revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004






 

Annemarie Schwarzenbach: o anjo inconsolável

Antonio Júnior

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Annemarie SchwarzenbachEla faz parte da incrível lista de escritores viajantes. Esteve sempre com o pé na estrada, consagrando sua vida a uma errância sem fim e total ausência de esperança. Descrita pelo poeta Roger Martin du Gard, um dos seus admiradores, como "um belo rosto de anjo inconsolável", e por Thomas Mann, o célebre autor de "Morte em Veneza", que a conheceu muito bem como amiga de seus transgressores e drogados filhos Erika e Klaus, como "anjo devastado", despertou um amor impossível nos escritores Blaise Cendrars e Carson McCullers, que dedicou-lhe sua segunda novela "Reflexos de um Olho Dourado" (filmado por John Huston com o título brasileiro de "Os Pecados de Todos Nós"). Anais Nin, que a conheceu em Nova York, ficou encantada com "esta garota alta, magra e sombria", imaginando que era a sua própria alma que a visitava. Sessenta e dois anos após a sua morte, está sendo lançado em Espanha, "Morte na Pérsia", uma mistura de crônica de viagens, diário pessoal e ficção.

Annemarie Schwarzenbach nasceu em 1908, em Zurique (Suíça), filha de um proprietário de um império têxtil, Alfred Emil, e de Renée de Wille, sendo educada nos melhores internatos para moças ricas. Formada em História em Zurique e Paris, publicou uma obra elogiada pela crítica, "Amigos de Bernhard", mudando-se para Berlim em 1931, onde foi acolhida pela elite intelectual. Morfinômana, íntima dos malditos Mann, suicida em potencial (embora tenha morrido acidentalmente em 1942, aos 34 anos, de uma queda de bicicleta, após hemorragia cerebral e longo período de inconsciência), correspondente de guerra, arqueóloga, fotógrafa, escritora atormentada, lésbica alçada a ícone gay, mergulhou no lado sombrio da vida em um naufrágio existencial doloroso. Sua biografia, publicada em 1991 por Dominique Grente e Nicole Müller, não deixa o leitor indiferente. Fala da sua busca desesperada do amor, fugas, vícios e a difícil relaçao familiar (nunca conseguiu escapar do domínio da opressora e sufocante mãe, filha de general e de uma Bismarck, amante de uma cantora com a compreensao do marido, que acabou destruindo, ao morrer a jovem, grande parte de seus escritos). Ainda na Alemanha, antes de fugir do nazismo, escreve a peça histórica "Cromwell" e a novela "Der Falkenkafig". Seus escritos geralmente falam de amores homossexuais. Apaixonada por Erika Mann e, não correspondida, parte para uma viagem de sete meses pela Ásia. Em 1934 visita Moscou e termina rompendo definitivamente com a sua família preocupada com o julgamento da sociedade e adepta ao nazismo.

Francisco Quintanar"Escolheu uma vida complicada, a estrada cruel do inferno", escreveu sobre Annemarie uma amiga sua, a jornalista e escritora Ella Maillart (1903-1997), que em 1939 viajou com ela de automóvel, um velho Ford, da Suiça ao Afganistao, passando pela Itália, Iugoslávia, Bulgária, Turquia e Ira, correndo do terror hitleriano e ansiosas de respostas vitais. Annemarie é a Cristina de "La Voie Cruelle", o livro em que Maillart contou a experiência pré-hippie até Kabul e que constitui um dos clássicos da literatura de viagens. "Acreditava no sofrimento. O venerava como a fonte de toda grandeza", anotou Maillart, que mudou o nome de sua frágil companheira, a que muitos confundiam com um rapaz pelo seu aspecto andrógino, em consideração a jovem, ante a quantidade de dados íntimos revelados em seu relato. Na insólita viagem, Ella Maillart acabou esgotada de sua desequilibrada acompanhante, do demônio que a corroía, de sua insaciável sede do absoluto, de suas crises, de suas recaídas na droga, de seu excesso de sensibilidade. Porém nunca deixou de se sentir atraída pelo seu encanto e sua profunda vulnerabilidade. Schwarzenbach contou a mesma viagem numa série de artigos reunidos em "Alle Wege Sind Offen – Die Reise Nach Afganistán, 1939-1940". Outro livro recente sobre esse trajeto afgao junta textos e fotografias das duas mulheres, completando com material de outro escritor viajante suiço, Nicolas Bouvier, que fez o mesmo itinerário 15 anos depois: "Bleu Inmortel".

"Morte na Pérsia" (Tod in Persien), o primeiro livro de Annemarie Schewarzenbach publicado em castelhano, fala de várias de suas passagens no Ira dos anos 30. A velha Pérsia era para a suíça o lugar propício em que exorcizava sua angústia, seus medos e obsessões. "Que procura na Pérsia?", lhe perguntou André Malraux. Buscava materializar o seu desânimo. Encontrou uma terra desértica em que projetou o seu sofrimento, um país que oferecia um território de tentações para seus vícios, suas crises mentais e seus amores homossexuais. A "horrível tristeza da Pérsia", sua beleza letal, é um dos temas do livro, do qual surgem imagens inesquecíveis como as das dunas vistas como ondas mortas, da caravana funerária com camelos carregados de defuntos ou das lagostas estendidas sobre o chão como espigas secas e que produziam, ao caminhar sobre elas, um crepitar sinistro. As ruínas de Persépolis, os fragmentos de civilizações esquecidas, a cavalgada dos nômades, as tempestades de areia, Mazanderán, "paradigma da melancolia"… Tudo está descrito através do prisma de dor e somente adquire sentido sob essa perspectiva. Como se o Irã inteiro existisse unicamente para resumir na escritora uma frutífera e desoladora "depressão persa", como ela mesmo denominou o mórbido estado em que, em 1936, realizou a redação definitiva do livro.

Francisco QuintanarOs diferentes episódios do mesmo evocam pedaços de biografia de Annemarie: sua complexa relação amorosa com uma garota de Teerã – a filha do embaixador turco -, seu passageiro casamento de conveniência em 1935 (como o foi o de sua amiga Erika Mann com o poeta Auden) com o diplomata francês Claude Clarac para dissimular seus romances com outras mulheres, as escavações em Rhades, a torturada necessidade de comprometer-se na luta contra o nazismo, as febris excursões ao "Vale afortunado" (o Vale de Lahr), a procura da pureza e do esquecimento nas águas gélidas dos rios, os cachimbos de haxixe e a vodka tomada furiosamente nas reuniões com os colegas arqueólogos.

A difícil aventura e a relação amorosa entre Annemarie e Ella deu origem ao filme alemão "A Viagem ao Kafiristán" (Journey to Kafiristán, 2001), de Donatello e Fosco Dubini, com Jeanette Hain e Nina Petri, apresentado com sucesso em inúmeros festivais. A poesia amargurada e a dolorosa experiência interior da autora suíça de morte prematura também está no documentário canadense "A Suíça Rebelde", de Carole Bonstein, premiado em vários festivais na Europa e escolhido o melhor documentário na 11ª. Edição do Festival MixBrasil da Diversidade Sexual, em 2003. Annemarie esteve na China com o aventureiro Peter Fleming, seguiu o curso do africano rio Congo, tentou várias vezes a desintoxicação,  foi internada como esquizofrênica, suspeita de espionagem na França em plena Segunda Guerra, e quase estrangulou a namorada Margot von Opel, sendo obrigada a abandonar definitivamente os EUA em 1940. Em 1987, depois de muitos anos de esquecimento, e graças aos esforços de Ella Maillart e do ex-marido Claude, a importância de Annemarie Schwarzenbach foi resgatada com a publicação suíça de sua obra (romances, contos, artigos, reportagens, prosa lírica e autobiográfica).

Francisco QuintanarA parte mais intensa e lírica de "Morte na Pérsia" é a alucinada descrição que faz a autora do encontro com o seu anjo, uma figura que surge das profundidades da sua psique e da memória ancestral do país. Na antiga escatologia iraniana, tanto no mazdeísmo como no maniqueísmo, o anjo era uma presença freqüente, visto como celeste e protetor (as fravartis guardias ou as daenas, jovens que ajudam a alma contra os demônios que a assaltam). A imagem da bela viajante solitária disputando com seu anjo nu, que tem suas mesmas feições, à sombra da pirâmide coberta de neve do vulcão Damavand, resulta numa evidente metáfora da vida e da paixão de Annemarie Schwarzenbach. Uma existência que ela mesmo resumiu num grito pavoroso: " Deixem-me sofrer!".

Antonio Júnior (Brasil, 1970). Escritor. Autor de livros como O aprendiz do amor (1993), Caprichos (1998) e Artepalavra - Conversas no velho mundo (2003). Contato: antonio_junior2@yahoo.com. Página ilustrada com obras do artista Francisco Quintanar (México).

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