Nicolau Saião Nicolau Saião
.
.
.

revista de cultura # 45
fortaleza, são paulo - maio de 200
5

Nicolau Saião

editorial

Posturas & imposturas de uma cultura

Os editores de Agulha planejam escrever uma sátira cujo protagonista utilizará, a cada três palavras, um dos seguintes vocábulos:

Ÿ direitos

Ÿ cidadania

Ÿ geração e distribuição de renda

Ÿ inclusão digital

Ÿ exploração de diferentes meios e linguagens artísticas e lúdicas

Ÿ a cultura em suas dimensões de construção simbólica

Anseiam por conhecer o autor de um edital recente do Ministério da Cultura que, em um breve parágrafo, conseguiu utilizar todas essas expressões, oferecendo a síntese de uma infinidade de editais e pronunciamentos oficiais anteriores, por sua vez uma câmara de ecos do que dizem ministros, parlamentares, outras lideranças e seus prepostos. E manifestam sua admiração por essa elegante formulação, a cultura em suas dimensões de construção simbólica. Gostariam, apenas, de saber como a cultura poderia se “construir” em alguma dimensão não-simbólica ou extra-simbólica.

Interessante: trata-se de um edital da Cultura. Mas nem uma referência ao valor cultural, nenhuma exigência de qualidade desses projetos a serem financiados. Nem de ajuste orçamentário, de alguma correspondência entre o que será recebido e o que será gasto. Isso não interessa mais, desde que os interessados argumentem que estarão promovendo a “inclusão”, a “cidadania”, os “direitos”, e gerando renda.

Agulha é lida no Brasil e em inúmeros outros países, especialmente latino-americanos. Em alguns deles, certamente, haverá quem seja capaz de identificar ocorrências equivalentes do idioleto burocrático e uso ritualístico da linguagem, o vocabulário orwelliano no qual os termos, à custa da repetição, perdem qualquer relação com seu sentido originário.

* * *

Transcrições do jornal Folha de S. Paulo (20/03/2005) sobre a programação do Ano do Brasil na França:

Ÿ Serge Gruzinski, professor na Ehess (École des Hautes Études en Sciences Sociales) e autor de O Pensamento Mestiço:

O aspecto privilegiado é sempre o do Carnaval, da música popular. Os intelectuais e as grandes obras de arte são sacrificados ao folclore. Os franceses têm grande dificuldade de ver os países da América Latina por um ângulo que não seja o do exotismo, e o Ano do Brasil pode reforçar esses estereótipos. Eu gostaria que se falasse de Clarice Lispector, Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freyre ou Benedito Nunes. O Brasil tem intelectuais que podem nos fornecer categorias para pensar a Europa de hoje, a mestiçagem. Mas, se a programação ficar somente em torno das diversões e do espetáculo, não se aproveitará a oportunidade para descobrir outro Brasil.

Ÿ Michel Maffesoli, professor na Sorbonne:

A minha impressão é que se trata de um evento muito institucional, burocrático, sem grande penetração popular. As pessoas pensam que a França conhece bem o Brasil, mas para os franceses o país se resume ao Carnaval do Rio. Aqueles que serão envolvidos pelo evento serão os mesmos que já conhecem a cultura brasileira, uma elite.

Ÿ Jacques Leenhardt, professor na Ehess e presidente de honra da Associação Internacional dos Críticos de Arte:

O temor de cair na folclorização é bem real, mas eu acho que os organizadores do Ano do Brasil estiveram conscientes desse perigo. Haverá também muita reflexão por meio de colóquios e encontros. Mas a questão é saber se o grande público vai se beneficiar disso. Leenhardt acredita que, nos últimos anos, com as Presidências de Fernando Henrique Cardoso e de Lula, a França começou a perceber o Brasil como um país que não está condenado ao exotismo e que deve ter seu lugar no mundo reavaliado. Ele se diz escandalizado com a falta de meios das universidades francesas para acompanhar essa evolução: O número de estudantes interessados é reduzido, e há uma grande dificuldade em encontrar recursos para a pesquisa. […] Existe uma produção muito rica que é desconhecida na França. Um certo número de figuras será visível neste ano, como Artur Barrio, mas ele será arrancado do seu contexto e isso é um grande problema.

Ÿ Pierre Rivas, professor de literatura comparada na Universidade Paris 10:

Todo o conhecimento do outro, da diferença, passa necessariamente por estereótipos. O Ano do Brasil é principalmente música, porque é uma linguagem universal, não só para a elite. Ele concorda que as grandes exposições sobre a arte indígena e a Amazônia terão mais chances de atrair um público amplo, mas aposta na redescoberta do barroco brasileiro e de artistas como Tarsila do Amaral. No que se refere à sua área de especialidade, Rivas se mostra menos otimista: O governo não ajudou as traduções. Não traduziram João Cabral de Melo Neto, mas traduziram livros de auto-ajuda, isso nunca existiu na tradição literária francesa.

Ÿ Levi B. Ferrari, presidente da União Brasileira de Escritores, em carta ao Ministério da Cultura:

É tempo ainda, Senhor Ministro, de mostrar à França e ao mundo que, no país do Carnaval, se produz arte comparável ao que há de melhor sobre a face da terra. Somente na literatura, além dos autores já citados, é preciso que mostremos Machado de Assis, Guimarães Rosa, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, entre tantos outros, sem falarmos naqueles que, vivos, ainda escrevem e descrevem o Brasil em suas nuances mais complexas e nada ficam a dever aos melhores escritores de qualquer outro país. Perdoe-nos, Excelência, a repetição do que acima vai dito pelo professor Pierre Rivas, sobre o fato de que livros de auto-ajuda nunca existiram na tradição literária francesa. Ora, até quando vamos nos render à lógica de um mercado que nada tem a ver com a qualidade da obra literária.

Índios brasileiros foram tema de exposição na França, pela primeira vez, no século XVI. Logo após o Descobrimento. Inspiraram Montaigne a escrever Les Cannibales. Pelas observações de intelectuais franceses que conhecem bem o Brasil, como as transcritas acima, não se deve esperar nenhum Montaigne para este ano brasileiro.

Enfim, mais um festival de chavões e lugares-comuns. Depois, não venham dizer que não avisamos… O desfile de estereótipos já havia sido antecipado e diagnosticado em alguns editoriais desta Agulha, sobre a ineficiência da política cultural brasileira para o exterior e suas conseqüências. Cabe, apenas, uma constatação adicional: estamos piorando. Por mais afetadas que estivessem pelo provincianismo, compadrio, espírito paroquial, programações como a do Salon du Livre parisiense de 1998 tinham alguma lógica, havia responsáveis, organizadores capazes de emitir sons articulados, exibir alguma espécie de raciocínio. Desta vez, nem isso. Ninguém do governo brasileiro, ou com alguma responsabilidade pela organização da festa, mostrou-se ou tentou defender essa nova apresentação do Brasil. Envergonhados, encabulados, escondem-se.

* * *

Em um filme recente ouve-se a frase “quem diria que o destino do país estaria agora nas mãos de marginais e bandidos”, dita por um dos bandidos a um dos mocinhos, que então observa: “mas não foi sempre assim?” Em um outro filme, também desta última temporada, ouve-se o policial dizer a uma suspeita de espionagem: “deveríamos estar em margens opostas, porém agora nada mais nos separa”. Contudo, nosso dilema mais freqüente não é o de não reconhecer o opositor, mas antes o de não entender o que ele faz indo de um lado a outro com tanto apego à oportunidade. Ao tornar-se impostor, o opositor se anula, e toda a realidade igualmente se torna impostura. Como esperar que a cultura sobreviva a essa violenta, ainda que, para muitos, imperceptível, transfiguração?

Os editores

Nicolau Saião

sumário

1 a arte que cura: os últimos meses de vida de glauber rocha. antonio jr.
2 álvaro alves de faria a caminhjo de portugal (entrevista). floriano martins
3 amuleto, de
roberto bolaño: de la representación especular al rito sacrificial. carolina a. navarrete gonzález
4 antonio ramos rosa
: obra ao verde. maria estela guedes
5
chico anysio à beira do riso (entrevista). joão soares neto
6
e. t. a. hoffmann: metamorfoses formais em a senhora de scudéry. maria aparecida barbosa
7
ednardo: na asa do vento (entrevista). eleuda de carvalho
8
eros e psique no encontro de si mesmo na poesia de hilda hilst. josé carlos a. brito
9
eugenio de andrade o la crispación del silencio. susana giraudo 
10
vicente franz cecim: andar, andara, onde começa a viagem? ana godoy
11 luis méndez
: clarividencias el arte y del vivir (entrevista y aforismos). franklin fernández
12
magritte hace dudar todavía. federico revilla
13
manifiesto de la resistencia en resistencia. raul córdula
14
o diálogo hipotético de murilo mendes. prisca agustoni
15
o silêncio da áfrica em fernando pessoa. lucila nogueira

artista convidado nicolau saião (pintura) texto de ruy ventura
resenhas livros da agulha teresa méndez-faith
Ÿ fabrício marques [por joca reiners terron] Ÿ ivan junqueira Ÿ lawrence carrasco [por pedro granados] Ÿ grupo surrealista de madrid Ÿ ricardo daunt Ÿ floriano martins [por adelto gonçalves] & eduardo bazarsa
música
discos da agulha maogani - quarteto de violões
Ÿ barbatuques Ÿ nelson sargento Ÿ markos resende Ÿ sincronia carioca & ricardo siri
cumplicidade galeria de revistas  

Nicolau Saião

expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(
estados unidos)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
jo
sé ángel leyva (méxico)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (pintura)
nicolau saião

apoio cultural
jornal de poesia

banco de imagens
acervo edições resto do mundo

os artigos assinados não refletem necessariamente o pensamento da revista
agulha não se responsabiliza pela devolução de material não solicitado
todos os direitos reservados © edições resto do mundo

escreva para a agulha
floriano martins (florianomartins@rapix.com.br)
Caixa Postal 52874 - Ag. Aldeota
Fortaleza CE 60150-970 Brasil
claudio willer (cjwiller@uol.com.br)
Rua Peixoto Gomide 326/124
São Paulo SP 01409-000 Brasil

índice geral

retorno
ao portal

banda hispânica

jornal de poesia

.

procurar textos