Floriano Martins Floriano Martins
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revista de cultura # 47
fortaleza, são paulo - setembro de 200
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Floriano Martins

editorial

Nada de novo

Será lícito transformar editoriais em painéis de aviso?

Por exemplo, alertar que mensagens enviadas por um cjwiller@uol.com.br – portanto, supostamente do mesmo endereço eletrônico de Claudio Willer, um dos editores desta Agulha – jamais foram enviados pelo Claudio Willer? Idem, com relação a alguns florianomartins@secrel.com.br, um endereço de Floriano Martins, ou endereço de um Floriano Martins que nem existe mais (não o Floriano, é claro, mas o endereço eletrônico), e mais alguns de @secrel/jpoesia e similares?

Os e-mails do pseudo-Willer impressionam. Um deles, o assunto era ‘your friend sent you a postcard’. Se chegasse a algum dos endereços das relações do Willer verdadeiro – se é que não chegou – o destinatário abriria, de boa fé, o link do ‘postcard’ para ter seu computador infectado com vírus ou monitorado por alguma quadrilha de hackers, golpistas da Internet. Circularam, também, e-mails do pseudo-Willer oferecendo acesso – bah! – a sites pornográficos, cobrando dívidas, mandando abrir o anexo com uma ‘important message’, encaminhando ‘your file’, etc.

Até aí, estamos na rotina dos usuários da net, assolados e atormentados, cada vez mais, por falsas cobranças de bancos, do SERASA, da Receita Federal, além de avisos de prêmios em sorteios, da mensagem confidencial do ex-rei do Congo pedindo ajuda para repatriar alguns milhões de dólares, e toda uma gama de armadilhas à espera de que um incauto abra o link indicado e entregue seus dados pessoais ou se deixe infectar. Somam-se à inutilidade, as propagandas de aparelhos para expandir o pênis, de Viagra sem receita, de cartuchos usados, de sites que jamais abriremos. E às mensagens com vírus propriamente ditos.

Interessa, contudo – e aqui entramos naquela ordem de considerações que ultrapassa o painel de avisos –, o modo como a própria net, o conjunto de usuários e provedores de envio e acesso a mensagens, tem reagido a essa crescente perturbação. A reação consiste em dificultar a circulação de mensagens. Provedores oferecem antispams e outros bloqueios de mensagens. Alguns, especialmente os provedores de corporações, simplesmente bloqueiam todo e qualquer spam, a mensagem distribuída a vários destinatários em cópia oculta.

Não fazemos isso, não adotamos antispam ou similar, por razões éticas. Não faria sentido enviarmos nossas mensagens desse modo, e bloquearmos as dos outros. E por razões práticas: muito do que vem, informes de programação cultural, de outros portais etc., interessa. Mesmo a bobagem interessa – por exemplo, a recente sucessão de mensagens sobre a crise política brasileira dizendo que não, que tudo isso é uma conspiração da mídia e das elites, uma tentativa de destruir as realizações do governo Lula como, entre outras, manter no Brasil índices de crescimento da economia abaixo da média mundial, entre os mais baixos da América Latina, e inalteráveis indicadores de desigualdade social. Interessam como sintoma. A loucura é necessária para ajudar a traçar os parâmetros da lucidez.

Enfim, não há nada que aquele X na barra de ferramentas do Outlook ou a tecla Del não resolvam. É claro que os usuários de conexão discada, e não a cabo, são mais prejudicados e têm motivos mais fortes de indignação, pois são obrigados a pagar para receber bobagens e agressões.

Contudo, os mecanismos de bloqueio das mensagens com múltiplos destinatários, os spams, merecem observações adicionais. Mais que solução, são um novo problema. O paralelo com as grades, portões eletrônicos, bloqueios em portarias e vigilância por gravações é evidente. Em um caso ou em outro – dos dispositivos domésticos de segurança ou dos bloqueios à emissão e recepção de mensagens – há inversão de papéis. A vítima potencial torna-se prisioneiro. Avisos para não abrir mensagens ou evitá-las lembram os informes, tempos atrás, de secretarias de segurança, recomendando que nunca se escrevesse o telefone e endereço no verso de cheques, para não fornecer dados pessoais ao assaltante que iria pegar esses cheques. Isso é oficializar e institucionalizar o crime, em vez de combatê-lo. É transferir para o cidadão a obrigação de cuidar da segurança pública, e para o indivíduo a solução de problemas coletivos. Pagamos impostos e pelo provedor e uso da conexão: em troca, deveriam nos proteger. No caso da segurança no mundo ‘real’, que instalem um posto de guarda na minha esquina, ou uma viatura, em vez de achar que deveríamos eletrificar a cerca. No mundo digital, que invistam em mecanismos de detecção dos fraudadores e estelionatários, em vez de bloquear mensagens. Em uma situação ou em outra, essa exigência é um direito. Não pode, como ocorreu com uma das mensagens ao pseudo-Willer, o provedor, depois de recebê-la, pedir transcrição e envio do ID do remetente, para depois ficar por isso mesmo. Ora, ele, o provedor, que vá atrás e descubra quem fez aquilo.

A transferência do cuidado com segurança para o indivíduo destrói o espaço urbano e a própria urbanidade. Para reduzir a probabilidade do assalto, do latrocínio, do seqüestro, deixa-se de circular. O bloqueio de mensagens como estratégia de segurança tem a mesma conseqüência sobre o espaço digital. É destruída a livre circulação de informações. Vai-se a utopia da net como espaço aberto, democrático, de convivência e circulação de informações. A ineficiência da segurança digital é o equivalente da burocracia da segurança pública.

Aparentemente, a solução para preservar essa possibilidade, do novo e inesperado, seriam as comunidades virtuais. Apenas aparentemente: tudo o que acontece no sistema aberto, como um todo, acaba por reproduzir-se nos sistemas fechados ou semi-abertos, as comunidades, a começar pelo envio de vírus e das fraudes. Além disso, nós – nós, entenda-se, editores de Agulha – não precisamos integrar comunidades. Já formamos uma comunidade. Nossos endereços eletrônicos continuam à disposição, assim como aqueles de nossos colaboradores. Basta entrar em contato.

Agulha chegar à edição 47, completando mais de cinco anos, é um sintoma de estabilidade, após a revolução digital entre 1997 e 2000. Aplicativos e demais dispositivos continuam, basicamente, os mesmos. Possíveis inovações revolucionárias, como o livro digital, refluíram. Isso comprova o que afirmávamos nos primeiros editoriais. A tecnologia não determinou que as mensagens tivessem a forma de poesias concretas. Nem de seu aparente oposto, o jargão e os signos próprios da net, o eh em lugar de é, e os parênteses sorridentes ou tristonhos. A História, em geral, e a história das inovações tecnológicas, em especial, não obedecem a seus profetas e não se movem em linha reta. Felizmente, o futuro equivale a um sonho cartesiano – ou melhor, a um argumento cartesiano, pois a expressão sonho cartesiano é uma contradição de termos, um oxímoro. A continuidade de Agulha, aberta à inovação e crítica com relação ao messianismo da inovação, permite repetir o que foi dito em um editorial celebrando o primeiro ano desta publicação: o futuro é aqui; o futuro somos nós.

Os editores

Floriano Martins

sumário

1 a crise brasileira, a política, os intelectuais, os mundos paralelos e os países imaginários de jorge luis borges. claudio willer
2 a palavra mágica de antonin artaud. gilberto rabelo profeta
3 antónio ramos rosa
: a transparência da terra [diálogos]. rosa alice branco e rodrigo petronio
4 el grupo mito y las vanguardias en colombia. mar estela ortega gonzález-rubio
5 frança e brasil, uma relação tão delicada. jacob klintowitz
6 las pasiones místicas y mágicas de bill viola. miguel ángel muñoz
7 lisette lagnado & a bienal de são paulo [entrevista]. alberto beutenmüller
8
navegando em busca de guimarães rosa: a sedução do leitor na internet. vanessa moro kukul
9 o suicídio em poetas jovens, como sandra (anderson) herzer, vulgo bigode. josé carlos a. brito 
10 otto apuy: "si miro más atrás puedo verme como el mismo niño lleno de sueños que sólo estaban en mi mente" [entrevista]. alfonso peña
11
palavras em movimento: jogos de palavras na obra poética de jacques prévert. eclair antonio almeida filho
12 pequenas cartas tocadas de ouvido. mário montaut
13 rui herbon
: em lisboa com absinto [entrevista]. teresa sá couto
14 tita do rêgo silva e o mundo fantástico, faceiro e colorido da xilogravura. viviane de santana paulo
15
valdir rocha & josé guedes: os vasos incomunicantes [entrevistas]. floriano martins

artista convidado floriano martins (colagens)
resenhas livros da agulha ruy espinheira filho [por miguel sanches neto]
l alberto da costa e silva [por adelto gonçalves] l álvaro alves de faria [por adelto gonçalves] l antónio de macedo antonio [por maria estela guedes] l naud jr. [por silas corrêa leite] l carlos francisco monge l carlos pellicer [por everardo norões] l etel frota l simone paulino [por claudio willer] l luzia de maria l manuel jorge marmelo [por teresa sá couto] l rodolfo häsler [por rafael castillo zapata]
música
discos da agulha aquilo del nisso
l claudia villela & ricardo peixoto l conjunto sarau l leo gandelman l duo 2, marcos souza & paulo heleno l tomás improta l zé da velha & silvério pontes
cumplicidade galeria de revistas  

Floriano Martins

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(
estados unidos)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
jo
ángel leyva (méxico)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (colagens)
floriano martins

apoio cultural
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