revista de cultura # 51
fortaleza, são paulo - maio/junho de 2006






 

A poesia de Dora Ferreira da Silva

Vilém Flusser

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Dora Ferreira da SilvaA presença concreta do outro se expressa direta e indiretamente: diretamente, através de sua obra e indiretamente, numa abertura mútua. Estes dois modos de expressão complementam-se na maioria dos casos. Flexor, por exemplo, não teria sido Flexor sem o seu monstro Justine seus quadros estavam presentes em todos os seus diálogos. Guimarães Rosa não teria sido Rosa sem Riobaldo, e seus livros estavam naturalmente presentes em todos os seus diálogos. Por motivos que não são claros, com Dora isto não acontece. Não que haja uma ruptura entre ela e seus livros - em seus poemas vibra uma existência (Dasein) pulsante e em seus ensaios filosóficos espelha-se a problemática de sua concepção do mundo. Talvez a ruptura esteja em nós mesmos: da presença viva de Dora flui um clima diferente do de seus livros. Seus poemas expandem a beleza da harmonia, sua pessoa e beleza da dissonância da vida. Ambos os climas têm em comum a beleza (com todas as dúvidas éticas que sempre se ligam ao belo). Duas explicações dessa ruptura são possíveis: ou Dora exprime em seus poemas apenas uma parte de sua existência (Dasein), ou ela consegue com seus poemas ultrapassar as dissonâncias existenciais. Em todo caso uma futura crítica de sua obra (que é inevitável, pois sem ela a situação cultural do Brasil contemporâneo não é compreensível) não poderá contentar-se apenas com dados psicológicos ou biográficos. A obra de Dora não se revela apenas através de sua vida. (Uma prova disso é que tais críticas podem errar completamente no tocante ao fenômeno estético). A hipótese de uma inspiração parece inevitável no caso dos livros de Dora.

Isto é inquietante, pois parece indicar que Dora faz poesia “inconscientemente”. O dilema de Flexor: Arte ou Engajamento, o dilema de Haroldo de Campos: Espontaneidade ou Intenção são dilemas de coação da escolha, portanto dilemas para os que são condenados a agir livremente. Para Dora isso não tem qualquer significado. Ela não é livre para fazer poesia, mas é apenas livre quando faz poesia. Para ela, arte é engajamento, oração; e espontaneidade é para ela intenção. No nível do poetar ela não pode compreender o dilema de forma alguma. Isto parece permitir a seguinte conclusão romântica: ela é autêntica poesia, e os outros não são autênticos num sentido tão radical da palavra. Infelizmente, a realidade concreta não é tão romântica. Autêntico significa para o homem moderno (para aquele que é condenado a tomar-se como sujeito) distanciar-se de si mesmo e também da inspiração que o toma. Toda virgindade poética está definitivamente perdida.

Raúl VázquezCabe aqui uma palavra de advertência: a poesia de Dora não é de modo algum ingênua, como poderia sugerir o que foi dito acima. Pelo contrário, ela é conscientemente elaborada, tanto lingüística quanto simbolicamente. Nela encontramos textos tecnicamente experimentais. Sua virgindade deve ser procurada em outro nível - não no nível do poetar - mas no engajamento na poesia. Dora vê-se a si mesma claramente quando faz poesia, e se impõe uma rígida disciplina ao fazê-la. Mas não tem distância alguma em relação ao seu ser poeta. Ela possui distância crítica em relação a cada poema, cada linha, cada palavra; mas nenhuma em relação a si mesma como poeta. Ela se aceita sem crítica. Nem vê este problema. Para ela ser poeta é um Sosein e não um Dasein. Ela dá o passo para trás em relação ao poetar, mas não em relação ao ser poeta, e este segundo passo é o passo no sem-chão (Bodenlos), de que sofriam Flexor e Rosa. Por que Dora não deu esse passo? Essa pergunta (que para ela não se coloca) é a pergunta fundamental do próprio Dasein e a base dos diálogos com ela.

Teoricamente há duas respostas possíveis: uma é que Dora teme o passo. ( “Und der Mensch fürchte die Götter nicht” Schiller). Outras é que Dora esbarra em algo ao dar esse passo (contra o escudo de Davi, por exemplo). A terceira alternativa, a de que Dora não é capaz de dar esse passo é excluída. Ela é um espírito claro e poderia ultrapassar a si mesma ( ela tem uma consciência reflexiva). As duas respostas possíveis (temor e tremor ou fé) podem nem parecer-lhe contraditórias. Mas para aquele que deu o passo decisivo, a contradição é decisiva; pois trata-se da contradição entre perdição e salvação, entre fechamento e abertura. No entanto, infelizmente esta diferença, que seria um critério fundamental para uma crítica do trabalho de Dora não é atingida por quem estiver em estreito contato pessoal com ela. Um tal contato, que no caso de Flexor e de Rosa, tanto contribui para a compreensão de seu trabalho, lança no caso de Dora uma sombra. Isto tem que ser confessado, sem ser compreendido.

Indubitavelmente porém, qualquer futura crítica da obra de Dora deverá partir, mais do que de apenas critérios estéticos. Trata-se de uma poesia religiosa. A prosa de Rosa se situa num contexto religioso, mas a poesia de Dora é uma expressão religiosa. Infelizmente não cabe aqui comentar sua poesia. Ela não permite um julgamento genérico. Toda avaliação genérica é banal e esta poesia requer análise paciente ao nível de cada palavra. Se há textos que exigem uma close reading, são estes. Ler Dora significa mergulhar num universo onde tudo é literalmente novo. Podemos criar mapas de um tal universo. Seriam como mapas da América do fim do século XV. De um modo geral, podemos dizer que os poemas surpreendem e fascinam como tudo o que ainda não foi descoberto.

Raúl VázquezAssim, o problema da intuição deve ser deixado de lado - embora se tenha consciência da ligação entre intuição e vocação (no sentido de Schema’s Israel (ouve e obedece), embora se trate aqui do fator decisivo da poesia de Dora. Mas mesmo que ela se veja como um instrumento e que não compreendamos esse fenômeno, resta uma grande série de questões a serem comentadas conjuntamente. Entre estas ocupa um lugar importante a do símbolo.

Como esta questão veio à tona no decorrer dos diálogos que tivemos, caracteriza o seu clima - de um certo modo o problema do símbolo sempre nos preocupara como um problema central. Quando nos dedicamos, desde o início de nosso próprio desenvolvimento à Filosofia da Linguagem, isto foi porque vivenciávamos principalmente na linguagem um sistema de símbolos. E quando esta preocupação se estendeu posteriormente à área abrangente da Comunicação, foi porque reconhecíamos a essência da comunicação na mediação e portanto na simbolização de mensagens. O problema do símbolo aparece-nos certamente sob diversos aspectos. Por exemplo, o símbolo é um fenômeno que substitui outro, isto é, o significa. Logo, a totalidade dos símbolos é um universo que significa outro. Mas isto descreve exatamente a relação entre o espírito e o mundo das coisas concretas. Ou o símbolo representa sua significação dialeticamente, ele a substitui e ao mesmo tempo a traz à consciência. E esta dialética da mediação simbólica é um problema fundamental do conhecimento. Ou então, pelo fato de um símbolo substituir outro fenômeno passa a adquirir significado. Fenômenos que não substituem outros, não têm significado. Igualmente sem significado são os símbolos que apenas pretendem representar um fenômeno (símbolos vazios). Portanto, o mundo das coisas concretas é sem significado e igualmente sem significado é o pensamento formal puro. Em resumo, simbolizar significa conferir significado àquilo  que não o tem (é dar sentido); e decodificar significa redescobrir o sentido dado e voltar às coisas concretas (no sentido de Husserl zurück zur Sache. Assim, a teoria da comunicação parece oferecer-se como método de, através da decodificação radical, avançar em direção a uma teoria radical das coisas. Pois esta percorre o símbolo como mediação entre sujeito e objeto em sentido inverso. Decodificar torna-se sinônimo de tornar-se estranho (ent-fremden). Assim, o símbolo aparece como equivalente ao logos heideggeriano, mas o método é oposto ao de Heidegger: não é pela manipulação do logos, mas pela demolição que se pode chegar à coisa e assim evitar o antropocentrismo de Heidegger (Existencialismo). Por isso a síntese possível de fenomenologia, lógica formal e dialética parece-nos o método do futuro.

Raúl VázquezEm Dora o símbolo não é mediação primeira entre sujeito e coisa concreta, mas entre o sujeito e o transcendente. O significado último do símbolo não é uma coisa no mundo vivo, mas o que está do outro lado dos limites do mundo vivo. Para ela também o símbolo é um equivalente do logos, não porém no sentido heideggeriano ou da lógica simbólica, mas no sentido da Stoa e do cristianismo. Cristo como logos, para ela, não só é o mais alto símbolo, a mediação par excellence, mas ao mesmo tempo a chave da decifração de todos os significados, da decodificação radical. Segundo achamos, o símbolo é obra humana (através da convenção ou de outra forma criada) e serve para superar o alheamento humano diante das coisas concretas. Dora, pelo contrário, considera o símbolo uma obra transumana (uma revelação) e deve salvar o homem do seu alheamento de seu chão transcendente (do pecado original). Dito de outra maneira, para nós o símbolo é um meio de outorgar um significado ao absurdo do mundo, e a decodificação é uma desocultação do absurdo. Para Dora, o símbolo é um modo de manifestar o significado do mundo, e a decodificação é, para  ela, uma descoberta do significado autêntico. Aqui se mostra uma profunda dicotomia, que cinde a cultura ocidental e a cada um de nós, individualmente, de um modo abrupto: a dicotomia entre gregos e judeus. Do ponto de vista dos gregos, o alheamento é a perda de contato imediato com o topos uranikós e portanto é necessária a mediação através do logos como Soter (Salvador). Do ponto de vista dos judeus o alheamento é a perda de contato imediato com as coisas do mundo vivo, e esta perda se dá através da inserção dos símbolos entre o homem e o mundo vivo. Por isso, a salvação para os gregos está na mediação (no logos) e para os judeus na ruptura de toda mediação. Pois para os gregos o alheamento é um equívoco e para os judeus, um pecado. Investigar (Lógica) salva, segundo os gregos, e corrompe, segundo os judeus. Nenhum dentre nós pode escapar a essa dicotomia, não só porque as duas concepções estão ancoradas em nós, mas principalmente porque em nós se confundem em diversos níveis (por exemplo, no cristianismo, na ciência e no marxismo. ) Ninguém pode ser grego ou judeu simplesmente porque não se é mais capaz de distingui-los claramente um do outro. Quando ocorre aparentemente uma separação (por exemplo, como o Renascimento versus Reforma), devemos constatar como é judeu o Renascimento aparentemente grego e como é grega a Reforma aparentemente judaica (porque evangélica). No decorrer dos diálogos com Dora foi um ganho inestimável ver comprovada clara e inevitavelmente, através do problema do símbolo, o que acabamos de dizer.

A ambivalência do símbolo, seu significado ao mesmo tempo concreto e transcendente (de tal modo que os dois conceitos se confundem) é decididamente uma mensagem da poesia de Dora. Ela faz lembrar singularmente o pensamento medieval, a Kabbala, a alquimia, Raimundus Lullus, apontando assim para a poesia concreta. No centro de sua poesia há uma série denominada  Tapeçarias, que evoca realmente tapeçarias medievais (como as que podemos ver em Beaune ou Angers). Com sua estrutura logicamente perfeita, com os seus símbolos paradoxalmente secretos e transparentes, com a aparente ingenuidade e efetiva perfeição técnica, sobretudo com a respiração de sua beleza sutil, ela é uma introdução ao universo de Dora. Poetar significa para ela tecer símbolos salvíficos que nos ancoram novamente na verdadeira realidade. Por isso, poetar significa para ela o mesmo que orar ou rezar, e é talvez por isso que não é capaz de dar o passo para trás da poesia: esse passo a faria entrar no totalmente Outro, no significado do mundo. Ter vivenciado com ela este movimento para além do símbolo foi uma experiência insubstituível, difícil de avaliar.

Raúl VázquezOutro tema das nossas conversas deve ser mencionado: Rilke. Para Dora, ele é principalmente o poeta das Elegias de Duíno que ela traduziu magistralmente para o português. Para nós mesmos, Rilke é um rio caudaloso que sempre aponta para as Elegias e os Sonetos, mas que fala mais eloqüentemente através de seus poemas menores, como A pantera, O cisne, Um profeta, ou A morte é grande. Pois o problema de Rilke, tal como  o vemos, é o caminhar num atalho perigoso, entre o kitsch e a beleza insuportável. Como Rilke soluciona isso é sempre surpreendente: como ele rima em A morte é grande, Munds e uns, a posição da palavra geruht em O Cisne; como rima verlassen e Kassen em Os reis do mundo estão velhos. Só quando o vivenciamos podemos compreender porque nas Elegias o belo nada mais é do que o início do terrível que desdenha destruir-nos. O kitsch como horizonte do belo (a  gente como horizonte do se) - este é o problema de Rilke; a ponte entre o rebanho nietzscheano e a conversa fiada em Heidegger. Rilke é profético quando prediz o kitsch como forma cultural do futuro. Aliás, o poema Os reis do mundo estão velhos é definitivamente indispensável para qualquer exame do problema do kitsch. Pois ele não deve ser avaliado apenas esteticamente, mas também orficamente.

Este porém não é o Rilke de Dora. Ela não vê de modo algum um traço do kitsch que Rilke pressagia e significa. Em sua tradução de Rilke não há vestígio do kitsch. Para ela, Rilke é a capacidade incrível de tornar a linguagem usual transparente para o significado transcendente. Por exemplo, seu uso da palavra calmo ou necessitar. Como ele emprega a palavra terra. Ou os amantes na segunda pessoa do plural. Para ela, autêntica poesia. Derramar vida em palavras mortas. Tal modo de ler Rilke abre horizontes; ela relaciona Rilke não apenas com Goëthe, mas com os eslavos, não só com os poetas de Praga, mas também por exemplo com Maiakówski, com o formalismo russo do qual Rilke foi contemporâneo. Uma prova de que Rilke não é apenas um poeta decadente, como muitos críticos alemães parecem acreditar. Dora o experimentou melhor. Provavelmente na Alemanha, mais do que no Brasil, as pálidas filhas entregaram as coroas doentes do poder.  O que na Alemanha morreu poderia talvez nascer sob uma nova forma no Brasil, graças às obras criadoras como as de Dora - no caso de que haja ainda esperança para um projeto brasileiro; pois a luta é desigual: de um lado, a tradução de Rilke para o português, de outra a tradução da tecnologia para as florestas brasileiras. O kitsch deve triunfar? O verdadeiro futuro brasileiro (como Dora) deve fazer o progresso recuar ou incorporar-se a ele. Algo de valiosamente belo poderá ser sufocado e nada mais se poderia fazer do que testemunhar este processo da Europa.

E também a vivência do diálogo com Dora: um mútuo encontro de duas existências tomadas pelo Belo na onda ascendente do kitsch, da eficiência e do pathos grandiloqüente. Este encontro foi, em parte, o resumo da resolução tomada de afastar-me do Brasil. Se, como sabemos, o símbolo é ambivalente, se ele também comporta dois lados, pode ser que o engajamento no mundo concreto signifique alheamento da autêntica realidade no momento em que não houver mais nenhuma relação entre o mundo concreto e a realidade autêntica. Aqui se pede um suspender-se, uma espera. Não é porém a suspensão uma forma de contestação, no sentido de: “Eles também servem, aqueles que meramente param e esperam? Tal questão pertence estreitamente ao sentido do pensamento de Dora.  

Vilém Flusser (Tchecoslováquia, 1920-1991). Em 1939, com a invasão alemã, parte para a Inglaterra e, no ano seguinte, chega ao Brasil. Nos anos 40, inicia seus estudos de filosofia. No final da década de 50, colabora com o jornal O Estado de S. Paulo escrevendo sobre filosofia da linguagem. Trabalha como Docente de Filosofia da Ciência na Escola Politécnica da USP e de Teoria da Comunicação na FAAP (Faculdade Armando Álvares Penteado). Em 1967 passa a dar aulas na Escola Superior de Cinema. Colabora com a Folha de S. Paulo em 1972 onde mantém uma coluna, “Ponto Zero”. Dentre seus livros publicados no Brasil se encontram A história do Diabo (1965), Pós-história: vinte innstantâneos e um modo de usar (1983) e Ficções filosóficas (1998). O presente ensaio, na tradução de Marliese Appy, integra o livro Bodenlos: eine philosophische Autobiographie (1992). Página ilustrada com obras do artista Raúl Vázquez (Panamá).
Sugestão de leitura: http://br.geocities.com/vilemflusser_bodenlos/sobreflusser.htm.

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