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revista de cultura # 51 |
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Lautréamont e os prazeres do comparatismo literário Claudio Willer
E Lautréamont é um autor que convida aos estudos comparados, não só pelo modo como se apropriou de tanta criação literária - o plágio é necessário, declarou, completando a afirmação famosa de que a poesia deve ser feita por todos, não por um - mas também pelas sincronias: por todas as ressonâncias, afinidades, aparentes diálogos, mas que independem de haver lido ou não outro autor. Em meu prefácio para a edição brasileira - Lautréamont: Os Cantos de Maldoror, Poesias, Cartas (obra completa), tradução, prefácio e notas de Claudio Willer, Iluminuras, São Paulo, 2005 - já observei a riqueza do intertexto de Lautréamont. Aqui, prossigo, utilizando o que disse em uma palestra recente (no ciclo “Malditos” na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo), e focalizando, em especial, sua relação com Baudelaire. Evidentemente, nem tudo o que virá a seguir é novidade. Baudelairismo em Lautréamont já foi examinado inúmeras vezes. De especial valia é a demonstração, por Pichon-Rivière, de que François Ducasse, o pai de Isidore Ducasse, o futuro “Conde de Lautréamont”, já tinha As Flores do Mal em sua biblioteca em Montevidéu (em Pichon-Riviére, Psicoanalisis del Conde de Lautréamont, Ed. Argonauta). Portanto, a leitura de Baudelaire por Lautréamont pode ter precedido até mesmo sua ida à França para estudar em Tarbes e Pau. Passagens de Os Cantos de Maldoror sugerem um Ducasse-Lautréamont vasculhando bibliotecas, à cata de textos de Baudelaire que já haviam saído em revistas, mas não em livro. Por exemplo, o modo como parece comentar, seguindo e ao mesmo tempo contestando Baudelaire, em uma passagem sobre o riso. “Quanto a mim, não sei rir”, diz Lautréamont, em uma estrofe enigmática de Os Cantos de Maldoror, mas na qual há rastros evidentes da leitura de Da Essência do riso e de Modo Gera do Cômico nas Artes Plásticas de Baudelaire. Mas, para ler esse ensaio, teria sido necessário que Lautréamont consultasse os periódicos em que ele foi publicado em 1855 e 57. É o que Jean-Luc Steinmetz observa, em seu prefácio a uma das edições francesas da obra completa de Lautréamont (Isidore Ducasse, le Comte de Lautréamont, Les Chants de Maldoror, Poésies I e II, Correspondance, edição preparada e prefaciada por Jean-Luc Steinmetz, Paris, GF-Flammarion, 1990): Maurice Blanchot mostrou, um dos primeiros, tudo o que Isidore devia a esse Baudelaire obcecado pelo problema do mal, mas pronto a transcendê-lo pela busca da beleza pura, pela arte soberana. Baudelaire, Ducasse: acreditamos ver passar mais de uma vez essa dupla sobre o palimpsesto dos Cantos: Mario e Maldoror galopam ao longo da beira-mar (mas poderia também ser Byron esse cavaleiro companheiro). De Baudelaire, Ducasse retém tudo, inclusive as sugestões: o poder do riso (rechaçado, contudo, por As Flores do Mal), a excentricidade como estética. Ele acrescenta aos ingredientes de um romantismo hipertrofiado o sentido do hibridismo, das ligas. Por sua instigação, penetram-se formas do discurso aparentemente incompatíveis (assim como Maldoror se une à fêmea do tubarão), códigos que se ignoram. Linguagens das matemáticas, da entomologia, da física, da ética: outras tantas parcelas idiomáticas que ele não hesita em alfinetar com insolência sobre os artifícios mais gastos da retórica clássica. Intervenção quase cirúrgica que ele parafraseia, aliás, claramente, quando faz que se reencontrem sobre uma “mesa de operação” um guarda-chuva e uma máquina de costura. As afirmações de Steinmetz sobre “formas do discurso aparentemente incompatíveis” podem ser bem ilustradas por uma das passagens em que comparecem os “belo como”, a do Canto Sexto, na qual Maldoror se contempla diante de um espelho e se acha belo:
Esse trecho é um microcosmo de todo Os Cantos de Maldoror. Exibe os recursos mobilizados por Lautréamont na criação de sua obra: as hipérboles, os enunciados não-lineares, o uso abundante de termos científicos fora de contexto; a relação especular e metalingüística (o autor a comentar seu próprio texto), a exortação ao leitor, a justaposição de termos incompatíveis. Ou, antes, duplas incompatibilidades, paradoxos em dobro: associar um canal da uretra ao belo já é paradoxal; muito mais, juntá-los na mesma seqüência a uma crista de peru, um enunciado sobre estética e uma corveta. É possível observar uma origem baudelairiana desse tipo de junção paradoxal, colocando termos antagônicos ou incompatíveis na mesma seqüência? Em caso positivo, não seria o Hino à Beleza, de As Flores do Mal, um bom exemplo desse procedimento? Examinemos esse poema (transcrito de Charles Baudelaire, poesia e prosa, edição Nova Aguilar, tradução de Ivan Junqueira): HINO À BELEZA
Vens do céu profundo
ou sais do precipício,
Em teus olhos refletes
toda a luz diuturna;
Provéns do negro
abismo ou da esfera infinita?
Calcando mortos vais,
Beleza, a escarnecê-los;
A mariposa voa ao teu
encontro, ó vela,
Que venhas lá do céu
ou do inferno, que importa,
De Satã ou de Deus,
que importa? Anjo ou Sereia, É um poema feito de pares de opostos que se encontram: alegria e desdita, noite e dia, mariposa e vela, amante e moribundo, céu e inferno, Satã e Deus. Claramente, os “belo como” de Lautréamont são uma aplicação da própria concepção de beleza, da estética tal como proposta em Hino à Beleza.
O Hino à Beleza é citado por Erich Auerbach (em As Flores do Mal e o sublime) como um dos exemplos da ambivalência em Baudelaire; da expressão literária de seu “direito de contradizer-se”. Outro bom exemplo de encontro de opostos em As Flores do Mal está nestes versos de O Heautontimoroumenos: Eu sou a faca e o talho atroz! Eu sou o rosto e a bofetada! Eu sou a roda e a mão crispada, Eu sou a vítima e o algoz! [1] É possível observar, comparando esses versos com aqueles do Hino à Beleza, como que uma passagem do abstrato para o concreto, do geral para o particular, do sagrado para o mais profano. Pares como talho e faca, rosto e bofetada, estão mais próximos de nós, do real imediato, que Deus e Satã. A interpretação dessa passagem, de um nível para outro, é possibilitada pelo exame do verso anterior do mesmo poema: Não sou por acaso um falso acorde Nessa divina sinfonia, Graças à voraz Ironia Que me sacode e que me morde? Ironia - aí está uma palavra-chave, indissociável da contribuição do próprio Baudelaire, para se entender o modo como suas imagens reaparecem em Lautréamont. Que Lautréamont aprendeu algo, ou melhor, aprendeu muito da leitura de Baudelaire, é algo fora de dúvida, consensual entre os críticos. Talvez seja mais interessante - e mais concorde com o próprio espírito do comparatismo literário - inverter os termos ou a seqüência dessa comparação, perguntando o que se aprende de Baudelaire a partir da leitura de Lautréamont. Semelhante inversão da série cronológica foi sugerida por Borges em Kafka e seus precursores. Entre outros desses “precursores” de Kafka - Zeno, Han You, Leon Bloy, Dunsanny, Browning - está Kierkegaard, por histórias como esta, das expedições ao Pólo Norte:
Interessam as conclusões extraídas por Borges dessas leituras retrospectivas, de um “precursor” como Kierkegaard a partir do seu “sucessor” Kafka, independentemente de Kafka haver lido ou não esses comentários de Kierkegaard: O fato é que cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado, como há de modificar o futuro. A mesma idéia, da leitura como transformadora e atualizadora do passado, pode ser encontrada, sintetizada de modo feliz, em Roland Barthes, na passagem de O Prazer do Texto em que comenta como vê Proust em um texto citado por Stendhal e em uma passagem de Flaubert sobre “macieiras normandas em flor”, para observar que “a obra de Proust é, ao menos para mim, a obra de referência, a mathesis geral, a mandala de toda a cosmogonia literária.” Vê-se que, para Barthes, Proust é um ensinamento, fonte de conhecimento para a leitura de Flaubert e Stendhal: torna-os mais legíveis. Portanto, não se trata apenas de examinar uma relação genética, de discutir o quanto Lautréamont leu Baudelaire, e quais as dimensões da influência do autor de As Flores do Mal sobre a criação de Os Cantos de Maldoror. O contrário também é importante: a “criação” de Baudelaire como precursor a partir da leitura de Lautréamont. Em outras palavras: o quanto ler Lautréamont nos ajuda a enxergar mais em Baudelaire e a ampliar sua legibilidade. Mas qual é o sentido dessas aproximações de termos opostos (em Baudelaire) ou incompatíveis (em Lautréamont) para personificar a beleza? Como podem ser interpretados os paradoxos e antinomias de um, os completos absurdos de outro, a “instigação”, na feliz expressão de Steinmetz, à penetração das “formas do discurso aparentemente incompatíveis”? Talvez esclareça a citação de outra passagem de Os Cantos de Maldoror, aquela do acasalamento de Maldoror com a fêmea do tubarão, nesta explosão lírica: Duas coxas nervosas se colaram estreitamente à pele viscosa do monstro, como duas sanguessugas; e, os braços e as nadadeiras entrelaçados ao redor do corpo do objeto amado, rodeando-o com amor, enquanto suas gargantas e seus peitos logo formavam coisa alguma, a não ser uma massa glauca, com exalações de sargaços; no meio da tempestade que continua a provocar estragos; à luz dos relâmpagos; tendo por leito de himeneu a vaga espumosa, transportados por uma corrente submarina como em um berço, rolando sobre si mesmos, rumo às profundezas desconhecidas do abismo, juntaram-se em uma cópula longa, casta e horrorosa!... Finalmente, acabava de encontrar alguém semelhante a mim!... De agora em diante, não estava mais só na vida!... Ela tinha as mesmas idéias que eu!... Estava diante do meu primeiro amor! [2] A passagem mais significativa, simbolizando essa reintegração à esfera primitiva em Os Cantos de Maldoror é a estrofe do sonho (Lautréamont é todo contraditório: em uma estrofe, execra o sono, diz que prefere morrer a dormir; em outra, logo a seguir, dorme, sonha, e encontra a felicidade): Maldoror adormece e sonha que se transformou em porco selvagem. Assim, atinge um gozo primitivo, uma espécie de estado indiferenciado. Nele, A metamorfose nunca apareceu a meus olhos senão como elevada e magnânima ressonância de uma felicidade perfeita, que esperava há muito. Finalmente, havia chegado o dia em que fui um porco!
Mas dizem o que essas figuras e relatos? Dizem algo também dito por esta passagem de O Arco e a Lira de Octavio Paz: A poesia é metamorfose, mudança, operação alquímica, e por isso confina com a magia, a religião e outras tentativas para transformar o homem e fazer “deste” ou “daquele” esse “outro” que é ele mesmo. O universo deixa de ser um vasto armazém de coisas heterogêneas. Astros, sapatos, lágrimas, locomotivas, salgueiros, mulheres, dicionários, tudo é uma imensa família, tudo se comunica e se transforma sem cessar, um mesmo sangue corre por todas as formas e o homem pode ser, por fim, o seu desejo: ele mesmo. Há um vocábulo, neste trecho, que deveria ter sido grifado: desejo. E que reaparece em outra passagem de O Arco e a Lira: O reino da poesia é o do “Oxalá”. O poeta é “varão de desejos”. Com efeito, a poesia é desejo. Mas esse desejo não se articula no possível, nem no verossímil. A poesia não é o “impossível verossímil”, desejo de impossíveis: a poesia é fome de realidade. O desejo aspira sempre a suprimir as distâncias, conforme vemos no discurso por excelência - o impulso amoroso. A imagem é a ponte que liga o desejo entre o homem e a realidade. Outra frase a grifar: a poesia é desejo. Desejo sempre maior que seu objeto, por isso irrealizável; daí só poder ser expressado através de enormidades, dessas violências contra a linguagem, contra a lógica e contra a ordem natural das coisas, antevistas e propostas por Baudelaire, e plenamente manifestadas por Lautréamont.
NOTAS 1 Charles Baudelaire - Poesia e Prosa, pg. 166. 2 Lautréamont, Os cantos de Maldoror, Poesias, Cartas, pg. 197. |
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Claudio Willer (Brasil, 1940). Poeta, ensaísta, tradutor. É um dos editores da Agulha. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Raúl Vázquez (Panamá). |
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