revista de cultura # 51
fortaleza, são paulo - maio/junho de 2006






 

A poesia nos Estados Unidos, alguns livros

Charles P. Ries

[tradução & apresentação: Eclair Antonio Almeida Filho]

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Charles P. RiesDe uma só vez, Agulha # 51 publica quatro resenhas sobre a poesia estadunidense de um mesmo resenhista, o também poeta Charles P. Ries. Como resenhista, Ries sobretudo dá voz àqueles de quem trata em suas resenhas. Suas resenhas são, antes, conversas com poetas sobre a poesia. Por isso, em todas as resenhas presentes nesta edição, há depoimentos e citações de poemas. Como resenhista provocador, Ries escreve para que seus leitores vão atrás dos livros comentados.

As quatro resenhas tratam dos seguintes livros: 1. Baby Beat Generation & The 2nd San Francisco Renaissance. (La Main Courante [Editor e tradutor: Mathias de Breyne], França); 2. The Barbarians of San Francisco - Poets from Hell - New American Underground Poetry Vol. 1 (Zeitgeist-Press); 3. Finishing Lines, de Ellaraine Lockie (Snark Publishing); e 4. Chasing Saturday Night - Poems About Rural Wisconsin, de Michael Kriesel (Marsh River Editions).

Em minha opinião, as quatro resenhas, embora tratando tanto de movimentos literários quanto de poetas distintos, devem ser lidas na ordem como as apresentei. Explico-me: Baby Beat Generation & The 2nd San Francisco Renaissance trata do ressurgimento da cena beat em San Francisco nos meados dos anos 70 do século passado. Deve-se destacar o fato de que boa parte da poesia dos Baby Beats e dos beats participantes desse renascimento era lida em performance em palcos antes de ser publicada na Revista Beatitude, criada nos anos 1950 e ressuscitada pelos Baby Beats. Podemos dizer que eram as performances de poesia o principal meio de divulgação e de ação desse movimento. De acordo com Thomas Rain Crowe, na introdução ao livro Baby beat generation, um dos sintomas do arrefecimento do movimento foi a diminuição do número de performance.

Por sua vez, o livro The Barbarians of San Francisco - Poets from Hell trata do ressurgimento em meados dos anos 80 do século passado da poesia ligada à performance. O grupo se autodenominava Barbarians, apenas porque toda quinta-feira à noite da segunda metade dos anos 80 até por volta de 1994, reuniam-se no Bar Barbar, uma pequena taverna que vendia vinho e cerveja localizada na esquina da Avenida 22 e Avenida Guerrero no bairro de Mission em San Francisco. No entanto, embora este grupo não se ligue ao dos Baby beats nem dos beats, seu movimento marca um novo renascimento na cena da poesia de performance em San Francisco.

Quanto a Finishing Lines, de Ellaraine Lockie e Chasing Saturday Night, de Michael Kriesel, seriam pontos altos da poesia de dois poetas estadunidenses, desconhecidos por aqui, que, na opinião de Ries, levam a sério o ofício do verso. De Finishing Lines, Ries ressalta que “A técnica está inscrita em todos estes poemas, e, enquanto meus gostos inclinam-se para trabalhos menos desenvolvidos, percebi que Lockie nunca me deixou imaginando o que ela estava tentando dizer. Suas narrativas nunca se tornaram um código secreto. Porém, além de usar uma linguagem precisa, ela também estrutura suas linhas com total intenção. Ela não usa vírgulas e pontos”.

Sobre Chasing Saturday Night, Ries observa que “é magnífico porque, como toda obra seminal de poesia, é tematicamente rico, tecnicamente forte, agradável de ler, surpreendente, criterioso e divertido. Michael Kriesel escava em busca de significado no meio de lugar nenhum de Wisconsin e produz uma obra de arte verdadeiramente notável”.

Charles P. Ries vive em Milwaukee, Wisconsin. Seus poemas narrativos, contos, entrevistas e comentários de poesia têm aparecido em mais de cento e vinte publicações impressas e eletrônicas. Recebe três indicações para o Prêmio Pushcart por sua escrita e mais recentemente leu sua poesia no programa Theme and Variations, da National Public Radio, um programa que é transmitido para mais de setenta afiliadas da NPR. Ele é o autor de The Fathers we find, um romance baseado na memória. Ries é também o autor de cinco livros de poesia - o mais recente intitulado, The Last Time, que foi lançado pela editora The Moon Press em Tucson, Arizona. Ele é o editor de poesia para os sites Word Riot (www.wordriot.org) e Pass Port Journal (www.passportjournal.org). Está também no quadro da livraria Woodland Pattern em Milwaukee, Wisconsin. Mais recentemente foi apontado para a Wisconsin Poet Laureate Commission. Você pode encontrar mais trechos de sua obra acessando: http://www.literarti.net/Ries.

Todas as quatro resenhas são permeadas e norteadas pelo poder renovador e revolucionário da poesia. Então, à leitura!

 Raúl Vázquez

1.
Baby Beat Generation & The 2nd San Francisco Renaissance
Editions La Main Courante/França. Editor e Tradutor - Mathias de Breyne

I.

Se você quiser saborear os poetas Beat e receber como amostra os escritores que os seguiram, Baby Beat Generation & The 2nd San Francisco Renaissance é tão bom quanto se poderia esperar. O trabalho nesta compilação é de alta qualidade. Não estou certo do porquê isto me surpreendeu. Tenho lido muitas antologias e geralmente tenho chegado a uma sensação de 50% de satisfação, mas não desta vez, pois eu fiz perguntas a Thomas Rain Crowe cuja obra é apresentada na compilação e cujo prefácio ajudou-me a estabelecer o contexto histórico. Ele me contou:

“Olhando para trás, agora penso que a poesia que surgiu do segundo Renascimento de San Francisco é ainda algo da melhor, e mais interessante, poesia dos últimos trinta anos. Estes poetas eram talentosos, dedicados e extremamente literatos, alguns deles foram ‘bem educados’, mas todos foram muito bem lidos e já vinham escrevendo por um tempo bastante longo, mesmo que, ainda, muitos de nós estivéssemos apenas com vinte e poucos anos. Era um grupo muito diverso de poetas, que escreviam em estilos singularmente diferentes uns dos outros e de seus amigos e mentores beats.”

O livro inclui poemas de Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder, Jack Micheline, Jack Hirschman, Harold Norse, Diane Di Prima, Nanos Valaoritis, Michael McClure, Bob Kaufman e David Meltzer no lado beat, e poesia de Thomas Rain Crowe, Ken Wainio, Neeli Cherkovski, David Moe, Janice Blue, Paul Wear, Luck Breit, Kaye McDonough, Philip Daughtry, Kristen Wetterhahn, Jerry Estrin, e Roderick Iverson, tanto quanto pinturas e um CD encartado que inclui leituras feitas por Lawrence Ferlinghetti, Diane Di Prima, Bob Kaufman, Jack Hirschman, Jack Micheline, Thomas Rain Crowe, Michael Lorraine, Cole Swenson e Ken Wainio.

Senti a significante presença de Crowe nesta publicação e lhe perguntei se ele era a força motriz por atrás dela e como diabos uma editora francesa torna-se a publicadora para uma antologia focada em poetas americanos? Ele me contou:

“Embora seja verdade que fui o principal contato e fornecedor de muita da matéria prima que abriu seu caminho na antologia, esta não é uma produção de "Thomas Rain Crowe". Mathias de Breyne foi o catalisador e o iniciador do projeto. Esta antologia foi idéia dele. Ele contactou-me e pediu-me material - do qual então ele escolheu e traduziu para a língua francesa. Ele era íntimo do editor-chefe da editora La Main Courante, Pierre Courtaud, e foi Mathias de Breyne quem contactou Monsieur Courtaud e propôs a idéia de tal antologia. A editora de M. Courtaud, La Main Courante, é antes de tudo uma editora que publica poetas franceses contemporâneos. É uma editora literária relativamente pequena, e então este projeto foi o mais amplo projeto que Courtaud tinha se encarregado de começar. Escrevi um prefácio para o livro, já que M. de Breyne queria algo que permitisse aos leitores ver de relance toda a cena em San Francisco durante os anos 1970. E também prestei assistência nas áreas das traduções com problemas. Mas este livro foi gerado na França por um poeta francês e por um editor francês - o que é irônico num sentido e apropriado em outro.”

Todo o conteúdo nesta compilação aparece em inglês e em francês. Ao contar os colaboradores para a antologia totalizei 29 homens e 7 mulheres. Então onde estavam as mulheres? Eram os anos 70 e o feminismo estava atingindo sua maioridade, ainda que uma antologia focada nos anos 70 apresente principalmente poetas homens. Pedi a Kaye McDonough cuja obra é apresentada nesta compilação para comentar sobre a situação da poesia de mulheres nos anos 70,

“Penso que o próprio estilo de vida de North Beach foi duro com as mulheres. Você tinha que ser capaz de viver com poucos recursos e desta maneira - negociar num bar, caminhar sozinha na rua a qualquer hora, e não depender de ninguém. Você tinha que se cuidar para não ter problemas de saúde com álcool ou drogas - para poder manter-se atualizada em relação a todos aqueles poetas e com o que eles liam, e eles liam muitíssimo. Tinha que ser capaz de ler sua própria poesia para salas cheias de uma maioria de homens que não ficavam envergonhados de te dar uma resposta. A femininização foi um ponto negativo definitivo. De onde eu vim, mulheres não andavam desacompanhadas à noite, não ficavam sozinhas num bar, assim North Beach não era exatamente um lugar para se estabelecer e começar uma família - Não tenho certeza se eu sabia de que afinal eu estava atrás - o álcool certamente desempenha um papel nisso. Penso que eu queria viver como um homem - um homem que fosse um poeta.” (Uma longa citação de Kaye McDonough encontra-se no final desta resenha)

O seguinte trecho de seu poema, “Talk To Robert Creely About It” é revelador,

“Breast are your bonbons / You suck a lemon fondant / spit out a chocolate-covered cherry / You try on vaginas like finger rings / The pearl cluster is too loose perhaps / the gold band too tight / You collect hearts like paintings / They are nailed to your walls / Skulls ring your house / They are the ivory necklace / fallen from the throat of your latest lady // Women lie around you like mirrors / You pick up one, then another / comb your hair, adjust your features in their glass / Do you see, you grow thin / from wanting some love on your bones?” (Beatitude #24, 1975)

“Seios são teus bombons / Chupas um bombom de limão / cospes uma cereja coberta de chocolate / Provas vaginas como se fossem anéis/ O cacho de pérolas estão talvez tão frouxo / o laço dourado tão apertado/ Colecionas corações como pinturas/ Eles estão pregados em tuas paredes / Caveiras circulam tua casa / São o colar de marfim/ que caiu do pescoço de tua última esposa// Mulheres encontram-se ao teu redor como espelhos/ Escolhes uma, depois outra/ penteias teu cabelo, ajusta tuas feições em seus espelhos/ Tu vês que ficas magro por querer algum amor em teus ossos?” (Beatitude #24, 1975)

Eu queria ouvir um homem adotar este desequilíbrio de gênero e perguntei a Thomas Rain Crowe se ele poderia comentar:

“Ninguém era levado em consideração naqueles dias. Havia muitas mulheres escrevendo e envolvidas na cena dos anos 70. Nem todas entraram na antologia, da mesma forma que nem todos os homens escritores da área da Baía de San Francisco entraram no livro. Houve sempre uma sensação como se houvesse um equilíbrio de homens e mulheres (energia masculina e feminina) envolvido em tudo que fazíamos. Havia certamente uma voz feminina muito forte em North Beach e nas edições de Beatitude durante aqueles anos. Como digo, quem era levada em consideração? Se você olhar os pôsteres para eventos de Beatitude e as edições de Beatitude durante aqueles anos, você verá que houve sempre um número saudável de mulheres representadas. Não havia a sensação como se alguém estivesse lutando por posição, etc. aqueles que estavam na cena e que queriam tomar parte publicamente foram os que terminaram nos pôsteres das leituras e nas muitas publicações da área da baía durante aqueles anos.”

Estou certo de que a resposta situa-se em algum lugar entre as percepções de McDonough e Crowe sobre o período, mas apresentou uma interessante história remissiva e enviou minha mente perambulando até a pequena cena editorial de hoje onde sinto constantemente uma carência de mulheres poetisas e no cargo de editora, ainda que eu perceba que as mulheres escrevam mais poesia. Então por que elas não estão publicando? Por quê não estão batalhando por um público?

Eu precisava encontrar algo sobre Beatitude. A pequena revista começou nos anos 1950 e ganhou visibilidade nos anos 1970 que se tornaram o elemento aglutinador para estes novos poetas pós-beat. Aqui de novo está Thomas Rain Crowe,

Beatitude foi o elemento aglutinador como você a considerou, para nosso grupo, e também para esta antologia. Já que Beatitude estava no centro, no âmago, do renascimento nos anos 70, e um catalisador para o renascimento, o editor e publisher de Baby Beat Generation & The 2nd San Francisco Renaissance decidiu que esta antologia iria girar em torno dos poetas de Beatitude - visto que estávamos na mais íntima proximidade com os Beats e estávamos trabalhando e atuando com eles constantemente durante esses anos, e também visto que Beatitude foi a primeira publicação beat durante os anos 1950. Fomos nós os babies que ressuscitamos a revista. O publisher e editor queria mencionar e estabelecer uma tradição viável, com a passagem da herança e da tocha beats para a geração seguinte. Este livro estabelece essa tradição e documenta a história deste "rito de passagem." Publicávamos geralmente 500 cópias de cada edição de Beatitude. Era feita no formato de mimeógrafo da antiga Beatitude dos anos 50, era distribuída para livrarias por toda a área da baía de San Francisco, como também para seletas livrarias por todo o país - incluindo Los Angeles, a costa noroeste, Chicago, Nova Iorque, Canadá e Inglaterra. Eu era encarregado da distribuição durante esses anos, e a ênfase era não ganhar dinheiro, mas levar a revista para fora de San Francisco o mais longe possível. Geralmente vendíamos cópias suficientes para pagar pela próxima edição. Mas principalmente consistia em algo sobre a poesia e também em mostrar para os outros nos estados e em outros países o que estávamos fazendo. A revista era publicada tão freqüentemente quanto era possível. Não havia uma agenda concreta de publicação, como há na maioria dos jornais literários nos dias de hoje. Em outras palavras, não era bienal, quinzenal, etc. já que usávamos uma política editorial rotativa; ela era publicada tão rapidamente quanto cada diferente editor pudesse aumentar o número de textos e levá-los à produção.”

Finalmente, pedi a Crowe para contar-me o que ele via como o estilo chave e as distinções de conteúdo entre os Beats e os Baby Beats?

“Embora haja algumas inevitáveis similaridades, há também algumas diferenças muito distintas entre nós (os baby beats) e os beats. Penso que, em geral, nossa escrita é muito mais imaginativa e experimental - refletindo os valores e a política cultural dos anos 1960. Também penso que a obra geral dos Baby Beats tem um arco muito mais amplo. Nossas maiores influências tendem a ser mais internacionais - já que houve mais traduções de poetas estrangeiros disponíveis nos anos 60 e 70 do que tinha havido nos anos 40 e 50. Também éramos mais politicamente ativos, eu penso, que os beats. Nossa geração teve uma história de levar as questões de seu tempo para as ruas. Continuamos isso durante os anos 70 em San Francisco, e depois. Muito do que dizemos, publicamente, era geralmente por alguma causa cultural ou política fora do meramente literário. Também penso que tendíamos, e ainda tendemos, a ser mais inclusivos. Inclusivos de mulheres. Inclusivos de estrangeiros, inclusivos de diferentes convicções e estilos literários, inclusivos de classe e raça, etc.”

Como um leitor de poesia, posso com freqüência dizer eu apreciei isso, mas não tão freqüentemente dizer apreciei isso e aprendi muito ao longo do percurso. Esta é uma grande compilação por muitas razões e em muitos níveis. A poesia transborda, as biografias, as fotos, o prefácio e o CD fornecem um maravilhoso contexto histórico. Ela também me fez refletir sobre o papel das mulheres na poesia nos anos 1950-1970 numa estrutura mais ampla. $20 mais taxas de envio não é muito a pagar por esta leitura muito boa e muito iluminadora.

[Charles P. Ries]

 

II.

Adendo a: Baby Beat Generation & The 2nd San Francisco Renaissance review. [1]

Blue, Kristen, Jackie Baks, Tisa Walden, e minha amiga mais íntima daquele tempo, Alix Geluardi, teriam cada um, perfeitamente, uma história para contar. Todas as mulheres desse período eram pessoas extraordinárias e excitantes - bem - os homens, também! O que guiava a nós todas lá? Estou ainda tentando pôr tudo isso em ordem.

O pensamento de uma vida burguesa segura e confortável de casada em Pittsburgh (de onde sou) parecia forçado para mim. Quando tinha 18 anos (em 1961), lembro-me de tentar convencer uma amiga a partirmos numa expedição em busca da Mina Perdida de Dutchman no Sudoeste, um lugar em que nunca tinha estado, não porque eu queria o ouro, mas porque queria uma aventura com um "A" maiúsculo. Tenho a sensação de que eu não era a única mulher indo para North Beach que não queria assumir uma vida de mulher tal como ela se apresentava então. Naquele tempo (da metade para o fim dos anos 60) os anúncios de jornal de empregos para mulheres eram realmente separados dos anúncios para homens. Quando entrei para o Vassar College no concurso admissional do início de ano, meu pai não viu nenhuma vantagem em minha entrada. Ele queria que, ao invés do Vassar College, eu fosse para a Escola Secretarial Katie Gibbs, mas a opinião de minha mãe prevaleceu. Com a ajuda de minha avó e da Tia Lihi, ela pagava-me para ir à faculdade. Como a primeira mulher corretora de imóveis no Vale de Allegheny ela podia pagar. Eu conhecia apenas duas mulheres que tinham entrado para uma faculdade. Eu achava que tudo que as mulheres faziam era se casar. Se você não tivesse sorte, você seria uma professora, ou pior uma secretária - mas eu não conhecia realmente nenhuma que chegou a esse ponto. Na Pittsburgh em que cresci, mulheres se casavam e viviam às custas de seus maridos e entravam para o "clube” mesmo se tivesse entrado para a Faculdade.

Minha mãe era uma exceção. Ela era independente e eu queria ser independente, também. Como viver um tipo diferente de vida - ou ao menos tentar um tipo diferente de vida antes de tomar uma decisão - que era o problema numa casca de noz.

Em Vassar, antes que eu partisse para o Oeste, eu era a melhor aluna nas aulas de redação e tinha uma maravilhosa professora Miss Mercer que me encorajava. Mas em meu segundo ano tive tantos desentendimentos com minha professora de escrita narrativa que troquei as aulas principais por História da Arte. A maior parte de minhas amigas de Vassar e de Pittsburgh estavam engajadas em casar, ou noivar, antes mesmo que graduassem. Eu tive sorte e conheci um ou duas cartas selvagens entre as mulheres - Hudgins e Connie Berry - elas queriam viajar e conversar sobre literatura e arte e explorar. (Somos ainda amigas - Hudgins, também conhecida como Elizabeth Spinner, sendo uma das minhas amigas íntimas) Como eu via, não se podia voltar viver no Este e viver um vida não convencional - então fui para a Califórnia.

Terminei minha graduação em Berkeley em 1967. Conheci meus primeiros poetas em Berkeley e me apaixonei por um dos melhores, Frank Sears. (Ele foi morto quando eu tinha 24 anos.) Além de Edna St. Vincent Millay, os únicos modelos de comportamento entre as mulheres poetisas e escritoras de quem eu tinha ouvido naquele tempo eram Sylvia Plath, Anne Sexton, Virginia Woolf - Todas elas cometeram suicídio, que não era algo que eu ansiava fazer!

Lembro-me da excitação de entrar sozinha no Bar Vesúvio e ficar no bar e pedir uma bebida do jeito que um homem pedia. Ficava ombro a ombro com os homens, pagava por mim mesma, apenas como um homem, mantinha-me com o mínimo, e conheci alguns dos mais maravilhosos poetas escrevendo no século 20 como um resultado inesperado. Sorte minha!

Diferentemente do mundo circunscrito da oficina de poesia da Faculdade agora em voga (Pelo que sei elas não tinham sequer oficinas de poesia outrora - ninguém que conheci ou tinha ouvido antes que eu fosse para a Califórnia era um poeta, deixara sozinha uma mulher poetisa), a vida literária em North Beach era aberta a todos - rico, pobre, azul, verde, vermelho.

Leituras no bar Minnie’s Can Do (organizadas por Ruth Weiss) e no Coffee Gallery eram abertas. Hotéis como Riv, Tevere, Basque, estavam abertos a todos com o preço de admissão a $25 por semana, assim acredito que eles estavam então. Mesmo alguns restaurantes como San Remo eram comunitários - você se sentava em longas mesas com todo mundo que queria se juntar a você ou vice-versa. Bares como Spec’s, Vesuvio, 1232, certamente eram abertas. Que mistura selvagem de pessoas de todas as partes do país - o espectro americano por inteiro!

Os poetas nos círculos de North Beach vinham de toda parte do país - Que grande fervilhar de surrealistas, tipos duros de Bukowski, beats e bibliófilos - e o âmbito da literatura discutida espalhava-se para além do escopo limitado de qualquer curso superior que eu tivesse tido. Poetas estavam lendo todos, de Nelson Algren a Vosnesensky, de Breton a Lorca - você tinha que ler todo o tempo para manter-se atualizado. Era fabuloso! Então leituras estavam acontecendo o tempo - excitante.

A vida boêmia combinava comigo - eu gostava da liberdade e da independência. A única parte nela que era inquietante era a dificuldade de encontrar um parceiro e iminente impossibilidade de ter um filho e criá-lo ou criá-la com certa estabilidade.

Os homens boêmios não queriam tomar uma decisão - e talvez eu não queria um ou outro (quer eu pudesse ou não admitir isso para mim), uma possível razão de eu ter tido problema de encontrar um companheiro. Ser uma alcoólatra tampouco ajudava! Lá pelos meus trintas anos, parei de beber e queria a experiência de ser uma mulher por inteiro. Mais e mais isso incluía ter um companheiro e um filho. Inspirei-me em Zelda Fitz, como uma mulher que tinha tentado fazer tudo: ter marido, filho, ser uma escritora, uma dançarina, um espírito livre - ela e Isadora, outra heroína minha, experimentaram tudo isso. Mesmo se tudo não transcorreu perfeitamente para elas (para colocar suavemente toda essa tragédia), ao menos abraçaram a vida e deram-lhe seu melhor tiro - e elas não se mataram. Muito obrigado, Zelda. Muito obrigado, Isadora.

Tive a grande educação de minha vida em North Beach com os mais fascinantes poetas, escritores e artistas nas artes daquele tempo - e certamente tive minha Aventura. Apenas não foi o que eu imaginava que seria.

 

NOTA

[1] O que segue é a longa citação das considerações de Kaye McDonough encontrada no terceiro parágrafo de minha resenha de Baby Beat Generation & The 2nd San Francisco Renaissance. A citação original que ela fazia era muito longa para a resenha, mas bastante boa para mim se posta completamente à parte. Achei interessante sua descrição de mulheres poetisas durante este período e neste lugar. Espero que vocês também achem. [Charles P. Ries]

 Raúl Vázquez

2.
The Barbarians of San Francisco - Poets from Hell
Zeitgeist-Press

 

Contexto, talento e forma emergente são os co-formadores dos movimentos artísticos. Quando estes três aspectos da grande arte colidem (o que raramente acontece) uma criança é concebida. Uma voz criativa tão singular nesta qualidade que quando é vista, ouvida ou lida ela guia o leitor inequivocamente para o lugar de origem dela própria.

Enquanto lia os trinta e dois poetas cujos trabalhos constam nesta extensa antologia intitulada New American Underground Poetry Vol. 1: The Barbarians of San Francisco - Poets from Hell, eu recebia com prazer a honesta energia bruta que eu encontrava nestes longos poemas narrativos. Sentia-me como se eu estivesse lá com eles, escutando-os. Eles se autodenominavam os Bárbaros (Barbarians). Toda quinta-feira à noite da segunda metade dos anos 80 até por volta de 1994, a casa deles era uma pequena taverna que vendia vinho e cerveja localizada na esquina da Avenida 22 e Avenida Guerrero no bairro de Mission em San Francisco. Por quase dez anos foi a casa de uma perfeita tempestade - Uma Cúpula do Trovão na qual a poesia da palavra falada de alta emoção, discernimento (insight) e humor era entregue em recitais e refinada. Este trecho do poema "Mein Kampf" (Minha luta), de David Lerner, chama a atenção para o objetivo dos esforços coletivos dos “Bárbaros”:

("Tudo que quero fazer / é tornar famosa a poesia // tudo que quero fazer é /queimar minhas iniciais no sol // tudo que quero fazer é / ler poesia do meio de um / prédio em chamas / ficando na faixa rápida da / rodovia / caindo do topo do / Empire State Building // o mundo literário / chupa o pinto de um cão morto // Prefiro ser Richard Speck / a ser Gary Snyder / Guiaria antes um navio foguete ao inferno / que um Volvo para Bolinas.")

E, de fato, este desejo de elevar a poesia acima de seu status que ela perdeu como uma arte literária em voga colore muitos dos poemas nesta coletânea. Este escritores escreveram e falaram palavras que não poderiam ser confundidas. Elas eram metáforas acesas e esplêndidos socos da boca.

Contexto: A sala de fundo no Café Barbar. Um pequeno espaço de apenas aproximadamente 30 pés x 30 pés (Algo como 9m x 9m), com arquibancadas de madeira e lateral de alumínio ondulado sobre as paredes. Em pontos críticos, o poeta poderia golpear as paredes e toda a pequena sala vibraria. Freqüentemente, havia de 75 a 100 pessoas apertadas ombro-com-ombro, aglomerando-se nos salões e corredores e em todo centímetro livre do espaço, famintas pelo que o poeta poderia fazer. "A multidão do Babar era bastante impiedosa," diz Bruce Isaacson, co-fundador da Zeitgeist Press e freqüentador assíduo do Café Barbar. "Não havia aplauso polido ou resposta morna. Se eles gostassem de você, eles te diriam, e se não gostassem, eles realmente te diriam: vaias, assobios, perguntas que incomodam. Até mesmo copos de cerveja poderiam ser arremessados ao palco."

Talento: Na apresentação desta antologia, o co-editor Alan Allen descreveu a mistura singular dos membros da tribo a esta cena, "Os poetas bárbaros eram duros de grana. Venceram as críticas severas da Costa Oeste mas não podiam arcar com as passagens para ir ao Este para competir. Viviam apenas para escrever, para fazer performance, para ler. Muitos estavam desempregados (com notáveis exceções), ou incapacitados, ou viciados, ou trabalhavam na indústria do sexo. A maioria lutava para pagar o aluguel, ou comer bem, e usava roupas de liquidações. Seus QI eram os mais altos, seus corações os maiores, os poemas eram o mais lhes importavam. Tudo dizia respeito a sentir suas vozes, suas palavras, suas linhas, suas vidas." Esta colisão de poetas, escritores, músicos e performers selvagens e diversos criou o ethos daquele momento que incluía: Laura Conway, Joie Cook, David West, Eli Coppola, David Gollub, Vampyre Mike Kassel, Kathleen Wood, Zoe Rosenfeld, Sparrow 13 LaughingWand, Q.R. Hand, Alan Kaufman, e inúmeros outros que passariam pelo batismo de fogo que era o Café Barbar. Estes escritores e muitos mais são apresentados nesta excepcional coletânea de poesia.

Forma emergente: Richard Silberg em sua introdução a The Barbarians of San Francisco - Poets from Hell diz, "Como opostos a movimentos que se centravam em revistas, num colégio, num grupo de escritores, os Bárbaros forjaram sua obra num espaço performático." Ele continua dizendo, "Bárbaros se focam nessa voz da performance. A voz dos Bárbaros buscava uma personalidade, um pouco como a voz das letras de Bob Dylan, ou a voz de um comediante, ou a voz de âncora de jornal da TV. A ênfase é içada da página para a performance. O poem na página é mais como um roteiro ou um uma partitura." A poetisa laureada de Berkeley, Julia Vinograd, contou-me,

“Este período foi uma explosão da poesia em cujo epicentro estava o Café Babar. O trabalho era diferente de tudo que tinha sido feito antes; nutríamo-nos uns dos outros. Novas coisas estavam sendo ditas em modos que eram vigorosos, sérios e divertidos. O melhor dos jovens poetas de seu tempo liam lá ao lado de outros totalmente desconhecidos."

A edição de 4 de novembro de 1992 do San Francisco Bay Guardian descrevia os poetas lendo no Café Babar desta maneira:

"Os melhores poetas trabalhando hoje na América. O berço da tradição americana de vanguarda. Formados na prova severa do real desespero econômico & da ameaça política. Poetas de diminuídas expectativas & raiva política. Café Barbar é a prova simbólica da cena da palavra falada onde reúnem-se os guardiões da chama - os poetas fazendo poesia antes que ele captasse o olho público."

Todos os poemas na coletânea foram escritos para ser ouvidos e compreendidos rapidamente. Eles se dirigem ao mundo no qual o escritor viveu. Aqui estava uma tribo e um momento no tempo que personificava o que é melhor em relação a poesia - bruta, franca em direção à revelação. Honestidade emocional entregue numa maneira que demanda atenção. Aqui estão dois curtos trechos de The Barbarians of San Francisco. O primeiro é de "I Was a Teenage Godzilla", de Vampyre Mike Kassel.

"Na idade de dez anos / fui atingido por uma minúscula ogiva nuclear / que escorregara de um tubo de torpedo / enquanto grupo de escoteiros lobinhos estava visitante/ o submarina da marinha dos EUA Calígula / numa viagem de campo. / O incidente foi silenciado. / Os outros lobinhos pereceram / mas eu me transmutei num Godzilla Adolescente / tal como nos filmes. / Apenas tinha crescido 5.1 polegadas / apenas um amigável dragão radiativo de Komodo de duas patas / não era tão ruim/ Meus pais ficaram irritados / mas o governo os indenizou / e eles tiveram apenas que de certa maneira viver com ele."

E o outro trecho é Sparrow 13 LaughingWand, intitulado "Larry Said":

"Oh ele e o cálice imundo de sua caveira/ despedaçada em Nova Iorque / Oh, seu coração de porco do mato e sua plúmbea boca de açúcar, / Larry dizia que sua mãe morrera num incêndio em casa / enquanto ele estava na taverna / Larry dizia que foi por motivos políticos. / Larry contou/ a mais estúpida história de prisão que jamais ouvi / como ele invadiu uma loja de licor e ficou muito bêbado para escapar. / A beleza de Nevada do traseiro de seu gato poderia / arrancar teus olhos. / Larry dizia que era um ladrão honesto. / Larry dizia Eu não era veado porque ele me ama / Dando graças tínhamos lentilhas sob meu impermeável/ numa tempestade em Davenport. / Larry não era veado / porque eu na verdade não era um homem."

Eles ficavam nus diante de uma multidão de verdadeiros crentes e tinham que vender isso. Tinham que torná-lo real, e tinham que fazê-lo funcionar ou então tinham a voz abafada. Aqueles que apenas pousavam eram perseguidos no Café Barbar.

Raúl Vázquez 

3.
Finishing lines, de Ellaraine Lockie
Snark Publishing

 

Desde que foi arrebatada ardentemente pela musa seis anos atrás, Ellaraine Lockie recebeu oito indicações Pushcart por sua poesia. Ela já acumulava mais de sessenta prêmios de poesia lá pelo fim de seu primeiro ano de submeter ativamente sua obra a concursos. Seu primeiro livreto (chapbook) publicado, intitulado MIDLIFE MUSE, ganhou o concurso anual de livreto do Fórum de Poesia em 2000. E se isso não chamar tua atenção, ela recebeu mais de duzentos prêmios em poesia desde que se lançou na super autopista da grande poesia - apenas seis anos atrás. Mas antes que tu saias e voes saltando de um arranha-céu e quebres teus lápis, deverias saber que, embora ela seja nova para a poesia, ela não é nova para a escritura.

Ela contou-me sobre seu mergulho na poesia,

“Anteriormente eu já tinha escrito em outros gêneros (e ainda escrevo)— não-ficção, artigos de revista e livros infantis ilustrados. Sete anos atrás eu não tinha lido um poema sequer desde o ginásio, exceto na ocasião em que percorri a literatura infantil. Eu achava que odiava poesia; achava que ela tinha que rimar. Então, um dia, um velho amigo me enviou alguns de seus poemas e queria a minha opinião. Gostei dos poemas, mas eles não rimavam. Então eu pedi a opinião dos mentores de meus filhos. Quando eles me contaram sobre o verso livre, tornei-me obcecada por escrevê-lo e em publicá-lo. Isto aconteceu num momento difícil da minha vida, e a poesia se tornou a minha salvação. Apenas pulei de cabeça e comecei a escrever como uma louca, sem saber o que outros estavam escrevendo. Inscrevia os poemas em concursos antes de submetê-los a editores, sabendo que eu precisava de algo em letras de capa para atrair os editores para uma leitura cuidadosa de minha obra.”

Se ela precisava de uma confirmação de que estava no caminho certo, certamente ela a obteve.

O quarto livro de poesia de Lockie, FINISHING LINES, reflete sua refinada posse da linguagem e da forma. Não fiquei surpreso ao saber que Lockie era uma re-escritora crônica, pois pouca coisa em alguns destes poemas parece alheia. Ela me contou,

“Reescrevo constantemente. Reescrevo até que cada palavra seja a palavra perfeita para o que quero dizer em determinado momento. Reescrevo até que eu caia de amores pelo poema. Minha teoria é a de que, se eu não o amo, como posso esperar que alguém mais goste dele? Freqüentemente continuo a reescrever até mesmo depois que o poema foi publicado. É uma evolução.”

Sua mão cuidadosa é vista em “The Whipping Woman”:

“The woman I hire to daughter my mother

makes bi-weekly visits to the dementia ward

Lies down beside the near-still waters

 

Accepts the mouth kisses wet with drool

From where gravelly words

dribble down washed-out gullies

 

Like a whipping boy she bears the brunt

of each face-to-face flagellation

that my rawhide flesh refuses

 

And for twenty dollars an hour I purchase

like contraposition of a professional mourner

Substitution for services I can’t supply”.

 

(“A mulher que alugo como filha e minha mãe

visita duas vezes por semana na ala de dementes

deita-se ao lado bem perto das águas calmas

 

Aceita os beijos da boca úmidos de saliva

De onde palavras empedradas

Respingam em sarjetas alagadas

 

Como um menino castigado no lugar de outro ela suporta o ataque

De cada flagelação face a face

Que minha carne em couro cru recusa

 

E por vinte dólares por hora obtenho

Como contraposição de uma carpideira profissional

Substituição para os serviços que não posso fornecer”.)

Lockie contou-me isso,

Finishing Lines foca o final das coisas - pessoas, animais, lugares, relacionamentos, estações da vida; a morte é claramente o final derradeiro. Sou fascinada pelos finais. Todos nós lidamos com pequenos finais numa base diária - o final de um dia, por exemplo. Então, quando atingimos a meia idade, nós cada vez mais temos que lutar com os finais. Coisas, animadas e inanimadas, apenas desgastam-se. Parecia-me ser um tópico universal para uma coletânea de poesia. Muitos finais criam inícios, e isto também me intriga. Aludo a, ou diretamente aponto, este aspecto em muitos dos poemas aqui. É um ciclo. Assim, a citação introdutória de T. S. Elliot, ‘No início está o meu fim’.”

Este tema é mais claramente visível em Lockie no poema “Liberation”. Eis aqui um trecho,

“I hatch slowly

Each day cracking

lost wonders

Ice cream and oatmeal

for breakfast

English for Chinese neighbors

Lunch with an editor

An afternoon rest home visit

A cat-in-heat night

 

Hello sunshine!

 I’m 54 years old

at Disneyland

 With the rest of my life

to take rides

I follow famous sisters

through Tomorrow Land

 

At 60 Colette opened

a beauty salon in Paris

Jackie O became a book editor

 

Margaret Mead said /

The most creative force in the

world is a menopausal woman

with zest

 

You haven’t seen anything yet

Margaret Mead”.

 

(“Incubo lentamente

as estatelantes maravilhas perdidas

de cada dia

Sorvete e mingua de aveia

No café da manhã

Inglês para vizinhos chineses

Lanche com um editor

Uma tarde de visita a uma casa de repouso

Uma noite de gato no cio

 

Bom dia, luz do sol!

Faço 54 anos

Na Disneylândia

Com o resto de minha vida

Para passear

Segui irmãs famosas

Pela Terra do Amanhã

 

Na rua Coleto, 60, abriu

Um salão de beleza em Paris

Jackie O. tornou-se um editor de livro

 

Margaret Mead disse

A mais criativa força no

Mundo é uma mulher na menopausa

Com prazer

 

Ainda não viste nada

Margaret Mead”.)

Se eu tivesse apenas uma coisa que me entusiasma para falar sobre este livro, seria sobre o uso excessivo que Lockie faz da aliteração. Eu sabia que isso não era um acidente, e fiquei pensando se era um resultado de seu trabalho em livros infantis. Eis aqui o que ela me contou:

“A aliteração é um dos meus artifícios poéticos favoritos, sim, e o uso que faço dela é proposital. Gosto da musicalidade que ela cria, especialmente quando se lê o poema em voz alta. Também, com freqüência, eu a uso para realizar a continuidade entre as linhas. No entanto, tu estás certo - muita aliteração dá o mesmo tipo de efeito cantarolado que a rima pode provocar. Mas acho que “muita” difere de leitor para leitor. Tenho cuidado de não deixar a aliteração interferir na maneira como quero dizer - outra armadilha possível que o artifício partilha com a rima. Enquanto a escritura de livros ilustrados não é responsável por meu uso da aliteração, ela é responsável pela estrutura de quase toda minha poesia. De fato, eu chamo esta estrutura de “Poesia de livro ilustrado”, e ministro um curso sobre isso.”

A técnica está inscrita em todos estes poemas, e, enquanto meus gostos inclinam-se para trabalhos menos desenvolvidos, percebi que Lockie nunca me deixou imaginando o que ela estava tentando dizer. Suas narrativas nunca se tornaram um código secreto. Porém, além de usar uma linguagem precisa, ela também estrutura suas linhas com total intenção. Ela não usa vírgulas e pontos, e lhe perguntei o que ela estava tentando realizar com isto. Eis o que ela me contou:

“Eu não eliminei vírgulas e pontos; simplesmente nunca os usei em poemas (exceto nos poemas em prosa). Eles frustram meu principal propósito para escrever poesia, que é ser completamente livre quando escrevo. Pontuação em poemas me faz sentir como se eu estivesse na prisão da poesia. Também pôr um ponto ou uma vírgula no fim de uma linha me parece um pouco redundante. A quebra de linha já sinaliza uma pausa breve. Uso caixa alta no início da linha para expressar que uma pausa extra é necessária antes de começar essa linha (como por um ponto), e isto faz sentido para mim. Uso um número razoável de fragmentos de frases; então se eu pontuasse propriamente como prosa, meus poemas ficariam todos emporcalhados com vírgulas. Também, escrever sem pontuação de final de linha me força a trabalhar mais arduamente na clareza e na sintaxe. De qualquer maneira, a poesia nunca seguiu completamente as regras da prosa. Olha para essas letras maiúsculas no início de cada linha. Eu penso que isso é inútil e ultrapassado”.

Assim, de fato (e graças a Deus), Lockie não saiu apenas dos céus sem formação e começou a escrever uma grande poesia; ela passou uma vida inteira adquirindo seu gosto pela linguagem. Mas, ainda, eu pensava há quanto tempo ela vinha escreve, e quando ela conquistou o grande nome que tem. Talvez tudo esteja revelado em sua resposta,

“Um poeta de idade avançada com uma boina preta que encontrei entre meus primeiros poetas lendo em Berkeley, me fez a mesma pergunta. Contei-lhe que meu primeiro nome era Ella Loraine, mas o primeiro nome de minha mãe também era Ella e eu não gostava de não ter meu próprio nome. Assim, no segundo grau, eu combinei meu dois nomes em Ellaraine, o escrevi no cabeçalho de dever de escola e anunciei para o professor e para os meus colegas de classe que este seria meu nome a partir de então. O poeta de Berkeley disse ‘Minha querida, tu não és uma poetisa iniciante; tens sido uma poetisa desde o segundo grau, porque é o que fazem os poetas: eles condensam de uma maneira criativa’.”

Tive que concordar e dizer que, embora Lockie venha escrevendo poesia há pouco tempo, ela tem sido uma obra em curso toda sua vida - e sua obra demonstra.

 Raúl Vázquez

4.
Chasing Saturday Night - Poems About Rural Wisconsin, de Michael Kriesel
Marsh River Editions

 

Deixem-me ir direto à caça para todos vocês, folheadores de resenhas de poesia por aí afora. (Vocês sabem quem vocês são.) Chasing Saturday Night, de Michael Kriesel, é um dos melhores livros de poesia que já li. Saiam e vão comprá-lo agora mesmo.

É magnífico porque, como toda obra seminal de poesia, é tematicamente rico, tecnicamente forte, agradável de ler, surpreendente, criterioso e divertido. Michael Kriesel escava em busca de significado no meio de lugar nenhum de Wisconsin e produz uma obra de arte verdadeiramente notável.

Perguntei a Kriesel quando ele começou a escrever, e como diabos ele conseguiu ficar tão bom apenas com 44 anos de vida:

“Comecei a escrever poesia aos 16 anos," disse. "Era um meio de dar vazão à minha angústia emocional, e eu fui contemplado não com um, mas com dois professores que passavam horas toda semana comigo fora do horário das aulas, analisando criticamente meus poemas. E havia um pequeno fanzine que, ao mesmo tempo, começava em minha cidade natal em 1978, e o editor & eu nos tornamos bons amigos. Um clássico exemplo do quando o aluno estiver pronto, o professor aparece. O fanzine era o Jump River Review, editado por Mark Bruner.”

Comentei sobre a riqueza temática encontrada em Chasing Saturday Night com seu uso sutil e econômico das palavras. Kriesel disse,

“Talvez algo da profundidade temática que você menciona resulte da natureza altamente carregada de algumas das imagens usadas. Durante os últimos 7 ou 8 anos venho estudando uma boa quantidade de sistemas esotéricos, dos quais uma parte tem envolvido o trabalho com símbolos, arquétipos- estudar os mitos dos quais eles surgiram, o propósito a que eles servem em nosso inconsciente coletivo, como construímos nossas próprias mitologias pessoais, nossa visualização criativa, trabalhando em direção a uma unidade psicológica & ao auto-equilíbrio. As coisas espalham seu sangue. Então você consegue essa economia de palavras com revisão. Tons. Cada poema exige ao menos 5 horas, freqüentemente mais de 20. Em sessões de 2 ou 3 horas de trabalho cada manhã. Com muito café forte, uma mesa de fórmica, uma janela panorâmica, uma cadeira confortável.”

Kriesel escreve do mesmo jeito que o dono de uma loja de cristais deve caminhar - com atenção redobrada e suave.

Eis um exemplo do poema “Drinking with Your Ghost After the Funeral” (Bebendo com teu espírito depois do Funeral):

“Sitting in a pickup in the middle of a field

the engine ticking down to nothing

windows filled with rows

of corn stalking into shadow

I drink until you’re sitting next to me

though we both know

you’re really at the cemetery

what was left of you after the accident concealed

by oak and bronze and varnish and miraculously healed

in everybody’s memory

still the whiskey

lurches back and forth between us in the muddy

light until the bottle’s dry

and dark as that smoked glass

we used to watch eclipses through

though tonight

there’s just a wobbly moon

and a few raccoons

stealing corn like no one’s there.”

 

(Tradução literal:

“Sentado numa caminhonete no meio de um campo

o motor roncando para nada

janelas preenchidas com fileiras

de milho espalhando-se em sombra

Bebo até que você sente junto a mim

Embora ambos saibamos

Que você está na verdade no cemitério

O que ficou de você depois do acidente foi ocultado

Pelo carvalho pelo bronze pelo verniz e miraculosamente curado

Na memória de todos

O uísque ainda

Balança para lá e para cá entre nós na turva

luz até que a garrafa esteja seca

e escura como aquele copo esfumaçado

através do qual usávamos para observar eclipses

toda noite

há só uma lua cambaleante

e poucos guaxinins

roubando milho como se não houvesse ninguém lá.”)

 

Sua obra caminha pelo fio da navalha da poesia de novo e de novo, e nunca cai num poço de sentimentalismo, de um lado, e em habilidades excessivas, do outro. Kriesel é magistralmente consciente do lugar que está criando. Notei a qualidade freqüentemente frágil, desamparada e oblíqua nesta coletânea. Como ele adquiriu esta qualidade? Ele respondeu: “Ásperas experiências que tive: crescer com um pai abusivo e alcoólatra; minha década no ambiente paranóico da Marinha; meu próprio período como alguém que bebia muito em relação a um consumo regular. Mais: é uma reação comum ao modo como o mundo freqüentemente é. Especialmente nas artes, onde pessoas inteligentes e emocionalmente agressivas freqüentemente conseguem se curar.” O que é maravilhoso em poetas bem escolados na forma e na palavra é sua habilidade de pegar o pessoal e transformá-lo em universal. Kriesel é mestre nisto. Seus poemas são tão bem calibrados quanto os melhores poemas que já li.

Ao ler Chasing Saturday Night, pude extrair estrofes que descrevem um lugar com tal economia e beleza, que teria sido para mim suficiente apenas ler estas estrofes sozinhas. Tais como estas linhas de “Grampa’s Old Place”:

 

Tar paper shines across the yellow wheat

the basswood siding’s gone

 

so soft your thumbnail could mark it

but it soaked up paint like sunshine."

 

(O papel de alcatrão brilha por entre o trigo dourado

a parede lateral de tília partiu

 

tão suave que tua unha poderia notar

mas impregnou-se de tinta como o brilho do sol."

Ou esta, de “Communion”:

“ It’s cool

the way a basement is in August

dark except for one small window

floating high above us

like in church

the bottom half cut off by grass

 

the only other light’s a bulb

tiny as a child’s night-light

mounted on a grinding wheel

bolted to a workbench.”

 

(“Está fresco

o caminho o porão está em August

escuro exceto uma janelinha

oscilante bem acima de nós

como na igreja

a baixada metade cortada pela relva

 

a única outra luz é uma luz tomatinho

ínfima como a luminária de uma criança

posta sobre uma roda de moinho

presa numa bancada de trabalho.” )

Ou esta, de “Saturday Morning”:

While between the fresh air and the sun

part of me starts to doze

my body grows light as sawdust

far away a chainsaw buzzes

like the season’s first mosquito."

 

(Enquanto entre o ar fresco e o sol

parte de mim começa a cochilar

meu corpo brota luz como serragem

bem longe uma serra de cadeia zune

como o primeiro mosquito da estação.")

Perguntei a Kriesel sobre lugar. Ele disse,

“Um amigo recentemente me contou, ‘Todo mundo vive em algum lugar e a obra deveria mostrar isso. Uma poesia sem lar não me interessa.’ Isso me deu uma ótima sacada. Toda poesia é poesia regional, num certo grau. Chasing Saturday Night se passa na Wisconsin rural, povoada com parentes & fazendeiros. Mas os poemas lidam com temas humanos universais, já que os humanos são, em toda parte, o mesmo em seu âmago, apesar de diferenças de costumes, educação. Venho também escrevendo poemas de natureza minimalista por vários anos. Os quais têm uma longa tradição no Extremo Oriente. E, mesmo nestes poemas, o lugar desempenha um papel importante. Infiltrando-se entre uma ou duas imagens. Você vê, vivemos no mundo, embora alguns poetas neguem isto. Genius loci. O espírito do lugar em que vivemos nos habita. Pessoas em ambientes rurais sabem disto intimamente, e vivem isso a cada dia. Suas contrapartidas urbanas existem a uma longa distância disto. Cresci na parte central da Wisconsin rural. Tenho sempre estado mais sensível ao meu ambiente natural, às vezes preferindo árvores a pessoas. Isso muda conforme me torno mais social. Também, quando adolescente, eu amava os longos parágrafos descritivos na literatura fantástica de H.P. Lovecraft. A ambiente realmente ambienta o ânimo, personificação de uma aura ou emoção, de novo aquele genius loci, aquele que, umas vezes, faz marionetes dos jogadores, outras apenas colore nossas mentes.”

Ele não usa pontuação, e isso apenas serve para acentuar a claridade destes poemas. Nada os comprime ou os prende à página - nem mesmo uma vírgula. Quando perguntado sobre esta ausência de pontuação, ele disse,

"Comecei a fazer isto em 1997, quando comecei a escrever curtas erupções de poemas espirituais baseados na imagem, os quais eram tentativas de transmitir as epifanias, os vislumbres (insights) e as rupturas de linhas inimigas que eu estava tendo como um resultado de meditação & outras disciplinas. Era difícil tentar verbalizar estas abstrações, idéias de uma natureza básica e freqüentemente não-verbal; pondo assim as coisas a nu, purificar a linguagem pareceu uma boa idéia e me ajudou. Agora, muitas linhas escritas depois, isso mantém minhas linhas limpas, aparadas. Estou escrevendo peças narrativas mais longas sem pontuação, e para fazer isso você tem que escrever de maneira clara e limpa.”

A retrospecção colide com o lugar em Chasing Saturday Night. Encontramos um homem de meia idade olhando para trás. Perguntei a Kriesel sobre sua infância:

“Vivia em minha cabeça, e ainda vivo, muitíssimo bem. Nasci em 1961 em Wausau, Wisconsin, uma cidade de 40,000 habitantes no meio da região produtora de leite e derivados do estado. Meu pai trabalhava na construção de casas pré-fabricadas, e era um bêbado pé de cana. Minha mãe era (e é) uma santa, com um coração tão grande quanto o mundo. Mas era 1961, e as mulheres não eram independentes como são hoje. Ela ficava presa em casa sem emprego ou carteira de habilitação. Fui apenas uma criança até que completasse 10 anos. Meu irmão é caminhoneiro. Eu era quieto e pacífico. Lia muito. Brincava sozinho. Não era feliz ou infeliz. Não tive muitos colegas de brincadeira na região. Mas havia uns poucos amigos na escolas. Quando descobri as histórias em quadrinhos aos 12 anos, isso abriu um universo para mim. Elas tomaram conta de minha imaginação. Se tivesse havido professores de histórias em quadrinhos no ensino médio ao invés de professores de inglês, eu estaria desenhando & escrevendo as histórias do Batman hoje, ao invés de versificar.”

Às vezes o “resenhista” cai de amores. Às vezes, ele arranca as cercas e é arrebatado para dentro dos poemas, suspendendo a descrença e descobrindo poucas horas depois que ele esteve caçando sábado à noite (Chasing Saturday Night). 

Eclair Antonio Almeida Filho (Brasil, 1974). Estudioso da obra de Jacques Prévert. Inédito em livro. Contato: eclairfilho@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Raúl Vázquez (Panamá).

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