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revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004 |
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Ismael Nery: príncipe do espírito Carlos Perktold
A primeira exposição modernista brasileira foi realizada
em São Paulo em 1914 pelo lituano Lazar Segall, então residente na
Europa. Tornou-se brasileiro de coração, pincel e alma e conteúdo de
suas obras, quando voltou para aqui se fixar definitivamente. Depois dele
foi a vez de Anita Malfatti, que em 1917 expõe sua bela pintura tentando
antecipar o movimento modernista, que aconteceria somente cinco anos
depois. Talentosa e jovem demais para sua época, foi incompreendida pelo
grande público e, em particular, por Monteiro Lobato, um importante crítico,
bravo e criativo escritor, homem cheio de virtudes nacionalistas e cujo único
pecado em vida foi tê-la castrado e a demolido numa contundente crítica
sempre lembrada e nunca perdoada. Depois de Anita Malfatti, somente em
1922, viriam os modernistas. A Semana de Arte Moderna não teve a repercussão esperada
pelos seus participantes, seja em São Paulo, Rio ou no restante do
Brasil. Ela foi a ruptura definitiva com o academicismo enraizado em
museus, escolas, nas poucas galerias existentes e na cabeça da maioria
dos artistas e intelectuais de então e, por isso, incompreendida pelo
grande público e pelo público especializado. Pouquíssimos intelectuais
entenderam a grandeza dos acontecimentos de 1922 em São Paulo. Um destes
é de particular interesse histórico pela coragem de, em 1924, dois anos
depois da exposição modernista e cuja ressonância ainda não tinha
chegado ao Rio de Janeiro, expor sua indignação em plena Academia
Brasileira de Letras: o embaixador Graça Aranha. Naquele ano ele fez um
veemente discurso a favor dos modernistas, se declarando horrorizado com
seus contemporâneos, cegos e insistentes em não aceitar a novidade que
chegara para ficar. Seu discurso repercutiu no Brasil mais que a Semana de
22. Quem não soube desta, a descobriu através do tal discurso. Somente a
partir dele os modernistas iniciaram uma trajetória que poderia ter começado
com Segall ou Anita, anos antes. Mas a resistência era grande. Vários
integrantes da Escola de Paris expuseram no Rio, no Hotel Palace, em 1930,
oito anos depois da famosa Semana, e aqui ficaram apenas dez dias por puro
desinteresse do público. Antonio Bento assegura no seu livro Ismael
Nery (São Paulo: Gráficos Brunier,1973, p.24) “que de 1920 a 1950
os modernos eram aqui [no Rio] repudiados e combatidos”. Morando no Rio
e tendo morrido em 1948, Monteiro Lobato não desenvolveu seu olhar a
tempo de reconhecer seu erro e se redimir dele. Se tivesse vivo até os
anos 1960, é possível que ele escrevesse um livro inteiro para se
desculpar com a artista e se reconciliar com os colegas de paleta dela. Entre os modernistas do Rio havia Ismael Nery, paraense de
nascimento e carioca de coração, cujo interesse histórico é registrado
este ano, 70 depois de sua morte ocorrida em abril de 1934, pela maldição
de que foi portador em vida como pintor e pelo talento hoje reconhecido.
Maldito porque incompreendido, combatido e depreciado por todos, inclusive
por alguns colegas modernistas; foi valorizado apenas por seus amigos e
admiradores: Murilo Mendes, Antonio Bento, Graça Aranha e Joaquim
Burlamaqui. Defendendo-o antes e depois de sua morte, esses mosqueteiros
do príncipe pictórico mal sabiam que levaria dezenas de anos para o
Brasil compreender Ismael, aceitá-lo, amá-lo e valorizá-lo como um dos
mais importantes pintores do país. Até mesmo Oswald de Andrade, um
paulista brilhante e interessado em nossa cultura não reconhecia seu
talento, alegando que ele “era uma invenção do Murilo e do Antonio
Bento”, afirmativa comprovadora de que os gênios também se enganam, em
especial, quando se referem aos seus próprios pares. Talvez a mútua
genialidade tenha sido a qualidade impeditiva de Oswald o ver, fato
lamentado pelo próprio Ismael em seu “Testamento Espiritual” quando
falava a todos: “a minha excessiva proximidade impediu, porém, que me
olhásseis como realmente sou”. Proximidade que Oswald tinha também com
relação ao nosso país. Por isso, admitiu e reconheceu que precisou se
distanciar do Brasil para descobrir a nossa cultura apenas em Paris. Pena
que, de lá, não tenha visto também a grandeza de Ismael. Para
contrapor, havia Mário Pedrosa que, aqui, o chamou de “príncipe do espírito”.
Seus trabalhos nasciam no toque mágico de poesia pictórica
daquela escola alemã, sua fase mais vigorosa, cheia de sentimento e
lirismo; passam para o expressionismo-cubista, excluindo tudo o que havia
de frieza, racionalismo e ausência de emoção do cubismo analítico e
terminam no surrealismo, lugar do insólito, do acaso, do automatismo psíquico,
do real e do fantástico juntos, todos colocados em sua produção que não
excede a pouco mais de cem quadros a óleo e centenas de desenhos e
aquarelas. Sua obra inteira tem a presença da figura humana, a demonstrar
seu humanismo que se estendia até na sua aceitação de não ser
compreendido. Nestas obras é comum vermos homens e mulheres de pescoços
alongados, sensuais e líricos, com freqüência fundidos como se ambos
fossem uma só pessoa, presos no tempo. Fusão demonstrada e desejada também
em versos como “Eu sou o marido e a mulher” do poema Eu.
Mais que isso, Ismael lamentava por nele existir “tantas almas num só
corpo”. Almas que foram envelhecendo junto com o corpo doente, outrora
elegante e belo, consumido pela tuberculose pulmonar nos últimos anos de
vida. Nestes passava o dia desenhando e jogando fora seus trabalhos.
Dezenas deles e vários óleos foram literalmente salvos por encomenda de
Murilo Mendes, um equivalente de Théo Van Gogh na vida do pintor, pela
enfermeira do hospital onde ele permaneceu desenhando, escrevendo e se
definhando. Ela literalmente os retirava do lixo e os entregava a Murilo
Mendes. A grande maioria desses desenhos, hoje tão valorizados, são
estudos de quadros que ele pretendia executar. A decadência física foi
se agravando no aparecimento de um tumor na laringe que o impedia de ser o
brilhante conversador de antes. Se tivesse vivido mais, teria produzido o
suficiente para ser o mais internacional dos pintores brasileiros.
Sua morte ocorreu aos 33 anos de idade, a mesma do seu pai
“e a mesma de Cristo” como ele afirmava que seria seu fim. Seu
esquecimento entre nós perdurou até 1965 quando a 8ª Bienal de São
Paulo o homenageou colocando vários quadros de sua fase surrealista em
exposição. Estes quadros e mais outros formaram a retrospectiva
realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro no ano seguinte. A
partir daí Ismael Nery é reconhecido como um dos mais importantes
pintores brasileiros e o céu passa a ser o limite dos preços de suas
obras, registrando um recorde em 1972. Neste ano foi vendido o quadro
“Auto-retrato com o Pão de Açúcar”, uma obra prima na qual o
artista se pinta entre a Torre Eiffel e o Rio, suas apaixonantes cidades,
numa composição de clara influência do seu amigo Chagall. Se o valor da
venda desse quadro em moeda estrangeira fosse corrigido hoje, seria
superado apenas pelo “Abapuru” de Tarsila no mercado brasileiro, tão
raras são as ofertas para venda de suas obras em poder de particulares ou
em leilão. Ismael lamentava a proximidade que nos impedia de vê-lo
como ele realmente era. Mas não foi somente esta a prejudicá-lo. Ismael
teve o azar de viver numa época em que era incompreendido em tudo que
fazia ou pensava, fenômeno também ocorrido com El Grego, Manet, Van
Gogh, Gauguin, Guignard e tantos outros. O artista precisa ser contemporâneo
de si mesmo, caso contrário corre o risco de morrer ignorado e
desvalorizado. Tísico numa época em que essa doença matava aos poucos,
o artista era uma angústia só desde sua volta de Paris em 1927 “onde
esperava ficar para sempre”. Não conseguiu. A partir de 1930 contraiu a
doença que, em três anos, o levaria para mais perto de Deus. TESTAMENTO
ESPIRITUAL DE ISMAEL NERY Esperei até hoje que vós me descobrísseis. Quis dar-vos
o prazer de vos sentir crescer. A minha excessiva proximidade impediu, porém
que me olhásseis como realmente sou. Contar-vos-ei agora a minha história
e descreverei o meu físico para que disto tireis o proveito necessário e
justifiqueis a minha e a vossa existência. Pertenço a esta espécie de
homens que não constroem nem destroem, mas que explicam toda a construção
e toda a destruição. Eu sou um predestinado, como foram também meus
predecessores e como serão meus sucessores. Através dos séculos deveremos
desenvolver o germe que no principio da vida recebemos. Nós somos os
grandes sacrificados que sofrem por todo o erro e atraso dos homens. Somos os homens que amam e consolam; não somos amados nem
consolados. Se não fôssemos portadores do germe de que vos falei, há
muito que a nossa raça teria acabado violentamente.
A solidão do homem é o que mais apavora a vida. Os homens
se olham como desconhecidos com as mesmas roupas. Vivemos desconfiados –
tudo fazemos para garantir o que possuímos, com medo dos ladrões de toda a
espécie que vemos em todos os homens. Inventamos o direito e a polícia, pomos em nossas casas
grades de ferro e portas de bronze. O homem se esquece de que o que possui
moralmente não é acessível aos ladrões – mas aumenta o seu
desassossego com as suas posses físicas, esquecendo a ciência por ele já
conquistada. Para que guardais uma mulher que não é vossa? Para que vos
batéis por uma idéia que não sentis? Para que duas casas com um só
corpo? Para que o sustento de uma vida sem consolo? Ah, a esperança! Que é
a esperança? Tenhamos esperança – aumentemos a esperança – em Deus, e
vós em mim, em meus sucessores. Um conselho vos dou, com a autoridade que
me conferem as rugas da minha testa, o meu olhar febril, as minhas mãos
mutiladas. Não façais o que vos causar nojo, mesmo que tal nojo seja mínimo.
Orientai vossa ciência para conseguirdes um aumento micrométrico das
vossas sensibilidades. Já reparastes, meus irmãos, que vivemos num mundo em que
existem soldados, juízes e prostitutas? Onde se encarcera um homem pelo
depoimento das testemunhas, ou se enforca um outro por insultar um líder.
Existem testemunhas? Existem líderes? Já fizestes, com a ciência que
tendes, a psicologia de um chefe? Por que não acreditar em Deus, quando
acreditais nos regimes políticos? A humanidade, como as plantas, precisa de estrume. Dos
nossos corpos renasceram aqueles corpos gloriosos que encerraram as almas
dos poetas, aqueles que nós já trazemos o germe. Tudo foi feito no princípio
– porém tudo só existirá realmente em tempos diversos. Os poetas serão
os últimos homens a existir, porque neles é que se manifestará a vocação
transcendente do homem. Todo o homem recita um poema nas vésperas da sua morte – a humanidade recitará também o seu nas vésperas da sua, pela boca de todos os homens que nesse tempo serão poetas – Mirabili Dominus in opera ens. (Novembro de 1933) |
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Carlos Perktold (Brasil, 1943). Crítico de arte e ensaísta. Autor de Ensaios de pintura e psicanálise (2003). Contato: perktold@terra.com.br. Página ilustrada com obras de Ismael Nery (Brasil), incluindo um auto-retrato. |