Rafael Charco Portillo Rafael Charco Portillo
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revista de cultura # 52
fortaleza, são paulo - julho/agosto de 2006

Rafael Charco Portillo

editorial

Planos para a cultura & Cultura de planos

Soa quase inacreditável afirmar que a oferta cultural possa atingir, em algum país, volume superior à capacidade de absorção do público. Ainda mais inconcebível se este volume inclui tanto quantidade quanto qualidade. Não me refiro, evidentemente, a entrar em uma casa de discos no Brasil – um Brasil que naturalmente não se restringe às suas duas suspeitíssimas capitais culturais –, e deparar-se com uma minguante opção de música a preços exorbitantes – a maior margem de lucro do mercado segue sendo praticada pela indústria fonográfica – e com um valor artístico que é uma verdadeira afronta à sensibilidade. Seria algo mais próximo de caminhar pelo centro de Buenos Aires, diante de toda a imensa oferta de suas livrarias, e não se ter, a despeito das condições de aquisição, vontade de… ler aqueles livros.

A produção cultural não se restringe aos livros e discos. Os exemplos dados aqui podem servir se o assunto é teatro ou cinema, shows de música ou exposições de artes plásticas. Mas vamos direto ao ponto: um ensaio recente da dramaturga mexicana Sabina Berman detalha o que ela chama de “extravagância de uma sobre-oferta cultural”, a rigor uma ruptura entre arte e sociedade. É instigante que os mexicanos possam discutir o tema com base em antigos e ambiciosos projetos culturais, que possam avaliar desdobramentos dos propósitos ali declarados e sua real concretização. Em 1989 foi criado no México o Conselho Nacional para a Cultura e as Artes [CNCA], buscando adequar à realidade daquele país as idéias defendidas pelo notável pensador mexicano José Vasconcelos (1882-1959) nos anos 20. Assim é que se criou um modelo de desenvolvimento cultural concentrado em três ações fundamentais: 1. proteção e difusão do patrimônio arqueológico, histórico e artístico; 2. estímulo à criação artística; 3. difusão da arte e da cultura, tendo por meta que estas cheguem ao maior número possível de mexicanos.

Segundo Sabina Berman, os dois primeiros pontos foram atendidos, o que garante a existência de um acervo cultural dos mais substanciosos na América Latina, bem como o incentivo à pesquisa e produção artísticas. Elevou-se com isto o nível de apostas estéticas e suas realizações. No entanto, as ações no plano cultural foram-se afirmando e distanciando de seu equivalente indispensável no plano educacional. Uma arte cada vez mais culta foi sendo produzida para um público cada vez mais inculto, órfão do Estado – aqui especificamente tratamos de educação artística –, refém de um mercado mais interessado em desovar seu produto descartável, em enriquecer às custas da atrofia crescente da sensibilidade. Pode parecer inconcebível que o Estado gere um distúrbio de tal forma, reflexo de um abismo entre duas pastas inseparáveis, a cultura e a educação.

Ao buscar relação deste tema com o caso brasileiro, não há como não indignar-se ante este pequeno monstro de jardim criado pelo governo ao empossar como Ministro da Cultura alguém que jamais advogou senão em causa própria e que fez do ministério um escritório a mais de cuidados com sua agenda de shows. Contudo, o propósito maior é observar que, ao contrário do México, jamais nenhum organismo estatal no Brasil demonstrou igual empenho por estabelecer e fazer cumprir um conjunto de metas em defesa de nossa cultura. O estímulo que temos à produção artística – mas não à criação –, por exemplo, através das leis de fomento, estadual e federal, dá ao patrocinador a decisão sobre o teor funcional da aplicação de recursos. Com isto, pode-se seguir investindo, em nome de uma retórica cultural que gira unicamente em torno da isenção fiscal e da propaganda, na pior arte, que aqui assume, sob a mais perversa das manipulações, a conotação de popular.

O maior lixo que acumulamos em toda a história da democracia brasileira é a compreensão raquítica dos mecanismos culturais da parte de todos os candidatos à presidência, eleitos ou não, até hoje. Evidente que tal prática fica por conta dos eleitos. São eles que administram a perpetuidade do abismo entre educação e cultura. Já tivemos os cínicos e os que apenas ignoram o assunto. O perigo maior do Estado brasileiro é que vem se configurando unicamente como mercantil. E estamos sendo arrastados por uma onda de gráficos; uma verdadeira mentalidade estatística se instala e controla conformismo e presunção, ao mesmo tempo em que as ações deixam por completo de ser o espelho das palavras.

É claro que o erro se repete e certamente muitos dirão: no estado atual em que nos encontramos, no Brasil, pensar em cultura é um luxo. Porém a cultura é uma decorrência da educação, e não um macaquinho de circo facilitado pelo Estado para o regozijo das relações com seus patrocinadores e os gordos bolsões de miséria que nos definem. Vendo o telejornal diário ficamos momentaneamente estarrecidos ante a onda organizada de crimes, logo seguida de uma telenovela, um talk show, um programa de estúdio. O moralismo piegas mesclado a uma veleidade espúria é também a tônica do rádio e da imprensa escrita. Se correta estiver Sabina Berman acerca de suas observações sobre deslizes de atuação do Estado mexicano em relação à cultura, e também estamos certos em nosso comentário em relação ao Brasil, caberá a todos nós refletir a respeito. O aspecto jocoso é que, posto em confronto com o México, o Brasil, para ficar ruim, ainda teria que melhorar muito. Mas não tratamos aqui de um gracejo. O ponto é simples: o que temos feito, poetas, intelectuais, jornalistas, diretores de revistas etc., um mínimo que seja, para a mudança do quadro que se perpetua? Todas as ações recriminatórias em relação à atuação do Estado são movidas por políticos em novas campanhas. O Estado se reproduz a si mesmo. O povo jamais fez parte de seus planos.

Os editores

Rafael Charco Portillo

sumário

1 2046, de wong kar wai: era uma vez o amor. rodrigo petronio
2 a plasticidade na poesia de cesário verde. maiara gouveia
3 antonin artaud
e a reinvenção do teatro europeu. lucila nogueira
4
cores fortes e movimentos largos: a obra densa de egas francisco [entrevista]. ana lúcia vasconcelos
5
das palavras que se calaram - prosopopéia para uma margem defunta. richard-laurent barnett
6
eduardo santellán: diálogo con lo múltiple o la búsqueda de lo caótico como liberación [entrevista]. adriana claudia russo
7 henrique fuhro
e a celebração da vida. jacob klintowitz
8
la poesía de rodrigo petronio y las máscaras de la escritura. martín palacio gamboa [ensayo] / edival lourenço, flávio paranhos, carlos william leite y francisco perna filho [entrevista]
9 o triângulo de jérôme peignot: "amor, poesia, revolução" [entrevista]. dominique hasselmann
10 margaret randall: "lo verdadero es a menudo censurado" [entrevista]. franklin fernández
11
metamorfosis y fijeza en el espacio pictórico: la pintura de humberto ortega villaseñor, representación de lo sagrado. antonio lópez mijares
12 michel roure
absolutamente clandestino [entrevista]. floriano martins
13
passantes: de poe & baudelaire a mac orlan (passando por aragon, breton, restif, zola). flávia nascimento
14
sete vezes josé régio & sua casa. nicolau saião
15
surrealismo e quixotismo no cinema de luis buñuel. wanderson lima

artista convidado rafael charco portillo [pintura]
resenhas livros da agulha alessandra
meleiro eliane robert de moraes renata pallottini susy delgado hamilton faria hsing yün
música
discos da agulha clara sverner
odette ernest dias [por berenice menegale] orquídea quarteto repercussão sérgio & odair assad terra brasil margarita laso [por aleyda quevedo]
cumplicidade 1 galeria de revistas  
cumplicidade 2
galeria de manifestos
cumplicidade 3
galeria de arte

Rafael Charco Portillo

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
belkys arredondo
(venezuela)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
franklin fernández
(venezuela)
gary daher canedo
(bolívia)
jorge dávila vázquez
(equador)
jo
sé ángel leyva (méxico)
margaret randall (estados unidos)
maria estela guedes
(portugal)
nicolau saião (portugal)
richard-laurent barnett (estados unidos)
 

artista plástico convidado (pintura)
rafael charco portillo

apoio cultural
jornal de poesia

traduções
eclair antonio almeida filho

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