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revista de cultura # 51 |
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A poesia de Dora Ferreira da Silva Vilém Flusser
Isto é inquietante, pois parece indicar que Dora faz poesia “inconscientemente”. O dilema de Flexor: Arte ou Engajamento, o dilema de Haroldo de Campos: Espontaneidade ou Intenção são dilemas de coação da escolha, portanto dilemas para os que são condenados a agir livremente. Para Dora isso não tem qualquer significado. Ela não é livre para fazer poesia, mas é apenas livre quando faz poesia. Para ela, arte é engajamento, oração; e espontaneidade é para ela intenção. No nível do poetar ela não pode compreender o dilema de forma alguma. Isto parece permitir a seguinte conclusão romântica: ela é autêntica poesia, e os outros não são autênticos num sentido tão radical da palavra. Infelizmente, a realidade concreta não é tão romântica. Autêntico significa para o homem moderno (para aquele que é condenado a tomar-se como sujeito) distanciar-se de si mesmo e também da inspiração que o toma. Toda virgindade poética está definitivamente perdida.
Teoricamente há duas respostas possíveis: uma é que Dora teme o passo. ( “Und der Mensch fürchte die Götter nicht” Schiller). Outras é que Dora esbarra em algo ao dar esse passo (contra o escudo de Davi, por exemplo). A terceira alternativa, a de que Dora não é capaz de dar esse passo é excluída. Ela é um espírito claro e poderia ultrapassar a si mesma ( ela tem uma consciência reflexiva). As duas respostas possíveis (temor e tremor ou fé) podem nem parecer-lhe contraditórias. Mas para aquele que deu o passo decisivo, a contradição é decisiva; pois trata-se da contradição entre perdição e salvação, entre fechamento e abertura. No entanto, infelizmente esta diferença, que seria um critério fundamental para uma crítica do trabalho de Dora não é atingida por quem estiver em estreito contato pessoal com ela. Um tal contato, que no caso de Flexor e de Rosa, tanto contribui para a compreensão de seu trabalho, lança no caso de Dora uma sombra. Isto tem que ser confessado, sem ser compreendido. Indubitavelmente porém, qualquer futura crítica da obra de Dora deverá partir, mais do que de apenas critérios estéticos. Trata-se de uma poesia religiosa. A prosa de Rosa se situa num contexto religioso, mas a poesia de Dora é uma expressão religiosa. Infelizmente não cabe aqui comentar sua poesia. Ela não permite um julgamento genérico. Toda avaliação genérica é banal e esta poesia requer análise paciente ao nível de cada palavra. Se há textos que exigem uma close reading, são estes. Ler Dora significa mergulhar num universo onde tudo é literalmente novo. Podemos criar mapas de um tal universo. Seriam como mapas da América do fim do século XV. De um modo geral, podemos dizer que os poemas surpreendem e fascinam como tudo o que ainda não foi descoberto.
Como esta questão veio à tona no decorrer dos diálogos que tivemos, caracteriza o seu clima - de um certo modo o problema do símbolo sempre nos preocupara como um problema central. Quando nos dedicamos, desde o início de nosso próprio desenvolvimento à Filosofia da Linguagem, isto foi porque vivenciávamos principalmente na linguagem um sistema de símbolos. E quando esta preocupação se estendeu posteriormente à área abrangente da Comunicação, foi porque reconhecíamos a essência da comunicação na mediação e portanto na simbolização de mensagens. O problema do símbolo aparece-nos certamente sob diversos aspectos. Por exemplo, o símbolo é um fenômeno que substitui outro, isto é, o significa. Logo, a totalidade dos símbolos é um universo que significa outro. Mas isto descreve exatamente a relação entre o espírito e o mundo das coisas concretas. Ou o símbolo representa sua significação dialeticamente, ele a substitui e ao mesmo tempo a traz à consciência. E esta dialética da mediação simbólica é um problema fundamental do conhecimento. Ou então, pelo fato de um símbolo substituir outro fenômeno passa a adquirir significado. Fenômenos que não substituem outros, não têm significado. Igualmente sem significado são os símbolos que apenas pretendem representar um fenômeno (símbolos vazios). Portanto, o mundo das coisas concretas é sem significado e igualmente sem significado é o pensamento formal puro. Em resumo, simbolizar significa conferir significado àquilo que não o tem (é dar sentido); e decodificar significa redescobrir o sentido dado e voltar às coisas concretas (no sentido de Husserl zurück zur Sache. Assim, a teoria da comunicação parece oferecer-se como método de, através da decodificação radical, avançar em direção a uma teoria radical das coisas. Pois esta percorre o símbolo como mediação entre sujeito e objeto em sentido inverso. Decodificar torna-se sinônimo de tornar-se estranho (ent-fremden). Assim, o símbolo aparece como equivalente ao logos heideggeriano, mas o método é oposto ao de Heidegger: não é pela manipulação do logos, mas pela demolição que se pode chegar à coisa e assim evitar o antropocentrismo de Heidegger (Existencialismo). Por isso a síntese possível de fenomenologia, lógica formal e dialética parece-nos o método do futuro.
A ambivalência do símbolo, seu significado ao mesmo tempo concreto e transcendente (de tal modo que os dois conceitos se confundem) é decididamente uma mensagem da poesia de Dora. Ela faz lembrar singularmente o pensamento medieval, a Kabbala, a alquimia, Raimundus Lullus, apontando assim para a poesia concreta. No centro de sua poesia há uma série denominada Tapeçarias, que evoca realmente tapeçarias medievais (como as que podemos ver em Beaune ou Angers). Com sua estrutura logicamente perfeita, com os seus símbolos paradoxalmente secretos e transparentes, com a aparente ingenuidade e efetiva perfeição técnica, sobretudo com a respiração de sua beleza sutil, ela é uma introdução ao universo de Dora. Poetar significa para ela tecer símbolos salvíficos que nos ancoram novamente na verdadeira realidade. Por isso, poetar significa para ela o mesmo que orar ou rezar, e é talvez por isso que não é capaz de dar o passo para trás da poesia: esse passo a faria entrar no totalmente Outro, no significado do mundo. Ter vivenciado com ela este movimento para além do símbolo foi uma experiência insubstituível, difícil de avaliar.
Este porém não é o Rilke de Dora. Ela não vê de modo algum um traço do kitsch que Rilke pressagia e significa. Em sua tradução de Rilke não há vestígio do kitsch. Para ela, Rilke é a capacidade incrível de tornar a linguagem usual transparente para o significado transcendente. Por exemplo, seu uso da palavra calmo ou necessitar. Como ele emprega a palavra terra. Ou os amantes na segunda pessoa do plural. Para ela, autêntica poesia. Derramar vida em palavras mortas. Tal modo de ler Rilke abre horizontes; ela relaciona Rilke não apenas com Goëthe, mas com os eslavos, não só com os poetas de Praga, mas também por exemplo com Maiakówski, com o formalismo russo do qual Rilke foi contemporâneo. Uma prova de que Rilke não é apenas um poeta decadente, como muitos críticos alemães parecem acreditar. Dora o experimentou melhor. Provavelmente na Alemanha, mais do que no Brasil, as pálidas filhas entregaram as coroas doentes do poder. O que na Alemanha morreu poderia talvez nascer sob uma nova forma no Brasil, graças às obras criadoras como as de Dora - no caso de que haja ainda esperança para um projeto brasileiro; pois a luta é desigual: de um lado, a tradução de Rilke para o português, de outra a tradução da tecnologia para as florestas brasileiras. O kitsch deve triunfar? O verdadeiro futuro brasileiro (como Dora) deve fazer o progresso recuar ou incorporar-se a ele. Algo de valiosamente belo poderá ser sufocado e nada mais se poderia fazer do que testemunhar este processo da Europa. E também a vivência do diálogo com Dora: um mútuo encontro de duas existências tomadas pelo Belo na onda ascendente do kitsch, da eficiência e do pathos grandiloqüente. Este encontro foi, em parte, o resumo da resolução tomada de afastar-me do Brasil. Se, como sabemos, o símbolo é ambivalente, se ele também comporta dois lados, pode ser que o engajamento no mundo concreto signifique alheamento da autêntica realidade no momento em que não houver mais nenhuma relação entre o mundo concreto e a realidade autêntica. Aqui se pede um suspender-se, uma espera. Não é porém a suspensão uma forma de contestação, no sentido de: “Eles também servem, aqueles que meramente param e esperam? Tal questão pertence estreitamente ao sentido do pensamento de Dora. |
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Vilém
Flusser (Tchecoslováquia, 1920-1991). Em 1939, com a invasão alemã,
parte para a Inglaterra e, no ano seguinte, chega ao Brasil. Nos anos
40, inicia seus estudos de filosofia. No final da década de 50, colabora
com o jornal O Estado de S. Paulo escrevendo sobre filosofia da
linguagem. Trabalha como Docente de Filosofia da Ciência na Escola
Politécnica da USP e de Teoria da Comunicação na FAAP (Faculdade Armando
Álvares Penteado). Em 1967 passa a dar aulas na Escola Superior de
Cinema. Colabora com a Folha de S. Paulo em 1972 onde mantém uma
coluna, “Ponto Zero”. Dentre seus livros publicados no Brasil se
encontram A história do Diabo (1965), Pós-história: vinte
innstantâneos e um modo de usar (1983) e Ficções filosóficas
(1998). O presente ensaio, na tradução de Marliese Appy, integra o livro
Bodenlos: eine philosophische Autobiographie (1992). Página
ilustrada com obras do artista Raúl Vázquez (Panamá). |
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