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editorial
Segurança pública
Um dos
manifestos de Artaud, divulgado em La Révolution Surréaliste
em 1925, intitula-se Segurança Pública: A Liquidação do Ópio
(publicado no Brasil em Escritos de Antonin Artaud, tradução,
notas e prefácio de Claudio Willer, L&PM, 1983 e reedições).
Nele, o futuro
criador do Teatro da Crueldade, antecipando o que ainda diria a respeito
em suas Cartas de Rodez e outros lugares, criticava a proscrição
do ópio e de outras drogas. Tomava a defesa dos dependentes ou viciados,
pedindo que os deixem em paz:
Há almas
incuráveis e perdidas para o resto da sociedade. Suprimam-lhes um dos
meios para chegar à loucura: inventarão dez mil outros. Criarão meios
mais sutis, mais selvagens; meios absolutamente desesperados. A própria
natureza é anti-social na sua essência - só por uma usurpação de poderes
que o corpo da sociedade consegue reagir contra a tendência natural da
humanidade.
Deixemos que os
perdidos se percam: temos mais o que fazer que tentar uma recuperação
impossível e ademais inútil,
odiosa e
prejudicial.
Enquanto não
conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não
teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem
tenta se livrar do desespero.
É uma passagem -
assim como tantas outras em Artaud - de um pessimismo radical. Mas sua
antevisão das conseqüências dessa proibição foi precisa:
Aqueles que ousam encarar os fatos de frente sabem - não é verdade? - os
resultados da proibição do álcool nos Estados Unidos.
Uma superprodução da loucura: cerveja com éter, álcool
carregado com cocaína vendido clandestinamente, o pileque multiplicado,
uma espécie de porre coletivo. Em suma, a lei do fruto proibido.
A mesma coisa com o ópio.
A proibição, que multiplica a curiosidade, só serviu aos rufiões da
medicina, do jornalismo, da literatura. Há pessoas que construíram
fecais e industriosas reputações sobre sua pretensa indignação contra a
inofensiva e ínfima seita dos amaldiçoados da droga (inofensiva porque
ínfima e porque sempre uma exceção), essa minoria de amaldiçoados em
espírito, alma e doença.
Allen Ginsberg
também expôs, em várias ocasiões, sua opinião sobre o mesmo assunto, a
proibição de drogas e sua relação com o tráfico. Sua abordagem pouco
diferiu daquela de Artaud, a não ser pela dosagem menor de pessimismo. E
por oferecer uma análise a posteriori, fundamentada em pesquisas,
dos fatos que Artaud havia vaticinado. Entre outros lugares, em duas
palestras de 1971, intituladas Addiction Politics 1922-1970 e
Crime in the Streets Caused by Addiction Politics (publicadas em
Allen Verbatim - Lectures on Poetry, Politics, Consciousness by Allen
Ginsberg, edited by Gordon Ball, McGraw-Hill Paperbacks, 1974), o
poeta beat demonstrou que leis norte-americanas promulgadas entre
1914 e 1922, proibindo a venda e consumo de opiáceos e outros narcóticos
e estimulantes, produziram o tráfico, fortalecendo o crime organizado.
Além disso, empurraram os usuários de drogas para a marginalidade e a
criminalidade, e promoveram a corrupção de policiais. Em algumas
ocasiões, transformaram agências de combate ao tráfico em parceiras dos
traficantes.
Nessas palestras,
Ginsberg chegou a uma conclusão que, para nós, nesta altura dos
acontecimentos, é óbvia: o que, até então, não era um problema social de
grandes proporções, passou a sê-lo. Se uma parcela do que foi gasto na
repressão ao tráfico, circulação e consumo de drogas tivesse sido
investido em assistência médica aos usuários dependentes de droga,
teriam sido evitados os flagelos urbanos que presenciamos hoje.
Evidentemente, não
é possível dar marcha à ré na história. Erros do passado são
irreversíveis. E os níveis de incompetência, demagogia e
irresponsabilidade exibidos durante acontecimentos recentes, como estes
do fim de semana do 13 de maio de 2006 em São Paulo, e outros anteriores
em São Paulo, no Rio de Janeiro e em tantas outras localidades,
ultrapassam as piores previsões de profetas e analistas, de poetas e
sociólogos.
Diante disso,
resta apenas manifestar solidariedade a todas as vítimas desses erros
passados e das más políticas públicas do presente.
Os editores |