Raúl Vázquez Raúl Vázquez
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revista de cultura # 51
fortaleza, são paulo - maio/junho de 2006

Raúl Vázquez

editorial

Segurança pública

Um dos manifestos de Artaud, divulgado em La Révolution Surréaliste em 1925, intitula-se Segurança Pública: A Liquidação do Ópio (publicado no Brasil em Escritos de Antonin Artaud, tradução, notas e prefácio de Claudio Willer, L&PM, 1983 e reedições).

Nele, o futuro criador do Teatro da Crueldade, antecipando o que ainda diria a respeito em suas Cartas de Rodez e outros lugares, criticava a proscrição do ópio e de outras drogas. Tomava a defesa dos dependentes ou viciados, pedindo que os deixem em paz:

Há almas incuráveis e perdidas para o resto da sociedade. Suprimam-lhes um dos meios para chegar à loucura: inventarão dez mil outros. Criarão meios mais sutis, mais selvagens; meios absolutamente desesperados. A própria natureza é anti-social na sua essência - só por uma usurpação de poderes que o corpo da sociedade consegue reagir contra a tendência natural da humanidade.

Deixemos que os perdidos se percam: temos mais o que fazer que tentar uma recuperação impossível e ademais inútil, odiosa e prejudicial.

Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero.

É uma passagem - assim como tantas outras em Artaud - de um pessimismo radical. Mas sua antevisão das conseqüências dessa proibição foi precisa:

Aqueles que ousam encarar os fatos de frente sabem - não é verdade? - os resultados da proibição do álcool nos Estados Unidos.

Uma superprodução da loucura: cerveja com éter, álcool carregado com cocaína vendido clandestinamente, o pileque multiplicado, uma espécie de porre coletivo. Em suma, a lei do fruto proibido.

A mesma coisa com o ópio.

A proibição, que multiplica a curiosidade, só serviu aos rufiões da medicina, do jornalismo, da literatura. Há pessoas que construíram fecais e industriosas reputações sobre sua pretensa indignação contra a inofensiva e ínfima seita dos amaldiçoados da droga (inofensiva porque ínfima e porque sempre uma exceção), essa minoria de amaldiçoados em espírito, alma e doença.

Allen Ginsberg também expôs, em várias ocasiões, sua opinião sobre o mesmo assunto, a proibição de drogas e sua relação com o tráfico. Sua abordagem pouco diferiu daquela de Artaud, a não ser pela dosagem menor de pessimismo. E por oferecer uma análise a posteriori, fundamentada em pesquisas, dos fatos que Artaud havia vaticinado. Entre outros lugares, em duas palestras de 1971, intituladas Addiction Politics 1922-1970 e Crime in the Streets Caused by Addiction Politics (publicadas em Allen Verbatim - Lectures on Poetry, Politics, Consciousness by Allen Ginsberg, edited by Gordon Ball, McGraw-Hill Paperbacks, 1974), o poeta beat demonstrou que leis norte-americanas promulgadas entre 1914 e 1922, proibindo a venda e consumo de opiáceos e outros narcóticos e estimulantes, produziram o tráfico, fortalecendo o crime organizado. Além disso, empurraram os usuários de drogas para a marginalidade e a criminalidade, e promoveram a corrupção de policiais. Em algumas ocasiões, transformaram agências de combate ao tráfico em parceiras dos traficantes.

Nessas palestras, Ginsberg chegou a uma conclusão que, para nós, nesta altura dos acontecimentos, é óbvia: o que, até então, não era um problema social de grandes proporções, passou a sê-lo. Se uma parcela do que foi gasto na repressão ao tráfico, circulação e consumo de drogas tivesse sido investido em assistência médica aos usuários dependentes de droga, teriam sido evitados os flagelos urbanos que presenciamos hoje.

Evidentemente, não é possível dar marcha à ré na história. Erros do passado são irreversíveis. E os níveis de incompetência, demagogia e irresponsabilidade exibidos durante acontecimentos recentes, como estes do fim de semana do 13 de maio de 2006 em São Paulo, e outros anteriores em São Paulo, no Rio de Janeiro e em tantas outras localidades, ultrapassam as piores previsões de profetas e analistas, de poetas e sociólogos.

Diante disso, resta apenas manifestar solidariedade a todas as vítimas desses erros passados e das más políticas públicas do presente.

Os editores

Raúl Vázquez

sumário

1 a palavra como ideograma em antonin artaud. gilberto rabelo profeta
2 a poesia de dora ferreira da silva. vilém flusser
3
a poesia nos estados unidos, alguns livros. charles p. ries
4
anne waldman. autobiografia
5
diálogos com antunes filho, amália zeitel e josé ferro: nelson rodrigues e o eterno retorno. ana lúcia vasconcelos
6
el cine en sus divas. jorge dávila vázquez
7
guillermo sáenz patterson: "hoy te levantaste con tu predilecto ojo púrpura" [entrevista]. alfonso peña
8
héctor ernández y la nave de los locos. juan calzadilla
9 la reciente poesía italiana. alberto pellegatta 
10 lautréamont e os prazeres do comparatismo literário. claudio willer
11
naufrágio, poesia e tradução. marco lucchesi
12
o surrealismo de cruzeiro seixas. sarane alexandrian
13
realismo fantástico e floração ecológica. per johns
14
sérgio lucena, o viajante imóvel. jacob klitowitz
15
tiempo y espacio en la arquitectura mexicana. carlos véjar pérez-rubio

artista convidado raúl vázquez [pintura - texto de pedro correa vásquez]
resenhas livros da agulha aldo da cunha rebouças, benedito braga & josé galizia
ángel pariente [por sabas martín guillermo sáenz patterson [por guillermo fernández] joseph ki-zerbo marcelo sandmann [por cristovão tezza] miguel ángel muñoz [por marco antonio campos] renato sandoval [por pedro granados] tony berchmans
música
discos da agulha duofel
ednardo [por josé teles] flávio henrique leandro braga pascoal meirelles [por roberto m. moura] rogério caetano sérgio sampaio [por rodrigo moreira] terra brasil toque de prima zeca baleiro
cumplicidade 1 galeria de revistas
o escritor  [brasil]
cumplicidade 2
galeria de manifestos [brasil
colombia portugal] 

Raúl Vázquez

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
belkys arredondo (venezuela)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(
estados unidos)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
ernesto suárez
(espanha)
francisco morales santos
(guatemala)
gary daher canedo
(bolívia)
jo
sé ángel leyva (méxico)
margaret randall (estados unidos)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
rodolfo häsler (espanha)
saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (pintura)
raúl vázquez

apoio cultural
jornal de poesia

traduções
eclair antonio almeida filho

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claudio willer (cjwiller@uol.com.br)
Rua Peixoto Gomide 326/124
São Paulo SP 01409-000 Brasil

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