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revista
de cultura # 45 |
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Vicente Franz Cecim: andar, Andara, onde começa a viagem? Ana Godoy
Um livro: para que
serve? Não pretendo nenhum
ineditismo ao formular esta questão. Outros antes de mim a formularam,
talvez até com maior grandeza ou beleza, mas por isso mesmo, porque se
trata de grandeza e beleza - porque é disto que tratarei aqui -, que vale
a pena re-colocar a questão para produzir outras ressonâncias, talvez,
estas sim, inéditas. No entanto, não nos deixemos equivocar, pois se um
livro nos serve não é por ser útil, mas por colocar em funcionamento
alguma coisa - na medida em que ele mesmo funciona -, alguma coisa com a
qual podemos fazer ou inventar alguma outra coisa. Proust via aí a beleza
e a grandeza de um livro: incitar o desejo, incitamento que arrasta
consigo a exigência de uma leitura investida pelo desejo, uma leitura
insubmissa ao texto, desprovida de apoios e certezas, uma leitura que
experimenta e se experimenta, sem começo e nem fim. Penso que é neste
sentido que um livro serve: quando desafia e provoca a leitura que,
liberada em seu movimento, associa-se ao movimento da escrita relançando-a:
“alguém vive, alguém escreve”, [1]
alguém lê: escritura e leitura apresentam-se indissociáveis do
movimento de expansão da vida em que o jogo ensejado na/pela linguagem não
é um exemplo a ser transposto para a vida, mas sua expressão ou
desdobramento: a própria vida dobrando-se sobre si mesma e inventando. Assim, escritura e
leitura arrastam o pensamento, experimentando-se em viagem, viagem que é
multiplicidade de percursos à deriva da Razão, em que a cada desvio
surgem sempre novos encadeamentos e o pensamento tomado pela vida e nela
imerso, torna-se, em seu funcionamento, uma questão de experimentação:
não se sabe de antemão aonde se vai chegar, tampouco quais encontros se
darão pelo caminho. “Onde começa? Onde
termina?” Resistindo as
investidas do didatismo, sempre a nos ensinar a começar pelo começo e
terminar pelo fim - numa sorte de castigo ao olhar ou à escuta que
derivam -, pega-se o livro pelo meio que nesse movimento sussurra: “Viagem a Andara.” Tomados por uma
“estranha inquietude” lançamo-nos à viagem e nesse movimento
abandona-se o gosto por um certo contentamento, uma certa conservação
que a razão propicia, em proveito da procura pelo “temível e problemático
que é próprio de toda existência”. [2] “Onde começa, onde
termina?” Talvez ali na floresta
- labirinto, na voz que “afirma a intensidade de uma revolta”, que
inventa uma outra fala na qual as palavras que escrevem a viagem se tornam
a própria viagem e “os livros de Andara, miragens, pois Andara, a
viagem ela mesma, nunca será escrita diretamente.” Assim é que não se lê
os livros de Andara sem se dispor ao risco, à viagem como risco, pois
Andara não tem lugar, é o não-lugar inscrito no nomadismo das palavras,
convite irrecusável a um outro modo de habitar que já não nos prenda a
uma determinação de lugar, a uma origem ou fundamento. Leitura que exige
abrir-se ao desassossego, destituindo o lugar das certezas, mas exige também
experimentar e dispor do livro traçando percursos singulares e ao fazê-lo
experimentar-se em viagem, viagem na qual nada
está terminado, os territórios são instáveis e provisórios, mundo
sempre inacabado, sempre por vir. “Esta
viagem fala da vida e não vai parar antes do fim”. “Onde
começa? Onde termina?”
“Escutará também o
que não é Andara?” Silêncio
que confronta disciplinas e gramaticalidades, os marcadores de poder, os
conjuntos de leis. Silêncio ruidoso, que toca os limites do dizível,
roendo as ordens de dentro, tornando-as ocas, liberando coisas
desconhecidas, [3] impedindo tanto o
domínio da sintaxe quanto a sintaxe como domínio. Seria esta a potência
ativa do silêncio, pois, ao arruinar a prisão – na palavra, nos
livros, no pensamento -, abre-os para novas enunciações, para devires
outros. Conjurar a vida no silêncio
no qual pulsa o mundo implica abrir-se a ele, [4]
já aí o habitar não se confunde mais com o recolhimento ou retraimento
“na casa, na cidade, na comunidade reaquecedora da multidão”. [5]
O habitar torna-se inseparável de uma experimentação de si a qual não
se reduz mais ao estreitamento da proximidade, pois se faz onde o mundo
está presente. Assim
percorre-se as muitas páginas escritas e não escritas. Andara. Viagem-risco e
experimentação, em que se vai ao encontro do Mundo. A questão, então,
já não é o conhecimento investido, mas o desconhecimento conquistado,
perdido e novamente conquistado, que nos põe diante do desconhecido,
acessível à palavra apenas enquanto não for compreendido ou
identificado, dispondo-nos ao surpreendente, ao imprevisível, ao
ainda não dado à visão, mas que nem por isso é inexistente. “Onde
começa? Onde termina?” Começa-se
por aqui e por ali e já é sempre um re-começo e a cada vez um outro
livro e um outro do livro, um não-livro a espreita, inesgotável, inexaurível,
remetendo à invenção constante de uma atmosfera sempre mais rarefeita
arrastando-nos para fora do domicílio habitual. Perde-se o chão sobre o
qual a Razão se sustenta, mas também as telhas que mantêm-nos fechados
para o mundo, ou mantêm o mundo velado, não
para soçobrar, mas para reinventar-se nesta errância. Não mais habitaremos
da mesma forma, pois em viagem os percursos se multiplicam, dobrando-se um
sobre os outros, e a cada livro, a cada leitura uma dobra e por toda parte
“não se vê senão dobras, não se tateia senão dobras, não se habita
senão elas.” [7] Uma outra ecologia
talvez? E assim a cada re-começo já são outras e tantas linhas de errância,
afirma-se uma força de desvio, [8]
confronta-se “as tolices da racionalidade”, por meio das quais
exalta-se a eficácia, a medida e a causalidade, trabalho de colonização,
catequização e domesticação. Porém, algo de selvagem
foge. Havia um labirinto ali. “Onde começa? Onde
termina?” “E no labirinto
deve-se dizer aos outros: sem um texto não há tempo.” “E assim, há a
maneira infinita de ler Andara” em que salta-se de uma coisa a outra
para fazer uma dança, uma música, uma encantação. Sua potência vital
é a mesma que, há séculos, despertou nos europeus, quando se
aproximaram do estranho continente, “êxtase e aturdimento diante do inédito,
da anarquia da flora, da umidade, do calor e do barulho ensurdecedor, da
superabundância destruidora de toda a regularidade, labirinto da louca
vegetação”. [9] “E no labirinto
deve-se dizer aos outros”: os caminhos nunca se
encerram, mas modificam-se ao cruzarem-se e bifurcarem-se, linhas sinuosas
de uma estranha topologia, um
labirinto que se transforma ao ser tomada esta ou aquela direção, mas no
qual se está irremediavelmente perdido para o razoável, para o
convencionalismo das divisões em regiões, para as classificações e
hierarquias. Havia um labirinto ali
e havia e há esse gentio sem fé, sem lei e sem rei.
Lutava-se e ainda se
luta contra o labirinto, a floresta, pois para o colonizador de ontem e de
hoje, é preciso vencer o espaço habitado pela duplicidade, labirinto
espacial ao qual nos arrastam
catequizadores de todas as espécies. Ali onde a Razão pretende imperar,
há sempre alguma coisa a domesticar, por vezes mais de uma quando se
trata de domesticar o animal, ou almas para a cristandade, ou a floresta,
desemaranhando-a para domar os percursos, domesticar o selvagem, como o
fizeram Anchieta e Vieira. Todos os homens da fé e da razão se propõe
à grande tarefa de vencer o labirinto. No entanto, neste
labirinto não há espelho: não nos vemos; pois não é preciso se ver na
floresta, mas se saturar dela. Andara. Já não se trata de querer ser índio,
voltar a uma cabeça primitiva, mas de associar-se às forças selvagens e
liberar a vida, inventando outras combinações que não passem pela sujeição,
tampouco pela dominação, e não reponham as hierarquias – melhor
ainda: esconjurem todos os processos de sujeição. “Os livros de
Andara.” “O que eles estão
tramando?” Traços, linhas
partidas, cujos arranjos móveis e fugidios descrevem percursos em que a
cabeça e a floresta encontram uma estranha semelhança, pois ambas não
param de se inventar. A floresta deixa de ser um labirinto no qual nos
perdemos, para se tornar um labirinto no qual se afirma a multiplicidade
de percursos [10], em que se é sempre
um clandestino, sem fé, sem lei, sem rei. Andara, viagem sem roteiro a
deriva pela vida, pois é na deriva que a vida se inventa. Mas, “Os livros de
Andara.” “O que eles estão
tramando?” “Onde começa? Onde
termina?” Uma multiplicidade de
vozes se faz ouvir, mundo distendido em todas as direções. As contorções
da natureza em seu impulso violento, primitivo e selvagem são aquelas dos
corpos: a língua distendendo-se numa selvagem e ilimitada paisagem,
selvagem e invisível paisagem furtando-nos ao mundo objetivo e a nós
mesmos, pois o selvagem já não diz mais respeito a um lugar ou coisa,
homem ou bicho, mas ao modo como cada um extrai os elementos com os quais
constitui um mundo. É o sentir: um modo de habitar não só uma casa ou
um território, mas também um gesto, uma cor, um som. Uma ecologia menor,
uma outra ecologia. Andara. Sem começo e sem fim. É a viagem, os
percursos por meio dos quais constituímos arranjos singulares pondo em
relação os lugares, as coisas, abrindo-nos para a Terra, único limite
à liberdade de invenção, pois “existem mil percursos que ainda não
foram trilhados, mil saúdes e ilhas escondidas da vida. O homem e a terra
dos homens continuam inesgotados e inexplorados” [11]. Toda uma outra política
se põe em movimento: já não se trata de um olhar, escuta ou pensamento
movidos ou agidos, e, portanto, coagidos e submetidos. Não há espelho
nas paisagens invisíveis; desfigura-se o rosto, aniquilam-se identidades
e referências. Uma outra política, pois já não se trata de um
fechamento, o movimento da vida é o de expandir-se e reinventar-se,
explorando o entorno e suas intensidades. Uma outra política, porque
trata-se da invenção de possibilidades de vida, de modos de existência;
de invenção e experimentação de si, um querer mais, aquém e além das
alternativas pobres ou estéreis que se nos oferecem. “Tu escreves um livro
com tinta invisível. Por que fazes isso?” Talvez porque a vida não
cesse de inventar desvios que se fazem nos encontros aletórios, cujos
percursos atravessam as rotas, embaralhando-as, produzindo outros
sentidos. Experimenta-se, nesses e com esses arranjos transitórios, vidas
intensas com suas pequenas mortes, cujo movimento abre-se ao ilimitado de
outros e surpreendentes arranjos em que os percursos são como os rastros
de um pássaro, com os quais inventa-se mundos nunca vistos, afirmando a
força de uma deriva na qual corpo e pensamento transformam-se. Inventa-se
uma terra que já não é e está em vias de se fazer, pois se tornamo-nos
com o mundo, o fazemos sempre correndo o risco na invenção do mundo no
qual nos tornamos, terra incógnita, nunca reconhecida e nem reconhecível.
Andara.
NOTAS
1.
Todas as citações entre aspas sem nota de referência correspondem a
trechos dos livros visíveis de Andara e a excertos de entrevistas dadas
por Vicente Franz Cecim ao longo dos anos. |
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Ana Godoy (Brasil, 1960). Doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP. Seu livro A menor das ecologias, uma experimentação nas fronteiras entre arte e ecologia, permanece inédito. Conferência apresentada no evento Vozes poéticas: semeaduras, em homenagem a Vicente Franz Cecim, PUC-SP, abril/2005. Contato: anadgp@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Nicolau Saião (Portugal). |
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