revista de cultura # 43
fortaleza, são paulo - janeiro de 2005






 

A imagem criativa na poesia de Orides Fontela

José Carlos A. Brito

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Orides FontelaOrides Fontela nasceu em São João da Boa Vista, cidade do interior de São Paulo, em 21 de abril de 1940, de família pobre e pais analfabetos. Desde 1969, publicou 5 livros de poesia e, do último, Teia, extraímos os poemas para os comentários.

O jornalista Luis Nassif, que conviveu esporadicamente com ela e escreveu uma crônica relatando passagem histórica de sua vida, afirmaOrides já faz parte do Olimpo das maiores poetas do século…”. Soma-se esta afirmação a uma reputação merecida que a poeta vai ganhando, com o tempo. Tendo sido considerada uma pessoa muito pobre - cursou a faculdade de filosofia com muito sacrifício - sua miséria foi comparada à de Cruz e Souza, mas na verdade possuía uma pequena renda de aposentadoria como bibliotecária. E, segundo o poeta Donizete Galvão, em artigo, Orides encontrou em São Paulo apoio de diversas pessoas, como Antonio Cândido, José Mindlin, Marilena Chauí, entre outros. Completando, Galvão confirma que “mesmo em vida, Fontela teve um reconhecimento crítico considerável (…) em conversas que tive com ela, reconhecia que era áspera, sem travas na língua e que se indispunha com as pessoas. Muito isolada nos últimos anos, dizia que estava mais amena. A própria fragilidade física tirara-lhe a disposição para a briga(…) embora tenha sido desleixada até mesmo com sua saúde, era zelosa com sua poesia…”

Pelo que se sabe, a vida da poeta Orides Fontela, repleta de contradições, não lhe permitia o menor tipo de adaptação ao convívio social e, por estranho que pareça, não se refletia isso em sua poesia meiga, de convívio harmônico com elementos da natureza, como pássaros, pedras, água, rio, estrelas, entre outros. Esse conflito, provavelmente tenha sido seu elemento trágico e, porque não, também condutor de sua intensa criatividade, lembrando-nos aquele ditado, “Deus escreve certo por linhas tortas”.

Provavelmente a criatividade de Orides estivesse entre essas duas extremidades tensionadas, como pontos atuantes de posições contrárias; de um lado seu inconsciente repleto de imagens e, de outro, o Daimon incendiado de seu comportamento rebelde com a vida real a enfrentar. Vejamos isso nas palavras de Nassif: “… Vivia miseravelmente. Fez carreira no serviço público e se aposentou como bibliotecária. Teve consagração em vida dos maiores críticos nacionais, dentre os quais Antonio Cândido de Mello e Souza. O professor a ajudou como pôde, com críticas consagradoras e com uma bolsa de estudos que ele recebera de uma fundação estrangeira (…) Orides reagia como um bicho acuado, um vulcão de sensibilidade que explodia na poesia, mas não conseguia canalizar para relações pessoais (…) do professor, cortou as roseiras. Deve ter feito pior com David Arrigucci. Fazia escândalos com amigos, explodia com protetores, se perdia e perdia tudo o que tinha e, quando nada mais tinha, ia abrigar o corpo magro no velho prédio da Casa do Estudante…” A seguir, o próprio Nassif estabelece os sinais do contraste da poeta, dizendo: “…a única luz que provinha dela saía pelos poemas que rabiscava desesperadamente, até se esvair de vez em um sanatório de Campos de Jordão, anos atrás…”

Na sociedade em que vivemos, esses milhares de coisas chamadas de “criação”, verdadeiramente não o são; trata-se apenas do alimento diário, repetitivo, para engordar o grande ego consumista, a que foram transformados os seres comuns, via uma persona coletiva, revestida de comportamento mascarado, objeto do marketing comercial. Ela induz o ego ao único exercício de consumir todo o tempo na pretensa conquista do produto inútil. Portanto, a cultura predominante torna “compreensíveis” tais absurdos, inculcados no ser humano comum, pela excessiva produção da mercadoria, desnecessária e violenta, onde a simplicidade da poesia, em sua lógica de alma, passa a não ser compreendida. A poesia, ao não conviver com a violentação do ser, torna-se um contra-senso para a cultura de mercado. E Orides consumiu seu corpo, colocando-o diante das máquinas de guerra desse exército da realidade crua. Alguém poderia imaginar um tanque de guerra desviar-se de seu caminho para não amassar uma flor? Orides Fontela, sem levar em conta sua própria fragilidade, iludia-se, ao super valorizar sua energia interior, de flor, cuja beleza ser-lhe-ia uma verdade suficiente para enfrentar as armas da barbárie. Uma lógica ingênua? Ou uma entrega de corpo e alma, assumida? E seu profundo viver, no mundo subjetivo, criava-lhe dificuldades para distinguir entre amigos aliados e reais inimigos.

A máscara de “novidades”, que ilude consumidores, estabelece dificuldades para entender o processo criativo da poesia, e tal compreensão só pode ser conseguida por uma alma liberta, não escravizada aos poderes inúteis e mórbidos do grande impostor da realidade. Em contrapartida, trilhar o caminho da alma corresponde ao encontro psíquico da auto realização, que convive em harmonia com sua matéria-prima de criação: a natureza. E, através da poesia, pode-se viver com um consumo material mínimo, porque a maior felicidade, nesse caso, é o fazer alma; sendo muito precioso todo o tempo para essa grandiosa operação de amor.

Mario MaffioliNesse contexto, o tempo de vida torna-se uma questão relativa: muitos podem viver 90 anos ou mais, entregando-se ao serviço das relações de mercado exigidas pelo monstro, que devora cada minuto; e outros viverão sua autonomia, talvez em 10 ou 20 anos de intensa criação, a produzir o próprio mundo interior, de símbolos fantásticos e estranhos, em expansão por um cosmo quase infinito. E no momento mais inesperado esse infinito reverte-se, por um buraco negro, para a própria noite estrelada da imaginação pessoal, também, por sua vez, quase infinita, formando uma espécie de círculo animado, em forma de espiral. Mas de natureza autônoma, quer dizer, criativa, pois, o conceito é de natureza repetitiva e a imagem é geradora da novidade.

Criar significa realizar coisas inteiramente novas, que proporcionam energia libidinal e não alienação nos deuses alheios. E os próprios seres, ao nascer, são sempre diferentes, sempre uma conclusão que transcendeu o passado e desprendeu-se em forma de um intermédio novo e autônomo. O nascer, ao produzir elementos inesperados, portanto, criações, assemelha-se ao processo animado da alma em vida, isto é, produção de novidades por intermédio da fantasia, no nascimento de seres simbólicos que alimentam o sentido de viver, e dão gosto. Provavelmente não seja a poesia a criadora de símbolos, mas sim de imagens, e o símbolo nasce delas, como figura de vida própria, com a qual o poeta se surpreende e passa a conviver, muitas vezes tão profundamente que se esquece da outra vida, a realidade de ganhar dinheiro para comer.

A partir do momento do nascer - que para Orides Fontela se dá no grito - os seres são tomados, paulatinamente, pelo processo repetitivo da “novidade” consumista, adaptando-se de variadas formas a essa consciência “racional”, em que o desenvolvimento mergulhou o mundo numa destruição continua, até a morte. Os seres “desenvolvem-se” imperceptivelmente nessa corporificação, como produtos, com suas respectivas máscaras; aquelas da concorrência violenta ou mesmo do bom comportamento, incluindo uma ética adaptada a isso. Serão operários, médicos, engenheiros, professores, desempregados, e até mesmo revolucionários; ou mulheres reflexos desses espelhos masculinos (onde emancipar-se é ascender à condição do masculino), enfim, seres do repetitivo viver destruindo, com a matriz reprodutiva num fator subliminar da máscara, absoluto e onipotente; um ou vários deuses complementares, porém externos a suas vidas.

Os seres humanos são, de uma maneira geral, pessoas desesperadas para cumprir uma missão, desprezando e estabelecendo como “função secundaria” as solicitações da alma, sedenta de libido para alimentar e despertar a Psique, adormecida de tanto padecer e ser torturada em sua procura de Eros. E a vitalidade erótica da alma, será tachada pelo mercado como inútil e indolente.

Porém, alguns parecem ter sido revestidos pela natureza com o prêmio de sua capa protetora, constituída de elementos intuitivos de extrema sensibilidade e vidência, que se concretizam em uma chama primordial do fogo criativo. Tais pessoas entregam todas as forças de seu frágil ser a um exercício incansável, e surge a surpreendente energia. Nesse processo, suas almas se apaixonam e nunca mais largam a luz primitiva e reveladora com que incendeiam a vida e incomodam a tranqüilidade repetitiva dos outros. Assim nos parece Orides Fontela. E ela própria resume sua vida nesta poesia: Apocalipse - Uma estrela/ atrai/ a luz – uma estrela/ suga/ o resto do/ resto, o/ silencio – elide os deuses, im/ plode – acaba morre/ finalissi/ mamente.

Orides Fontela, em sua vida cotidiana é possuída por um Eros que na antiguidade, nas tragédias gregas, era considerado como “…hostil, louco, mentiroso, portador de infortúnios, tirano, enganador” ou “deus temível em vista da devastação que ocasiona na vida humana (…) um tigre, não um gatinho de estimação” (A.E.Taylor, citado por J. Hillman). Mas segundo o próprio Hillman, esse Eros violento, rebelde, é assim enquanto não for contido pela Psique (o fruto adormecido de seu amor) “…enquanto continuar inconstante e possuído pelo complexo materno, devido sobretudo, a uma anima (alma) que ainda não emergiu de falsos valores, de noções vãs de beleza e da incerteza psicológica sobre si mesma, como alma, e que, por isso ainda não é um vaso capaz de conter a força criativa de Eros…”. Diríamos que assim foi nossa poeta Orides, em seu comportamento externo, na vida social, encarnada ao espírito do Eros desgovernado, enquanto ela própria não fosse possuída e contida por sua Psique adormecida, só despertando, constantemente, no outro mundo da poesia.

Na transcendência dessa passagem para o amor, onde Eros aplica sua flecha dolorida, a Psique da poeta seria constantemente despertada de um sono de profundo sofrimento e se enlaçaria a esse amor - por isso… Sempre é melhor/ sofrer/ que não sofrer (Axiomas) - para um amor tranqüilo no símbolo poético, onde Psique deixa também de ser inocente: Balada: Os anjos são/ livres. // Podemos sofrer/ podemos viver/ o acontecer/ único// – os anjos são/ livres –// podemos morrer/ inocentemente// - e os anjos são/ livres/ até da inocência.

Mais do que um significado correspondente ao sofrimento de Psique, que esperaríamos encontrar através de uma possível reclamação de amor, em poemas de paixão frustrada – coisa comum em poesia lírica – ou uma possível violência louca de Eros, carente de Psique (e vice versa), ao contrário, em Orides, isso fica plasmado nos poemas, em símbolos formados, com novas figuras (transcendentes) da união intermediaria de uma Psique, que habita com certa tranqüilidade vivências do encontro com Eros. Sofrimento explicitado - dessa forma diferente - por exemplo, no poema Adivinha; O que é impalpável/ mas/ pesa // O que é sem rosto/ mas/ fere // o que é invisível/ mas/ dói. Aqui o “encontro” é nítido, pois, Eros vem amar e some (impalpável); esconde sua identidade (sem rosto); fere ao amar e ao partir; mas, mesmo invisível machuca; no bom ou mal sentido. Portanto, o encontro da psique de Orides se dá no imaginário. E ali, a poesia é uma vida calma, coerente, criativa.

A alma da poeta entrega-se toda às imagens, na encubação, gestação e nascimento do símbolo: Ouvir um/ pássaro/ é agora ou/ nunca… (Cantiga) …Pano branco/ integralmente branco//…para receber o sangue/ de todas/ as coisas…(Toalha). E nesse mergulho profundo (ao fundo), de todas as partes vivas nas imagens formadoras da unidade interior -da alma habitando seu deus- ela vive, provavelmente, estados de delícia (ou felicidade?) esquecendo o corpo magro e cada vez mais debilitado. Essa força física, biologicamente necessária, é inteiramente trocada pela resistência simbólica do poema, onde o conteúdo forma as imagens de sua vida e de sua força (a outra).

A poesia de Orides, em nada corresponde a suas atitudes nas relações sociais, pois, a verdadeira amizade habita mais dentro do mundo interno. E a poesia, de formato especialmente seu, terá lirismo próprio, será amorosa, delicada, suave e compreensiva, em convívio com os personagens da natureza, seus amigos, suas metáforas de redenção, aquelas de um Eros contido no amor de Psique. Assim no poema Para C.D.A. somos tocados pela seguinte imagem: …Perdi o bonde/ (e a esperança), porém/ garanto/ que uma flor nasceu…

Para essa perfeição, buscada na síntese voluptuosa e simbólica dos personagens transcendidos, sua poesia, como dizíamos, prescinde dos elementos tradicionais da linguagem amorosa, como: paixão, amor, sexo, saudade, traição, remorso, entrega, desejo, ciúme, mágoa, corpo, frustração, retomada, despedida, encontro, ou toda sorte de relação fisiológico-sentimental entre masculino e feminino. As figuras serão: pássaro, pedra, estrada, rio, água, silêncio, ou elementos (mãos) da fisiologia, relacionados à expansão cósmica: esse mundo sedutor e de mistério do além, algo como uma vida metafórica da união amorosa percorrida pela alma, onde sua Psique vai ensinando Eros a viver, e recebendo dele uma permanente energia vital, através das figuras e do mundo solidamente fantasiado …Um pássaro/ resiste aos/ céus. E perdura./ Apesar. (O anti-pássaro). 

Mario MaffioliNo entanto, quando um dos pólos apodera-se literalmente do comportamento, anulando paulatinamente o oposto - o que significa paralisar o fluxo energético global e parar a produção de libido - a poeta tende a desequilibra-se perigosamente, com um estancar repentino de vida prática. No caso, o corpo reclama através da tuberculose, ou qualquer outra doença. Vejamos o processo neste significativo poema: …Numa hora/ secreta/ as águas/ dormem// (rios detidos/ fontes inertes/ introvertido oceano)// numa hora/ impossível/ cessa o/ fluxo/ e eis a/ estrela: amor/ cristalizado (sem título).

A Teia – A teia, não/ mágica/ mas arma, armadilha// a teia, não/ morta/ mas sensitiva, vivente// a teia, não/ arte/ mas trabalho, tensa// a teia, não/ virgem/ mas intensamente/ prenhe:// no/ centro/ a aranha espera.

Teia lembra preparação entre a produção, que a poeta espera do seu rico imaginário inconsciente e a consciência, esta preparada para recolher as imagens, transformando-as em símbolos vivos. A teia, portanto, não se apresenta simplesmente como uma situação unilateral, com predominância de um ou outro dos pólos (inconsciente x consciente). Não será apenas o clima mágico do mundo interior, mas trata-se também de ação da consciência, no armar armadilhas, justamente para captar as figuras originarias da parte obscura. Não somente o rico mundo do além, na metáfora de (fantasmas) não mortos, mas sensitiva, vidente, isto é, desperta para abocanhar o poema.

E não apenas a virgem imaculada dos mistérios que estão por vir, mas prenhe para produzir e criar no centro, isto é, na mediação, onde nasce a intermediação do símbolo, para criar a figura nova e transcendente: a aranha, aquele si mesmo, que reúne na Psique todas as forças psíquicas, vindas dos mais diversos lugares. Unida a um eu (ego equilibrado), espera, para alimentar-se do símbolo, ou das visitas inconfundíveis de Eros.

Fala – Falo de agrestes/ pássaros de sois/ que não se apagam/ de inamovíveis/ pedras// de sangue/ vivo  de estrelas/ que não cessam.// Falo do que impede/ o sono.

Falo: o membro erótico da libido e do despertar (também flecha de Eros dirigida a Psique), confunde-se com o pronunciar o verbo, o poema; esse produzir do falo através da fala. O pássaro é a comunicação de uma imagem primordial (arquétipo)…de sois; o sol é símbolo da criação ou do falo permanente, que se introduz em psique. E a pedra, cristaliza a imagem de que o coito é uma junção permanente, inamovível; não se apaga. Mas logo as pedras tomam vida, para que sua permanência seja igual a um ente vivo, onde corre sangue (a projeção e a identificação com o próprio corpo, ou analogia subliminar a ele; pedra que precisa animar-se). O sangue, consciente, é vivificado dentro do símbolo de Psique, isto é, dentro do inconsciente, por estar relacionado ao fogo vivo das estrelas, junto ao habitat da alma. E a energia vital da libido é acionada pelos pássaros que circulam livremente entre os pólos.

 Lembrando o mito de Eros e Psique: a princesa Psique, após muito sofrer em busca do deus Eros perdido, e tentar o suicídio, desanima e é castigada com um profundo e eterno sono, do qual, somente Eros poderá acordá-la com suas flechadas de amor. A poeta transforma a flecha em falo e sinaliza que essa palavra impede o sono, ao falar no poema daquilo que impede o sono: provavelmente o amor, metaforizado nas coisas eternas; não se apagam, inamovíveis, coisas eternas. Consideremos que Orides, em várias ocasiões tentou suicídio e também se refugiava em boemia e na depressão (dormência?). Para James Hillman, são formas da psique ir em busca da alma, ou do fazer alma; caminho sedutor, repleto de dificuldades e riscos, às vezes trágicos.

Maiêutica: Gerar é escura/ lenta/ forma in/ forme// gerar é/ força/ silenciosa/ firme/ gerar é/ trabalho/ opaco:// só o nascimento/ grita.

Parece-nos que, para Orides, o silêncio é a chave e a porta de entrada no seu vasto mundo interior (ou do inconsciente: imaginário); essa força silenciosa e firme do gerar. Após a descoberta do nascer, gerar precisa despir-se das formas (in forme), para ser a força escura, difusa - a noite onde vivem os mistérios - indo à procura das imagens no trabalho opaco, noturno. E silenciosamente arranca as figuras, desse seu outro mundo, da treva, para viver as fantasias de sua autonomia. Gerar, portanto, trabalha na parte oculta, com o silêncio, instrumento oposto ao das palavras. Pois, as palavras, correspondem ao trabalho da consciência na tradução das figuras em objeto arquétipo da arte poética. Por outro lado, gritar se dá no lado consciente, isto é, no nascimento; significando a conversão da imagem do silêncio para o grito. É como se cada ser, no ato de nascer e ao pronunciar o primeiro som, tivesse rompido um silêncio de milhares de anos, situação incorporada ao inconsciente coletivo de todos os seres, em imagens primordiais. Portanto, a sua primeira fala pressupõe automaticamente a existência desse silêncio milenar, compondo sua existência anterior nessa ligação coletiva de memória arquetípica, ou melhor, a sedimentação das imagens comuns, desde o início de tudo, neste caso extraídas para a criação pessoal.

No caso da poeta, o silêncio e a fala, o gerar e o nascer, são pólos de tensão em pontos opostos, cuja manutenção equilibrada no símbolo impede também a loucura, quer dizer, a invasão absoluta de um dos lados, tanto do inconsciente, anulando a outra parte, como o da inflação excessiva da consciência de um ego aumentado, que reforçaria a máscara, anulando a fantasia. No caso, a invasão unilateral do inconsciente corresponderia, como já vimos antes, ao Eros enlouquecido, inconseqüente (que assim age enquanto não é contido por Psique) e que no caso da poesia de Orides acaba controlado por sua psique do nascimento. Quer dizer, da mesma forma que seu silêncio é a descoberta do mundo mágico, seu grito (de nascer) é sua poesia plasmada; seu símbolo realizado.

Mario MaffioliJoão: De barro/ o operário/ e a casa//…O pássaro/ faz o seu/ trabalho/ e o trabalho faz/ o pássaro//… O duro/ impuro/ labor: construir-se//…O canto é anterior/ ao pássaro// a casa é anterior/ ao barro// o nome é anterior/ à vida.

O pássaro faz o seu trabalho. Novamente temos aqui o pássaro, como mensageiro da alma (confundindo-se com a própria) que trabalha incansavelmente fazendo a casa, isto é, a construção do seu próprio ser, seu habitat, seu logos (o si mesmo, onde também habita o eu da poeta, numa síntese dos contrários). Mas esse trabalho faz o pássaro na consciência, que resgata a imaginação para o símbolo e, bem provavelmente, permite o equilíbrio consciente da poeta, quando ela enxerga realizada sua obra (incluindo a edição de seus livros, que ela mesma curte, com especial atração).

É duro construir-se; algo como Psique sofrendo na espera, para o despertar. Mas o canto, figura primordial no nascimento é anterior ao pássaro (alma) e anterior ao início da vida no mundo. Será o canto - aquele primeiro som, símbolo do feminino, que dá inicio à criação - algo como a figura de um inconsciente coletivo do nada, essa função arquetípica anterior à matéria? Ou será ele o espírito coletivo, a acompanhar a vida do mundo?

Da mesma forma, a casa, o si mesmo individual, que em termos coletivos corresponderá à mesma imagem primordial, é anterior ao barro (a consciência), no sentido de a imaginação do completo estar antes de iniciar-se a realidade. O nome – origem do arquétipo feminino da existência ou imagem da mãe geradora (e gestadora) na anima mundi (alma do mundo, ou anima(a)ção da matéria) – é anterior à vida (consciência do mundo).

Ditado: I - Mais vale um/ pássaro/ na mão pou/ sado que o vôo da/ ave além/ do sangue.// II - Mais vale o/ canto/ agreste/ do que o vívido/ silêncio branco/ além do humano/ sangue//. III - Mais vale a/ luz/ aberta/ do que austera/ noite primeva para além/ do sangue//. IV - Mais vale o/ pássaro/ mais vale o/ sangue.

O pássaro na mão é a alma sob controle da psique e, o vôo além do sangue, que para a poeta tem menor valor, é a vida consciente, racional, humana: a responsabilidade que a sociedade exige dela, o mesmo que “dar o sangue”. E note-se bem, ao representar isso de menor valor, também por uma noite primeva, corresponde a uma dúvida e a um medo em avançar no inconsciente, pois, o mergulho na imaginação também pode afogar.

Volta-se a refletir, ou a intuir o inconsciente como integridade fornecedora de imagens (o canto agreste) ação equilibrada pelo oficio da consciência que recolhe as imagens (a luz aberta). Porém, antes de partir para o desconhecido, onde pretende exercitar-se no fazer alma, paira novamente, sobre ela, a dúvida e o medo (esse necessário instrumento de contato com a alma). O menor valor dado ao vívido silêncio branco (aquele que sempre foi corajosa chave da porta de entrada no inconsciente), por acaso representará o medo e a dúvida em relação a rupturas com os elementos geradores do aquecimento da libido? E, nesse caso, não seria perigoso voar sem reabastecer? Ao ter procedência tal temor, digamos que esse fato confirma a situação equilibrada da poeta, considerando tratar-se de reflexão ponderada, que atesta a presença do cuidado em prevenir-se, quando se trata de planejar ações de profundidade.

Mas, na quarta e última estrofe do poema, passamos a observar que, apesar das dúvidas e temores da poeta, ela acaba valorizando equilibradamente o todo; tanto o pássaro, como o sangue, pois, para chegar à noite primeva é requisito atravessar o sangue, o sofrimento, e as provas de amor, inclusive suportar a flecha de Eros e a dor necessária.

Pesca: I – A beira do rio o silêncio/ dos peixes/ a beira do rio nem/ a espera.// II – A água não cessa/ e o rio/ nunca passa.// III – A beira rio/ a lucidez/ a/ pedra// e a pedra é/ pedra: não germina./ Basta-se.

O rio é a (bela?) paisagem do inconsciente (imaginação ativa)? Neste caso já transcendido (transformado) em símbolo de água vitalizada pela corrente das coisas imponderáveis? A psique da poeta permanece à beira desse rio, numa posição confortável de visão e reflexão. O silêncio é a abertura para a entrada do clima perfeito de integração, tão profundo, ao ponto desse silêncio ser figurado na vivacidade dos peixes. Os peixes são vivos, silenciosos e integrados absolutamente ao rio da própria vida interna e ao caminho percorrido pela alma (a água não cessa); um silêncio necessário para energizar a vida. Não há espera, porque nessa imaginação vitalizada, em que agora a poeta seguramente está mergulhada, as figuras borbulham e a libido não cessa.

Uma imagem dinâmica é desencadeada, na medida em que dois extremos são criados como pólos em posição de gerar energia: de um lado “a água não cessa” de outro “o rio nunca passa”. E dessa relação para produção de imagens, nasce o novo símbolo, deslumbrante: a lucidez e a pedra. Outra vez a pedra é o vivo espelho do próprio ser vital, pois ela não germina, é a filha de si mesma ao desdobra-se em outros eus, sendo cada um o reflexo da poeta, algo como a psique despertada, reunindo em si as varias funções do Eros integrado, o si mesmo: união do mundo interno (e noturno) do imaginário com a consciência de luz do dia.

Talvez, um mergulho tão profundo e sedutor, que arrebata o símbolo de Eros, de tal forma, para a extremada vitalidade da fantasia, tenha sido a causa do eu ter ficado tão desprezado. E provavelmente, neste caso, a consciência ressente-se da falta de energia e deixa penetrar a tuberculose pelo corpo ressequido. Provavelmente tenha faltado à poeta um pouco de água do rio caudaloso, para dar de beber à consciência. Feito peixe vivo, seu imaginário deliciou-se na água, onde o corpo humano tem limites de resistência sem respirar, e Orides Fontela passou a viver um silêncio cósmico: “…a estrela da tarde está/ madura (…) depois dela só há/ o silencio (Vésper)  

José Carlos A. Brito (Brasil, 1947). Poeta e articulista. Autor de livros como O Nascimento do Mundo (Prêmio da editora Taba, RJ), Poemas do Amor Quebrado (Prêmio da Academia Il convívio, Itália, 2003), e O Romance de Meiga e Sátiro (peça de teatro em versos) Contato: abreolho@ig.com.br. Página ilustrada com obras do artista Mario Maffioli (Costa Rica).

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