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revista de cultura # 51 |
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Naufrágio, poesia e tradução Marco Lucchesi
No entanto, essa rede de inúmeros acenos, esse reclamo de possibilidades intermináveis dão ao horizonte um saber infinito e às vezes certa nostalgia real da coisa. Apesar dos naufrágios de grande beleza - que podiam evocar uma história trágico-marítima da tradução, ou então uma perspectiva quinto-imperial da tradução, quando um Sebastião-Texto pudesse regressar de um infinito sempre adiado - apesar disso, aqueles naufrágios não apagaram o desejo de me pôr a salvo das águas - tanto quanto possível. Mas uma tentativa de terra, sabendo e sofrendo, e celebrando, e esquecendo que a poesia não é mais que um laivo - a tentativa de dizer a labareda através da cinza.
Isso foi quando decidi pôr fim aos meus dias. Ou seja, quando o tradutor que nunca existiu em estado puro, como coisa em si, foi assassinado pelo poeta, que passou a administrar o profundo e a superfície de seu mediterrâneo. Mandei-me uma carta - de condição póstuma, dizendo: “Declaro para os devidos fins, que acabo de morrer como tradutor e que não ressuscitarei para vestir de português e de poesia os poemas de outras plagas e os romances complexos deste mundo. Peço que não guarde saudades. Que me esqueça de uma vez por todas. - Never More!”. Foi uma espécie de manobra psíquica (fortemente marcada por Brás Cubas), de me livrar não tanto dele, mas de sua tirania exclusiva, e de uma visão que nosso ambiente cultural, tão vivisseccionado, costuma ter do risco literário - para usar o termo de Maurice Blanchot - de que poetas não traduzem e de que tradutores não fazem poesia. Como se as duas atitudes fossem inimigas. Tentei demonstrar o contrário no texto “Tradução e alquimia”, onde eram sugeridos outros caminhos: poeta e tradutor se alimentavam das suas diferenças, como num laboratório alquímico. Cada linha de Umberto Eco ou do Pseudo-Dionísio sempre mereceram não apenas o necessário tratamento científico, mas a sua sinergia poética. Não podia abrir mão disso, pois que não dispunha de duas naturezas, mas de uma, apenas, embora multívoca e aberta - com seus fantasmas e missivas póstumas, tal como a carta acima, onde coincidem remetente e destinatário. O que muda é o endereço, não as personagens em questão. Meu pensamento seguia esse fluxo, quando me veio, inesperada, uma carta de Curt Meyer-Clason com poemas de Alma Vênus, traduzidos para o alemão. Algo não entrópico acontecia: remetente e destinatário começavam a divergir. Tesouros eram transportados de ilhas distantes. Naufrágios. Portulanos. Desenhava-se um diálogo de nobre impressão.
No dorso procuro
o espólio
e os nomes …………………………..
procuro
do bem supremo ……………………………
procuro
o verbo ………………………..
e assim
e segue
Auf dem
leuchtenden suche ich
den
Nachlass
und die
betreffenden …………………………
öhen
des
Höchsten …………………..
ich suche
das
dunkle …………………………..
und so
und diese
Suche Percebi então que os ventos do diálogo - quase ausentes para as navegações culturais de nossos dias - sopravam aqui com tamanha força, que o papel do tradutor e do poeta deixavam de ocupar um modo de exclusão. E que o seu contrário seria possível. E que o Pirata e o Capitão, o Naufrágio e a Terra Firme podiam e deviam ocupar um mesmo espaço e atitude. Dediquei - portanto - um poema em alemão a Curt Meyer-Clason, intitulado “Himmel” (Céu) - atualmente no livro Sphera. Essa homenagem se resolve no elogio de duas cidades. Duas línguas. E pátrias. Todas sob o mesmo céu da literatura. E duas presenças vivas: do lado luso-brasileiro, Camões: suas cidades e lágrimas, que formam um rio tão vasto, capaz de atingir o Grande Sertão (maravilhosamente traduzidos por Curt); do lado alemão, Hölderlin e a ilha de Patmos, além de uma citação indireta de Trakl - em modos imperceptíveis.
Em tradução quase literal, sem aliterações e demais recursos que inventei no original diria mais ou menos o seguinte: O rio-palavra e as águas claras do pensamento - Duas línguas e suas asas: - A antiga entressonhada Babel e a nova entretecida Sião - E o mesmo rio-palavra respira essas distâncias: as lágrimas de Camões e a brisa dos Sertões (água escrita de terra!) - O abismo e a vertigem do riso e do socorro… - O verbo celeste - E o rosto inascido… - Água para o teu fundo semântico jardim, onde brilha a Rosa Uardi… - Um Céu e duas pátrias - Um Céu em que florescem estrelas novas. Uma carta para o futuro e sem um destinatário preciso. Ó viva Poesia! |
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Marco Lucchesi (Brasil, 1963). Poeta, ensaísta e tradutor. Autor de livros como Bizâncio (1999), O sorriso do caos (2000), e Sphera (2004). Traduziu obras de Umberto Eco, Vico e Primo Levi. Editor da revista Mosaico. Contato: marcolucchesi@terra.com.br. Página ilustrada com obras do artista Raúl Vázquez (Panamá). |
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