revista de cultura # 49
fortaleza, são paulo - janeiro de 2006

discos da agulha

O tempo, a distância e a contradança, de Ana Fridman1. O tempo, a distância e a contradança, de Ana Fridman. Zabumba Records. 2004. Contato: tempoqueleva@yahoo.com.br.

A pianista e compositora lança seu Cd "O Tempo, A Distância e a Contradança" como resultado de uma pesquisa de 4 anos de viagem estudando Composição dentro e fora do país (Califórnia Institute of the Arts, Guildhall School de Londres entre outros).

Mais conhecida na parte de trilhas sonoras para Teatro e Dança, a compositora lança seu trabalho instrumental influenciado pela música brasileira, pelo tango, pela música celta e por outras coisas que, segundo ela, saíram de sua cabeça depois de olhar algumas paisagens.

O Cd é produzido por Gilberto Assis e lançado pelo selo Zabumba Records, contando com a participação especial da orquestra Retratos do Nordeste, do percussionista Sérgio Reze e de músicos atuantes no cenário paulistano instrumental.

Tem mais samba, de Dorina2. Tem mais samba, de Dorina. Rob Digital. 2005. Contato: contato@robdigital.com.br.

Dorina lança um novo disco para celebrar uma década dedicada ao samba. Admirada por grandes nomes como Zeca Pagodinho (seu padrinho artístico), Monarco, Nelson Sargento, Beth Carvalho, Martinho da Vila, D. Ivone Lara e Almir Guineto, a menina que cresceu nas rodas de samba apresenta todo o seu talento em 14 músicas. “Tem Mais Samba” - uma edição comemorativa - é composto por músicas de seu primeiro disco, “Eu Canto Samba” (1995), do segundo, “Samba.com” (2001), mais duas faixas inéditas e uma faixa multimídia com o clipe da música “Lamas nas ruas”, de seu terceiro CD, “Sambas de Almir”.

O repertório apresenta clássicos como “Eu canto samba” (Paulinho da Viola), “Tem mais samba” (Chico Buarque) e “Vivência no Morro” (Monarco). As músicas “Só por um momento” (Jorge Aragão) e “Sempre Acesa” (Sombra/Luiz Carlos da Vila) são lançadas na voz de Dorina pela primeira vez. A faixa multimídia traz o making of do clipe e depoimentos de Dudu Nobre, Mart’nália, Mauro Diniz, Surica, entre outros.

Nesses dez anos de carreira, Dorina conquistou o Prêmio Sharp como Revelação de Samba em 1995, ganhou o troféu de Melhor Intérprete no Festival Fábrica do Samba em 2002 e recebeu a indicação de Melhor Intérprete de Samba no Prêmio TIM em 2004.

“Tem Mais Samba” é a síntese definitiva de uma carreira que se consolidou e colocou Dorina entre as grandes vozes do samba.

Fantasia Carioca, do Duo Folia3. Fantasia Carioca, do Duo Folia. Rob Digital. Contato: contato@robdigital.com.br.

Fantasia Carioca, primeiro CD do Duo Folia, é destinado aos amantes da boa música clássica O álbum originou-se do encontro dos veteranos Nícolas de Souza Barros (discípulo de Turíbio Santos e membro do conjunto Quatro Cervantes) e o inglês-carioca David Chew (celista da OSB), ambos diplomados em Londres. O resultado deste encontro não poderia ser outro senão a qualidade – garantida pela soma dos extensos currículos dos músicos e pela inovação em executar a grande maioria das peças com violoncelo e violão pela primeira vez. No repertório, mesclas das peças de Bach e Astor Piazzolla, de Haendel e Diego Ortiz, de Charles Gounod e Ernesto Nazaré e Villa-Lobos. Com este repertório, o Duo Folia conduz o ouvinte a um requintado passeio musical, exibindo sempre uma integração perfeita entre o violoncelo e as várias cordas que os complementam: o violão clássico, o altguitar e até uma viola caipira.

Música Zen – Variações. Vol. I, de Francisco Casaverde4. Música Zen – Variações. Vol. I, de Francisco Casaverde. Selo Som & Forma. Fortaleza. 2005. Contato: casaverde@imagelink.com.br.

A autêntica música zen, composta por monges budistas japoneses, é executada apenas pelo shakuhachi, uma flauta chinesa feita de bambu, sendo usada como uma forma de meditação budista chamada Sui Zen.
Depois de lançar os cds Flauta Zen (Volumes I e II), que contêm esse tipo de música na sua forma original, a Som e Forma apresenta agora este trabalho, que é uma  "variação" da música zen, já que, embora as melodias originais tenham sido mantidas, elas foram harmonizadas, tendo sido acrescentados ao shakuhachi teclados e percursões.

Francisco Casaverde é compositor, pianista, tecladista, arranjador e professor de música. Como compositor tem, entre outras, músicas gravadas por Fagner (Frenesi, Qualquer Música, Cartaz, Reisado, Deixa Viver, Amor e Crime); Simone (Um desejo só não basta); Belchior (Lira dos Vinte Anos, Amor de Perdição, Baihuno, Balada do Amor Perverso); Roupa Nova (Fumaça); Tânia Alves (Bocas Iguais);  Ritchie (Dejà vu, Obsessão), em parcerias com Fausto Nilo, Belchior, Ritchie, Caio Sílvio e outros.
É autor do CD Rubi, de música instrumental, com doze músicas inéditas, dez das quais são de sua autoria. Neste trabalho ele mistura sequenciadores e baterias eletrônicas com instrumentos acústicos e ritmos brasileiros, contando com a participação de Mingo Araújo (percussão), Manassés de Sousa (violas) e Adelson Viana (acordeon e piano). O CD foi gravado no período de janeiro a março de 2000.
Em 2002 produziu, juntamente com o monge zen Ryotan Tokuda, os CDs Flauta Zen - Volumes I e II com o flautista japonês Yôichi Okada, contendo peças originais de música zen.
Seu mais recente trabalho é este Música Zen - Variações – Vol. I, também com o flautista Yôichi Okada.

Manhã de carnaval, de Gilson Peranzzetta5. Manhã de carnaval, de Gilson Peranzzetta. Rob Digital. 2005. contato@robdigital.com.br.

Manhã de Carnaval faz um delicioso passeio pela MPB, reunindo o melhor da produção musical do Brasil nas últimas décadas. Está sendo lançado simultaneamente no Brasil, Argentina e Espanha.

Manhã de Carnaval é o segundo disco, de um precioso projeto de resgate e preservação de memória de nossa música, idealizado por Gilson Peranzzetta, que tem por objetivo fazer uma releitura de standards da MPB, com uma nova concepção harmônica, usando a formação de trio - piano, baixo e bateria. Integram o trio, além de Peranzzetta (piano e arranjos), Paulo Russo (contrabaixo) e João Cortez (bateria). O cd conta com as participações especiais de Ivan Lins, Wanda Sá, Joyce e Mauro Senise.

As apresentações de Gilson Peranzzetta têm uma conotação de liberdade interpretativa, com espaços para improvisos e troca entre os integrantes do trio, resultando em momentos lúdicos, com uma criatividade surpreendente. O piano de Peranzzetta improvisa com admirável desenvoltura e riqueza harmônica. O contrabaixo de Paulo Russo proporciona uma base segura e solos inventivos. A bateria de João Cortez se destaca pela sutileza, mas sempre mantendo a base rítmica precisa e com acentos instigantes.

Gilson Peranzzetta é o que se pode chamar de músico completo. Recebeu três Prêmios Sharp de Música, como melhor arranjador, compositor e intérprete. Contabiliza 31 CDs solo lançados, além de centenas de cds gravados como pianista, produtor e arranjador. Compôs várias trilhas sonoras para filmes e seriados de televisão. Sua música “Setembro”, em parceria com Ivan Lins, foi incluída na trilha sonora da premiada série norte-americana Dallas e no filme Boys’n the Hood, e “Sorriso de luz”, na mini-série brasileira Labirinto.

Gilson Peranzzetta tem atualmente 150 composições gravadas por artistas nacionais como Djavan, Ivan Lins, Leila Pinheiro, Dori Caymmi, Nana Caymmi e por artistas internacionais como George Benson, Sarah Vaughan, Quincy Jones, Dianne Schurr e Shirley Horn, entre outros.

Apresenta-se anualmente no Japão, Estados Unidos, França, Alemanha e Espanha, onde morou por três anos. 

Aperto de mão, de Marcel Powell6. Aperto de mão, de Marcel Powell. Rob Digital. 2005. contato@robdigital.com.br.

O violão brasileiro ganha mais um luminar. Apesar de seus tenros 23 anos, (Louis) Marcel Powell, o filho do grande Baden Powell nascido em Paris, não é propriamente um noviço no ramo. Com o pai gravou dois discos, “Baden Powell e filhos” (quando tinha apenas 15) e “Suite Afro-Brasileira”, ambos ao lado do irmão, o pianista Philippe Baden. Este último só foi lançado no Japão, como aliás seu primeiro solo, “Samba novo”, registrado três anos atrás no estúdio AR, da Barra, junto com os amigos Diogo (filho de João) Nogueira, Claudia (filha de Sylvia) Telles, Ana Martins (filha de Joyce) e Marcos Suzano, entre outros. Pela ordem, “Aperto de mão” (Rob Digital) seria seu quarto registro, mas é o primeiro em que ele se vê retratado com fidelidade. “É o disco que tem mais a ver comigo”, separa.

O repertório foi escolhido de comum acordo com seu produtor e mentor, o também virtuose no violão João de Aquino, aliás, primo de Baden e grande conhecedor de sua obra. “Sempre tive uma identificação muito grande com o João”, conta Marcel. “Gostei muito do tipo de samba que ele toca em seu disco “Bordões”. Sem a formalidade de dar aulas, o João ficou mais ou menos no lugar do meu pai. Nos encontrávamos às duas da tarde e íamos até às 4 da manhã batendo papo sobre violão e tocando juntos. Ele me deu muitas dicas”, decupa. O cartão de visita do novo mestre, “Aperto de mão”, inventaria admirações de seu executante. A começar pela faixa título, que homenageia Jaime Florence, o Meira, professor de seu pai, co-autor da música com Horondino Silva, o Dino 7 Cordas e Augusto Mesquita. Só que o dolorido samba canção original, sucesso de Isaura Garcia em 1943, foi remodelado com vigor. “Gosto de usar muitas escalas e tenho um ataque de notas rápidas que é a maior diferença em relação ao estilo do meu pai”, define Marcel.

O patriarca ainda é homenageado em “Saudades de Baden”, próximo do samba, arquitetado a partir de um fragmento musical deixado pelo pai, recuperado por João de Aquino. E em “Itanhangá”, choro canção que evoca o bairro onde a família morou no Rio. Mas foi em sua estadia na Alemanha que Marcel decidiu-se pela carreira musical.

- Em princípio, o papai não queria que eu e meu irmão fôssemos músicos. Mas o Philippe ganhou um violão. E eu aos cinco anos estudei violino com professor alemão. Tocava clássico, lia partitura, mas acabei encantado pelo violão. Peguei o instrumento do meu irmão e comecei a praticar. Quando achei que já sabia tocar alguma coisa, chamamos o papai e eu no violão e o Philipe já no piano atacamos de “Yesterday”, dos Beatles. Papai veio, corrigiu minha posição nas cordas, mas não queria ser o meu professor. Dizia não ter paciência para ensinar. Quando viu porém, que o interesse era forte ele se empenhou. Prometeu pegar pesado. E dos 9 aos 18 anos, quando ele faleceu, era aula todo dia, das 9 da manhã até o almoço. Virei escravo do violão.

O jugo paterno deu frutos. Ouça-se “Prelúdio das diminutas”, homenagem a Villa Lobos, feita aos 11 anos em parceria com Baden. “Papai fez a maior parte, só acrescentei uma coisa ou outra”, replica modesto. Do outro mestre, João de Aquino, ele escolheu a ebuliente “Dia de feira” (com Jesus Rocha). Admirador do compositor João Bosco, a quem conheceu numa festa e chegou a pedir um autógrafo, embora tenha ficado tímido para uma aproximação maior, gravou “Desenho de giz” (com Abel Silva). A música saiu de um “Ao vivo” do compositor muito ouvido por Marcel quando estava em temporada no Tahiti. De uma gravação da cantora Leny Andrade com o guitarrista Romero Lubambo ele pescou o samba endiabrado de Ivan Lins “Essa maré” (com Ronaldo Monteiro de Souza), mais um autor de seu altar de admirações. Sua valorização dos compositores tem a ver com a formação musical recebida, onde a criação é o mais importante.

- Acho que a maior gratificação de um autor é escutar sua melodia ser cantada ou assoviada na rua. Só vou me considerar um compositor de verdade quando isso acontecer. Quando disserem ao ouvir uma música: “isso é do Marcel Powell”.

De preferência, Marcel gostaria que sua criação pairasse no tempo como algumas das mais antigas composições arroladas no repertório. Como “Último desejo”, da lavra de Noel Rosa de 1937. Uma gravação do violonista Marco Pereira com a cantora Gal Costa, que ouviu numa turnê na França em 2002, chamou-lhe a atenção para as possibilidades de arranjo da música, a que acrescentou uma pegada vigorosa mas com espaços para reflexão. Já “Rapaz de bem”, escrita por Johnny Alf em 1953, muito antes da bossa nova, ganhou uma releitura de toques vertiginosos que vão descortinando aos poucos a melodia sinuosa. “É uma música atemporal. Parece que foi feita agora, não é datada”, elogia. Por conta de sua formação essencialmente voltada para a MPB, ele revisitou também o clássico “Evocação no. 1”, de Nelson Ferreira, sucesso nacional no carnaval de 1957. “O frevo é um ritmo brasileiro muito forte e pouco divulgado. E ao mesmo tempo é um desafio enorme para o executante”, descreve.

Sua fidelidade à cultura nacional, no entanto, não deságua em xenofobia. Tanto que o tema jazzístico “Round midnight”, do pianista Thelonious Monk (com Cootie Williams e Bernie Hanighen) também foi incluído no CD. “Toda música tem que me dizer alguma coisa. Me deixar excitado ou triste. Quando ouvi meu pai tocando essa música num programa na França comecei a chorar. Ela me emocionou muito”, garante Marcel. Sua releitura do tema tem uma passagem quase seresteira, explorando tanto a pungência quanto o estranhamento do tema em densas camadas de acordes. O CD de MP tem essa duplicidade de intensidade e urgência. “Acho que o ideal é o músico poder dar seu recado no tempo que tiver no palco ou no estúdio para fazer passar a beleza da música, o sentimento colocado nela e sua habilidade como instrumentista”, ensina Marcel Powell. “Aperto de mão” reúne os três quesitos e o consagra como jovem mestre do violão brasileiro.

[Tárik de Souza]

Mar e luz, de Mario Lucio7. Mar e luz, de Mario Lucio. Rob Digital. 2005. contato@robdigital.com.br.

Compositor e arranjador de vários álbuns de solistas cabo-verdianos, Mario Lucio se destaca por seu engajamento cultural, seja como fundador e diretor da Associação Cultural Quintal da Música, incentivando a música tradicional e o acesso das crianças à aprendizagem, seja como um militante a serviço da cultura local, recentemente constituído Embaixador Cultural de Cabo Verde.

Lúcio Matías de Sousa Mendes nasceu em Tarrafal, na Ilha de Santiago, Cabo Verde. Órfão de pai, aos doze anos foi adotado pelas Forças Armadas, vivendo como interno no quartel, antigo Campo de Concentração do Tarrafal, sob a tutela do Estado Maior. Prosseguiu os seus estudos secundários e obteve uma bolsa do Estado para ingressar no Liceu na cidade da Praia. Ativista cultural e músico, em 1984 ganhou bolsa do Governo Cubano para estudar Direito na Universidade de Havana, onde se licenciou em 1990. Foi Deputado do Parlamento Cabo-verdiano (entre 1996 e 2001) e Assessor do Ministro da Cultura, em 1992.

Através da literatura, o poeta tem seu lirismo expresso em algumas obras de destaque, como em “Nascimento de um Mundo” (1990) e na ficção “Trinta Dias do Homem mais Pobre do Mundo” (2000), quando ganhou o prêmio do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa. Mario Lucio pertence ainda ao movimento da nova geração de pintores, participando de exposições no país e no estrangeiro.

É fundador e líder do grupo musical Simentera, que lançou quatro discos e marcou a mudança da música de Cabo Verde para o acústico, reivindicando a cultura continental africana como elemento da identidade cultural cabo-verdiana. Em seu último CD “Tr’adictional”, ao lado do Grupo Simentera, apresentou seu projeto musical sobre a mestiçagem, contando com participações importantes, como do camaronês Manu Dibango, dos senegaleses Touré Kunda, do brasileiro Paulinho da Viola, e dos portugueses Maria João e Mário Laginha.

Autor de temas gravados por Cesária Évora e outros artistas cabo-verdianos, é compositor permanente da companhia Raiz di Polon, a única formação de dança contemporânea do Arquipélago. Já fez concertos em várias partes do globo, nos Estados Unidos, Brasil, França, Alemanha, Suécia, Finlândia, Noruega, dentre muitos outros.

Ouro negro, de Moacir Santos8. Ouro negro, de Moacir Santos. Selo Universal. Rio de Janeiro.

Sempre tendi a intuir que a música é uma experiência sensorial direcionada à fluidez, como motriz e propulsora nas outras várias faces da fruição, em seus diversos níveis. Mas ainda não tinha me dado conta de que é mais ampla a fluidez no espectro de sensações humanas: a música é volátil, uma das instâncias do tempo, uma tangente ou paralela ao tempo, dependendo se o tempo é cíclico, como o relógio, ou é caminhar, como vida. E é em um infinito intangível que ela se realiza. A expressão é “infinito intangível”, mesmo que conduza a uma redundância sendo, no entanto, uma forma de progressão geométrica em inimaginável extensão nas dimensões da percepção humana. E é aí que é sentida e se significa em plena abstração, se é possível.

Estou assistindo ao fabuloso DVD da realização ao vivo do CD Ouro Negro que nos trouxe de volta – e é uma homenagem à sua grandiosidade – o especial simples maestro, compositor e músico, Moacir Santos. Os lançamentos em CD e DVD são produzidos pelos músicos Zé Nogueira e Mário Adnet, que foram exímios nesta concretização de sonhos: além das mídias que trazem aos dias de hoje a obra indescritivelmente rica do maestro pernambucano, conseguiram sensibilizar patrocinadores de peso para um projeto desta monta, contando com grandes representantes instrumentistas do Brasil e cantores populares. O DVD foi gravado no SESC Pompéia, em São Paulo.

Diz o maestro Moacir Santos que seu sonho era fazer opus, mas diz-se “quem sou eu para fazer opus, vou fazer coisas”. Assim é dado o nome da maioria de suas músicas: Coisa n° 1 etc. etc.

Devo dizer que por minha parte não tive qualquer acesso anterior a esta música tão fascinante e confirmo que a sensação de fascínio que me traz não se dá somente pela estranheza surpreendente de uma novidade, mas pelo encanto contido na sofisticação da música e em seus arranjos, cuja riqueza e originalidade têm pés abertos pelo mundo inteiro, essencialmente nos ritmos africanos e no jazz com um sotaque bastante brasileiro, não fosse a internacionalização do reconhecimento à sua obra – quando se perde a noção de se a colônia influencia o império, ou vice-versa (e não se faz necessário entender, afinal). Ecos desta obra estão em inúmeros trabalhos musicais pelo mundo inteiro.

Em determinado momento, João Bosco – que interpreta a música Oduduá, letrada por Nei Lopes e ganhou o nome em inglês de What’s my name – fala da importância incontestável da música de Moacir Santos em sua música e na música produzida durante os anos 60, o que é ratificado por Ed Motta – que participa em Orfeu (Quiet Carnival), também com letra de Nei Lopes, onde o cantor se esbanja em seus famosos e eficientes vocalizes – quando diz que Moacir Santos é um dos três pilares da música brasileira onde estão Villa-Lobos e Tom Jobim. Não importa quantos pilares cada um conta, afinal.

Certamente, o conteúdo da obra do maestro é muito bem recebido numa época em que reclamamos tanto de música de qualidade. Mas vejo que, quando reclamamos de música de qualidade, é que nós queremos que os veículos de comunicação, que tanto nos enchem a vida de paradigmas construídos em cima da manutenção de um sistema cada vez mais chulo, repetitivo em sua ausência de criatividade (ou do que supõe que venda) e nivelado por baixo, abrace essa qualidade maravilhosa e plural que tem também em Moacir Santos um dos nascedouros de obras maravilhosas que ainda estão à parte, tão independentes e desconhecidas como Moacir Santos, para mim que conheci Ouro Negro em 2001.

[Erico Baymma]

Meu amigo, Geraldo Pereira, de Nadinho da Ilha9. Meu amigo, Geraldo Pereira, de Nadinho da Ilha. Rob Digital. 2005. Contato: contato@robdigital.com.br.

Criado no morro do Borel, no Rio de Janeiro, Nadinho é sobrinho de Nilo Chagas (ex-integrante do Trio de Ouro, junto com Herivelto Martins e Dalva de Oliveira). Começou na música aos 12 anos, apadrinhado por Geraldo Pereira, que o levou para tocar tamborim na Rádio Clube do Brasil. Este contato com os sambas sincopados de Geraldo ajudou-o a desenvolver um apurado senso rítmico. Ainda jovem, integrou o grupo de Heitor dos Prazeres. Mais tarde, tornou-se integrante da Ala de Compositores da Unidos da Tijuca. Na década de 70, atuou nos espetáculos “Deus lhe Pague”, dirigido por Procópio Ferreira e “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque.

Em 1998, ao lado de Rildo Hora, Afonso Machado, Délcio Carvalho, Walter Alfaiate, Tania Machado, entre outros, participou do disco "O samba sabe o que quer", de Sérgio Botto e Guilherme Godoy, no qual interpretou em dupla com Nelson Sargento a faixa "O trem da história". Nesse mesmo ano, ao lado de Noca da Portela, Wilson Moreira, Nelson Sargento, Dorina, Monarco, Casquinha, Guilherme de Brito, Baianinho, Argemiro da Portela e Darcy Maravilha, participou do disco "Casa da Mãe Joana". No ano seguinte, com produção de Henrique Cazes, gravou o CD "O Samba bem humorado de Nadinho da Ilha" (RGE), que contou com arranjos de Paulão 7 Cordas e Henrique Cazes.

Nadinho da Ilha reúne neste disco célebres composições de Geraldo Pereira, como Falsa baiana, Acertei no milhar, Cabritada mal-sucedida e Escurinha. Minha companheira, Liberta meu coração e Ai, mãezinha também estão no repertório, interpretadas pela inconfundível voz do sambista.

Um time de primeira acompanha o cantor, com Fernando César (violão de 7 cordas), Henrique Cazes (cavaquinho, violão e arranjos), Beto Cazes e Oscar Bolão (percussão), dentre outros.

Amorágio – solo de gaveta, de Salgado Maranhão10. Amorágio – solo de gaveta, de Salgado Maranhão. SESC-Rio Som. 2005. Contato: salmaranha@hotmail.com.

O selo fonográfico SESC RIO.SOM, lançado em dezembro de 2004, traz mais um lançamento neste mês de novembro – o segundo da série Poetas da Canção que reúne, recupera, atualiza e revisita a obra de doze letristas da MPB cujo trabalho frutificou especialmente na década de 80 ou a partir daí. Este segundo CD – Amorágiotraz a obra do poeta premiado e do letrista parceiro de grandes nomes da música: Salgado Maranhão.

São treze canções – cinco inéditas e oito já gravadas por intérpretes e parceiros de Maranhão – muitos que aqui se fazem presentes. Ivan Lins, Paulinho da Viola, Elba Ramalho, Alcione, Zé Renato, Rita Ribeiro, Amélia Rabello, Sandra Duailibi, Dominguinhos, Selma Reis e Zeca Baleiro são as vozes que dão vida às canções, cinco delas inéditas: Rapsódia, Vôo Livre, Diamante Bruto, Do princípio sem fim e Amorágio.

Salgado Maranhão, nascido José Salgado Santos, veio para o Rio de Janeiro em 1973 por estímulo e indicação de Torquato Neto e reúne agora sua obra musical. Vencedor de um Jabuti por Mural de Ventos (1999), vê na música e na poesia algumas diferenças: “A letra de música respeita um certo ritmo, ou uma certa métrica que se ajusta à música que, na maioria das vezes, dá realce a certos textos que fora da canção não se sustentam; no poema, a página em branco não serve de âncora, mas de cobrança”, declarou em entrevista. Ao mesmo tempo, “a poesia, como diz Murilo Mendes, sopra onde quer. Num recital, no holograma, na música popular”, completa.

Publicou poemas e artigos na revista Encontro com a Civilização Brasileira (1978). Nos anos seguintes, publicou: Aboio (1984), Punhos da serpente (1989), Palávora (1995), O beijo da fera (1996) e Mural de ventos (1998). Em 1998, ganhou o prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira dos Escritores (UBE), com o livro O beijo da fera. No ano seguinte, com Mural de ventos, foi o vencedor do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, dividido com Haroldo de Campos e Geraldo Mello Mourão.

Em 1977, em parceria com Vital Farias, compôs a música tema do filme Curral das maravilhas, de Jonas Bloch. Dois anos depois, Vital Farias incluiu em seu disco, lançado pela gravadora PolyGram, quatro composições da parceria de ambos: Pelo menos o fogo, Trem da consciência, Apesar da solidão e Curral das maravilhas. Neste mesmo ano, Ney Matogrosso, em LP pela PolyGram, interpretou Trapaças (c/ Herman Torres). Em 1980 compôs em parceria com Mirabô Dantas a canção-tema do filme O boi de prata, de Augusto Ribeiro Júnior.

Em 1981 Zizi Possi interpretou Caminhos do sol (c/ Herman Torres), incluída como tema na novela A viagem, da Rede Globo; no ano seguinte, Amelinha gravou de sua autoria Choro da lua (c/ Herman Torres) e Trem da consciência (c/ Vital Farias). Em 1983, Coração por dentro, em parceria com Herman Torres, foi incluída no disco de Rosa Maria; Elba Ramalho lançou pela PolyGram o disco Tambor de crioula, faixa-título composta em parceria Zé Américo. Elba gravou várias parcerias da dupla Zé Américo/Salgado Maranhão, entre elas Olhos acesos, Calmaria e Ave cigana. Em 1984, Alguma coisa, em parceria com Herman Torres, foi interpretada por Amelinha no disco Água luz. Em 1997 Ivan Lins gravou Para alegrar coração de moça (c/ Ivan). No ano 2000, Amorágio, em parceria com Ivan Lins, foi gravada pelo cantor para o mercado japonês. Em 2001, Elton Medeiros, em dueto com Zezé Gonzaga, interpretou Recato, no CD Aurora de paz, de Elton Medeiros. No ano seguinte, Juliana Amaral incluiu Revela, parceria com Moacyr Luz, no disco Águas daqui. Neste ano publicou pela Editora Imago Sol sangüíneo. Sobre este livro, declarou Antonio Carlos Secchin: "Numa dicção arraigadamente pessoal, Salgado Maranhão, em Sol Sangüíneo, atinge o (até agora) ponto máximo de sua obra, num conjunto coeso de poemas".

Ainda entre suas músicas gravadas, constam Punhos da serpente e Mistura, ambas em parceria com Xangai e gravadas pelo parceiro em disco independente. Com Carlos Pita, outro parceiro, compôs Táxi de estrelas, Fogo e Galope à beira-mar, todas gravadas pelo próprio. Constam ainda entre seus intérpretes Gilberto Alves, em Galope à beira-mar; o cantor Gerude, em Lençóis (c/ Zé Américo); Naeno, em Tributo a Bob Marley, parceria de ambos; Paulinho da Viola, em Feito passarinho (c/ Paulinho da Viola); O Terço, em Quem mata a mulher mata o melhor (c/ Ivan Lins); e Luzia Santana, em Galope à beira-mar.

Tem ainda composições inéditas com Tunai, João Donato, Zeca Baleiro, Renato Piau, Chico César, entre outros.

Sobre ele, declarou Aldir Blanc ao Jornal do Brasil em julho de 2001: "Salgado é versátil e tem aquela qualidade incrível que é conseguir unir o poeta refinado, de técnica apurada, e uma veia popular". Seu conterrâneo Ferreira Gullar declarou que "Salgado é um dos mais brilhantes poetas de sua geração e possui um trabalho de linguagem muito especial".

Um pouco de mim, de Sérgio Natureza11. Um pouco de mim, de Sérgio Natureza. SESC-Rio Som. 2004.

Parceiro de Paulinho da Viola, Lenine, Tunai, Guinga, Elton Medeiros, dentre muitos outros, Sergio Natureza tem mais de 250 músicas de sua autoria gravadas pelos próprios parceiros e por intérpretes do quilate de Elis Regina, Gal Costa, Simone, Nana Caymmi, Emilio Santiago, Zizi Possi, Fafá de Belém, Ney Matogrosso, Tim Maia... apenas para citar alguns nomes dentro de um elenco de grandes artistas da MPB.

No CD "Um pouco de mim - Sergio Natureza e amigos", o autor tem parte de sua obra relida - e algumas canções inéditas - nas vozes de seus amigos Luiz Melodia, Leny Andrade, Lenine, Zeca Baleiro, Monica Salmaso, Ná Ozzetti, Marcos Sacramento, Amelia Rabello e outros talentosos artistas jovens.

Participam também do disco músicos do gabarito de Raphael Rabello, Carlos Malta, Cristóvão Bastos, Delia Fischer, Marcos Suzano, Lui Coimbra, Nicolas Krassik, dentre outros tantos craques.

No repertório do CD estão incluídos alguns dos maiores sucessos da carreira de Sergio Natureza tais como:

- "Frisson", sucesso original na voz do parceiro Tunai, mais tarde regravada por Ivete Sangalo e Elba Ramalho, sendo agora apresentada, numa versão surpreendente, pela estreante Luanda Cozetti - acompanhada do violões de Kadu Lambach e do sax de Carlos Malta.

- "As aparências enganam", também parceria de Sergio com Tunai, está no CD numa versão em que se encontram o belo trabalho instrumental do músico Keco Brandão, a locução do próprio Sergio Natureza e vinhetas com a gravação original de Elis Regina. A música já havia sido também gravada, nos anos 90, por Ney Matogrosso com o grupo Aquarela Carioca - sendo título de CD e de show do artista.

- "Vela no breu", primeira e mais conhecida parceria de Sergio Natureza com Paulinho da Viola, está no disco numa versão exclusiva na voz de Luiz Melodia, acompanhado dos violões do premiado músico/arranjador paulista Swami Jr.

- "Eternamente", uma parceria de Sergio com Tunai e Liliane, gravação original de Gal Costa, tem agora a estreante Tânia Bicalho como intérprete, num inspirado arranjo de cordas do maestro Jaime Alem (diretor musical de Maria Bethania) executado por Lui Coimbra (cellos) e Nicolas Krassik (violinos).

Outras canções conhecidas e outras tantas inéditas estão no CD, cada uma com sua peculiaridade, sua sonoridade, sua marca. A canção "Roda morta" que abre o disco é uma inédita da parceria de Sergio Natureza com Sergio Sampaio, cantada por Zeca Baleiro, e fala de coisas que lamentavelmente vêm acontecendo ainda nos dias de hoje - mais de 20 anos depois de ter sido composta.

Coletivo, de Sérvulo Augusto12. Coletivo, de Sérvulo Augusto. Lua Music. 2005. Contato: tamborescom@uol.com.br.

O nome de Sérvulo Augusto pode não soar familiar. Na carreira artística desde 1975, nos últimos anos o compositor e instrumentista tem se dedicado a jingles publicitários e trilhas para teatro. Há dois anos vinha preparando seu primeiro CD solo, que agora é lançado pela Lua Music. O divertido Coletivo traz várias faces do compositor e muitas participações especiais. Revela um artista bacana e talentoso que estava escondido atrás dos créditos.

Na faixa que abre o disco, de longe a melhor, Sérvulo divide uma ótima briga musical de casal com Elza Soares no samba-de-breque Boca livre. De um lado mais lírico, Sérvulo convida uma comportada Jane Duboc para exaltar as belezas mineiras em Minas gerais e Mônica Salmaso e a orquestra Popular de Câmara para a bucólica Bichinho da peste.

A gafieira-rock rola solta na leve Couro de gato e a banda Mantiqueira é convidada para homenagear Hermeto Pascoal em Hermética. E no caminho chega a dar carona a uma influência rasgada de Tom Jobim em Rio rasgado, que Sérvulo divide os vocais com Daniela de Carli.

Várias músicas criam uma intimidade imediata, assim como o debochado samba Jeitinho brasileiro, que fala em propinas, subornos, gorjetas e cachê, "que abre os portões para você". Assim como o pop Socorro, trilha sonora para o dia-a-dia. As músicas resgatam um sabor do melhor da produção radiofônica dos anos 80, antes da invasão de teclados e seus efeitos mágicos que deslumbrou meia música brasileira.

Para refletir essa diversidade musical e esse grande elenco que passa pelo Coletivo de Sérvulo, o artista entregou os arranjos a vários músicos diferentes como Paulo Calsans, Ruriá Duprat, Keco Brandão, Banjamim Taubkin e Teco Cardoso.

Criando uma atmosfera gostosa e agradável, Sérvulo conduz seu primeiro CD como uma verdadeira festa coletiva. Cheia de convidados de diferentes praias, o anfitrião encontrou o tom certo para comemorar e criar. Pode fazer sinal e embarcar nessa viagem, que o prazer é garantido.

[Beto Feitosa


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 AGULHA # 49 ÍNDICE GERAL BANDA HISPÂNICA JORNAL DE POESIA