revista de cultura # 45
fortaleza, são paulo - maio de 2005






 

Eros e Psique no encontro de si mesmo na poesia de Hilda Hilst

José Carlos A. Brito

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Hilda HilstNossa referência aqui é um poema de Hilda Hilst, o “Cantares do Sem Nome e de Partidas”, do qual extraímos o Canto III, para nossas alusões ao amor, tendo como pano de fundo o tema mitológico da história de Eros e Psique. A poeta, para manter um amor no eterno, dispensa o amante-objeto, pois - ao contrário do que habitualmente acontece - neste caso, para Hilda Hilst, o sujeito, mesmo sendo o estimulador erótico, é separado de sua essência. A intenção da poeta seria captar a essência dispensando o objeto, a priori, com a finalidade de eternizar o sentimento, dissociando-o do que é costumeiramente fugaz. É esse o sentimento, para Hilda, pode ser retirado e separado, somente por um processo poético.

Portanto, no poema de Hilda Hilst, o amor significa realizar-se a si mesmo através do outro; do objeto amado, que entra dentro. Amor é aquilo que desperta os sentimentos mais profundos da alma, pois desperta a própria alma, entendendo aqui alma como psique (que no poema de Hilda é “isso de mim”); algo muito agradável, muito prazeroso - mesmo na dor - algo meio difícil de ser traduzido em figuras conscientes, a não ser, como diz a poeta: “isso de mim é marulhoso e tenro”.

Mas o amor (Eros) que desperta a alma - o isso de mim - dificilmente consegue existir sem que se crie o objeto amado (o estimulador da libido) que faz emergir o amor; como uma forma do aparecimento de Eros (ou a poeta o inventa em sua fantasia viva), para que, ao surgir, ele a desperte. Vemos, sugerido em Jung esse processo, como se fosse o caminho da individuação, isto é, o realizar-se da satisfação individual. Pois, o contrário seria, conforme diz ele ”… a renúncia do si mesmo em favor do coletivo…” e essa renúncia corresponderia “a um ideal social; passa até mesmo por um dever social e virtude, embora possa significar, às vezes, um abuso egoísta…”, portanto, vemos aí que a renuncia do si mesmo (ou procura da felicidade, mesmo através do simbólico), mesmo com aparência de virtude social, pode corresponder a uma máscara artificial da persona.

Uma coisa é o despojamento do si mesmo (renúncia), que busca a realização do ideal social, e outra é a realização do si mesmo, que significa a busca dos conhecimentos - experimentações - prazerosos na beleza da própria alma (Psique), através dos elementos que a despertam, sobretudo, o mais importante deles; o amor (Eros)

A poeta Hilda Hilst, nesse seu mais belo conjunto de poemas, que trata do amor, Cantares do Sem Nome e de Partidas, expressa isso com intensa profundidade e o Canto III é um daqueles a sintetizar esse processo amoroso.

Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo. Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso?
Ser tenro, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém 
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.

Nicolau SaiãoPara acordar a alma, a poeta revela-lhe um mundo marulhoso de requintado prazer e, para isso, Hilda encontrou, criou ou inventou o amor, o erotismo revestido de linguagem lírica, que a despertaria. Ao descobrir o isso de mim, precisava desvincula-lo do objeto de amor - significa tirar a alma do objeto para inverter-lhe a posição, caso contrário, o amor materializado ao terminar - todo amor tem um fim - levaria consigo o isso de mim, deixando a poeta desamparada, ou melhor, sem a sensação permanente do prazer primordial (estado de delícia), ou mesmo a permanência do arquétipo no imaginário. Assim entende-se que o isso de mim ansiava a despedida do outro (separando a essência do objeto) para, dessa forma, perpetuar a essência da sensação, o que está sendo, ou seja, sua alma em construção e a descoberto: a psique profunda.

O isso de mim, já identificado à alma, não poderá confundir-se com o amor (Eros) no sentido do objeto criado externo, ou melhor, a figuração do mesmo em alguém amado e finito, mas sim, passará a encontrar-se na unidade do si mesmo dela, como outro tipo de objeto (a imagem) já com os contornos indefinidos do símbolo, dentro de sua alma. E os contornos indefinidos referem-se a esse algo, que não terá nome de amor, portanto não será coisa objetiva e nem consciente nas formas convencionais, pois, nem é celeste ou terreno.

Jung, ao falar dos tipos na criação poética, cita a diferença entre a alma estar no objeto e o objeto estar na alma, tomando como ilustração o pensamento de Mestre Eckart, teólogo que viveu em 1.200, cujas teorias foram condenadas posteriormente pela igreja católica, como heréticas. Citando Jung: “…quando, como disse Eckhart, a alma está em Deus não é bem aventurada (…) ao invés, quando Deus está na alma, ou seja, quando a alma, a apercepção (a poesia, a prosa, a obra de arte) apreende o inconsciente e transfigura-se em imagem e símbolo seu, o estado que assim se origina é delicioso. Mas observe-se que o estado de delicia é um estado criador…”  

Outras palavras serão usadas para descrever esse estado de delicia, nas sensações que Hilda Hilst transmite em seu poema, como marulhoso, tenro, novo. Como quem come o que nada contém, portanto, nada assemelhado às coisas da natureza, visíveis. Trata-se de um “nada” que fica dentro das coisas, unicamente mexendo com a sensibilidade. Assim como o algo impossível na realidade consciente, descrito pelo cantar de um tigre reversivo, que age contra sua própria natureza. Mas que poderá tornar-se consciente na poesia e através dela. De tal forma que, ao ser relida, infinitas vezes, a poesia cause-lhe a sensação de ver repetida essa imagem, eternamente, pois, o amor plasmado no símbolo teria a capacidade de não interromper-se. E, digamos, seria essa a única forma de eterniza-lo. Jung diz a esse respeito que “…a alma cria símbolos, imagens, e ela própria só é imagem. Através dessas imagens transmite-se a energia do inconsciente à consciência. Assim, é vaso e veículo, órgão perceptivo dos conteúdos inconscientes. O que ela percebe são símbolos. Ora, na verdade, os símbolos são energias sem forma, forças, quer dizer, idéias determinantes cujo valor espiritual é tão grande quanto o afetivo…” Entenda-se sempre, que o inconsciente quer dizer o campo imaginativo, de vida própria.

Assim sendo, na poesia de Hilda o isso de mim não poderá parecer-se com imagens reais, criadas pela poeta e nem assemelhar-se ao possível objeto de amor, qualquer que seja sua forma. A forma dele ficará apagada, pois sua fraqueza o impedirá de “roubar” da poeta a energia libidinal, quando ele (objeto) for embora. A libido deverá trabalhar autônoma, fazendo surgir de sua fantasia de intenso desejo (por exemplo, o sentido do belo na formosa Psique) algo de dentro dela, que seria sua própria inspiração poética com as sensações eróticas e a imagem dos sonhos. Como afirma Jung “…quando as coisas acabam por ser supervalorizadas…” -diríamos nós, quando o amor passa a viver completamente dentro do objeto - “…pouco a pouco, e logo se verifica a subordinação às coisas. Daí resulta a necessidade de sacrifício, ou seja, a necessidade de fazer refluir a libido, de desfazer os vínculos (…) o refluxo geral e a introversão da libido produz uma concentração de libido simbolizada como delicia…”

E nesse processo da poética de Hilda, ao final, realiza-se o maravilho encontro do mito de Psique da poeta, com o Eros profundo, através do ..guardar no eterno o coração do outro… não sendo obrigatoriamente a figura física do outro, para evitar o ciclo de início e fim.

A poeta, ao conseguir desfazer-se do objeto de amor, por já ter experiência de sua trajetória finita, mas no intuito de conservar viva a alma, que foi despertada, tentará com um golpe de despedida transforma-la em vivência eterna (o estado de delícia) no encontro de si própria. Primeiro retira-lhe o nome ao seu amor, porque o objeto de amor perece. Segundo retira-lhe o corpo dando-lhe os contornos da alma, porque o corpo perece. Terceiro prefere a ausência do objeto amado, e esse desconforto (o sacrifício, de que nos fala Jung) para ficar com a alma eternamente, onde, na imagem, fica cristalizado Eros. Este eternizado num movimento de sua própria libido o coração do outro, significa um Eros que já faz parte da própria alma, em estado bem aventurado, isto é, do marulhoso, tenro e dançarino, do si mesmo.

Para continuar nessas observações e no intuito de melhorar esta sintonia de sensações em relação ao poema, torna-se indispensável resumir o mito da lenda de Eros e Psique, descrita pelo poeta Lucius Apuleios, que viveu no século II d.c, e escrita em seu livro “ O Asno de Ouro”, vejamos:

Existiu uma filha de reis, chamada Psique, que era belíssima, ao ponto, de despertar a inveja da própria deusa do amor, Vênus. Enciumada, Vênus, ordena a seu filho Eros, que vá até Psique, disfarçado, e a faça apaixonar-se pelo homem mais horrendo e vil da terra, como desforra contra a beleza provocadora de Psique.

Nicolau SaiãoQuando Eros encontra Psique, para cumprir a vingança, em obediência a sua mãe Vênus, descontrola-se diante da beleza da moça e, descontrolado, espetando-se nas próprias flechas, apaixona-se perdidamente por Psique. Os oráculos transmitem ao rei, pai de Pisque, a orientação de que ela deveria ser levada a um penhasco para viver dentro de um castelo à espera de um esposo. Eros aproveitava-se e à noite, disfarçado, passa a visitá-la para amarem-se, pedindo a Psique que não tentasse conhece-lo, evita-se vê-lo ou saber seu nome, porque somente assim a relação se tornaria eterna.

As irmãs de Psique, invejosas, convenceram-na que tal amor desconhecido seria na verdade um monstro disfarçado, uma serpente, que a mataria em determinado momento. A ingênua Psique, acreditando, preparou-se com um punhal, para na próxima noite cortar a cabeça de seu amante, o incógnito Eros. Após amarem-se, como de costume, ela decidiu mata-lo enquanto ele dormia. Mas, quando, ao pegar uma lamparina e iluminar a figura para melhor ataca-lo, viu o rosto dele e descobriu que seu objeto de amor era o próprio deus do amor, lindo e jovem, e nada de monstro, segundo a invenção das irmãs. Eros despertou, por ter-lhe caído uma gota de óleo quente da lamparina e viu-se descoberto. Sentindo-se traído em sua confiança, partiu imediatamente em vôo, encerrando a relação com Psique.

Psique, desamparada, tenta o suicídio e decide afogar-se, mas é salva pelo deus Pan. Este a aconselha a procurar uma cura para seu problema no próprio amor. Psique - que nada sabia sobre o plano de Vênus, a mãe de Eros - foi ao encontro dela, confiante, pedir apoio. A deusa mandou tortura-la de variadas formas, mas ao fim cedeu e decidiu entregar-lhe o filho caso cumprisse quatro tarefas: 1- Separar num dia uma montanha de sementes; 2 - Pegar a lã dourada dos carneiros do deus Sol; 3 - Pegar água de uma fonte guardada por dragões; 4 - Descer ao mundo dos mortos e pegar a caixa com a beleza da morte e entrega-la a Vênus.

Todas as tarefas foram realizadas, com apoio de muitas forças sobrenaturais, de deuses aliados e compadecidos, mas ao encontrar-se na posse da caixinha que continha a beleza da morte, Psique não resistiu à curiosidade e cometeu a imprudência de abriu-la. Nesse instante uma nuvem a faz cair em sono mortal. Enquanto isso tudo acontecia, Eros recupera-se de sua ferida, escapa da prisão e vai à procura de Psique, encontrando-a desfalecida. Com uma de suas flechas do amor, Eros desperta Psique. Casam-se, com a ajuda de Júpiter, e chegam a ter uma filha chamada Volúpia.

Hilda Hilst, em seu poema, realiza o sentimento do amor, faz nascer a psique a partir da libido de um objeto amoroso qualquer. Não importa quem seja. Diríamos, um Eros desconhecido, vindo de noite, encoberto, e por isso não tem nome. O que importará será o sentimento novo, lindo e jovem. Mas ela sabe bem que, como foi assinalado, caso tente realizar-se no objeto, ele terminará, ao sabermos que todo o objeto tem um ciclo, e partirá levando consigo a alma amorosa. Dessa forma a poeta preferirá renunciar ao objeto de amor, uma analogia com os sofrimentos e torturas sofridas por Psique. Mas se ela, ao contrário da Psique da história, na medida que preserva seu contato com a alma descoberta e guarda o amor na eterna sensação de posse da essência dentro dela, poderá eterniza-lo, no símbolo vivo de sua necessidade criativa. E o desenvolvimento de seu amor será a criatividade, uma sensação de estranha Volúpia, a filha.

Nicolau SaiãoSignifica, para a poeta, guardar o coração do outro, na obra de arte, que capta o momento em que se mostra aceso, em forma do sentimento genérico de amor, no símbolo. Portanto, não desejará saber o nome de Eros, com o propósito de mantê-lo vivo e em permanente contato. Porque, esse exercício será a revelação de sua alma, para constantes diálogos, ou uma permanente sensação do fazer alma.

Inclusive, preferirá anunciar a partida do objeto, enquanto a chama ardente estiver no auge, e assim o símbolo puder cristalizar-se na sensação culminante. Nesse ponto, será melhor desencarna-lo do seu corpo para guarda-lo, eternamente, no espírito corporificado da imagem-sentimento. Significa eternizar a situação do instante, desenvolvendo-se autônoma na busca de liberdade, em relação aos cansativos “inícios” e “fins” dos relacionamentos afetivos, ou às suas impossibilidades implicitas.

Ao ansiar a uma despedida, a poeta adquire o sentido de perpetuar o que está sendo, pela imagem da separação do objeto, e manter os sentimentos do ganho. Seu inconsciente sábio entende o desenrolar da história de Eros e Psique, portanto, o encontro de si mesma permanecerá na fantasia das visitas do Eros disfarçado. Ela pretende cumprir o acordo de não querer conhecer seu nome, para não perde-lo; não tem nome de amor. E, na seqüência do poema, o denominará com o código secreto do Nunca Mais, talvez para afastar o espectro mórbido desse término. E, ao invocar o Nunca Mais, deseja viver com o sentimento transformado em experiência de energia nova, que ajuda a manter-se em equilíbrio; o equilíbrio da mediação transcendente no símbolo novo. Não no remorso e frustração do perdido, mas o novo, transformado em possibilidade de criatividade permanente. 

José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo, Poemas do Amor Quebrado, e Romance de Meiga e Sátiro. Contato: zecabrito3@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal).

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