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revista
de cultura # 45 |
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Eros e Psique no encontro de si mesmo na poesia de Hilda Hilst José Carlos A. Brito
Portanto, no poema de Hilda Hilst, o amor significa
realizar-se a si mesmo através do outro; do objeto amado, que entra
dentro. Amor é aquilo que desperta os sentimentos mais profundos da alma,
pois desperta a própria alma, entendendo aqui alma como psique (que no
poema de Hilda é “isso de mim”); algo muito agradável, muito
prazeroso - mesmo na dor - algo meio difícil de ser traduzido em figuras
conscientes, a não ser, como diz a poeta: “isso de mim é marulhoso
e tenro”. Mas o amor (Eros) que desperta a alma - o isso de mim - dificilmente
consegue existir sem que se crie o objeto amado (o estimulador da libido)
que faz emergir o amor; como uma forma do aparecimento de Eros (ou a poeta
o inventa em sua fantasia viva), para que, ao surgir, ele a desperte.
Vemos, sugerido em Jung esse processo, como se fosse o caminho da individuação,
isto é, o realizar-se da satisfação individual. Pois, o contrário
seria, conforme diz ele ”… a renúncia do si mesmo em favor do
coletivo…” e essa renúncia corresponderia “a um ideal
social; passa até mesmo por um dever social e virtude, embora possa
significar, às vezes, um abuso egoísta…”, portanto, vemos aí
que a renuncia do si mesmo (ou procura da felicidade, mesmo através do
simbólico), mesmo com aparência de virtude social, pode corresponder a
uma máscara artificial da persona. Uma coisa é o despojamento do si mesmo (renúncia), que
busca a realização do ideal social, e outra é a realização do si
mesmo, que significa a busca dos conhecimentos - experimentações -
prazerosos na beleza da própria alma (Psique), através dos elementos que
a despertam, sobretudo, o mais importante deles; o amor (Eros) A poeta Hilda Hilst, nesse seu mais belo conjunto de
poemas, que trata do amor, Cantares do Sem Nome e de Partidas,
expressa isso com intensa profundidade e o Canto III é um daqueles a
sintetizar esse processo amoroso. Isso de mim que anseia despedida Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
O isso de mim, já identificado à alma, não poderá
confundir-se com o amor (Eros) no sentido do objeto criado externo, ou
melhor, a figuração do mesmo em alguém amado e finito, mas sim, passará
a encontrar-se na unidade do si mesmo dela, como outro tipo de
objeto (a imagem) já com os contornos indefinidos do símbolo, dentro de
sua alma. E os contornos indefinidos referem-se a esse algo, que não
terá nome de amor, portanto não será coisa objetiva e nem
consciente nas formas convencionais, pois, nem é celeste ou terreno.
Jung, ao falar dos tipos na criação poética, cita a
diferença entre a alma estar no objeto e o objeto estar na
alma, tomando como ilustração o pensamento de Mestre Eckart, teólogo
que viveu em 1.200, cujas teorias foram condenadas posteriormente pela
igreja católica, como heréticas. Citando Jung: “…quando, como
disse Eckhart, a alma está em Deus não é bem aventurada (…) ao invés,
quando Deus está na alma, ou seja, quando a alma, a apercepção (a
poesia, a prosa, a obra de arte) apreende o inconsciente e
transfigura-se em imagem e símbolo seu, o estado que assim se origina é
delicioso. Mas observe-se que o estado de delicia é um estado
criador…” Outras palavras serão usadas para descrever esse estado
de delicia, nas sensações que Hilda Hilst transmite em seu poema,
como marulhoso, tenro, novo. Como quem come o que nada contém,
portanto, nada assemelhado às coisas da natureza, visíveis. Trata-se de
um “nada” que fica dentro das coisas, unicamente mexendo com a
sensibilidade. Assim como o algo impossível na realidade consciente,
descrito pelo cantar de um tigre reversivo, que age contra sua própria
natureza. Mas que poderá tornar-se consciente na poesia e através dela.
De tal forma que, ao ser relida, infinitas vezes, a poesia cause-lhe a
sensação de ver repetida essa imagem, eternamente, pois, o amor plasmado
no símbolo teria a capacidade de não interromper-se. E, digamos, seria
essa a única forma de eterniza-lo. Jung diz a esse respeito que “…a
alma cria símbolos, imagens, e ela própria só é imagem. Através
dessas imagens transmite-se a energia do inconsciente à consciência.
Assim, é vaso e veículo, órgão perceptivo dos conteúdos
inconscientes. O que ela percebe são símbolos. Ora, na verdade, os símbolos
são energias sem forma, forças, quer dizer, idéias determinantes cujo
valor espiritual é tão grande quanto o afetivo…” Entenda-se
sempre, que o inconsciente quer dizer o campo imaginativo, de vida própria.
Assim sendo, na poesia de Hilda o isso de mim não
poderá parecer-se com imagens reais, criadas pela poeta e nem
assemelhar-se ao possível objeto de amor, qualquer que seja sua forma. A
forma dele ficará apagada, pois sua fraqueza o impedirá de “roubar”
da poeta a energia libidinal, quando ele (objeto) for embora. A libido
deverá trabalhar autônoma, fazendo surgir de sua fantasia de intenso
desejo (por exemplo, o sentido do belo na formosa Psique) algo de dentro
dela, que seria sua própria inspiração poética com as sensações eróticas
e a imagem dos sonhos. Como afirma Jung “…quando as coisas acabam
por ser supervalorizadas…” -diríamos nós, quando o amor passa a
viver completamente dentro do objeto - “…pouco a pouco, e logo se
verifica a subordinação às coisas. Daí resulta a necessidade de sacrifício,
ou seja, a necessidade de fazer refluir a libido, de desfazer os vínculos
(…) o refluxo geral e a introversão da libido produz uma concentração
de libido simbolizada como delicia…” E nesse processo da poética de Hilda, ao final, realiza-se
o maravilho encontro do mito de Psique da poeta, com o Eros profundo,
através do ..guardar no eterno o coração do outro… não sendo
obrigatoriamente a figura física do outro, para evitar o ciclo de início
e fim. A poeta, ao conseguir desfazer-se do objeto de amor, por já
ter experiência de sua trajetória finita, mas no intuito de conservar
viva a alma, que foi despertada, tentará com um golpe de despedida
transforma-la em vivência eterna (o estado de delícia) no encontro de si
própria. Primeiro retira-lhe o nome ao seu amor, porque o objeto de amor
perece. Segundo retira-lhe o corpo dando-lhe os contornos da alma, porque
o corpo perece. Terceiro prefere a ausência do objeto amado, e esse
desconforto (o sacrifício, de que nos fala Jung) para ficar
com a alma eternamente, onde, na imagem, fica cristalizado Eros. Este
eternizado num movimento de sua própria libido o coração do outro, significa
um Eros que já faz parte da própria alma, em estado bem aventurado, isto
é, do marulhoso, tenro e dançarino, do si mesmo. Para continuar nessas observações e no intuito de
melhorar esta sintonia de sensações em relação ao poema, torna-se
indispensável resumir o mito da lenda de Eros e Psique, descrita
pelo poeta Lucius Apuleios, que viveu no século II d.c, e escrita em seu
livro “ O Asno de Ouro”, vejamos: Existiu uma filha de reis, chamada Psique, que era belíssima,
ao ponto, de despertar a inveja da própria deusa do amor, Vênus.
Enciumada, Vênus, ordena a seu filho Eros, que vá até Psique, disfarçado,
e a faça apaixonar-se pelo homem mais horrendo e vil da terra, como
desforra contra a beleza provocadora de Psique.
As irmãs de Psique, invejosas, convenceram-na que tal amor
desconhecido seria na verdade um monstro disfarçado, uma serpente, que a
mataria em determinado momento. A ingênua Psique, acreditando,
preparou-se com um punhal, para na próxima noite cortar a cabeça de seu
amante, o incógnito Eros. Após amarem-se, como de costume, ela decidiu
mata-lo enquanto ele dormia. Mas, quando, ao pegar uma lamparina e
iluminar a figura para melhor ataca-lo, viu o rosto dele e descobriu que
seu objeto de amor era o próprio deus do amor, lindo e jovem, e nada de
monstro, segundo a invenção das irmãs. Eros despertou, por ter-lhe caído
uma gota de óleo quente da lamparina e viu-se descoberto. Sentindo-se traído
em sua confiança, partiu imediatamente em vôo, encerrando a relação
com Psique. Psique, desamparada, tenta o suicídio e decide afogar-se,
mas é salva pelo deus Pan. Este a aconselha a procurar uma cura para seu
problema no próprio amor. Psique - que nada sabia sobre o plano de Vênus,
a mãe de Eros - foi ao encontro dela, confiante, pedir apoio. A deusa
mandou tortura-la de variadas formas, mas ao fim cedeu e decidiu
entregar-lhe o filho caso cumprisse quatro tarefas: 1- Separar num dia uma
montanha de sementes; 2 - Pegar a lã dourada dos carneiros do deus Sol; 3
- Pegar água de uma fonte guardada por dragões; 4 - Descer ao mundo dos
mortos e pegar a caixa com a beleza da morte e entrega-la a Vênus. Todas as tarefas foram realizadas, com apoio de muitas forças
sobrenaturais, de deuses aliados e compadecidos, mas ao encontrar-se na
posse da caixinha que continha a beleza da morte, Psique não resistiu à
curiosidade e cometeu a imprudência de abriu-la. Nesse instante uma nuvem
a faz cair em sono mortal. Enquanto isso tudo acontecia, Eros recupera-se
de sua ferida, escapa da prisão e vai à procura de Psique, encontrando-a
desfalecida. Com uma de suas flechas do amor, Eros desperta Psique.
Casam-se, com a ajuda de Júpiter, e chegam a ter uma filha chamada Volúpia. Hilda Hilst, em seu poema, realiza o sentimento do amor,
faz nascer a psique a partir da libido de um objeto amoroso qualquer. Não
importa quem seja. Diríamos, um Eros desconhecido, vindo de noite,
encoberto, e por isso não tem nome. O que importará será o sentimento
novo, lindo e jovem. Mas ela sabe bem que, como foi assinalado, caso tente
realizar-se no objeto, ele terminará, ao sabermos que todo o objeto tem
um ciclo, e partirá levando consigo a alma amorosa. Dessa forma a poeta
preferirá renunciar ao objeto de amor, uma analogia com os sofrimentos e
torturas sofridas por Psique. Mas se ela, ao contrário da Psique da história,
na medida que preserva seu contato com a alma descoberta e guarda o amor
na eterna sensação de posse da essência dentro dela, poderá
eterniza-lo, no símbolo vivo de sua necessidade criativa. E o
desenvolvimento de seu amor será a criatividade, uma sensação de
estranha Volúpia, a filha.
Inclusive, preferirá anunciar a partida do objeto,
enquanto a chama ardente estiver no auge, e assim o símbolo puder
cristalizar-se na sensação culminante. Nesse ponto, será melhor
desencarna-lo do seu corpo para guarda-lo, eternamente, no espírito
corporificado da imagem-sentimento. Significa eternizar a situação do
instante, desenvolvendo-se autônoma na busca de liberdade, em relação
aos cansativos “inícios” e “fins” dos relacionamentos afetivos,
ou às suas impossibilidades implicitas. Ao ansiar a uma despedida, a poeta adquire o sentido de
perpetuar o que está sendo, pela imagem da separação do objeto, e
manter os sentimentos do ganho. Seu inconsciente sábio entende o
desenrolar da história de Eros e Psique, portanto, o encontro de si mesma
permanecerá na fantasia das visitas do Eros disfarçado. Ela pretende
cumprir o acordo de não querer conhecer seu nome, para não perde-lo; não
tem nome de amor. E, na seqüência do poema, o denominará com o código
secreto do Nunca Mais, talvez para afastar o espectro mórbido
desse término. E, ao invocar o Nunca Mais, deseja viver com o
sentimento transformado em experiência de energia nova, que ajuda a
manter-se em equilíbrio; o equilíbrio da mediação transcendente no símbolo
novo. Não no remorso e frustração do perdido, mas o novo, transformado
em possibilidade de criatividade permanente. |
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José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo, Poemas do Amor Quebrado, e Romance de Meiga e Sátiro. Contato: zecabrito3@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal). |
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