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revista de cultura # 51 |
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O surrealismo de Cruzeiro Seixas Sarane Alexandrian
O meu caso não é único já que um surrealista dos mais ortodoxos, Jean-Louis Bédouin, publicou em 1961 seu livro Vingt ans de surréalisme (Vinte anos de surrealismo) com um capítulo intitulado “le Surréalisme dans le monde” (O surrealismo no mundo) onde somente uma breve passagem evocava o surrealismo português, sem citar Cruzeiro Seixas nem Mario Cesariny. Suas informações provinham de Nora Mitrani que, após uma temporada em Lisboa, onde se tornou a companheira de Alexandre 0’Neil, pretendeu que era O’Neil que tinha fundado o grupo surrealista português com a ajuda de José Augusto França. Como o manuscrito de Bédouin foi cuidadosamente revisto pelo próprio André Breton, é a prova de que este tinha a mesma idéia incompleta da atividade surrealista em Portugal. Em 1973, no número 4 de Phases, Mario Cesarïny fez uma exposição detalhada da história do surrealismo português, elevando-se contra as falsas relações dadas que se davam dele. Em sua exposição Cesariny faz este elogio de Cruzeiro Seixas: “A única personalidade entre nós capaz de transpor para a segunda metade do século, magnificando-a, a herança plástica e erótica legada pelo surrealismo dos anos 30”. Cesariny descreveu as manifestações e as divisões do “grupo surrealista de Lisboa”, que se transformou em “grupo antigrupo surrealista”, e falou de uma tendência extrema, o abjecionismo (ou abjeccionismo). Todavia, este artigo de esclarecimento dos fatos não teve sequer eco entre os críticos de arte na França que perseveraram apesar de tudo em sua ignorância do surrealismo português.
Estes poucos exemplos de omissão prouvam o quanto era necessário hoje em Paris estudar com exatidão o surrealismo português e render homenagem a seu mais brilhante representante, Cruzeiro Seixas. Após esse preâmbulo, vou vos dizer sucintamente minha impressão sobre ele. E ao mesmo tempo um pintor e um poeta, e podemos nos perguntar por conseguinte qual é sua opção fundamental. E um pintor que se pôs a escrever poemas, ou um poeta que teve propensões para a pintura? No grande livro que lhe dedicou a Fundação Cupertino de Miranda, constatamos que ele é pintor antes de tudo, começando em 1936 aos dezesseis anos por aquarelas e desenhos, e dedicando-se de 1940 a 1947 a uma pintura qualificada de “período neo-realista”. Foi somente em 1986, aos sessenta e seis anos, que ele publicou seu primeiro livro de poemas, Eu Falo em Chamas. Ele já havia escrito outros poemas antes, sem dúvida, mas sem provar a necessidade de fazer deles um livro, preferindo ilustrar com seus desenhos os livros de seus amigos e organizar exposições de seus quadros.
Não temos, pois, que nos perguntar se Cruzeiro Seixas é, antes, pintor que poeta, ou o inverso: ele é irresistivelmente os dois ao mesmo tempo em tudo o que ele faz. No início, ele misturou letras do alfabeto e palavras ao que ele pintava, à maneira do dadaísmo. Mas daí ele passou a uma criação pictural mais sutil, consistindo em representar metáforas plásticas. Assim num desenho de 1947, La variété en dehors d'elle-même (a variedade fora dela mesma), ele mostra um homem prostrado num deserto cujas dunas são seios de mulheres. Ele nos oferece num relance o equivalente da comparação que um poeta levaria muito mais tempo para nos impor. Ele continuou a fazer colagens, poemas-objetos, associando a pintura à escritura. Em 1964, sua obra intitulada C'est seulement celle-là qui te convient (É somente aquela que te convém), é uma tela pintada a óleo sobre a qual ele colou os pedaços de uma carta rasgada; a moldura está coberta de inscrições e de assinaturas de amigos. Mas em seguida, ele demonstrou que ele era capaz de fazer também ato poético ao pintar simplesmente uma imagem insólita. Toda essa produção primeira de Cruzeiro Seixas é interessante, mas não excepcional. Nela, seu estilo pessoal não está ainda afirmado plenamente.
Seu método de desenhar lhe permitiu inaugurar o diálogo gráfico. Os “cadavres exquis” (Cadáver exquisito) desenhados pelos membros do grupo parisiense põem sempre em presença três ou quatro participantes. Nos que ele legou à Fundação Cupertino de Miranda, apenas um foi feito por quatro pessoas. Todos os outros são “cadavres exquis” de Cruzeiro Seixas com um amigo diferente: Mario Botas ou Raul Perez, entre outros. Há uma competição entre dois artistas, e o desenho obtido tem uma unidade que não encontramos nos “cadavres exquis” de vários autores. E não apenas a fusão da poesia e da pintura, mas ainda a fusão de duas personalidades. Cruzeiro Seixas é tão preocupado com a síntese da escritura e do desenho que ele ilustra de uma maneira surpreendente as cartas e os cartões-postais que ele envia a seus amigos. A obra mais recente sobre ele, publicada em outubro de 2005, é o catálogo da livraria Miguel de Carvalho em Coimbra, reunia uma seleção de suas cartas a Isabel Meyrelles, a Edouard e Simone Jaguer e a muitos outros, ornamentadas de vinhetas improvisadas com um senso léxico do grafismo.
Não saberia vos dizer mais sobre Cruzeiro Seixas no momento, até que eu tenha estudado mais em detalhe seus escritos e suas pinturas. Minha reação é a de um amador de arte e de poesia confrontado de repente a um tal artista poeta. Eu o considero não somente como um grande surrealista português, mas sobretudo como uma figura marcante do surrealismo universal. Mais que um pintor e um poeta, é um manifestante, quero dizer um homem que manifesta a supremacia da vida interior. Isso lhe confere uma qualidade pouco comum no mundo atual. |
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Sarane
Alexandrian (França, 1927). Ensaísta, romancista e historiador de arte.
Fundou e dirige a
revista Supérieur Inconnu. Autor de livros como André Breton
par lui-même (1971), Le surréalisme et le rêve (1974),
Histoire de la littérature érotique (1989).
O presente ensaio nos
foi enviado por Cruzeiro Seixas e se encontra traduzido por
Eclair Antonio Almeida Filho.
Contatos através de Eduardo Tomé:
edutome@hotmail.com.
Página ilustrada com obras do artista Raúl Vázquez (Panamá). |
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