revista de cultura # 54
fortaleza, são paulo - novembro/dezembro de 2006






 

Na convulsão das tempestades: o erotismo na poesia de Claudio Willer

Cristhiano Aguiar

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Claudio WillerMontaigne, citado pelo argentino Alberto Manguel no livro No bosque do espelho, dizia: “nós pusemos o sexo no recinto do silêncio”. Nossa breve conversa, ciranda na qual brincam, de mãos dadas, o erotismo, o poético e os versos do poeta paulista Claudio Willer, deseja espalhar cacos de silêncio, dando lugar e voz ao estrondo. Por isso, quero a dança, não a palestra: à linha reta, proponho um círculo.

Willer é um bom lugar – sua poesia não se envergonha da própria nudez, como mostram estes versos, do seu livro Estranhas Experiências:

é hora de dizer claramente como são as coisas:

você abre suas portas suas pernas seus braços sua boca seu corpo

você as escancara

eu embarco em você

eu me engajo me prendo me agarro navego em você

plano em um jogo de arriscado equilíbrio

atiro-me em seus abismos

Erotismo e linguagem – entrelaço. O poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz, nas suas considerações sobre o erotismo contidas no livro A Dupla Chama, não dissocia as duas coisas, muito pelo contrário, nos ensina que ambas se complementam: o erotismo transforma o nosso instinto primitivo de sexualidade em metáfora; já a linguagem, transforma o som em sentido. Ainda segundo Paz, podemos dizer que a linguagem equivale à sexualidade e a poesia equivale ao erotismo; enquanto o erotismo é um além da sexualidade, em que não há, necessariamente, a necessidade da reprodução; a poesia é um além da linguagem, pois também não necessita do compromisso com a comunicação. Tanto a boa poesia, quanto a experiência erótica, nos propõem um encontro de fundura, um verdadeiro afogamento mediado pela imaginação. O beijo e o verso, neste sentido, são uma só intervenção criativa no Outro.

Fernando MaldonadoClaudio Willer escreveu um poema chamado A poesia deve ser feita por todos, cujos versos estão muito marcados por metáforas eróticas, quase como se dissessem que todos podem fazer poesia, mesmo que não sejam poetas, pois partilhar do corpo de quem se ama, ou de quem se deseja, já é uma experiência poética:

Assim nos amamos

não mais que gota d’água no oceano

porém transformados em animais provisórios e articulados

maravilhados

por nos perceber em outro planeta, arquejante, pulsante

paisagem transformada em mutação cúmplice

caleidoscópio de plantas vivas em um jardim de espasmos

Sei que nos amaríamos com maior vigor ainda se fôssemos capazes de nos virar ao avesso, nos fundir no puro contato, abraço de cada célula, nenhuma barreira para a união imemorial. (...) Estranhos ao mundo, indiferentes ao mar, à praia, ao vento, sabemos apenas dos raios e trovões que acompanham a tempestade do verão noturno.

Fernando MaldonadoÉ talvez o medo de sermos “estranhos ao mundo”, ou de nos tornarmos “animais provisórios”, que nos obriga a trancar a sexualidade na porta dos fundos. Muitas vezes, na nossa literatura, não tivemos medo de falar das contradições sociais; o erotismo, no entanto, enrubesce. Por isso, a importância de ouvir a voz de poetas como Willer, ou Hilda Hilst.

Curiosamente, tememos o erotismo, mas nem sempre o pornográfico. Umberto Eco, no livro Seis passeios pelo bosque da ficção, diz que a pornografia nunca perde tempo: o tempo do seu discurso coincide com o tempo da história, ou seja, se vemos uma relação sexual num filme pornográfico, é muito provável que o início e o fim dessa relação, no filme, coincidam com a duração do ato em si. Embora este critério criado por Eco não seja uma regra geral e infalível, o que nos interessa é perceber que, de fato, o compromisso da pornografia é com o documento; o erotismo, pelo contrário, se compromete com o poético. O pornográfico aponta para um único caminho: a excitação, que cresce e cresce até alcançar a explosão do gozo; o erótico, no entanto, sem abdicar do gozo, nos propõe a multiplicidade.

Daí, o temor. As palavras de uma Bruna Surfistinha, por exemplo, são aceitas, inclusive dão lucro, porque a sua pornografia a ninguém ameaça, pois ela se escreve num nicho de conservadorismo e estereótipos ao qual toda experiência pornográfica se encontra confinada, como bem observa Manguel no livro que já citamos; com o erótico, isto não acontece, pois ele expõe, pela sensibilidade da arte, contradições humanas profundas. O erotismo mistura o elevado com o interdito. O erótico transtorna o sagrado. Em parte, a mudez da recepção da poesia de Hilda Hilst e de alguns poetas da Geração 60, como Willer, talvez possa se explicar pela exposição desavergonhada, feita por eles, das “vergonhas” do corpo. Um bom exemplo pode ilustrar isto: enquanto nas bancas de jornais, no início do século, se podia comprar revistas de mulheres nuas, desde que veladas por um saco de papel discreto, Joyce era processado por obscenidade, por causa do seu romance Ulisses.

O erotismo não é sinônimo de algo velado, no entanto. É possível ser mais explícito e ser erótico. Lembro agora dos filmes de Bertolucci, como O último tango em Paris, ou Os sonhadores, em que o explícito, ao analisarmos o conjunto da obra, se torna parte do erótico, não do pornográfico. Voltando à literatura, embora mais explícitos, não são pornográficos estes versos de Willer:

Fernando Maldonado

trepava-se pela noite de 28/10/77

era chegado o tempo das profecias e bacanais

das convocações exatas

chamados à realidade dos corpos

 

conjurações e posses:

nossos corpos iluminavam-se de dentro para fora

a cada movimento

esfregando-se lenta e pausadamente

A poesia de Willer transmite ao leitor uma sensação de visceral compromisso entre literatura e vivência. Por isso, tão próximo, o sexo. Sentimos a experiência humana, compartilhada através do ritmo destas palavras, vibrando, vivaz, como se ela tivesse ocorrido neste mesmo instante. Willer não precisa documentar a vida para aproximá-la de nós, ele a fecunda pela poesia e, num piscar de olhos, aí está ela, aqui, ao nosso lado.

Fernando MaldonadoO filósofo e escritor francês Bataille, ao escrever sobre erotismo, dizia que “na base do erotismo, temos a experiência de uma explosão, de uma violência no momento da explosão”, pois interessa ao erótico praticar uma violação do ser dos parceiros, ou seja, desmanchar no ato sexual toda a nossa individualidade e nossos sentidos. Para entender estas idéias, basta que você, que me dança, recorde o particular momento do gozo: no auge do prazer, você pertence a si mesmo? Não preciso ouvir a resposta – posso colhê-la no silêncio, ou no prazer do orgasmo que deixa, como diz Willer, “nossos corpos explodindo como grandes sóis bêbados” (2004, p.103).

Estes corpos incendiados, na poesia de Willer, se lançam um sobre o outro como se participassem de um ritual de celebração; da mesma forma, estamos no entregando, agora, à celebração da palavra criada – poesia. Existe experiência mais erótica? A homogeneização, a imposição de verdades, a alienação de partidos trabalhadores, ou não, isto, pelo contrário, afasta a poesia, como se ela fosse um anjo repudiando o pecado; isto não é erotismo. É pornografia.

Encerramos a dança. No poema Faz tempo que eu queria dizer isto, o poeta diz:

pelo toque da pele

como algo que termina e recomeça

dois poemas entrelaçados

mordendo-se como a serpente mítica

Ao aproximar a pele das minhas palavras à pele das palavras dos poemas de Willer, espero que, destes dois poemas entrelaçados, nasça a sedução da leitura. Minha palavra é de chama e correnteza: desde Camões, a poesia erótica quer conciliar os paradoxos da umidade e do fogo.

O mar, a fogueira, a poesia e o amor se movimentam.

Eu e você, afogados na fúria. Contorcidos, ali, onde já não é mais possível viver os nossos próprios nomes.  

Cristhiano Aguiar (Brasil, 1981). Narrador e ensaísta. Autor do livro de contos Ao lado do muro (Meta, 2006), editor da revista Crispim, de Crítica e Criação Literária, publicada pela Editora da UFPE, e colaborador do suplemento literário Augusto, do Jornal da Paraíba. Contato: cristhiano_aguiar@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Fernando Maldonado (Colômbia).

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