fluir el tiempo ya no se justifica por la obligatoriedad de una actuación, ni el individuo tiene tampoco que justificar su «hacer» en función de un tiempo determinado en el que deba «cumplir». Ahí, el tiempo no se mide por ninguna finalidad, por ningún acatamiento ni por ninguna penitencia, sino por la expansión de un placer psicofísico (una suerte de libido mental) del acontecer que disipa las fronteras del comportamiento programado, excedidas por la vivencia. [...] [...] lo que aquí se pretende es una escritura de la afirmación y no de la interpretación, ya que para estar a la altura de la experiencia primera, del acto primario de libertad, esta escritura ambiciona ser experiencia que contenga el tiempo de su libertad. En donde esto se vuelve más acusado es en [los] resquicios por los que algo se cuela hasta desbordar los mecanismos de lo razonable, con total despreocupación de su posible significación; un algo espejeante hasta el punto de llegar a desconcertar muy seriamente a lo verosímil. Ejemplar de lo que sugiero es H, cuyo admirable enigma me sigue acompañando desde su primera manifestación, preguntándome todavía alguna vez si me quiso decir algo, mas complaciéndome en mi incomprensión e incluso recreándome en su silencio. [...] Eugenio Castro nació en 1959 en Toledo-Las Herencias. Es miembro desde el inicio de su andadura, en 1987, del Grupo Surrealista de Madrid y de su revista Salamandra. Intervención surrealista. Imaginación insurgente. Crítica de la vida cotidiana. Además co-fundó Luz Negra. Comunicación surrealista (Gijón-Madrid, 1980-81) y las Ediciones de La Torre Magnética. Forma parte del Movimiento Surrealista desde 1979, participa de sus dinámicas y actividades y colabora en las publicaciones de algunos de los grupos en el mundo: S.U.R.R. (París), Analogon (Praga), Stora Saltet (Estocolmo), Farfoulas (Atenas), Brumes Blondes (Ámsterdam), Boletín Surrealista Internacional (Estocolmo, París); o en el proyecto del Grupo Surrealista de Leeds, Surrealists go to the cinema. Ha publicado el libro de poemas Mal de confín (2005), un pequeño libro de imágenes, manipuladas con una goma de borrar, titulado Gommages (2000), además de los «colages» Reaparición de la Isla Misteriosa (1995) y las «plaquettes» La ciudad constelada (1995) y La región insomne (1996). Ha contribuido a la organización del libro colectivo Indicios de Salamandra (2000), que aborda las problemáticas políticas y poéticas del lenguaje. Asimismo, es editor del libro Humores de Eros (2004).
Em 1994 Maria Lúcia Dal Farra dava a conhecer seu Livro de auras, reunião de poemas que marcaria a estréia no Brasil de uma das vozes poéticas mais afinadas surgidas por aqui nos últimos tempos. Depois, com quase uma década de distância, a autora apresentaria, em 2002, o Livro de possuídos, que viria a confirmar a natureza de um trabalho poético fundado numa ação de laboriosa decantação da palavra, a partir do qual esta é desdobrada em suas múltiplas dimensões significativas - de sentido e sonoridade - e ofertada ao leitor como possibilidade de um reencontro com um universo de e(in)vocação e canto de há muito ausente da nossa atarantada experiência contemporânea. É assim que, nos universos íntimos formalizados em ambos os Livros, se pode assistir, entre outras coisas, a uma briga silenciosa contra esse tempo da produção material, tão o nosso conhecido, que se infiltra por todos os poros da nossa existência social, para invadir e colonizar até os espaços do sentimento. A esse tempo vai-se contrapor o da contemplação e da observação prazerosa, o da rememoração mesmo dolorosa, tempo da imaginação e do devaneio, mas que é também o tempo da (re)construção criativa, por isso tempo de um trabalho que irá desautorizar, com sua ênfase nas coisas e fatos miúdos, admirados na sua gratuidade, e na morosidade do seu fazer, aquele outro alienador da nossa condição humana. No recente Festival de Poesia de Goyaz, a autora reconhecia seu interesse pelos “objetos rebaixados à mesquinhez” e dizia se dedicar a resgatar-lhes a dignidade. É essa consideração do miúdo, reposto como parte constituinte da existência de todos nós, intenção visível que povoa boa parte dos textos poéticos de Dal Farra, que iremos reencontrar neste Inquilina do intervalo, primeiro livro de relatos da autora. De modo que o nexo que neste se estabelece com sua obra poética inicial não vai proceder tão só do débito do título, que é, com leve modificação, o primeiro verso do poema que apresenta Livro de auras. O diligente trabalho de elaboração/descoberta de sentido, que em Maria Lúcia é um contínuo desobstruir a palavra da surdez comunicativa e um lhe acentuar sua constituição sonora, é decerto um dos primeiros traços que aqui poderá identificar aquele que já lhe conhece a produção poética. Assim, pois, é possível perceber, no curioso ajuntamento de uma experiência existencial cativada pelas pequenas coisas e os pequenos gestos com um trabalho formal dos mais aplicados, uma das motivações desta empreitada estética: reapropriar-se da existência pela nomeação significativa do miúdo O que nestes tempos de desapropriação do humano é deveras um exercício libertário. Imbuído, então, da aura poética dos dois livros anteriores, este conjunto de narrativas passeia por diversas situações do humano, mostrando-as na variedade do olhar que as capta ou da consciência que as relata em ostensiva voz feminina. Se é verdade que não se pode desconsiderar o nível referencial do que aqui se conta, pois, como nos poemas, se continua fiel ao universo das pequenas existências e seus pequenos eventos, a maneira como se produz a materialização dessa consciência que relata talvez seja outro dos aspectos que estabelece o ponto de convergência com o fazer poético. Dentre os temas e motivos que dão curso à matéria narrativa, os referidos à infância parecem alcançar um relevo especial, se bem que tampouco se desatenda o mundo do sujeito adulto. No entanto, a despeito da história que se conta, os textos articulam, por vias diferentes, uma tentativa de decifração do mundo da subjetividade e da sensibilidade humanas. E note-se que não é o sucesso da procura que interessará como resultado prático a tal exercício e sim o exercício mesmo, no que já se pressente a gratuidade da ação. Esta nos aparece como um demorado trabalho de recomposição daquilo que se perdeu, e como tal significa a apreensão de um sentido temporal que obedece aos ritmos internos da memória, da recordação, do devaneio. Portanto, entronização de um tempo tido hoje como naturalmente improdutivo. Isso fica claro nos exemplos que nos devolvem ao mundo da infância se abrindo para a vida. Mundo que, em alguns exemplos, vem, na verdade, filtrado pela consciência adulta, que o resgata e reacomoda (reconstitui), selecionando episódios numa tentativa de recuperar e criar sentidos, tanto para o passado como para o presente, às vezes indefiníveis. Esta busca, que aliás atravessa os 25 relatos do volume, organiza sua estratégia a partir de um recorrente mecanismo de perscrutação, que quase sempre se faz repousar num apurado senso de observação, que tanto pode ser exercício de auto-observação como de observação do outro. Procurar “algo de que não era capaz de saber” (“O circo”), entender que a “procura infindável é a que se busca em si” (“Diário adolescente, p.1”), “vasculhar tantos enigmas” sem lhes achar a resposta (“Vaso”) são tarefas que se constituem como aprendizado de indagação do mundo. Por isso o sujeito que narra - ou que se narra - mostra-se fervorosamente atento aos ocultos minúsculos da existência, tanto que termina por se converter na via de acesso através da qual o leitor pode também participar de tal aprendizado, sendo essa, precisamente, uma das condições que irmana Inquilina do intervalo às auras e aos possuídos. A simplicidade do mundo de todos os dias nos aparece com tonalidades renovadas, por exemplo, na maneira de uma cadeia montanhosa se preencher de sentido (“O gigante”), na forma do espaço aparentemente anódino do doméstico, com seus pequenos causos, se encher de ressonâncias que lhe aplacam a mesmice do continuamente repetido (“A árvore”, “O penteado”, “A garça”, “O purgatório”) ou, ainda, nas dimensões sensíveis descobertas em seres de humildíssima envergadura, achincalhados pela maledicência de uma socialidade estabelecida na aceitação de imagens cristalizadas (‘A alemã”, “Manacás”, “Margarida, a porta está aberta”). Assim, a recolocação do diminuto em patamares de sentido tão adensado, que às vezes resultam num mistério insondável (como acontecerá com a existência adulta da menina de “O circo”, ou com a protagonista de “Manacás”, tornando-se de impossível apreensão) ou em algo que apenas o silêncio consegue expressar (como no monólogo da menina de “Finados”, feliz na sua orfandade), só é possível pelo laborioso e delicado trabalho de resignificação operando quase sempre nos conteúdos da memória, refeitos pelo devaneio da fantasia, imaginados com sentidos e intensidades que não possuíam em sua existência original. Abrem-se, pois, os canais da percepção e, libertos dos limites que constrangem a imaginação, a lembrança de um cheiro, de um gosto, de uma melodia é suficiente para colocar em funcionamento a evocação. Mesmo nos casos onde não se explicita a retomada do mundo das recordações infantis, esta resignificação vai se incrustar, por exemplo, no processo de desmanchamento que a realidade sofre quando submetida aos mecanismos da fantasia e da imaginação. Aqui o mundo dessa realidade palpável se confunde com os devaneios (desejos) imaginativos e, em diversas gradações (de “A viagem” a “Catarse”), a realidade vai se confundido com a fantasia - apenas outra dimensão do real?- e esta adquirindo a concretude do real. Uma dimensão onde o sujeito passa a ter outra existência -veja-se a exemplaridade de “Desconstruindo Helena” - e o leitor é recolocado perante a antiga disjuntiva da aparência e a essência, da realidade e a imaginação. A desconstrução da realidade empírica pela imaginação carrega em si algo de irremediável destruição. Desbarate que pode ser tanto chance para “desfossilizar algum pensamento”, como dar em perda da razão e até na morte. As três possibilidades consentem em aparecer tematizadas no inelutável e misterioso processo de transformação das coisas, que o livro todo nos apresenta. Por isso, não há aqui pendor para o trágico, que seria no fim reposição de um equilíbrio modorrento e alienante, e sim esse contínuo afã de esquadrinhar o aparente para, “desinventando-o”, recriá-lo com diferente face e diferente fôlego. De modo que há um espírito analítico brotando nisso tudo, operando rigorosamente no espaço da sensibilidade e pressionando para o alargamento dos canais de percepção do mundo. É, então, pela mão desse espírito analítico, vertido no trabalho de composição da escrita, que Inquilina do intervalo nos devolve o universo das miudezas humanas transformado em experiência estética, por isso restituído da dignidade que o nosso tempo lhe apagou. “Pentear a realidade com palavras”, como pretende a narradora de “O penteado”, é “fabricar o mundo” dentro de uma dimensão que também o pior de nosso tempo tenta abafar sob a pecha do improdutivo . Dimensão da transformação e de um tempo reservado à exploração da interioridade, à vivificação fugaz da beleza desinteressada do epifânico é o que se encerra neste primeiro volume de relatos de Maria Lúcia Dal Farra. Mas também, assim como sua poesia, este Inquilina do intervalo mostra, em seus níveis profundos, sua incontestável pertença e sua inequívoca resposta a um tempo histórico de carências, onde só como habitante passageiro da breve existência do intervalo, essa tênue intermitência de espaço-tempo, lhe é permitida ao sujeito a vivência do que possa ser o verdadeiramente humano. [Teresa Cabanas]
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