revista de cultura # 54
fortaleza, são paulo - novembro/dezembro de 2006






 

Um poeta político: Aimé Césaire
[entrevista]

François Beloux

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Aimé CésaireFB Quais foram os teus sentimentos, qual foi a tua impressão quando tu deixaste a Martinica para vir terminar, como bolsista, os teus estudos em Paris?

AC Não deixei totalmente a Martinica com arrependimento, eu estava muito contente por partir. Incontestavelmente, era uma alegria sacudir a poeira das minhas sandálias sobre essa ilha onde eu tinha a impressão de sufocar. Eu não me sentia bem nessa sociedade estreita, mesquinha; e, ir à França, era para mim um ato de liberação.

FB O encontro com Léopold Senghor, teus contatos com os africanos de Paris, contaram profundamente para ti? Foi nesse momento, eu creio, que tu concebeste tua noção de “negritude”.

AC É verdade, mas eu já estava predisposto, se tu quiseres, por um verdadeiro estado de revolta mais ou menos latente e confusa contra a sociedade martiniquense. Quando cheguei em Paris - era em 32, ou quase -, fui me inscrever na Sorbonne, e o primeiro negro eu que conheci era um senegalês: Oussmane Sembé, que se tornou embaixador do Senegal em Washington… No dia seguinte, em Louis-le-Grand, onde eu estava no primeiro ano de minha preparação para o concurso de estudos literários da escola normal, travo conhecimento com Senghor. Dito de outro modo, coisa bastante curiosa, desde a minha chegada, foi tomado pela mão por dois africanos, dos quais um se tornou um excelente amigo, Senghor; durante cinco ou seis anos, nós praticamente não nos deixamos, e ele teve uma enorme influência sobre mim. Ele me ajudou a analisar e a passar uma borracha nesse lado negativo que era o meu ódio por uma sociedade martiniquense que me parecia topicamente colonial e profundamente alienada.

FB Da parte dos próprios martiniquenses ou dos franceses na Martinica?

AC Oh! dos próprios martiniquenses, com certeza. É que as correntes que prendem o homem negro não são correntes ordinárias: são correntes interiores, correntes psicológicas…

O homem antilhano foi colonizado do interior, foi profundamente alienado. E Senghor me revelou todo um mundo, isso foi para mim a revelação da África. E devo dizer que, durante toda a minha vida de estudante, se eu tive muitas amizades africanas, não tive nenhuma relação com os antilhanos e singularmente com os martiniquenses.

FB Quais diferenças tu estabeleces entre africanos e antilhanos?

AC Ela é enorme.

FB Em qual medida se pode dizer que o antilhano se considera como um falso negro? (penso nos termos de “quarterão”, “mestiço”, meio-branco e meio-negro).

AC Os antilhanos são negros; simplesmente, eles foram transplantados e foram submetidos durante mais de um século, perto de dois séculos, a um assustador processo de assimilação, portanto de despersonalização. E eles tiveram esse traumatismo que foi o tráfico dos negros. Os africanos são um caso completamente diferente: eles conservaram a sua civilização, porque a colonização foi extremamente superficial… Um ouala sabe muito bem que ele era ouala, ele jamais pretendeu ser um francês negro, não é verdade; enquanto o fenômeno da colonização se revelou muito mais pernicioso, mais deletério às Antilhas. Os africanos conservaram as suas religiões, o contato com suas terras, com seus mitos, com seu folclore - e depois, eles conservaram suas línguas. Grosso modo, mantiveram a sua civilização, uma segurança psicológica que não podem pretender os martiniquenses, não totalmente. Eles são desenraizados. É muito importante, isso. A situação dos antilhanos, de fato, é muito mais dramática que a dos africanos. São pessoas que perderam tudo, que foram arrancados de sua terra, que foram transportados para as Antilhas. Eles se encontraram encerrados num universo concentracionário que, sucessiva e proporcionalmente, se humanizou levemente… Não há comparação com a África. Não…

FB É em direção a essa época que tu escreveste Cahier d’un retour au pays natal (Caderno de retorno ao país natal).

Fernando MaldonadoAC Sim. Senghor preenchia o vazio que eu provava e eu compreendi porque eu não estava feliz na Martinica. Por meio dele, senti muito bem que o meu verdadeiro mundo era assim mesmo o mundo africano. Nós não conhecíamos lá grande coisa, mas líamos tudo o que aparecia sobre a África: os contos, as lendas, a história da civilização africana… E, para mim, isso foi a revelação desse mundo do qual eu tinha apenas premonições muito vagas. O que estava confuso em mim nesse momento se tornou preciso, e pude lançar um olhar crítico sobre a sociedade antilhana, compreender melhor suas carências, suas lacunas, suas alterações. Compreendi então que a sociedade martiniquense era uma sociedade a-culturada. Era uma civilização negra transportada para certo meio, para certo contexto; uma civilização que pouco a pouco se degradou para assim chegar a esse magma inverossímil, a essa anarquia cultural na qual vivíamos. Era natural que eu sentisse essa degringolada e que a África me parecesse, muito romanticamente, uma espécie de paraíso de onde tínhamos sido expulsos.

Em meu retorno, eu estava repleto de tudo o que eu tinha visto e pleno dessa visão da África que eu tinha recebido por pessoas interpostas.

FB De fato, tu descobriste a África em Paris…

AC É incontestável. Eu a descobri em Paris, através dos africanos; mas minha geografia é antes de tudo humana: acredito efetivamente que eu deveria carregá-la mais ou menos em mim. Na verdade, eu não tinha lido quase nada sobre a África quando deixei a Martinica, mas isso correspondia a uma aspiração e o encontro com Senghor fez o resto. Isso significa que mesmo num mundo tão alienado quanto o mundo martiniquense, nós permanecíamos, no fundo, conscientes de nossa natureza africana.

FB Tu viveste na África?

AC Relativamente pouco e nunca por muito tempo. Mas considero que as Antilhas francesas são muito mais africanas como não se quer então dizer - e como não o imaginam os antilhanos. Quando fui à Guiné, quando estive em Dakar, quando vi as boas mulheres no mercado: eram completamente como antilhanas…

FB Qual foi o teu impacto com o país, mais cedo?

AC A Martinica é dupla e nós, martiniquenses, vivemos num mundo de falsidade; é preciso que nós reencontremos a verdade do nosso ser… Bem naturalmente, fui parar na poesia, porque era um meio de expressão que se afastava do discurso racional. A poesia, tal como eu a concebia - tal como ainda a concebo - era o mergulho na verdade do ser. Se o nosso ser superficial é europeu, e mais precisamente francês, considero que a nossa verdade profunda é africana. Tratava-se de reencontrar nosso ser profundo e de expressá-lo pelo verbo: era forçosamente uma poesia abissal.

FB Ao mesmo tempo era uma poesia-arma?

AC Ela era arma porque era a recusa desse estado superficial e a recusa do mundo da mentira… Era o mergulho em mim mesmo e uma maneira de fazer explodir a opressão da qual éramos vítimas. É um pouco como o vulcão: ele amontoa a sua lava e o seu fogo durante um século, e um belo dia, tudo isso estoura, tudo isso sai novamente… E era a minha poesia, era isso Cahier d’un retour au pays natal. Era a irrupção das forças profundas, das forças enterradas nas profundezas do ser, que saíam novamente para a face do mundo, exatamente como uma erupção vulcânica.

FB Tu voltaste em 1939; Era a diversão da guerra, depois houve a guerra nada divertida, e, em 1940, tu encontraste André Breton…

AC Sim, era no momento da derrota.

FB Quais foram tuas relações com Breton? Num sentido, tu eras surrealista sem saber…

Fernando MaldonadoAC Na verdade, estava assim mesmo no ar - e eu tinha respirado um pouco esse ar. Era um assunto de geração. Nós falávamos de poesia com Senghor e nossa idéia era romper com a civilização imposta, reencontrar as nossas riquezas enterradas e o homem negro que estava em nós, que estava dissimulado sob os ouropéis… Precisávamos nos reencontrar.

Eu conhecia muito mal o surrealismo, mas devo dizer que minhas buscas iam nesse sentido, e quando encontrei Breton - e o surrealismo -, isso não foi tanto uma descoberta para mim: foi antes uma justificação. Havia uma inteira convergência entre as buscas surrealistas e as minhas ; dito de outra maneira, isso me confirmou, me tornou mais audacioso.

FB A propósito dos teus escritos, pensa-se no título da revista: Le surréalisme au service de la révolution

AC Era isso. E eu me encontrava de acordo com Breton na maioria dos pontos. Mas… Breton foi extremamente amável, gentil… Eu estava deslumbrado por sua extraordinária personalidade, seu senso da poesia, sua atitude ética igualmente, porque o que me tocou foi que Breton era um moralista… um moralista intransigente… que tinha apenas desprezo pelos arrivistas. Fui muito seduzido por ele; ao mesmo tempo, eu me mantinha em minha retaguarda. E nunca quis pertencer ao movimento surrealista porque aquilo a que me atenho mais é a minha liberdade. Tenho horror das capelas, tenho horror das igrejas; não quero tomar palavras de ordem - qualquer simpatia que possa me inspirar tal ou tal grupamento. Recuso-me a ser infeudado. Era o que eu temia com Breton; ele era tão forte, leonino, que temi me tornar um discípulo, e eu não me amarrava nisso, não está na minha natureza. Sempre tive o sentimento do nosso particularismo, então quis muito me servir do surrealismo como de uma arma, simplesmente permanecendo fiel à negritude… Sim, Breton, é um homem por quem tive muita admiração e afeição.

FB Em qual momento tu passaste do teu trabalho de professor e de tua atividade de escritor ao ofício da política?

AC Isso foi muito um negócio do acaso e das circunstâncias. Durante a guerra, fundei uma revista, Tropique, e essa revista marcou época na Martinica; porque era uma revista que rompia pela primeira vez com a tradição da assimilação; certamente, havia poetas martiniquenses, mas eles faziam uma poesia francesa. Dito de outra maneira, cada escola poética francesa tinha sua extensão tropical. Havia pessoas que compunham sonetos, outras que concorriam nos jogos florais de Toulouse. Havia uma porção de parnasianos mineradores, alguns pequenos simbolistas - freqüentemente aliás bastante hábeis -, mas isso permanecia nesse nível. Era uma poesia de decalcomania, mais ou menos bem sucedida, às vezes não totalmente, às vezes um pouco mais - dito de outra maneira, não era poesia; e essa insuficiência poética, meus amigos e eu, nós a explicávamos precisamente pelo fato de que era falsa; porque não inscrita no contexto martiniquense. Era uma poesia-negação. A revista “Tropique” apresentava um aspecto poético, mas, ao mesmo tempo, ela descrevia a sociedade martiniquense, ela relembrava as origens da ilha… havia artigos de etnografia… enfim, eu tentava pôr ao alcance do público martiniquense tudo o que eu tinha aprendido sobre a África. Nós publicamos, por exemplo, artigos sobre o tráfico de negros - coisa extremamente malsoante: ninguém falava disso… e muito menos queria se lembrar disso. A escravidão era um estigma, uma coisa vergonhosa… mantinham-se lá ancestrais pouco gloriosos. Ora, minha revista falava precisamente do tráfico, rendia homenagem à África. Eu divulgava da minha melhor maneira possível, eu vulgarizava. Como nesses países classe e raça se confundem: os proletários são os negros, e o opressor são os brancos: inevitavelmente, descrevíamos um mal-estar social. Era revolucionário. O fato simplesmente de afirmar que somos negros, como eu o afirmava, era um postulado revolucionário.

(…)

FB Tu fizeste um estudo sobre Toussaint Louverture, que poderia quase passar por um texto de caráter etnográfico…

AC Não, era um trabalho histórico. Se eu tivesse permanecido professor, teria podido utilizar esse trabalho para uma tese. Não, amo muito o Haiti - talvez porque, de todas as Antilhas, seja a maior ilha e a mais interessante, porque a mais africana. Até o século XVIII, houve aportes massivos de negros africanos. Por tribos inteiras. Um despovoamento muito homogêneo. Há congoleses, daomeanos, etc. E isso se vê ainda: qualquer etnógrafo reconhece num haitiano a origem de sua tribo africana. E contrariamente à Martinica, as religiões africanas se mantiveram no Haiti. Donde o vodu.

FB É verdade que Clausewitz, em sua obra sobre a guerra, foi fortemente influenciado pela maneira como os haitianos travaram uma luta de guerrilha?

Fernando MaldonadoAC Não sei. O que me tocou com o Haiti, foi que estamos em presença de um país onde, pela primeira vez, a negritude se pôs de pé. Podemos fazer uma comparação com Cuba: o mesmo desejo de liberdade e a mesma vontade de combater para adquiri-la. No século XIX, esse foi o primeiro país subdesenvolvido a se revoltar, a dar o exemplo. Uma revolta acabada sobre um sucesso: o Haiti arrancou a sua independência. Certamente, isso se revelou como um exemplo para os países da América do Sul. Bolívar se compreende apenas pelo Haiti.

Para voltar à tua pergunta, sim. Fui muito tocado pela estratégia de Toussaint. Mais tarde, lendo alguns escritos de Mao Tsé Toung, percebi que tudo isso era absolutamente genial: Toussaint tinha achado por intuição - e antes de todo o mundo - o próprio princípio da guerra de guerrilha. Ele tinha recusado as batalhas enfileiradas e tinha mantido as suas tropas camufladas. Ele tinha feito o que fazem, nesse momento, os vietnamitas, o que fazem os países subdesenvolvidos quando lutam contra uma nação muito mais potente, muito melhor armada… Olhei um pouco em Clausewitz, e vi, efetivamente, que havia um capítulo dizendo respeito à guerra popular. Não sei se Clausewitz teve conhecimento da guerra travada pelos haitianos - pelo menos, ele não fala disso: não era talvez bastante nobre para ele… Ao percorrer os escritos do século XIX, em particular as memórias dos generais de Napoleão durante a guerra de Saint-Domingue, percebemos que, para eles, era realmente a guerra suja. Uma guerra infernal, que lhes devolveria todos os princípios. Em todo caso, a maneira como Clausewitz descreve a guerra popular evoca singularmente o combate de libertação travado por Toussaint.

FB Da tua obra sobre Toussaint, passemos, se tu quiseres, à Tragédie du roi Christophe (A tragédia do Rei Christophe) , cuja ação, precisamente, é situada no Haiti.

AC O Haiti é um país que, com a África, ocupa no meu espírito, na minha alma, no meu coração, um lugar particular. Era normal, por conseguinte, que eu escrevesse uma peça sobre o Haiti. Podemos também nos perguntar porque escolhi a expressão dramática. Pois, apesar de tudo, sou poeta, fundamentalmente. De fato, eu já tinha escrito Et les chiens se taisaient (E os cães se calavam); é preciso acreditar que eu era bastante assombrado pelo teatro. Mas essa primeira peça, eu não a via “encenada”; eu a tinha, aliás, escrito como um poema. Entretanto, esse texto apresenta para mim uma profunda importância: porque é uma peça muito livre e situada em seu meio - o meio antilhano. É um pouco como a nebulosa de onde saíram todos esses mundos sucessivos que constituem as minhas outras peças. Le roi Christophe, Une saison au Congo (Uma temporada no Congo), mas eu já me interessava mais diretamente pelo teatro - e agora, uma adaptação baseada em Shakespeare, que se chama não La Tempête (A Tempestade), mas Une Tempête (Uma Tempestade). Pois há muitas tempestades, não é ? - e a minha é apenas uma entre outras… (…)

FB As tuas três últimas peças se situam no nível dos pontos mais quentes que dizem respeito ao mundo negro: Haiti e Le roi Christophe; o Congo e Lumumba; e agora, com Une Tempête, tu abordas, numa certa medida, a questão racial nos Estados Unidos…

Fernando Maldonado

AC É o velho vulcão que adormece em mim e que ama os pontos quentes! De volta ao Roi Christophe, porque peguei um reizinho haitiano? De início, há a impulsão interior, a saber: a necessidade que tenho de falar do Haiti; e, ao mesmo tempo, isso coincidia com o acesso à independência dos países africanos. Bruscamente, a África foi assaltada por novos problemas. As pessoas que tinham reivindicado, que tinham feito oposição, de repente são promovidas a chefes de Estado. O que fazer? A liberdade, é muito bom ganhá-la; mas quando se reflete sobre isso, é sempre mais fácil conquistar a sua liberdade - só é preciso coragem -, sim, porém, uma vez que ela é obtida, é preciso saber o se vai fazer dela. A libertação é épica, mas os dias seguintes são trágicos. E esse problema que eu tinha em mente. Então tive a idéia de situar no Haiti o problema do homem negro assaltado pela independência. Pois foi o primeiro país negro a ter sido confrontado com essas questões. O que o Congo, a Guiné, o Mali conheceram por volta de 56-60, o Haiti tem conhecido desde 1801. E o rei Christophe é o homem negro às voltas com a necessidade que há de se construir um país, de se construir um Estado.

FB Une Saison au Congo (Uma temporada no Congo) é, no fundo, a seqüência lógica…

AC É assim mesmo uma peça antilhana… A linguagem é antilhana. Aí, eu abro um parêntese, pois há um problema da linguagem nas Antilhas; para um africano, ele se põe com menos acuidade que para um martiniquense. Qual língua empregar? Um africano pode, a rigor, se servir de seu dialeto, mas nós não temos nenhuma língua…

FB O crioulo aparece um pouco como uma “falsa língua”…

AC Uma língua jamais é falsa. Apesar de tudo, podemos dizer também que o inglês é uma língua falsa; e que o francês, no início, deve ter sido um espantoso saber de contrabando. Não… O francês deve ter começado como o crioulo, depois conquistou suas cartas de nobreza. O crioulo se tornará uma verdadeira língua no decorrer da evolução da história; ela não é tocada por uma marca original, mas é um fato que, no momento atual, isto constitui um pouco de patoá. É uma língua muito modesta de uso interno. Para torná-la literária, teria sido preciso passar por cima do trabalho que os franceses têm realizado desde o século XVI – Ronsard, Rabelais e todos os outros. Em revanche, nós temos um instrumento que se chama o francês; porque se recusar a empregá-lo? Com a condição evidentemente de que isso não se torne uma nova forma de alienação. Dito de outra maneira, é preciso dobrar o francês ao gênio negro. Ou então não utilizamos o francês, e empregamos quadradamente a nossa língua - que pode ser o oualof ou então uma língua guineense, ou o swahili, ou, por um martiniquense, o crioulo. É uma possibilidade: eu não a escolhi, decidi empregar o francês; talvez por causa da cultura, é verossímil - mas quis empregá-lo em condições muito particulares. Quis pôr o selo impresso, a marca mãe - ou a marca antilhana, como queiras - sobre o francês; quis lhe dar a cor do crioulo. Em particular, em Le Roi Christophe, há uma linguagem muito particular, que se ressente de suas origens antilhanas: não é mais exatamente francês.

Prosseguindo em minha busca, minha descrição da situação do homem negro no mundo atual, cheguei à África bem naturalmente. E o exemplo mais dramático, mais trágico era o Congo. Quem ocupa o Congo ocupa a África; depois da Nigéria, é o país mais importante. Por suas dimensões, por suas riquezas - e pelo caráter admirável dos acontecimentos que se desenrolam lá… (…)

FB Para voltar à negritude, há um ponto que me atormenta: é o fato de que tu punhas todos os negros no mesmo saco. Tu não acreditas que entre um africano, um negro da América e um antilhano, tenha se cavado um fosso, que as divergências tenham se tornado profundas?

AC Aí, eu te respondo imediatamente. O que tu pões em causa, é toda a negritude! E bem me dizem os antilhanos: “Como, nós, martiniquenses, que estamos aqui há três séculos sobre uma terra francesa… o que podemos ter em comum com os africanos?” Eles dizem isso num sentido pejorativo. E é exatamente o que a burguesia negra americana repetiu durante tanto tempo. Eles dizem: “de acordo, nós somos negros, mas fundamentalmente, nós somos americanos”. Ora, precisamente, o movimento da negritude é um movimento que afirma a solidariedade dos negros, que eu chamava de a Diáspora, com o mundo africano. Tu sabes, não somos impunemente negros, e que sejamos franceses - de cultura francesa - ou que sejamos de cultura americana, há um fato essencial: a saber: que somos negros, e que isso conta. Eis aí a negritude. Ela afirma uma solidariedade. De uma parte no tempo, com os nossos ancestrais negros e esse continente de onde somos provenientes (isso faz três séculos, não é tão velho) e depois uma solidariedade horizontal entre todas as pessoas que vieram de lá e têm, em comum, essa herança. E consideramos que essa herança conta; ela pesa ainda sobre nós; então, não é preciso negá-la, é preciso fazê-la frutificar por vias diferentes sem dúvida - em função do estado de fato atual - e diante do qual nós devemos reagir bem… 

Entrevista originalmente publicada em Magazine littéraire # 34, Paris, França. Novembro 1969. Sugerimos visitar o sítio: www.magazine-litteraire.com/archives/ar_cesai.htm, a partir da edição original desta entrevista. Tradução de Éclair Antonio Almeida Filho. Página ilustrada com obras do artista Fernando Maldonado (Colômbia).

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