revista de cultura # 52
fortaleza, são paulo - julho/agosto de 2006






 

Cores fortes e movimentos largos: a obra densa de Egas Francisco
[entrevista]

Ana Lúcia Vasconcelos

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Egas FranciscoArtista plástico, desenhista, cenógrafo, Egas Francisco Sampaio de Souza, Egas, 68 anos, mas parecendo vinte menos, nasceu em São Paulo, de pais baianos, mas mora em Campinas desde os sete, sendo que já desenhava na infância - mais exatamente no quintal da sua casa, com carvão e lápis cera desde os quatro. Autodidata freqüentou cursos de pintura em Salvador-Bahia, no MASP, MAM e na Pinacoteca do Estado de São Paulo, Mora em Campinas, mas passou temporadas em Salvador (Bahia), Rio de Janeiro, São Paulo e cidades da Itália, Áustria, Alemanha e Holanda por onde esteve em 1985/1986, 997/1998 e 1990 fazendo exposições com grande sucesso de público e crítica.

Reconhece influência de alguns mestres como Van Gogh, El Greco e Tintoretto na sua vasta obra - só na sua casa-atelier têm mais de 500 telas, sendo que cerca de 100 de grandes dimensões (mais de dois metros de altura) e mais de quatro mil desenhos e aquarelas, sem contar naturalmente as obras vendidas, doadas e presenteadas ao longo desses cinqüenta e seis anos - sua primeira exposição foi em 1960 na Livraria Macunaíma em São Paulo com apresentação de Maurice Capovilla - dedicados de corpo e alma ao seu trabalho.

Ao longo da sua carreira realizou importante trabalho como criador de um curso livre para engraxates e jornaleiros em 1953 quando ainda tinha quinze anos que ele ministrava nas praças e parques de Campinas, formou alguns importantes artistas que hoje estão espalhados pelo Brasil, que foram seus alunos e depois enveredaram para outras artes como teatro, desenho publicitário, arquitetura.

Realizou dezenas de exposições individuais e coletivas em várias capitais do Brasil e do exterior: em 1964 no Rio de Janeiro na Petite Galerie; Grupo Hoje, no MAC/Campinas, 1972; participou de duas no MASP: Trinta Anos de Arte Moderna, e a Coletiva Bosch em 1975 e uma individual na Aliança Francesa (SP), neste mesmo ano. Participou da Bienal de Artes Plásticas de São Paulo em 1976; de uma coletiva e uma individual no Paço das Artes em 1977/1978, outra na Fundação Cultural do Distrito Federal em Brasília, em 1979; Retrospectiva, no MAC/Campinas, 1982 entre outras.

Tem obras em importantes coleções particulares da Europa e da América e em acervos de museus e pinacotecas: Museu de Arte de Murcia (Espanha); Laboratório degli artisti (Udine, Itália); Pinacoteca Garcia Lorca (Granada, Espanha). “Amigos Del Arco” (Madri, Espanha).

Escreveram a seu respeito críticos, jornalistas e poetas brasileiros e estrangeiros: Paulina Kaz, José Geraldo Vieira, Maria José Pupo Nogueira, Ouirino da Silva, Fernando Leite Mendes, Mário Schemberg, Olney Krüse, Regis de Moraes, Pedro Manuel, Francesco Amato, Antonio de Santis, Fellice Ballero, Lino Lazzari, Luciano Perissinotto, Natale Zaccuri, Lucio Damiani, Domenico Cardoresi, J.Toledo, Alexandre dos Santos Ribeiro entre outros.

Em março de 2006 foi lançada a Associação de Amigos de Egas idealizada por alguns amigos de longa data do artista, que já tem entre seus sócios-fundadores: médicos, advogados, empresários, professores, administradores e artistas para justamente preservar e difundir sua obra.

Nesta entrevista Egas fala do seu amor pela pintura, pelos seus alunos, conta seu processo criativo, relembra suas dezenas de exposições ocorridas ao longo desses mais de cinqüenta anos, aqui no Brasil e em alguns países da Europa, de sua visão de mundo, suas preferências por artistas de todos os tempos, seu amor pela Itália e especialmente sua paixão por Salvador terra dos seus pais. [ALV]

ALV Egas você nasceu em São Paulo, mais precisamente onde?

EF Nasci em São Paulo na Vila Mariana, em frente ao Largo Ana Rosa, quer dizer na verdade eu nasci na Pro Mater, mas minha mãe já morava em Lins, conquanto tivesse morado anteriormente em São Paulo quando veio da Bahia, onde ela se casou com meu pai. Casaram-se em São Paulo…

ALV Eles se conheceram em São Paulo?

EF Não, meu pai veio apaixonadíssimo da Bahia atrás da minha mãe, que estava morando com minha avó que residia em São Paulo. Aliás, minha avó foi uma das primeiras universitárias brasileiras, foi um das primeiras mulheres a se sentar num banco de uma universidade neste país. Ela foi raptada pela família por causa disso e então não pode fazer medicina porque se considerava um escândalo uma mulher dissecar cadáveres…

ALV Como ela se chamava?

EF Alice Pedreira Sampaio e justamente ela veio para São Paulo morar na Vila Mariana, porque meu avô morreu. Meu avô Egas de quem eu tenho o nome, pai da minha mãe e minha mãe na verdade era filha única… Aqueles meus tios todos na verdade eram tios dela que passaram para nós: tia Marieta, todos eles. Meu avô morreu não me lembro bem, mas foi numa daquelas epidemias e era muito bonito, moço, jovem. Era até engraçado porque ele era de origem hispano-portuguesa, mas era muito loiro de olhos claros, e as pessoas achavam que ele era nórdico…

ALV Daí seus olhos azuis?

EF É o olho azul do meu avô…

ALV Porque em geral baianos não tem olhos azuis… ou tem?

EF Atualmente não, mas na minha geração ainda tinha bastante porque havia uma proximidade maior com os antecessores, colonizadores, invasores europeus como é o nosso caso. Aí eu nasci em São Paulo, no dia 6 de outubro de 1938.

ALV E com quantos anos veio para Campinas? E ainda: sei que você começou a desenhar muito cedo, criança ainda, com quantos anos?

EF Na verdade de lá nós fomos morar em Lins, tanto que meus irmãos subseqüentes nasceram em Lins. Mas acredito que tenha vindo para Campinas com sete anos e a esta altura já desenhava. Não sei exatamente com quantos anos eu comecei a desenhar, sei que com sete anos eu já desenhava, mas acho que toda a criança desenha independente de ser artista ou não, porque o desenho é uma forma uma manifestação que está intimamente ligada ao homem, aliás, uma das primeiras formas de expressão que ele encontra é o traço, como a fala. Ele sente a necessidade de riscar mesmo que ele não tenha um instrumento. É impressionante - o gesto e o traço são irmãos por isso que eu digo que o ator também é um desenhista

ALV Ele desenha com o corpo…

EF Ele desenha com o corpo, ele compõe a personagem, ele tem que fazer os cálculos exatos para saber onde e como ele se situa e o que isso significa dentro do espaço. Porque toda arte é unida.

ALV Ou seja, você nem se lembra quando começou a desenhar, desde sempre?

EF Eu diria que me lembro disso porque minha tia Marieta quando ela me alfabetizou - irmã da minha mãe, eu tinha adoração por ela, ela era educadora, foi assistente do Anísio Teixeira que foi ministro da Educação - foi ela que fundou em Salvador uma escola modelo a Escola Góes Calmon, escola profissionalizante – os meus cadernos que ela la guardou são todos desenhados, e eu tinha seis anos. Agora as figuras já eram reconhecíveis… Já, figura humana, cavalo, boi, você reconhecia nitidamente com seis anos os cavalos, bois, prédios…

ALV Sei também que fazia desenhos no quintal da sua casa com carvão e lápis cera - isso você me contou lá longe numa entrevista que fiz com você? O que desenhava nesta época? Já em Campinas?

EF Antes, lá em Lins já fazia isso com quatro, cinco anos. Porque minha mãe ao fazer a limpesa da casa forrava o chão com jornais e eu me abstraia das letras ou as integrava nos meus desenhos, porque eu desenhava em cima de jornais com carvão de cozinha e no cimento também e isso até hoje. Eu falo que sou o primeiro grafiteiro porque eu saia na rua e voltava de noite, a pé como eu faço até hoje… Sou um andarilho.

ALV Daí você conservar a forma? Porque ninguém diz a sua idade.

EF Talvez por isso, mas pega um retrato meu de anos atrás assim fosse… Mas então quando eu voltava à noite, eu desenhava nas paredes dos muros, não desenhava na fachada de uma casa, acho um absurdo você agredir um imóvel, mas aqueles muros abandonados é que me atraíam. E interessante talvez até as coisas que tem uma marca de vida, que foram tocadas, vividas pelas pessoas, que sofreram o desgaste do tempo exerçam sobre mim uma atração maior. Um jornal velho, por exemplo, que eu encontro na rua, rasgado pode gerar um trabalho, um jornal novo jamais gerará um trabalho meu, uma revista. E eu nunca copio absolutamente nada, fotografia, eu tiro do natural, olhando a pessoa, porque ali está gravado o meu olhar, a minha impressão. Retrato para mim é isso, não reprodução literal de uma fotografia. Mas desde sempre então, minha pintura já era uma procura da figura, os meus primeiros desenhos já eram uma procura da figura, onde os primeiros sinais da existência dessa figura se deixavam perceber.

ALV Apesar de sempre ter se assumido como um artista autodidata sei que estudou em escolas de arte em Salvador-Bahia, terra dos seus pais, e fez cursos no MASP, MAM, Pinacoteca de São Paulo . Você diria que a passagem por estas escolas, cursos mudou alguma coisa no teu trabalho? Cite alguns professores que te tocaram. Enfim, gostaria que falasse deste tempo em que foi estudante de arte.

EF É isso mesmo, isso é verdade, porque eu na realidade nunca fiz curso regular por isso sou autodidata, mesmo quando eu passando pela Bahia em 1957, fui transferido do Culto à Ciência (famoso colégio de Campinas) para o Colégio Estadual de Salvador eu fiquei apaixonado pela Bahia como sou até hoje, eu conheci as histórias da minha mãe - ela havia feito curso de Belas Artes na Escola de Belas Artes de Salvador onde fora pintora, desenhista e modelo. Ela era considerada a mulher mais bonita da Bahia pelos artistas. Ela foi… Ela é a Samaritana do Museu de Arte Sacra da Bahia, e outras coisas assim. Foi modelo de pintores e escultores como Oséas e Mendonça Filho e Preciliano da Silva, que foram mestres na Escola de Belas Artes da Bahia. Eu ingressei na Escola pelas portas do fundo, como um visitante, peguei carona nas sessões de modelo vivo, de nu, porquanto eu não pudesse ser admitido. Eles só permitiam a entrada de maiores de vinte e um anos…

ALV E você tinha?

EF Eu tinha dezoito, mas eu entrei e aí eles ficaram impressionadíssimos ao ver com que rapidez, com que segurança eu fazia, e os meus desenhos eram inconfundíveis, e muitas vezes eles se misturavam, e eu mesmo muitas vezes os misturava para provar que eles não reconheciam seus próprios desenhos. Mas saí da Escola por conselho do próprio Mendonça Filho que me disse: você não tem que ficar aqui, você tem que ir embora, a tua escola é esta mesmo que você está tendo: a rua. E era na rua que eu desenhava mesmo. Quando eu entrava na Escola de Belas Artes eu já tinha desenhado tudo o que tinha que desenhar naquele dia, eu só ia lá para aproveitar o desenho vivo, o nu. Eu discutia ainda com eles, porque este ângulo é proibido, porque aquele ângulo é proibido?

Egas FranciscoALV Por que havia ângulos proibidos?

EF Eram os tabus e eu enfrentava todos os tabus. Então saí da Escola e quer dizer que nunca fiz o curso regular. Posso dizer que aprendi mais técnica na observação dos grandes mestres. Desde criança fiz cópias de Rembrandt, eu fazia bico de pena. Tenho em casa uma carta escrita a Odete minha prima, que é pintora, escultora, mora em Salvador, que é mais velha dez anos, da família da minha mãe também, que foi a grande surpresa para meus pais, meu pai principalmente - porque minha mãe já tinha mais consciência. Mas foi olhando esta carta, que estava toda desenhada que ele sentiu a dimensão da coisa. Quando ele viu não acreditou que eu tivesse feito aquilo. E nunca fui de ficar medindo nada, nunca quadriculei, nunca fui de copiar. O único artista que copiei na minha vida foi Rembrandt, por causa do traço, do desenho.

ALV Inclusive suas primeiras pinturas tem alguma coisa dele não?

EF Tem um pouco, acho que tem mais Vincent Van Gogh. E também tenha muito de El Greco e isso eu já sentia desde 1958, quando eu era adolescente ainda, mesmo tendo sido sempre um rebelde, mas, mais tarde, fui reconhecer uma coisa, aliás, confirmada na Europa, que é uma afinidade no olhar, na concepção da figura, na fantasmagoria com El Greco. Eu acho que é maior afinidade que tenho talvez seja com El Greco e Tintoretto.

ALV Você morou na Bahia em que época? Ficou onde, em que cidades além de Salvador?

EF Estive na Bahia na primeira vez de 1957 até 1958 e em 1963 retornei. Foi quando fiz uma exposição na União Cultural Brasil Estados – Unidos em Salvador e fiz uma na rua também, na Cidade Baixa, no porto, e chamava-se Exposição Aberta Eu morei em Salvador primeiro, e falo que Salvador é um universo, não é uma cidade, por causa do mundo que se cria e recria todos os dias. Todas as vezes que você sai da sua casa, da mesma casa em que você mora, não só toda a paisagem se transforma como você se sente transformado e a sua casa também no seu retorno não é igual.

ALV Sim, é aquilo que o Heráclito dizia: você não entra duas vezes no mesmo rio, porque o rio mudou e você também. Mas por que você acha que outras cidades não têm isso, quero dizer por que Salvador tem e outras não? Campinas, por exemplo, você sai e volta e é sempre a mesma coisa. Aliás, o pessoal que morou nos últimos tempos na Casa do Sol, como a artista plástica Olga Bilenki dizia que a Hilda (Hilst) às vezes, tinha acessos de desespero de não ser lida, de ser tão relegada e tudo o mais e ia para o pátio, levantava as mãos pra o alto e dizia: é karma, é karma. A empregada falava: não é carma que fala dona Hilda, é calma. (risadas)

EF Não, Campinas não tem isso, jamais, Campinas é uma cidade superficialissima, é uma cidade que eu quero bem, mais do que ela me quer (risadas). Quando me perguntam: mas por que você escolheu Campinas? Eu não sei. Como dizia minha adorada amiga Hilda Hilst é karma.

ALV Gostaria que falasse desta sua fase e da influência que a cidade de Salvador exerceu na sua pintura.

EF Exatamente se existiu uma cidade que realmente exerceu influência na minha pintura é Salvador, mais do que qualquer outra cidade, aliás, nenhuma outra cidade pode competir com Salvador. Depois mais longinquamente pode ser ainda na Europa, uma cidade portuária como Gênova pela semelhança, pelas recordações que ela me trazia de Salvador também. Então o porto de Salvador, ali a vida é muito evidente, ela está impregnada em todas as coisas, os objetos…

ALV Uma sensualidade a flor da pele…

EF Uma sensualidade esplendorosamente sincera e verdadeira, não é verdade? Aquilo que é sensualidade, não é pornografia, no azeite de dendê já é sensualidade. Temperou com azeite já é libidinoso. O sol, o clima, o sol já é sensual, areia faz aquela cócega, o mar pega nos pés da gente e vem até o cóccix (Risadas). Sabe a Bahia aquela negritude, ela é maravilhosa. E não é aquela coisa comercial de axé, mas a Bahia verdadeira, da cultura afro baiana, que é pura, santa, quase, eu acho santa mesmo. Acredito muito na beleza, na sinceridade daqueles rituais afro baianos sendo que nos daqui não boto esta fé. Acho que o candomblé fora de Salvador não tem aquele lado visceral, aquela força da cultura, da religião, é uma coisa mais folclórica. E lá não é assim, lá é cultura mesmo.

ALV Você reconhece influências de que artistas no seu trabalho que sempre foi figurativo, mas passou por várias fases, não? Gostaria que falasse sobre isso, quero dizer em que fontes se inspira, para realizar esta tua obra que é tão poderosa, vibrante e forte, marcada por cores quentes e largos movimentos?

EF Eu sempre aprendi que a melhor lição que um artista passa para o outro é o da autenticidade. Então se você não se conhece a si mesmo e não varre o seu quintal todos os dias, não conhece o seu terreno não pode ser você mesmo. Você não pode ser nacional e daí jamais poderá ser internacional. É claro que influencias todas as pessoas tem da mesma forma que você influencia também. Lógico, vivemos num mundo onde as coisas se interrelacionam, daí o que entra na minha pintura é mais do que acontece na minha vida, na vida passo a passo e aí que as impressões causadas por grandes espetáculos ou pelo próprio espetáculo da vida ou pelo comportamento de uma pessoa como a Gilda, por exemplo, que andava pelas ruas de Campinas e acreditava ser a Gilda representada pela Rita Hayworth. Numa certa tarde ela entrou numa matiné assistiu Gilda, assumiu o personagem e rompeu com todos os problemas que tinha na vida para viver aquela fantasia. Eu pinto a Gilda até hoje e ela morreu em 1969. A Gilda é uma das personagens mais poéticas que eu já vi em toda a minha vida, popular. Ela era pura. Mas como ela tinha um comportamento muito diferente do usual, ficou tachada de louca, mas na verdade aquilo era um ato poético.

ALV Li numa matéria publicada no Jornal do Brasil, em 1964, o articulista dizendo que a tua pintura possuía “um misticismo indisfarçável impregnado pelo ambiente da Bahia, terra de seus pais” e que lembrava velhas rezas e superstições. E ainda: que seus quadros, demonstravam um acúmulo de experiências de todos os lugares por onde você passara e onde se podia notar um predomínio da verticalidade. Falavam de uma ânsia pelo infinito e sublimidade e traduziam uma mensagem religiosa. Este artigo é da sua famosa fase azul que fez um sucesso grande especialmente no Rio de Janeiro onde você expôs na Petite Galerie. Você reconhece isso? Este misticismo, esta mensagem religiosa? Enfim, gostaria que falasse deste período que te projetou nacionalmente, mas que posteriormente de certa forma rejeitou.

EF Em termos concordo, sim, e o artigo na verdade é transcrição da apresentação no catálogo feito para a exposição na Petite Galerie assinada pela grande jornalista Paulina Kaz, aliás, muito bem escrito, sendo que foi ela quem me lançou no Rio de Janeiro. Eu devo muito a Paulina Kaz que é uma pintora é uma jornalista das grandes do Rio. Ela deve estar hoje na faixa dos oitenta. Ela é Paulina Bloch Kaz e era sobrinha do Adolpho Bloch, e ajudou a fundar a Manchete entre outras revistas da Editora Bloch.

ALV E como foi seu contato com a Paulina, vocês já se conheciam?

EF Eu a vi na revista e fui ao Rio procura-la. Ela gostou do meu trabalho e – engraçado porque cheguei num momento propicio, porque eles estavam escolhendo os artistas que iam participar do Primeiro Leilão de Arte Moderna da Revista O Cruzeiro. E eu entrei e dei a sorte de ser a Revelação do Ano (1964) no Rio de Janeiro. Fui o único artista vivo que vendeu e eu era o caçula e era um ilustre desconhecido e meu quadro chamava-se “Queda e Indiferença”. Era um quadro de pequena quadratura diante dos meus quadros de hoje que são enormes, embora eu tivesse, na exposição subseqüente ou conseqüente na Petite Galerie, quadros que já eram considerados de grande quadratura. E aí que vem a história das rezas, das crendices das superstições que estão no cerne desta exposição e até hoje são assuntos que eu trato sim, eu reconheço. Por exemplo, eu nunca abandonei as filhas de santo, semana passada pintei uma filha de santo. Pintei uma aquarela com dois metros de altura. Acho que ninguém faz aquarela deste tamanho, eu compro rolo de papel e é estrangeiro, caríssimo, fico sem comer… É verdade e minha aquarela é boa. Agora, não que eu tenha uma mensagem religiosa, eu não tenho esta pretensão. Acho que meu trabalho pode tratar de assuntos religiosos, ele pode até passar alguma coisa, mas não tenho nem as ferramentas para ser um pintor sacro, não sou um pintor sacro. Trato de assuntos, às vezes transcendentais, e digo que quem pinta o meu quadro é meu quadro. Eu só começo, só me agito, sofro.

ALV Depois desta sua fase na Bahia e Rio onde se revelou como um jovem artista promissor, o pintor do azul…

EF É esta história toda que eu fiquei bravo, o místico pintor do azul…

ALV Certo, mas de inegável sucesso, você volta para Campinas e recomeça dar aulas para engraxates e jornaleiros nas praças e parques da cidade. Como começou essa história toda, dos cursos para crianças?

Egas FranciscoEF Não sei, esta volta foi fatídica, eu estava com toda a bola e larguei tudo, porque em cinco anos se esquece totalmente de uma pessoa. Voltei a trabalhar com crianças e a história das crianças foi a seguinte. Eu andava pelas ruas da cidade a pé nos fins de semana com meus irmãos e nós íamos andando pela rua e entravamos no Clube Fonte São Paulo e ficávamos vendo o pessoal se divertir - este era o nosso divertimento. Não éramos sócios de clube nenhum, como podia uma família enorme. Então a gente ia a Fonte São Paulo e ficava olhando o pessoal na piscina aquela coisa toda. E depois eu ia andando para a cidade - eu já era andarilho desde aquele tempo e ia até a catedral gostava de ver o Cristo que sai na Semana Santa, o desenhei muitas vezes e o pano roxo eu achava patético, mas gostava… Sempre tive este lado trágico tanto que amo Maria Callas… Então sei que com isso cheguei ao Centro de Ciências (Letras e Artes - um dos mais antigos centros culturais de Campinas que hoje abriga o Museu Carlos Gomes, uma biblioteca importante entre outras coisas). E subindo as escadarias do Centro de Ciências me deparei com a Maria Luiza Pinto de Moura de quem acabei de fazer um retrato póstumo que foi inaugurado no dia 6 de julho de 2006. Para mim a maior figura que o Centro de Ciências já teve foi ela. E agora estou voltando à direção da Galeria. E daí subindo, conversando com a Maria Luiza foi que surgiu a idéia do curso para crianças…

ALV Crianças que eram?

EF Eram filhos dos associados. Mas ela então vendo meus desenhos, e eu lia muito, sempre li muito, ela gostou e aí ficamos amigos, definitivamente amigos e nasceu o curso para crianças. E eu os levava para as praças, levei para o Largo do Rosário e lá encontrei os engraxates - interessante que eu também era bem novo, tinha aí uns 15 anos. Mas isso aconteceu muito rápido, parecia coisa do destino, uma missão mesmo. Aliás, por isso que estou nesta situação hoje, só gosto de dar aula para pobre. (Risadas) E não é só gostar eu me sinto responsável por essas crianças especialmente da periferia. E então estavam lá no largo os engraxates e jornaleiros e eu fiz as crianças dividiram o material com eles e surgiu o curso livre dos engraxates e jornaleiros que durou oito anos. Cheguei até a ser homenageado por este trabalho, que foi considerado inovador na época em Brasília. Eu pensei que ia ser preso quando eu vi aquela gentarada. Na verdade estava indo para Brasília para uma exposição no Centro Cultural de Brasília

ALV Também que época era esta? Ditadura militar?

EF Era, e pensei quem está neste avião? E a imprensa toda e de repente percebi que era comigo mesmo. Mas quando vi a Manchete lá fiquei mais tranqüilo, porque a Manchete tinha um pé na esquerda, e um na direita, ela ficava em cima do muro. Mas então fui homenageado pela Manchete porque fui considerado um dos iniciadores dessa coisa toda, um pouco depois da criação da Escolinha de Arte do Augusto Teixeira. Aliás, fui comparado com ele, considerado inovador.

ALV Mas como foi para você essa experiência? Aliás, sempre foi uma pessoa preocupada com a questão social, não é? Com a problemática não só político social, mas com a questão humana. Gostaria que falasse sobre isso, sua visão de mundo, sua postura diante desse sistema em que vivemos de disparidades sociais insuportáveis, enfim tudo isso que vemos há tempos e que hoje recrudesce mais e mais justamente pelo acúmulo de injustiças em varias áreas e leva a violência que presenciamos.

EF Então, naquele período em que trabalhei com as crianças, adolescentes também, sempre gostei de dar aulas, era um outro tempo. O mundo vai se transformando e você infelizmente tem testemunhado isto, tenho certeza, e essas transformações são em geral para pior, as pessoas vão ficando cada vez mais materialistas e os relacionamentos com as pessoas vão ficando cada vez mais difíceis e a escala de valores é completamente diferente daquela na qual nós nos formamos. Então é como nós não pertencêssemos mais a este mundo. Eu me sinto assim. Agora a resposta que tive dos cursos livres, para crianças e adolescentes foi o que de melhor eu recebi na minha vida. E ainda bem, eles cresceram, alguns se tornaram grandes artistas - o próprio Paulo Scheida Sans, atualmente professor da PUC/Campinas foi meu aluno, o Luis Otávio Burnier, criador do Lume, que morreu. Eu dizia: Luis, a sua arte é o gesto, você é um bailarino. Ele tinha um traço meio duro, diferente do gesto, mas quando ele passou para a cera que era o gesto direto manifestava-se muito melhor. Eu tenho peças dele que sua mãe, me deu, tenho desenhos e pinturas dele, aliás, tenho desenhos e pinturas de todas as gerações de alunos. Outro que posso citar: o Artur Cury Fonseca que é um grande desenhista, maravilhoso, o Normando Martins Santos, morava em São Paulo, faleceu infelizmente moço, faz uns dois três anos, ele fez arquitetura na USP e a irmã dele também foi minha aluna. Fui eu que a preparei para fazer vestibular que foi muito bem sucedida. Ela tem um desenho muito especial, fora o desenho arquitetônico. Ela é desenhista ilustradora. Pintores têm muitos, não é? Tem o Fabrício Nery da nova geração, que está se lançando com muita expressão, tem artistas que partiram para outras áreas como, por exemplo, a música, tem o Alexandre, o Alex Bittencourt que são músicos da música popular, mas o cara é considerado um dos maiores baixistas do Brasil e eles falam: a primeira vez que ouvi jazz foi na casa do Egas, nunca tinha ouvido. Eu falava para eles este é tal instrumento, este é tal, este é fulano, este é Berlioz, este é Villa Lobos, este é Pixinguinha, este é Johann Sebastian Bach, este é Handel, este é Beethoven, este é Mozart, este é Chopin, a escola russa, Prokofiev, e eles ouviam a música cantada - a Ellis Regina. As músicas brasileiras de extrema expressão que a nossa geração foi a mais privilegiada e a música instrumental brasileira, as bandas de pífano, tudo isso estava ligado à pintura.

ALV Porque afinal todas as artes estão ligadas?

EF Pois é… Às vezes eu falava para eles: hoje nós vamos receber uma grande amiga do pintor, nós vamos recebê-la, ela tem olhos claros como os da minha mãe e aí pegava Cecília Meirelles que tem aquela serenidade maravilhosa e aquela força gigantesca. Todo país gostaria de ter uma Cecília Meirelles. Então cada um escolhia o que ia ler e o que ia interpretar e traduzir em termos visuais. Isso era interessante porque chamava atenção para a leitura.

ALV E cada um ia depois para sua arte?

EF Como aconteceu… Cada um foi fazer uma coisa - uma menina foi fazer teatro e eu também tive muita ligação com o teatro a vida inteira, fazendo cenografia, caracterização que eu adorava fazer… Fiz coisas para o Téspis, antes eu fiz para o TEC (Teatro do Estudante de Campinas). Aliás, tenho grande admiração pela Tereza Aguiar (que foi diretora do grupo).

ALV Mas enfim, esta experiência com seus alunos foi maravilhosa e até hoje tem frutos. Você vê os frutos? Aliás, você deu aulas em que lugares?Sei que lecionou em alguns educandários. E você fazia exposições com os trabalhos deles?

EF Eu dei aula na praça - tem um engraxate que trabalha até hoje na praça, mas, além disso, ele trabalha com desenho publicitário. Há outros que se tornaram mesmo publicitários. Eu dei aula para o Instituto Dom Nery e o Ronaldo - não me lembro agora o sobrenome, eram tantos, que se tornou um grande cabeleireiro no Rio de Janeiro, tem até um desenho dele, uma Nossa Senhora muito bonita incorporada ao acervo do Centro de Ciências Letras e Artes. E há outros que são publicitários mesmo, partiram para outro trabalho. Fazia exposições e até briguei por causa deles várias vezes - quando as senhoras entravam com seus carros luxuosos e eu disse não: deixem os seus carros lá fora. E havia também senhoras maravilhosas, muitas, pessoas muito dedicadas. E o Saulo Montserrat fez um trabalho muito bonito e era um militar o que é uma coisa rara entre os militares, mas ele realmente e uma pessoa muito especial. Há exceções, e eu conheci algumas que exatamente por serem exceções sofreram muito.

ALV Agora vou fazer uma citação longa do Mario Schenberg escrevendo sobre sua obra em 1977 e gostaria que você comentasse passo a passo, já que ele faz uma análise da tua obra e quero que você confronte isso, a fala dele e as tuas opiniões. Então vamos lá: ele constata que você mantém desde os anos 60 quando apareceu como uma promessa jovem dentro do figurativismo no Brasil, depois da onda abstracionista, uma impressionante continuidade. Afirma que você desenvolve uma forma pessoal de figurativismo plenamente atualizado sem se deixar prender pela moda do hiper-realismo e da imagem fotográfica como foi a moda pop dos anos 60. Diz ainda que a natureza da sua pintura sempre foi determinada por um interesse afetuoso pela pessoa humana sem grandes preocupações com o ambiente. Anota que você nunca foi o pintor das paisagens e de naturezas mortas, mas que sempre se voltou para o ser humano e seu sofrimento numa busca mais existencial do que psicológica.

EF Isso é verdade, porque na década de 60 o abstracionismo dominava. Em 1950, por exemplo, é o advento do abstracionismo no Brasil, porque esses movimentos, tendências aparentemente novas chegam ao Brasil com certo atraso, chegou como uma coisa, quando na realidade o figurativo se manteve a margem enquanto aconteceu o abstrato. E eu até defendo a tese de que abstracionismo existe dentro da pintura figurativa desde que a pintura figurativa existe. Se você pegar um fragmento de um quadro meu ele é abstrato. Então, esta diferença que existia nesta época muito, mesmo - o que era abstrato e o que não era abstrato, está voltando agora parece, o acho uma caretice. Porque acredito que não importa se o artista é abstrato ou figurativo. Importa que seja artista, e que seja ele mesmo. E esta postura de o artista aderir a corrente que está em moda, que está acontecendo lá fora, numa outra realidade, num outro país completamente diferente do nosso também acho muito artificial e não conduz a um resultado sério, verdadeiro, mas facilmente se obtém sucesso no mercado e é assim que trabalham as galerias. Hoje em dia, por exemplo, as galerias orientam os jovens artistas no sentido de eles serem a réplica de um artista que está tendo sucesso lá fora. E o mercado paga preços vultosos, porque é um bom negócio, não por que seja um trabalho artístico. Mas nos anos 60, artistas abstratos de grande expressão se manifestaram no Brasil como a Iolanda Morale, o Flexor, o Manabu Mabe, enfim havia grandes artistas. E como havia também figurativos, nós tínhamos tanto uma coisa como outra. Sempre fui figurativo, sempre fui fiel à figura porque a minha pintura é intimamente ligada ao homem e ao seu destino. Então não poderia ser completamente abstrato não. Mesmo nas minhas concepções de paisagem já que ele fala na paisagem, me considero um bom paisagista, melhor que muitos pintores que se intitulam paisagistas, porque eu tenho um tratamento da paisagem que é humanizar a paisagem. Na minha paisagem o homem sempre está, esteve, ou estará presente. A presença do homem é marcada na minha paisagem. As minhas marinhas, por exemplo, são muito fortes. Então as entidades do mar estão presentes na minha marinha. Agora mesmo pintei uma que se chama “Espírito das Águas” que seria o naufrago, mas não o naufrago que foi vitima do mar, naufragou e morreu, não, é que ele renasce das águas.

ALV Continuando ainda com o Mario Schenberg ele vai dizer que seu realismo não é nem expressionista, nem impressionista, nem pop, nem hiper-realista.

EF Gosto quando ele diz isso porque todos me classificam mais como expressionista e sempre discuto esta questão. Eu tenho uma opinião diferente até da do Mário. Para mim o expressionismo não é um estilo, o expressionismo é caráter. Então o artista ser ou não expressionista isso não depende da vontade dele - o traço dele expressa isso, ele é expressionista. Ele atende uma necessidade inadiável de pintar de escrever, de representar, de compor, de fazer musica…

ALV Mas você concorda que existe uma Escola Impressionista?

EF Mas o impressionismo é um estilo, porque o impressionismo tem uma ótica, ele tem uma forma, um programa. O expressionismo não tem programa e um artista pode ser expressionista e impressionista e Vincent van Gogh é um exemplo típico disso. Outro é James Ensor, outro é Edvard Munch. Se você vir esses artistas eles têm uma técnica - Vincent Van Gogh tem uma técnica impressionista de fragmento de toque, de pintura em plein air - ao ar livre, onde a figura é feita através das modulações da luz, das transformações da luz que é um comportamento técnico impressionista e ele é indiscutivelmente um expressionista de grande força. E o que é o expressionismo dele? É a alma que bole, é aquilo que dentro da obra está sempre pulsando. Você sente que existe uma pulsação. O expressionista é um pintor carregado de paixão e isso não existe no impressionismo…

ALV Que tem uma serenidade…

EF Uma felicidade. Talvez o único estilo que se possa dizer que é plenamente feliz é o impressionismo e qual artista, você poderia dizer que é plenamente feliz? Eu ponho dois: Claude Monet e Henry Matisse. Talvez tenha um outro: Chagall com aqueles violinistas em cima do telhado, mas Chagall já tem um pé na guerra. Agora o meu comportamento, que ele chama a atenção aí e que eu acho muito interessante é o fato de eu resistir a todas essas tentações, essas tendências sem me render a nenhuma.

ALV E sobre esta questão que ele aborda e que você diz não concordar inteiramente, quando, referindo-se a sua técnica, anota que passou do óleo ao acrílico para melhor descrever ou expressar a desumanização de um ambiente social no qual a cordialidade e a liberdade haviam sido esquecidas.

EF Não, eu não passei, foi um engano dele. Na verdade eu sempre descansei do óleo no acrílico, eu descanso meu fígado, na verdade… Porque as tintas são compostas do óleo de linho, de linhaça, de papoula, são venenos. E pior ainda são os chumbos, então os componentes das tintas muitos deles são letais e os artistas hoje em dia precisam tomar muito cuidado com isso e isso é um alerta que eu dou. Porque hoje não se tem metier, não é verdade?Eles não preparam a tinta deles, nunca prepararam, não sabem disso, inclusive misturam tintas incompatíveis que criam problemas técnicos, por exemplo, o quadro fica inteiro rachado. Isso aconteceu comigo também porque eu fazia minhas experiências, mas eram experiências, porque eu não comprava tintas prontas. Hoje é mais fácil - você compra tinta pronta e não mistura, por exemplo, azul da Prússia com amarelo de Nápoles que é loucura. Outra coisa: cuidado com o amarelo de Nápoles porque ele é muito perigoso por causa da composição do chumbo. Há cores muito perigosas e os amarelos estão entre as cores mais perigosas de todas, mais letais, porque tem muito chumbo. Há ainda as tintas que contem cobalto, os azuis, os violetas.

ALV E como você faz para se preservar?

EF Então, eu não uso máscara, deveria, porque como uso tinta em muita quantidade, minha pintura é muito texturada, muito matérica, e o contato na pele é perigoso também, e tenho este contato, às vezes saem manchas e depois somem, mas mesmo assim eu tenho medo. Mas uso acrílico até hoje, é raro, mas uso. Considero o acrílico uma grande descoberta, é a tinta do século XXI-é uma tinta que tem uma durabilidade garantida, uma resistência muito grande e das tintas posteriores ao óleo é a mais sólida embora ela não tenha a capacidade de multiplicar os tons que o óleo tem e nenhuma outra tinta tem embora ela não tenha a mesma textura. Então ela tem que recorrer a outros materiais para dar a idéia de textura.

ALV Não tem a maleabilidade do óleo?

EF Não, acho que não tem a textura mesmo, mas a palavra maleabilidade cabe também. Na verdade a descoberta da tinta a óleo é discutível. Durante muito tempo se pensou que tivesse sido na passagem da pintura medieval para o Renascimento, que tivesse sido Van Eyck o primeiro a usar o óleo para o amálgama, mas na verdade foi o Mestre de Flemalle que era contemporâneo dele, Jean de Champagne, artistas que eram químicos que pesquisavam as tintas. Porque naquela época até o Renascimento os artistas preparavam suas tintas e este metiê dava a eles ferramentas que hoje os artistas não têm. Ele podia fazer a cor que quisesse como queria, e o que queria, podia multiplicar as possibilidades técnicas do material com o qual lidava.

ALV Interessante isso, que hoje com toda a tecnologia se tenha perdido essas possibilidades…

Egas FranciscoEF Hoje existe o conforto das tintas dentro dos tubos, das tintas industrializadas, de você não precisar fazer, já encontrar pronta e realmente isso tem sido de grande valia. Por exemplo, a Le Franc é uma tinta francesa, que é uma marca, que é industrializada desde a época do impressionismo. Ela foi usada por artistas como Vincent Van Gogh, Claude Monet, Renoir, toda essa turma do século XX, todos eles - Matisse, Picasso, Miró, os expressionistas, todos. Elas são tintas muito bem preparadas só que às vezes o artista que as usa não as conhece tão bem e aí que ele erra. Porque mistura e às vezes encontra tons encantadores, mas que depois de misturadas e secas se transformam na superfície: umas trincam, outras escurecem. Ou seja, ele precisa conhecer a compatibilidade e a incompatibilidade, a composição química, o amarelo ideal que pode ser misturado com o azul da Prússia, por exemplo, ou com o azul cobalto, para fazer os verdes, como criar os violetas e também tomar cuidado com o branco chumbo. O branco chumbo é um veneno que se você puser na boca você pode morrer.

ALV Isso já aconteceu com você?

EF Comigo já aconteceu de eu sentir os dentes como se eles fossem de metal. Fui levado para o hospital e tiveram que fazer lavagem. Eu pus na boca sem querer. E já tive problemas bem sérios, manchas na pele, dores de cabeça, problemas no fígado. Ha ainda as tintas de composição animal como o sépia que é de raspa de osso, o preto marfim feito de marfim mesmo ou então de chifre que são queimados e moídos. Este pigmento é diluído no óleo e então temos os óleos. Os artistas flamengos tinham grandes segredos, tinham óleos muito especiais que consideravam mágicos e uns artistas espiavam os dos outros, roubavam a fórmula. Andrea Mantegna, por exemplo, na Itália tinha segredos técnicos inclusive a propósito da anatomia e da perspectiva. Da mesma forma o Piero de La Francesca, no Pré Renascimento. O surgimento da perspectiva, período onde aconteceu grande conquista dentro das artes visuais e os artistas que são responsáveis por isso são o Paolo Ucello, Piero de La Francesca. O Miguelangelo, por exemplo, que vai analisar a perspectiva - ele como pintor, escultor e arquiteto sobremodo, ele vai atuar na Capela Sistina de modo a dar a idéia de que existem nichos e pavimentos que não existem, são pintados. E daí ele situa os personagens, os profetas…

ALV E esses mestres todos são teus mestres?

EF São eles são mestres de todos, eles são os mestres dos mestres.

ALV Quando te entrevistei em 1979 para o Jornal de Hoje, de Campinas, estávamos em plena ditadura militar e você dizia que seu trabalho sempre foi voltado para o homem, mas nunca foi panfletário. E justamente uma visão atenta dos seus quadros nesses últimos quinze anos (em relação a 1964) de medo, angústia, repressões e assassinatos você se aprofundou no problema da dor humana, da resistência, na dor, na constatação das sombras terríveis que se projetavam na nossa pobre sociedade. E a constatação da impotência do artista diante da violência fez com que passasse a usar cores cada vez mais fortes para “expressar o inexprimível”. Gostaria que falasse sobre esta ligação visceral de sua obra com a vida, com o momento sóciopolítico humano que vivemos. Isso, apesar de saber que o artista em geral trabalha com os materiais que tem a sua disposição - ou seja, seu tempo, seu momento histórico com todas as suas circunstancias.

EF Considero que a maior contribuição da arte para o seu tempo, dentro do seu tempo é uma questão muito séria, muito importante e implica em muita reflexão e que compromete mesmo o caráter de quem faz, do artista. O artista tem que ter uma posição, mais que do que qualquer outro, ele tem que ter uma posição política, social, do ponto de vista de um papel na sociedade. Agora o trabalho dele de pintura, de desenho, de composição vamos falar composição que abrange todas as formas de expressão - a música, a pintura, o teatro, é um trabalho onde a liberdade é fundamental para que isso possa acontecer com verdade, com sinceridade e que seja sólido e importante. Então eu sempre policiei muito o meu trabalho para que e não fosse panfletário mesmo, para que não tivesse um resultado fácil, para que a sua intenção e não aparecesse antes dele próprio. E que ele produzisse em termos visuais aquilo que eu sentia no mais profundo do meu ser e não apenas ele fosse a reprodução do meu olhar, mas sim o meu olhar na interpretação da alma que vigia.

ALV Seus sentimentos mais profundos diante daquele fato…

EF Daquele fato, daquele acontecimento, daquela coisa, entende? Que eu não deixasse de ser testemunha, que não deixasse de participar de modo algum, mas que aquilo fosse verdadeiro e estivesse dentro dos meus limites.

ALV Esta questão da liberdade que você fala que todo o artista deve ter, eu gostaria de desenvolver com você. Porque sabemos que a liberdade custa muito caro, certo? Custa o despojamento, custa a renuncia a uma vida confortável, custa a vida. Aliás, juntando isso queria citar o crítico Olney Kruse que disse que te considerava o mais solitário e atormentado artista de Campinas. Você concorda com isso? Por quê?

EF Custa tudo isso, sim custa a vida. Eu acho que todo o trabalho de arte tem o seu lado solitário e alguns que tem características mais solitárias como a pintura…

ALV A escritura também, porque o teatro já é uma arte coletiva…

EF A pintura, a literatura, a música para o compositor, porque depois ele apresenta publicamente a sua música, então ele tem esses dois lados. O artista plástico apresenta seu trabalho nas exposições, mas o trabalho dele, a execução da obra é um trabalho solitário. E por esta solidão às vezes ele luta violentamente, é uma luta, é uma batalha, para você manter, conquistar e fazer respeitada esta solidão, da invasão, porque há uma tendência a não se respeitar isso. Desde criança, nos primeiros passos então que as coisas estão brotando as pessoas não compreendem. Acham que você é uma criança anormal, um adolescente estranho. Agora ser estranho é muito importante (risadas) ser comum é que é desagradável. Agora que a solidão para mim é muito importante é. Eu conheço a forma, eu tenho uma relação sexual com ela, é verdade.

ALV Então você concorda com o Olney quando diz da solidão, dessa solidão necessária, não é? Mas atormentado, é?

EF Essa outra solidão eu nem sei o que é. Atormentado - sim existe um certo tormento - eu sou temperamental, sou agitado, não sou aquela pessoa serena, não sou um Guignard ou sei lá quem, tem algumas pessoas… é difícil falar de um artista que não seja atormentado. O Matisse não era, porque até os geométricos são atormentados. Ticiano é o mais atormentado, o Picasso é tudo - ele reúne tudo - do pólo norte ao pólo sul, ele está em todas as galáxias, tudo acontece paralelamente, se desenvolve contemporaneamente e é autentico verdadeiro. É monstruosamente genial. Não dá para comparar Miró com Picasso. Eu tenho todo o respeito por Miró, mas perto de Picasso, não dá para comparar.

ALV Gostaria que falasse agora do seu processo criativo - como acontece para você a criação. Você já disse que muitas coisas podem deslanchar o processo, até um jornal velho na rua. Enfim, a vida, os fatos, te inspiram e provocam a produção de obras de arte. Mas queria saber mais detalhes deste seu processo. Sei também que pinta o dia inteiro e até escreveu um texto onde diz que “para um pintor o dia começa iluminando a janela e a nudez de uma tela exposta à volúpia, pronta a ser possuída, desafiando do alto do cavalete a sensibilidade e os nervos do artista.” Fale sobre isso.

EF Há muitos artistas plásticos que fazem estudos minuciosos dos trabalhos e os reproduzem literalmente sobre o suporte definitivo. Não é o meu caso. Recuso qualquer programa. Considero insípido e tedioso tudo o que me pareça preconcebido. Prefiro o desafio que me leva mais longe e pode me surpreender. Para isso tenho que estar muito atento dentro do que executo. O pintor educa seu olhar toda a vez que depara com o universo ávido de um pano branco - ele descobre a arte nas entrelinhas e é por ali que o traço se esfola ou rasga, e é no traço que se insere o caráter. Não existe vida sem caráter e não existe arte sem vida. Quando pinto, sou levado a, entre outras e insuspeitáveis coisas, pelo espírito que a natureza evoca. Um sopro, um bicho, uma coisa, uma personagem, podem ser o ponto de partida. Mas eu só o começo a suspeitar onde vou chegar da metade da execução para frente. É a partir desse ponto que o quadro toma as rédeas e responde por cada decisão. Nesse momento não sou mais eu o pintor, mas o próprio quadro. Sempre foi assim, desde que eu era criança e pintava nas ruas ou na varanda da minha casa. O método tem a sua importância, mas ele tem que se submeter a mim. Dentro dele existem alguns juízos. É ele que avalia a relativa importância da precisão, controla o ritmo e dá uma medida ao rigor nos momentos de espasmo e volúpia, liberdade e força. Um retrato, por exemplo, não é simplesmente a representação gráfica da pessoa. Retratos são poemas inevitavelmente imagéticos, onde se imaterializam e se eternizam elementos. O retrato pintado não tem o compromisso de ser a reprodução exata e formalística da pessoa. O retratado é que, a cada dia vai sentir-se mais parecido com o retrato até concluir que são ambos uma só pessoa. Tenho alguns retratos assim: os de Hilda Hilst, o de minha mãe, alguns de Gilda (Joviana), certos auto-retratos, os do Fabrício Nery, e o retrato de Fernanda Montenegro intitulado “Transformação de Atriz em Personagem” onde a metamorfose dá-se diante do observador.

ALV Você fez ao longo de sua carreira, dezenas de exposições em várias capitais do Brasil e no exterior. Vamos começar com as mostras brasileiras, em museus e galerias importantes. Gostaria que falasse dessas todas as que considerou as mais importantes para a sua carreira. Ou todas foram importantes?

EF É difícil afirmar que uma exposição é mais ou menos importante que a outra. Ha porem, aquelas que primam pela qualidade do trabalho apresentado, pela boa organização, pela divulgação, critica, publico, etc. Ha também aquelas cujos acontecimentos paralelos, fatos agradáveis, encontros e desencontros tornam inesquecíveis. Perdi a conta de quantas vezes mostrei o meu trabalho no Brasil. Jovem expõe demais. Com o tempo o critério aumenta o ritmo do trabalho e diminui o de apresentações. Participei também de coletivas importantes como as duas do Masp, a Coletiva da Bosch em 1975 e Trinta Anos de Arte Moderna em 1977, a Bienal de São Paulo de 1976; as coletivas organizadas por Giancarlo Caneva de 1985 a 1986 na Itália, através do Laboratório degli Artisti em cidades da Itália e Áustria. Participei duas vezes da Fiera Dell Levante, das Mostras de Bari e também da Bienal de Udine. As minhas três primeiras exposições individuais deram-se em 1960 e 1961: uma no Teatro Municipal de Campinas, outra no Centro de Ciências Letras e Artes e a inesquecível mostra na Livraria Macunaíma, na Rua Major Sertório, 714 em São Paulo, onde tive a honra de conhecer a escritora Dora Ferreira da Silva e o critico José Geraldo Vieira. Antes disso não havia sido publicada nenhuma apreciação critica a meu respeito. Em 1964 a envolvente jornalista Paulina Kaz lançou-me no Rio de Janeiro. Fui a Revelação do Leilão de Arte da revista O Cruzeiro e fiz uma badalada exposição na Petite Galerie em Ipanema. Chamavam-me o “místico pintor do azul”. Eu dava autógrafos na rua, na sala de espera dos cinemas, aparecia toda hora na televisão. Fiquei tão assustado que voltei correndo para Campinas. Foi o meu primeiro erro?Talvez… Desses tempos uma das minhas gratas recordações é a belíssima crônica publicada por Fernando Leite Mendes, no inigualável Correio da Manhã. O meu nome aparecia no titulo da crônica de domingo. Em 1976 mostrei quarenta e cinco telas no Paço das Artes e fui apresentado no catalogo por Mario Schenberg. Era o começo de uma grande amizade. Apresentou-me ele a minha amiga Lourdes Cedran. Depois disso participei e várias exposições no Paço das Artes. Em Campinas participei de mostras nas Galerias Gira Sol, Aquarela, no Centro de Convivência Cultural e também em Piracicaba, interior de São Paulo, além de outras, entre elas a do Centro Cultural de Brasília, em 1979.

ALV Em 1985 você viajou para a Europa, mais exatamente Itália quando fez a primeira exposição individual fora do Brasil na Galeria L’Arte Modello de Gênova na Itália. Na seqüência você expôs em Bergamo, Bratto, na Lombardia, em Udine, no Centro Culturale Ítalo-Brasiliano em Milão. Gostaria que falasse dessa sua temporada bem sucedida na Itália.

Egas FranciscoEF Na verdade a exposição na Europa decorreu de um insistente convite de um amigo que é o Herbert Pfeifer, alemão que me vivia dizendo - não você não pode ficar aqui, você tem que expor na Europa, então ele ajeitou as coisas para que eu fosse. Ele era diretor geral da Bosch aqui em Campinas, e então eu viajei em 1985. O J. Toledo (artista plástico e escritor) preparou uma exposição no Tênis (Tênis Clube de Campinas) eu vendi muitos trabalhos. Embarquei - levei pessoas comigo inclusive o filho do Herbert, o Klaus Pfeiffer, artista plástico também e que ficou lá, ele mora em Stuttgart atualmente, onde, aliás, expus mais tarde, várias vezes com curadoria dele. Levei ainda o Everson Bonassi que estava fazendo cursos de restauração, hoje ele é um restaurador e a Lessa na época era namorada do Klaus. Enfim, fomos num grupo de trabalho. Ficamos num apartamento de cobertura na Costa Azzura Genovesa, que tinha uma varanda que dava para o Mediterrâneo e entre a varanda e o Mediterrâneo tinha um roseto - oito mil pés de rosas e o primeiro quadro que eu pintei lá foram o Roseto - uma mulher, a dona do roseto, veja só, feita de rosas.

ALV Quanto tempo você ficou lá? E como foi esta estadia que segundo leio foi de sucesso, muitas exposições, enfim sucesso de público, e de crítica, venda de quadros, etc.

EF Fiquei só um ano e meio e voltar foi a maior bobagem. Fiquei em Bergamo, já que depois fomos morar nesta cidade, mas eu não parava porque as minhas exposições saiam de uma galeria para outra. A primeira foi a Galeria L’Arte Modello, de Gênova que abriu suas portas em principio de maio e estendeu-se até o dia 6 de junho, quando sem intervalos foi inaugurada em Bergamo na Ars Galery outra exposição. Mas quando faltava um dia para terminar a de Gênova que tinha sido relativamente bem sucedida, o Fellice Ballero, grande critico de arte, muito respeitado do Corriere Mercantile, que foi o primeiro a publicar uma critica entusiástica sobre meu trabalho, escreveu no dia 17 de maio de 1985 um artigo no qual aconselhava a minha exposição às pessoas de caráter. E aí no dia seguinte tinha fila na porta e teve prorrogação. Aí sim vendi oito trabalhos e foi sucesso. Foi quando deu para eu pagar a minha estadia, o apartamento tudo… Foi ótimo

ALV Esses trabalhos que você expôs, levou daqui, ou criou lá?

EF Levei só as aquarelas porque os óleos não foram permitidos, não puderam ir, já que tinham que ser registrados no Patrimônio Histórico. Trabalhei muito lá, fiz muitas telas, trabalhos incríveis como “Luna Piena” que tinha um metro e vinte de altura. Depois desta primeira exposição foi tudo uma sucessão de exposições porque o Ballero ilustrou a matéria dele com uma aquarela e colocou minhas aquarelas nas alturas. Daí que já estava sendo esperado em Bérgamo por causa dessa coisa toda, da repercussão da exposição de Gênova porque na verdade quando saí do Brasil só tinha marcadas estas duas: da L’Arte Modello e da Ars Galery em Bérgamo.

ALV O crítico Lino Lazzari escreveu no L’Eco de Bergamo que sua pintura é bem diferenciada da pintura européia, da lombarda especialmente. Ele anota que você se deixa levar por sua fantasia e por uma capacidade expressiva e interpretativa que faz que suas figuras não sejam reais, mas personagens nascidos de pura invenção. Na verdade, ele diz, são situações de caráter intimista e social, nas quais todos nós nos sentimos inseridos porque o homem é igual, seja ele europeu ou brasileiro. “E o que ecoa nos personagens da sua pintura é um sentimento humano mais profundo, seja de alegria, de prazer, de serenidade, num contexto de fantasmagoria de cores vivíssimas, atenuada nas obras em aquarela, mas sempre pura expressão de vida.” E termina dizendo que destaca seu senso artístico verdadeiro orientado para o valor intrínseco do ser humano o que te faz um bravo, excelente pintor. Ou seja, você fez sucesso de publico e crítica não?

EF Acho que foi mais sucesso de critica - os artistas compareceram, a imprensa, fui entrevistado pela RAI I e tudo em questão de meses. Em Bérgamo foi o critico Lino Lazzari, do Jornal L’Eco de Bergamo quem me recebeu e fez comentários inteligentes, elogiosos e oportunos. Foram oito individuais na Itália, sendo que tive criticas favoráveis também do Natale Zacurri. Fui para Milão e a esta altura o Klaus já estava morando lá, o que significava que nós tínhamos uma casa em Bérgamo e um apartamento em Milão. E acho que a mostra do Centro Culturale Ítalo Brasiliano em Milano foi muito bem recebida, mas a mais emocionante foi a de Udine. Lá recebi a visita de vários críticos vindos de Veneza e Verona e muito entusiasmo sobremodo a propósito das aquarelas. Eles diziam: questo bravissimo quarello! E tive ainda a visita do Giancarlo Caneva que além de ser uma dos maiores artistas da gravura em metal - a calco gravura na Itália, ele tinha 38 anos nesta altura, é também diretor do Laboratório Duo Delli Artisti Studio Art Visive e ele me convidou para que integrasse a comitiva de exposições do Laboratório.

ALV Você então produzia muito lá, já que as exposições se sucediam?

EF Eu pintava todos os dias e as pessoas me admiravam por isso, porque eu trabalhava. O italiano só admira quem trabalha. Então as pessoas começaram a comprar minhas aquarelas e eu comecei a ganhar dinheiro e eu podia manter todas aquelas pessoas que estavam comigo coisa que eu não conseguiria aqui no Brasil. Enfim durante um tempo eu pude dar a eles a oportunidade de levar uma vida normal e mais: tinha convites para tudo que era programação de teatro cheguei a assistir espetáculos no Scala de Milão de cadeira. E nos programas das igrejas, das catedrais, por exemplo, na Santa Maria Maggiore era persona grata mesmo. E ainda: fiz palestras na Casa de Donizete, falei sobre cultura ameríndia…

ALV Você falava sobre o Brasil, cultura brasileira nesses casos?

EF Às vezes falava, mas falei sobre El Greco também, falei sobre o Enterro do Conde de Orgaz. Fui aplaudido de pé. A temporada italiana foi muito boa, foi o melhor tempo de vida, de conforto, de respeito e tudo o mais, de reconhecimento verdadeiro que se traduz também sob estes termos de vida mesmo e daí que constato ter voltado cedo demais da Itália. E agora neste período em que fiquei na Itália, fiz duas mostras em Stuttgart na Alemanha, com curadoria do Klaus Pfeifer, uma na Jakobsbrunner e outra no Volksbank onde mostrei aquarelas. Expus em Salzburg, na Áustria através do Laboratorio degli Artisti. Mas de qualquer forma até na volta fiz uma exposição - no navio Enrico C e meus quadros passaram pela alfândega por cima, foram alçados para o navio por ordem do Herbert que tinha sido diretor desta linha de cruzeiros. A exposição, portanto durou o tempo do cruzeiro - 18 dias e os quadros foram muito bem encaixotados, tudo muito arrumado - aliás, alguns foram desencaixotados para a exposição no navio e depois reembalados. Mas tudo com muita competência. O navio fez algumas escalas e então paramos em Santa Cruz do Tenerife, Barcelona, Tanger, Dakar, Salvador, Rio e Santos. Eu desembarquei na Bahia levando alguns turistas para que eles conhecessem um pouco da Bahia e fui até a casa do meu tio Alberto o vi e a tia Marieta pela ultima vez. Quando voltei para o Brasil fiz uma exposição em São Paulo em 1986 - foi quando tive um atelier no Morumbi em São Paulo e depois no Embu.

ALV Gostaria que falasse agora das exposições realizadas na Alemanha em 1997/1998, todas elas especialmente a realizada na GBH Galerie.

EF Em 1998 fiz duas viagens para a Alemanha à custa de exposições - na primeira foi a mostra da GBH Galerie, uma verdadeira aventura. Porque na verdade é uma estrada de ferro desativada e que funcionava antes da Guerra e esteve condenada a demolição. E lá se reuniam os artistas de vanguarda, sobretudo músicos. E eles me convidaram para fazer uma exposição. Quando eu cheguei fiquei muito impressionado porque era uma estação que parecia abandonada no meio de uma cidade e ela dava a impressão de um lugar inativo, mas quando você entrava ficava impressionado com o número de tocos de cigarros nos cinzeiros, no chão, as pessoas que estavam lá, os músicos afinando seus instrumentos, os objetos eram estranhos, coisas velhas, tinha um piano abandonado, isso e aquilo e eu olhei assim e disse: não vou expor nada que eu trouxe, vou fazer tudo aqui. Aí eu tinha menos de vinte dias para fazer isso, e fiz os trabalhos - fiz Corpus Christi inspirado num candelabro, fiz o pianista, o velho pianista olhando para o piano e um menino saindo pela porta. Eles ficaram muito impressionados. Fiz um baixista, um guitarrista, durante um show de rock, com a iluminação do show, com o público fiz os músicos e esses foram os quadros que foram pendurados. Mas havia pavimentos onde eu decorei a parede - eles prepararam a parede para mim e eu transformei um pavimento de doze quinze metros de altura numa Capela Profana, e pintei sem estudo prévio. Eram paredes e quadros que se misturavam e cera derretida pelas janelas suspensas e pelas paredes. E quase tudo em azul e isso foi filmado do princípio ao fim. Eu tenho isso que foi condensado numa fita com duração de trinta minutos mais ou menos. Na exposição que fiz em 2002 no MAC/Campinas que foi imensa, o filme foi projetado durante todo o tempo em que durava a exposição, não só este, mas este era o principal. Foi feito por um tcheco é muito bonito porque você vê o processo de criação. Fiz uma exposição nesta época no Café Stella em Stuttgart e aí mostrei as aquarelas da “Kôemtranze”, reservei uma para mim e as outras foram todas adquiridas - só expus as filhas de santo que eu tinha levado que foram adquiridas e incorporadas ao Gabinete de Desenhos, Gravuras e Aquarelas. A mostra terminou no dia 7 de julho de 1998. Quando voltei em outubro para a Alemanha, fui para a mostra de Frankfurt nos grandes salões da Ordem dos Advogados sob a curadoria de Lidia Pichler, e havia um público farto e elegante de mais de duzentas pessoas na inauguração e eu vendi seis telas e doze aquarelas o que é muita coisa. Aqui eu não vendo isso, imagine. Permaneci lá apenas uma semana, mas a exposição ficou aberta o mês todo. Voltei para Campinas e pouco mais tarde em 1990 fui para a Holanda patrocinada pelo Makro Supermercados, através do Fred Burgh que era presidente desta empresa e meu amigo. Através dele meus trabalhos foram embalados um a um no atelier e saíram de lá no seguro e depois houve outro seguro na Holanda, enfim eram dois seguros que vigoravam, foi um belo patrocínio que eu tive.

ALV Conte esta história - sei que expôs na Galeria Witte Bergen, ainda que tivesse preferido outra?

EF Fiz uma exposição em Amsterdam na Galeria Witte Bergen e foi um período que Vincent Van Gogh estava sendo homenageado, comemorado através de uma imensa retrospectiva, a maior que havia sido feita no mundo no Rex Museum Vincent Van Gogh ao ar livre e que fica nas imediações de Amsterdam. Como foi sucesso de publico, a exposição foi prorrogada e acabou ficando três meses. Não foi dos meus maiores sucessos - digamos que eu esperava muito mais, mas ficou três meses porque teve muito público. A própria galeria que era na entrada de um restaurante, não era exatamente a galeria que eu teria escolhido. Na verdade tinha optado por outra, que não foi escolhida por ficar perto dos prostíbulos, mas eu não teria problema de expor numa galeria que ficasse perto de prostíbulos. De qualquer forma esta exposição foi muito bem patrocinada - foram 26 trabalhos montados, de grande quadratura – 1,60 por 1,40 m e isso para viagem é de grande quadratura. Tinha uns menores e eu vendi alguns, inclusive um deles era o próprio restaurante Witte Bergen, o restaurante da galeria e também alguns retratos. Eu vendia muita aquarela. Fiquei quatro meses na Holanda, mas eu ficava angustiado de estar na Europa e estar lá. Então eu fugia e ia para Lyon, para Strasbourg. Fiz até um trabalho em Lyon junto com as crianças sobre a própria cidade. Passei quinze dias em Paris e aí nada de trabalho, só indo a museus e eu entrava no Louvre de manhã e saia à noite com os restauradores, lá de baixo no porão. Fiz amizades dentro do Louvre. Eles gravaram até declarações minhas no Louvre. Fiz ainda duas exposições em Stuttgart.

ALV E isso está documentado?

EF Está, tenho tudo documentado em vídeo e slides.

ALV Você então volta para o Brasil continua trabalhando, expondo? E voltou ao trabalho com seus alunos?

EF Em 1999 fiz uma exposição individual, de auto-retratos; em 2000, 2001 trabalhei no Centro Corsini no núcleo educacional, em 2003 fiz um trabalho no Lar dos Velhinhos e fizemos uma exposição dos trabalhos deles. E com meus alunos continuo. Organizei agora uma grande exposição com trabalhos realizados com meus alunos do curso de Secretaria de Educação e Cultura de Campinas, na Estação da Fepasa que foram realizados na própria plataforma, e nos barracões anexos. Mas infelizmente este curso foi interrompido de repente, para reforma do barracão. Organizei exposições com seus trabalhos e em 2005 fiz a curadoria de outra mostra de alunos de várias gerações, intitulada “Sete por Sete” - que eram sete artistas apresentando sete trabalhos cada um, na Galeria da Estação Cultura. E neste mesmo ano de 2005, participei da Feira de Arte de Frankfurt. E agora estou organizando outra para acontecer em setembro também na Estação Cultura e vou participar possivelmente também no segundo semestre de uma mostra onde foi entrar com onze pinturas que vai ser a reabertura do MAC/Campinas.

ALV Sei que há estudantes de mestrado, doutorado da Unicamp e PUC/CAMP fazendo trabalhos sobre sua obra há anos. Há ainda um professor de História da Arte estudando seu trabalho que é o Jardel Dias Cavalcanti. Você poderia falar sobre isso?

EF De uns anos para cá tenho mantido o controle do arquivo dos meus quadros principalmente os que permanecem sob os meus cuidados. São aproximadamente 500 telas, títulos, técnica, medidas, datas e em alguns casos, anotações paralelas. Isso facilita muito o trabalho dos que procuram contribuir com a catalogação dos mesmos e com isso se beneficiando no contato do pintor e, sobretudo na conservação da sua obra. Muitos universitários já fizeram pesquisas, defenderam teses. Ha anos venho orientando estudantes e estudiosos em trabalhos a meu respeito ou sobre artes plásticas em geral, educação artística e também sobre estética e história da arte, embora não tenha tempo para me dedicar a nada mais alem da pintura. São quase sempre alunos da Unicamp ou da PUC/CAMP. Foram feitos DVDS e muitas entrevistas nos últimos cinco anos. O mais difícil é catalogar desenhos, estudos, aquarelas e escritos, mesmo assim o jovem Pedro de Conti editou junto a mim, no ano passado um disquete contendo quase 600 registros de desenhos e estudos. Sei que a primeira tese defendida sobre meu trabalho foi o da Beatriz Linardi da Unicamp ainda que eu tenha sido objeto de curiosidade de mestrandos e doutorandos. É útil para eles e para mim. Além disso, o professor de História da Arte da Unicamp Jardel Dias Cavalcanti vem me entrevistando, me observando, gravando diálogos, acompanhando meu trabalho bem de perto, selecionando imagens, colhendo depoimentos, preparando as bases para um livro a ser publicado num futuro próximo.

ALV Gostaria que você falasse agora sobre esta Associação de Amigos do Egas Francisco recém criada. Você a considera importante para a divulgação de sua obra?

EF A Associação dos Amigos do pintor Egas Francisco criada por sugestão dos meus amigos Dr. Rogério Burnier, D. Tais Burnier e o historiador e administrador de empresas Rafael Vasconcellos hoje presidente da mesma, comove-me profundamente. Mostra que ainda existem pessoas preocupadas com outras e seus problemas de vida. Que é possível reunir-se um grupo de criaturas esclarecidas, sensíveis e competentes capazes e dispostas a lutar pela preservação de obras de arte, pelo legado de uma vida as gerações futuras pela prática de uma educação que eleve o espírito e cultue a arte. Sua generosidade é comovente. 

Ana Lúcia Vasconcelos (Brasil, 1944). Atriz, dramaturga, ensaísta. Atuou em montagens brasileiras de O tempo e os Conways (Priestley), O delator (Brecht), e Cemitério de automóveis (Arrabal). Autora de textos teatrais como A cor descontente e O dia que o amarelo sumiu das caixas de lápis de cor, e das adaptações O jardim das flores vivas [de O rapaz de bronze, de Sophia de Mello Andresen], As aventuras de Alma no mundão afora [de Os porquês da inveja e da generosidade, de Conceil Corrêa da Silva]. Contato: analuvasconcelos@globo.com. Página ilustrada com obras do artista Egas Francisco (Brasil).

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