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revista de cultura # 51 |
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Sérgio Lucena, o viajante imóvel Jacob Klintowitz
As pinturas e os desenhos de Lucena tem sempre este aspecto de que foram alvo da máxima atenção do artista e que estavam acima de quaisquer outras preocupações. Algumas vezes, é tal o nível de detalhes e intencionalidades que o artista coloca que ficamos com a impressão de que estamos diante de uma obra-síntese da qual sairá uma série inteira. Os fragmentos têm vida própria.
É inegável que o trabalho de Lucena transmite a forte sensação de que são autobiográficos. Não a biografia comum, a vida cotidiana do artista, os seus prazeres e agruras diuturnas. Ainda bem, pois acreditamos que isto interessaria à muito pouca gente. Aqui se trata da existência sensível e do seu percurso e da intensidade do chamado. Para quem observa o percurso artístico de Sérgio Lucena é evidente que ele é marcado pela vocação, no seu sentido real, de chamamento.
Há muitos anos, em João Pessoa, o refinado artista Flávio Tavares mostrou-me uma série de pinturas, “A Divina Comédia”, feitas em parceria com Sérgio Lucena. Espanto duplo: a coragem de interpretar Dante, depois de tanto que já se fez neste sentido; e uma série de painéis feitos em parceria. Desde então, fiquei curioso sobre este Lucena que dividia a tela com Tavares. E, em pedaços, fui escutando uma biografia de busca: morou na Chapada dos Guimarães com a família, morou em Berlim e, agora, em São Paulo.
O nordeste brasileiro habita com facilidade no mítico, no folclore, no fabulário anônimo e na iconografia popular. Pois bem, este continente alegre e trágico, de grande poder narrativo, também está presente na obra de Sérgio Lucena. Mas como em outros artistas significativos do nordeste, assume uma fisionomia própria. O que já observamos a respeito de Gilvan Samico, César Romero, Cícero Dias, Miguel dos Santos, Francisco Brennand, Mário Cravo Jr., Mário Cravo Neto, João Câmara, Carybé, José Claudio. Em Lucena, talvez, este substrato da cultura anônima, parece, cada vez mais, se transformar em solo fertilizado que dá origem a uma nova espécie de frutos.
A primeira impressão sobre Sérgio Lucena tem um caráter aparentemente contraditório. O artista parece quieto e ponderado e, simultaneamente, viajante contumaz. O sedentário e o nômade concomitantes. Extremamente cordato e inflexível. Amável e atento ao interlocutor, mas cioso de sua experiência vital. Uma reflexão sua, clarifica esta aparência ambígua: “...não é do mundo objetivo de onde elas (mensagens) partem, mas daquele espaço interno, onde habitam as imagens primordiais, as figuras arquetípicas e instintuais, cuja natureza essencial permanece constante a despeito do tempo e sua dinâmica...” . Na transformação evolutiva que observo no seu trabalho encontro essa mesmo constância visceral. E vejo justificada a minha primeira curiosidade sobre este artista e para isto me valho de uma sentença de Oscar Wilde: “…só as pessoas superficiais não se deixam levar pelas primeiras impressões”. |
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Jacob Klintowitz (Brasil, 1941). Jornalista, crítico de arte, escritor, editor de arte, designer editorial. É autor de 90 livros sobre teoria de arte, arte brasileira, ficção e livros de artista. Contato: jklinto@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Sérgio Lucena (Brasil). |
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