revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004

livros da agulha

A Literatura e os Deuses, de Roberto Calasso01 A Literatura e os Deuses, de Roberto Calasso. Companhia das Letras. São Paulo. 2004.

Esta pergunta de Roberto Calasso resume seu livro: De que falam os escritores quando mencionam os deuses?

As respostas passam pelo exame da dessacralização e desencantamento do mundo associada à extinção do paganismo, e da morte de Deus a partir da instauração da sociedade moderna, fundada no Iluminismo, entre outros temas examinados neste recente A Literatura e os Deuses. O ensaísta italiano, autor de outras obras já publicadas no Brasil, sustenta que Os deuses são hóspedes fugidios da literatura, pois Deixam nela o rastro de seus nomes. Mostra como, do Romantismo até hoje, a poesia se apresentou como religião herética e cismática, na tentativa de preencher o vazio deixado pelo refluxo do sagrado.

Aparentemente, não haveria nada de novo nesses tópicos e nessa ordem de considerações. É um desafio ser original em um ensaio que começa pelo exame da ambivalência baudelairiana diante do afastar-se dos deuses, da nostalgia pagã em Hölderlin, e do combate entre Deus e Maldoror promovido por Lautréamont - todos, temas que já renderam pilhas de ensaios. Há uma copiosa a bibliografia sobre poetas, místicos e magos, sobre os deuses pagãos ou o Deus de um cristianismo primitivo entrando pela porta dos fundos, pelo não-instituído, associados à rebelião romântica, individual. Poeta é sacerdote, disse Allen Ginsberg, em seu poema sobre Van Gogh. E muitos foram os antecessores dessa proclamação. Basta lembrar como Octavio Paz, em Los Hijos del Limo, lê El Desdichado de Nerval, e No Túmulo de Christian Rosenkreutz de Pessoa, como indicadores da morte de Deus.

No entanto, se, de um lado, Calasso dá seqüência ao que já foi escrito, de outro, enriquece esse capítulo da História da Literatura e do comparatismo literário. Lautréamont ganha um capítulo sugestivamente intitulado de Elucubrações de um serial killer, sobre a aparente contradição entre Os Cantos de Maldoror e Poesias, para concluir que, Depois de Stirner, Lautréamont é o outro bárbaro artificial que irrompe em cena, pois….revelou aos satanistas românticos, vasta tribo que culmina com Baudelaire, que eles haviam se detido nas primícias do noir, sem descer ao detalhe do horror, com exatidão, paciência e olhar sem névoa. Por isso, submeteu a literatura e a filosofia a uma lesão fatal.

Especialmente denso é o capítulo sobre Mallarmé, que inclui uma interpretação do soneto em yx. O autor de O Demônio da Analogia é associado, com propriedade, à literatura absoluta, onde deuses reaparecem, ao empreender desse modo a destruição do sentido e a absolutização do poema.

Há muito mais autores discutidos em A Literatura e os Deuses. O importante a assinalar é que sua argumentação não é mecanicista, não se limita à simples constatação da emergência do sagrado em outro lugar, fora do institucionalizado. Mostra a complexidade dessa aparição, ou reaparição, que, desde os primórdios do Romantismo, com Hölderlin, se manifesta como o terrível, o caos, a fulguração enlouquecedora, a destruição da individualidade. Em outras palavras, os deuses não transigem: sua volta nunca deixa de associar-se ao dionisíaco nietzcheano, mesmo em um autor aparentemente tão cerebral como Mallarmé, o pai do formalismo.

No último capítulo, alguns parágrafos de alerta, sobre o modo como a política e o pensamento social de matriz positivista tomaram o lugar da religião, em um deslocamento cuja conseqüência inevitável são regimes totalitários. Isso também já foi dito antes. Mas precisa ser repetido. É um motivo adicional em favor da leitura e adoção de A Literatura e os Deuses.

[Claudio Willer]

 

A memória das coisas, de Maria Esther Maciel02 A memória das coisas, de Maria Esther Maciel. Lamparina Editora. Rio de Janeiro. 2004.

O que teriam em comum o argentino Jorge Luis Borges, o britânico Peter Greenaway, o brasileiro Arthur Bispo do Rosário e o francês Georges Perec, artistas aparentemente díspares na nacionalidade, na arte e na vida?

Podemos dizer que Borges é/foi um catalogador irônico da insensatez e do incontrolável; Greenaway, um desqualificador do esforço humano de representar a racionalidade do mundo; Bispo do Rosário, um entulhador de objetos avulsos, registros de sua passagem pelo mundo; e Perec, um colecionador de sistemas como desejo de ordenação do mundo e do conhecimento. Ou seja, todos experimentaram o “exercício criativo da taxonomia (…) pelo propósito de subverter/criticar a lógica burocrática que define o uso dos sistemas legitimados de organização do mundo.”

Com o sentimento dos versos da canção de Paulinho da Viola - “as coisas estão no mundo / só que eu preciso aprender” -, diremos que precisamos aprender a apreender. É a isto que o olhar crítico da mineira Maria Esther Maciel (1963) nos estimula: apreender a ordem e a desordem, a realidade e o delírio, a construção e a desconstrução de universos artísticos. Demonstram-nos isso os textos escritos entre 1999 e 2003, reunidos pela novíssima editora Lamparina, do Rio de Janeiro, em A memória das coisas: ensaios de literatura, cinema e artes plásticas.

A obra se divide em quatro partes: a primeira, “Inventários do mundo”, inclui os artistas já mencionados, resgata Visconde de Taunay e sua Zoologia fantástica do Brasil (1934) e acena para os contemporâneos Wilson Bueno, Valêncio Xavier, Caio Fernando Abreu, Zulmira Tavares Ribeiro e Sebastião Nunes; a segunda, “Texto, imagem, tradução”, reflete sobre a interseção da poesia do cinema com a da literatura, via Bressane, Helvécio Ratton, Buñuel, Wenders e Jarmusch, levando a crítica a indagar “qual seria a poesia possível de nosso tempo?”; a terceira parte, revê a poesia de coisas de Drummond, especula sobre as construções de Altino Caixeta de Castro e Maria Gabriela Llansol, portuguesa, e comenta sobre vertentes da poesia híbrida, que se dá “às margens do verso”; por fim, revela-se poeta, em entrevista concedida a Floriano Martins.

Ao estudar a poesia do mineiro Altino Caixeta, a autora de O livro de Zenóbia (Lamparina, 2004), surpreende-nos pela sutileza com que trata a poética desse exilado da nossa cena literária. Pela leitura transversa dessa poesia entrevista como paradoxal e atópica, assim como pela re-visão do feitio enciclopédico e irônico do poeta, a nosso ver, Caixeta aparenta-se com o cearense poeta Pedro Henrique Saraiva Leão, autor de Meus eus (UCF/Casa de José de Alencar, 1995).

A memória das coisas é obra de pesquisadora arguta. O texto preciso distancia-se das empolações e muitas vezes ininteligível escrita de pares acadêmicos. Trata-se de obra que deve ser degustada lentamente, saboreados os vazios e as reentrâncias, e, melhor ainda, se preenchida, simultaneamente, com as indicações da autora. É talvez por ser também poeta que Maria Esther Maciel tonifica seu texto crítico com a verve de quem lida com a subjetividade da matéria.

Na entrevista contida no final da obra, a autora nos ensina que “o exercício crítico requer também a responsabilidade ética de entender a lógica do outro, para então colocá-la em crise, evidenciar suas contradições e fragilidades”. Se ela admite esse rigor em gestos de confissão, cabe-nos como leitores apreciar os gestos desses rigores.

[Jorge Pieiro]

 

Brasil - Natureza e poesia, de Raimundo Gadelha03 Brasil - Natureza e poesia, de Raimundo Gadelha (com fotos de Iara Venanzi e Luciano Candisani). Escrituras Editora. São Paulo. 2004.

A essência brasileira está agora nas páginas da nova Coleção de Fotografia: Brasil - Natureza e Poesia. Poesia que surge da terra, do fogo, da água, do ar, do povo brasileiro. A poesia que se mostra em palavras e imagens captadas por artistas de grande sensibilidade: os fotógrafos Iara Venanzi e Luciano Candisani, e o poeta Raimundo Gadelha.

“Quando fui convidado a escrever estas palavras, para uma coleção chamada Brasil - Natureza e Poesia, pensei: - Natureza e poesia É o Brasil. Que iniciativa linda! Que alegria ver as fotos do livro! Que beleza os tankas que o compõem!” - Lars Grael na apresentação desta edição. E como ele mesmo diz, o Brasil é rico pela sua beleza natural, pelo seu conteúdo, e agora é detentor de mais esta riqueza que se faz em livro.

Raimundo Gadelha é formado em publicidade e em jornalismo - com especialização na Universidade de Sophia, em Tóquio, Japão - é poeta e fotógrafo. Sua obra sofre grande influência da poesia clássica do Japão, onde viveu alguns anos na década de 80. Trabalhou durante três anos como editor da Aliança Cultural Brasil-Japão e, em 1994, fundou a Escrituras Editora.

Iara Venanzi iniciou sua carreira profissional como fotógrafa na agência de publicidade Expressão Brasileira de Propaganda em 1982, onde realizou trabalhos para diversos clientes, dentre eles a Varig. Passou a colaborar com a Ícaro, a revista de borda dessa companhia, realizando durante 20 anos matérias em várias regiões do Brasil e em diversos países do mundo com enfoque em hábitos, cultura, comportamento, geografia e arquitetura. Hoje exerce a função de editora de fotografia na revista Ícaro e em seu estúdio próprio atende agências de publicidade, editoras e clientes diretos, desenvolvendo trabalhos fotográficos nas áreas de arte, jóias, arquitetura, still, retrato e culinária.

Luciano Candisani é fotógrafo especializado em temas de meio ambiente. Seus trabalhos, premiados no Brasil e exterior, são publicados por revistas como National Geographic, BBC Wildlife, Sailing Magazine, Illustreret Videnskab, National Geographic Brasil (Prêmio Abril de Jornalismo - 2002), Terra, Veja e Época. Sua produção conta também com cinco livros fotográficos. Entre eles, Peixe-boi (DBA, 2001), que traz o mais expressivo ensaio fotográfico já produzido sobre a espécie, e Atol das Rocas (DBA, 2002), o primeiro livro sobre essa ilha oceânica brasileira. Vem percorrendo alguns dos locais mais remotos do planeta, como Antártida, Amazônia, Terra do Fogo, Fiordes Chilenos, Patagônia, Galápagos, Atol das Rocas e Ilha da Trindade para produzir matérias e livros com um estilo peculiar de mesclar técnica fotográfica com criatividade. Atualmente dirige sua agência de imagens de natureza e dedica-se ao registro da biodiversidade e conservação no Brasil.

 

Desespero Blue, de Lucila Nogueira04 Desespero Blue, de Lucila Nogueira. Edições Bagaço. Recife. 2003.

Desespero Blue vem somar-se aos treze livros de poesia já publicados por Lucila Nogueira, que também é professora de Teoria Literária na Universidade Federal de Pernambuco (Recife), e autora de uma copiosa produção ensaística. Editora de uma revista voltada para a lusofonia, a aproximação entre as literaturas de língua portuguesa, apropriadamente intitulada de Encontro.

Sem nunca negar sua relação com o Recife, Lucila Nogueira é uma poeta cosmopolita. Ao longo das páginas de Desespero Blue, parece querer abarcar o mundo. Declara-se uma viajante imemorial, uma outra dentro de si mesma que assistiu à fundação de Veneza; outra que é a mesma de quem meu corpo adormeceu na ilha de Samos.

O que ela nos apresenta não é, portanto, um relato, mera descrição de paisagens, lugares e experiências. Há vários mundos que se cruzam em seus poemas. Aquele - físico, imediato, fenomênico - dos lugares onde esteve ou tem estado; outro, da subjetividade, dos sentimentos e emoções; e outro ainda, do simbólico, da palavra, especialmente em sua manifestação mais elevada, como palavra poética.

Pode-se dizer que Lucila Nogueira viaja pelo mundo da literatura do mesmo modo como viaja pelo mundo geográfico. Assim como, em um dos poemas, enxerga os deuses de pele verde e olhos oblíquos da arquitetura de Gaudí, em outros apresenta-se como avatar, porta-voz de autores, na série Desdizeres. Nela, diz o que Artaud disse, ou teria dito: entre outras coisas, que o fogo chegou antes da obra/ mas a obra irá destruir o fogo. Há mais paráfrases ou pseudo-transcrições: segundo Bukowski, ver o touro vencer o matador/ é o melhor. Também atribui frases a Thoureau, Virgínia (Woolf), Sylvia (Plath), Alfonsina (Storni) e Al Berto, entre outros. Ao fazer essas escolhas, toma o partido dos rebeldes, dos inquietos e inconformados.

Proceder desse modo, reescrevendo outros autores, é uma ousadia, pela inevitável comparação com o original que semelhante procedimento acarreta. Lucila Nogueira é uma escritora que corre riscos, e essa, sem dúvida, é uma de suas qualidades. Além disso, ela nos apresenta, não só nessa série de poemas, mas também no restante do livro, uma metáfora da própria criação poética, como sendo um diálogo apaixonado com a própria literatura.

Chama a atenção, ainda, em Desespero Blue, a disposição gráfica original dos versos de alguns dos poemas, acentuando um ritmo tenso, acelerado. E a condensação, a capacidade de síntese, algumas vezes deixando algo a ser dito, incorporando a entrelinha, a alusão e sugestão, como modos de expressão. Tudo isso muda no poema final do livro, Sentimento Súbito, em tom confessional, extenso, e em verso longo. Mas isso não significa uma queda ou quebra da tensão poética, porém, antes, uma demonstração da pluralidade dos recursos expressivos de Lucila Nogueira, pelo modo como esse poema complementa o que vinha sendo dito nas páginas anteriores.

[Claudio Willer]

 

El Bacalao (Diatribas antinerudianas y otros textos) [org. Leonardo Sanhueza]05 El Bacalao (Diatribas antinerudianas y otros textos) [org. Leonardo Sanhueza]. Ediciones B Chile. Santiago de Chile. 2004.

A quienes creen que Pablo Neruda es el poeta más importante de Chile, a quienes ven en él un elefante que marca, con su patita, el compás de los poetas chilenos, Dios los guarde. Neruda tiene sin duda un lugar de privilegio en la historia cultural chilena y latinoamericana, pero, ya sea por razones literarias, políticas o puramente personales, para muchos es un personaje irritante e aun despreciable. “Gallipavo senil y cogotero”, lo llamó el poeta Pablo de Rokha, su detractor vitalicio. De “gran mal poeta” lo trató Juan Ramón Jiménez. Y Vicente Huidobro sentenció su obra como “la poesía especial para todas las tontas de América”. Huidobro acuñó también el curioso y ladino apodo con que los antinerudianos conocen al autor de Crepusculario: el Bacalao.

Curiosamente, o quizás no tanto, en la miríada de retratos que se han hecho del poeta suele estar ausente ese pez escurridizo, oscuro y abismal que fue Neruda en más de un aspecto. Este reverso de la medalla, menos grato que el del poeta coleccionista y enamorado, resulta imprescindible sin embargo para el conocimiento cabal de uno de los grandes hitos de la poesía latinoamericana.

Este libro recoge textos antinerudianos en dos sentidos: textos contra Neruda propiamente tales, y textos que muestran diversas facetas de ese Antineruda desconocido o históricamente soslayado, muy diferente del vate fotocopiado que vive ahora en Isla Negra.

Son los siguientes los autores de los textos que están en este libro: Vicente Huidobro, Enrique Gómez-Correa, Pablo de Rokha, Eduardo Anguita, Juan Ramón Jiménez, Juan Larrea, Octavio Paz, Guillermo Cabrera Infante, Floriano Martins, Ángel Rama, Emir Rodríguez Monegal, Enrique Lihn, y otros más. La compilación está hecha por Leonardo Sanhueza (1974), poeta, editor y articulista de prensa, que ha publicado los libros Cortejo a la llovizna (1999) y Trés bóvedas (2003). Además, ha realizado como editor un valioso trabajo de difusión de la poesía chilena, en el que sobresale la compilación de la Obra poética de Rosamel del Valle (2000) y diversos libros de poetas jóvenes publicados en su sello Quid Ediciones.

 

Forma & alumbramento. Poética e poesia em Manuel Bandeira, de Ruy Espinheira Filho06 Forma & alumbramento. Poética e poesia em Manuel Bandeira, de Ruy Espinheira Filho. ABL/José Olympio Editora. Rio de Janeiro. 2004.

Forma & alumbramento é livro-irmão de Tumulto de amor e outros tumultos, que o precedeu em 2001. Antes, Mário de Andrade. Agora, Manuel Bandeira. Dois personagens. E como seria de esperar, Ruy Espinheira Filho interpreta a obra de Bandeira com a mesma devoção com que interpretou a obra de Mário. Trata-se de uma conversa de poetas, um diálogo de criadores, evidente desde as epígrafes, onde tudo está dito no trecho de uma carta de Mário a Oneyda Alvarenga: “Poetas e romancistas foram sempre os melhores propulsores de compreensão estética. Muito mais até que os críticos profissionais técnicos de suas artes, porque estes são levados fácil e insensivelmente para o lado didático, em vez de para o lado criador, da crítica.” Aqui, o personagem Mário de Andrade de novo volta à cena imbuído do seu papel de mediador do debate, distribuidor de poesia e crítico dos mais preparados de sua época. É natural, pois as discussões técnicas também ocupam os poetas. E são elas, as discussões técnicas, a substância e o tempero deste livro.

Bandeira confessa no Itinerário de Pasárgada que, estudioso que era - e admirador, é bom que se diga - de Alberto de Oliveira, Bilac, Raimundo Correia e Vicente de Carvalho, o verso livre seria para ele uma conquista difícil. De maneira que só aos poucos pôde sentir-se totalmente liberto da tirania métrica. Mais que isso: seduzido pelo que chamou de “conceito musical do verso”, sabia como ninguém que mesmo as formas fixas podem ser fluidas e dinâmicas, e isto em parte explica por que o artífice métrico nele permaneceu intacto frente à aparente liberdade das formas polimétricas. Estas e outras considerações encontram-se no Itinerário, uma das fontes primordiais deste estudo que confirma Ruy Espinheira Filho ao lado dos nossos melhores intérpretes do Modernismo. Sem esquecer que, em Ruy, é o poeta quem orienta o crítico: “A ‘experiência’ é muito menos uma vivência, uma experimentação do fatual, do que uma percepção nascida da sensibilidade.” Lição válida não apenas para a arte, mas, claro está, para a vida.

Ainda como no livro de 2001, também a obra de Bandeira nos sugere uma visão panorâmica da poesia brasileira do século 20. Na medida em que exalta a coerência e a beleza dessa obra, Ruy denuncia um sistema literário erguido muitas vezes sobre os alicerces das omissões e dos embustes - uma abordagem que ultrapassa as fronteiras deste ensaio e que no entanto o autor tangencia admiravelmente. Apoiado por esse verdadeiro manancial que é a correspondência Mário/Bandeira e por todo um aparato crítico que, nos últimos decênios, veio comprovar e consagrar muito do que esses dois grandes artistas disseram e fizeram, Ruy aos poucos coloca cada coisa em seu lugar.

Um livro escrito com convicção, honestidade e envolvimento de alma. Um livro no qual os poetas conversam.

[André Sefrin]

 

Ianelli [org. Kátia Ianelli]07 Ianelli [org. Kátia Ianelli]. Via Impressa Edições de Arte. São Paulo. 2004.

Vida e obra do artista plástico Arcangelo Ianelli são contempladas em sua essência com a edição deste livro. Com coordenação editorial de Katia Ianelli, a publicação é editada pela Via Impressa e reúne textos de Eduardo da Rocha Virmond, José Roberto Teixeira Leite, Juan Acha, Mariana Ianelli e Paulo Mendes de Almeida, além de vasto material iconográfico. Um registro definitivo para o artista que considera sua atividade "uma profissão de fé".

Foram dois anos e meio divididos entre pesquisa e concepção, até que o livro estivesse pronto. Este período inclui um hiato de seis meses, durante o qual o artista enfrentou um problema de saúde, ocorrido no final de 2002. Isso não o impediu de retomar o trabalho logo aos primeiros sinais de recuperação, participando ativamente de todo o projeto, desde a diagramação até a
escolha de textos e fotos - ao lado da esposa, Dirce, e dos filhos, Katia e Rubens Ianelli, em seu ateliê.

"Por todas as circunstâncias, concluir este trabalho é cumprir um compromisso com o próprio Ianelli, que tem a felicidade de poder presenciar este momento especial de sua trajetória", resume Katia Ianelli. Obedecendo a cronologia e encampando o caráter didático que sempre permeou a obra do artista, o livro mescla suas memórias - colhidas em sessões de entrevistas
pela neta, a escritora e poeta Mariana Ianelli - e um amplo panorama de sua produção artística, que ocupa treze dos quinze capítulos. As imagens foram submetidas a um cuidadoso tratamento digital para reproduzir os originais com a máxima fidelidade.

Esta abrangência é comentada pelo curador e artista plástico Emanoel Araújo no prefácio - que também traz considerações de Fábio Magalhães. Ele ressalta a falta de visões gerais sobre o legado de importantes artistas plásticos brasileiros. "Diante dessa forma generosa de produção ianelliana, podemos refletir os muitos anos de consciência e trabalho. São de fato
grandes momentos de seu gesto criador, da sua arquitetura de idéias e mais uma vez a revelação eloqüente de seu talento, por muitas décadas consolidado", afirma.

"Primeiros tempos" traz o registro de suas obras na Escola de Belas Artes, com o rigor absoluto das sessões com modelos vivos. Na seqüência, "Figurativo" reproduz uma série de obras nunca expostas ou vendidas, criadas nas décadas de 40 e 50, que inclusive serão utilizadas numa mostra prevista para o segundo semestre deste ano, em São Paulo.

As mudanças de fases - processos sempre conduzidos de maneira gradual por Ianelli - são pontuadas no livro por análises aprofundadas dos críticos, muitas delas escritas especialmente para o projeto.

Neste contexto, Paulo Mendes de Almeida recorda o momento em que Ianelli abandona os salões oficiais para "recriar as formas visíveis da natureza em valores eminentemente plásticos", na transição do figurativo ao abstrato; José Roberto Teixeira Leite define a chegada dos anos 60 como um momento em que "sua pintura já não representa, significa em si mesma"; e Juan Acha, crítico de arte mexicano, identifica a obstinação de Ianelli em "conservar a superfície tradicional da tela, ansioso por enfocá-la e solucioná-la com um espírito atualizado e conhecedor da realidade artística de nosso tempo", quando ele opta pelo mais específico da pintura, já nos anos 80: a cor.

Registros da fase geométrica e da fase atual, as mais extensas de sua trajetória artística, relevos em madeira, esculturas e da série realizada no Chile, "Corpos Pintados" - alguns deles inéditos - completam o passeio pelas seis décadas da arte de Ianelli.

 

Joaquim Cardozo: contemporâneo do futuro, de Maria da Paz Ribeiro Dantas08 Joaquim Cardozo: contemporâneo do futuro, de Maria da Paz Ribeiro Dantas. En Sol Editora. Recife. 2003.

Este livro de Maria da Paz Ribeiro Dantas, que tenho a satisfação de apresentar, é uma obra de movimento em movimento, de envolvimento e revolvimento de uma poeta paraibana-recifense que tem dedicado mais de vinte anos de sua vida ao estudo da obra de Joaquim Cardozo. Sua chegada coincide com um momento muito importante da história do nosso país, em que se vislumbram alternativas de futuro-do-passado, assinalado por esperanças e incertezas. Coincide também com um tempo em que se ampliam os estudos sobre o dramaturgo que compôs De uma noite de festa (não mais totalmente apagado da nossa história cultural), e que tem em Maria da Paz, ao falar do Trivium, a desbravadora de uma verdadeira mata virgem da poesia brasileira, para não dizer universal, representada por “Visão do Último Trem Subindo ao Céu”.

Joaquim Cardozo contemporâneo do futuro analisa a poesia do autor de Mundos paralelos, o homem marcado pelo local de sua cultura, sua singularidade universal, sua pluralidade e multiplicidade. Forma, espaço, tempo, arquitetura, engenharia, movimento, ação, memória, mito, geografia, cosmos, física, matemática, solidariedade, finitude e infinitude são balizas que constroem o roteiro deste livro.

Na primeira parte da obra, Maria da Paz desvela um rizomático entrelaçamento da vida e da obra do poeta, retomando e ampliando seu ensaio biográfico sobre Cardozo, Prêmio Jordão Emerenciano na categoria Ensaios, dos Prêmios Literários Cidade do Recife, versão de 1984, que veio a ser publicado em 1985. Neste Contemporâneo do futuro, Da Paz, com argúcia e sensibilidade poética, esmiúça as marcas do imaginário do poeta-engenheiro, sua vida e sua relação criativa com o ser humano e a natureza, além de absorver fragmentos de Água de chincho, coletânea inédita de contos autobiográficos, que ela considera como uma das melhores fontes de informação sobre a vida de Joaquim Cardozo.

Como observa a autora, no poeta de Signo estrelado “as palavras não são apenas palavras; são rastros de fenômenos […]”. Creio que essa seja uma das chaves para se abrirem as portas da compreensão das obras aqui analisadas. Uma linguagem que se edifica de rastros em movimento e ação; linguagem de restos do homem e da natureza; fragmentos da história, da cultura e da sociedade tomados a partir de um olhar multivário e semovente, voltado para narrar e produzir sentidos. Cardozo não apenas olha e vê com seu aparato de representação poética, mas empreende uma visada de sujeito fraturado, segundo o conceito de Luiz Costa Lima, reordenando suas imagens estilhaçadas da história, em fusões, superposições, tensões, inversões e transmutações. Sua forma é energia. Energia compartilhada e agenciada por uma poesia que se expande para além das estrelas, partindo do local de sua cultura e de sua posição de sujeito que ali se desloca.

Cardozo possui uma visada de mundo como revolução permanente, um processo mutacional que reintegra o tempo, o espaço, o movimento a uma microfísica e a uma macrofísica do fenômeno artístico contemporâneo. Essa visada é averiguada com muita justeza por Maria da Paz, logo no início da segunda parte do seu livro. A autora compreende que o esforço cardoziano de produzir poesia como quem dissemina estrelas altera substancialmente suas concepções de tempo e espaço. E acrescento: tempo e espaço sociocultural, que vão se tornando mais e mais significantes a partir de “Arquitetura Nascente & Permanente”, processando mundos paralelos, de fronteiras arbitrárias, até alcançar o interior da matéria.

O trabalho de Maria da Paz possui muitas colinas de excelência, porém a mais alta e profunda é aquela em que ela analisa o poema “Visão do último trem subindo ao céu”, segunda composição da trilogia denominada Trivium, escrita entre 1952 e 1970. Sua investigação, nesta parte do trabalho, parece-me ser um daqueles frutos que necessitam de uma vida para amadurecer. A autora, madura, demonstra seu grande esforço de aproximação com a obra e a vida de Cardozo. Esforço da poeta que caminha ao encontro da ciência, da sabedoria, do autor. Investimento epistemológico e humano para compreender e assimilar a física contemporânea se fazendo poesia, buscando romper barreiras e desfazer equívocos entre arte e ciência. Essa penetração no mais complexo poema de Cardozo iniciou-se nos anos 1980, quando Maria da Paz publicou o resultado de sua pesquisa acadêmica intitulada O mito e a ciência na poesia de Joaquim Cardozo; uma leitura barthesiana, em convênio firmado entre a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco e a José Olympio Editora, em 1985.

Entrando no extremo do aqui e do agora, a autora tem a nítida e inequívoca interpretação de como Cardozo concebe e representa a morte-vida, presente não apenas no poema “eletromagnético” que se encontra em Trivium, mas em toda a sua obra, notadamente a obra dramatúrgica. Maria da Paz nos diz que o “tratamento dado ao tema morte desbrava um espaço que talvez nunca tenha sido visitado pela poesia. Com a imaginação auxiliada pela matemática, o poeta de ‘Visão do último trem subindo ao céu’ entra nesses espaços inconcebíveis, ‘curvados’ à imaginação humana”. Eu diria mais: Cardozo desafia nossa imaginação de atualizadores de sua obra mediante o efeito provocado por sua forma de representar o irrepresentável, de configurar o indizível. Sinto falta, no entanto, de uma pertinente analogia entre as proposições poéticas de Cardozo, captadas da lógica e da física quântica, e o processo sociocultural. Analogia entre posição social do sujeito e situação pontual de um dado observador de eventos físicos, que desconstrói um presente contínuo universal. Sei também que essa ausência sentida extrapola os limites que a autora estabeleceu para a sua análise, de cunho mais imanentista. Este trabalho, brilhante e honesto, mergulho exaustivo no interno da poesia cardoziana, é um precioso presente ao leitor, que encontrará elementos para fruir essa poesia, aqui escolhida, e refletir sobre o Cardozo que ultrapassa gestos-palavras, em direção ao futuro-do-presente-mutante. Lá onde se encontram novos cardozos, outros espaços-tempos desconhecidos do universo, do corpo e da alma humana em expansão.

[João Denys Araújo Leite]

 

Las encantadas, de Daniel Samoilovich09 Las encantadas, de Daniel Samoilovich. Tusquets Editores. Barcelona. 2003.

En poesía existe la inspiración y existe la reflexión. Son los dos momentos de la concepción del poema: el don y el proyecto. El primero es automático, involuntario, pertenece al oído y quizás al dictado de alguna deidad tutelar que quiere comunicarse con el mundo sublunar; el segundo está en el ámbito de la inteligencia, del trabajo formal. Durante buena parte del siglo XX el proyecto quedó acorralado o anulado para que el don pudiera encarnarse en todo su esplendor, para que el poeta fuera un médium de un discurso que la inteligencia no debía ni podía controlar: un discurso divino, de origen celestial o inconsciente. Veta neorromántica agotada desde hace tiempo, aunque abunden todavía los esforzados de la mera inspiración. Pero aparecen los poetas dotados que nos muestran cómo el poema, para recuperar su entidad estética, necesita del proyecto, de la reflexión: Samoilovich es uno de ellos. Desde hace tiempo abandonó la publicación de libros como recopilación de piezas sueltas y casuales para dedicarse al trabajo del poema como género único, abarcador, completo. El poema no es para él un dictado de la musa: es la mesa de negociación en que la musa insiste y claudica. Creó así algunos de los libros más importantes de nuestra poesía en los últimos tiempos: El carrito de Eneas (Buenos Aires, 2003); El despertar de Samoilo (se publicará el año que viene), Las encantadas.

Las encantadas es una visión fragmentaria, paródica, sesgada y tragicómica del viaje de Darwin a las Galápagos, donde tuvo la primera iluminación de su teoría de la evolución de la especie. Visión opaca y sesgada porque sobre el viaje de Darwin se imprime el viaje de Melville, quien llamó Encantadas a la Galápagos, y sobre él el viaje del propio poeta o de su personaje poético desde Quito después de una noche en un casino, y el viaje de los dos Ulises (el de Homero y el de Joyce; recordemos que El despertar de Samoilo, libro gemelo de Las encantadas, surgió de un malentendido acerca del “argumento” de Fginnegan’s Wake) y el de Eneas (el del carrito y sus transmutaciones porteñas) y quizás también el de Colón, puesto que se trata de América, de la lectura del Nuevo Mundo con los ojos del Viejo y de la fractura en la lengua misma para insinuar esa voz que no puede ser única y se troquela en un poliedro. Balbuceo, anacoluto, caligrama, voces resacosas que dicen que parece lo que no parece, iguanas que confunden las botas amarillas con flores de retama, ruletas en las que parece que se gana y al final se pierde, piezas sueltas que se imantan en el giro de una narración oscura y sin embargo cerrada en su espiral (Nabokov: “la espiral es un círculo espiritualizado”). En la recuperación del poema como totalidad, como encuentro del don y la reflexión, del oído y el proyecto, Samoilovich dibuja una tradición que pasa por Milton y por Byron, por Juan de Mairena (para quien “para ver del derecho hay que haber visto antes del revés. O viceversa”) y por Girondo (para quien “paso a pozo nadiando ante harto vagos piensos de finales compuertas que anegan la esperanza”). Por el Neruda menos obvio del Canto general y quizás por otro viaje, el que hizo el Altazor de Huidobro en paracaídas. Viajes americanos en sentido horizontal o vertical, terrestres o celestiales, que se plasman en proyecto poético, en obra cerrada. Enrique Lihn escribió que Neruda fue “mal leído por sus manipuladores y admiradores acríticos, entre los cuales se contó el propio Neruda”. Uno de los muchos aspectos interesantes de Las Encantadas es que redescubre a Neruda e inaugura una manera distinta de leerlo; del mismo modo en que vuelve sobre los juegos más audaces de Girondo, los calembours masmedulares, y los incorpora como un elemento más, como el sostenido de una nota, no como elemento excluyente, clave, como suelen hacer los epígonos menos dotados de los maestros vanguardistas.

Pero además subrayaría que, por la época en que escribe Las Encantadas, Samoilovich traduce, junto a otra gran poeta, Mirta Rosenberg, Enrique IV primera parte de Shakespeare, y algo de la voz, de la poderosa y facetada voz de Falstaff, el gordinflón lleno de juramentos y exageraciones que para hacerse pasar por rey usa como trono un banco de taberna, como cetro una daga de plomo y como corona un almohadón sobre la coronilla calva, está también en esta unidad de fragmentos, en estas voces estalladas y recompuestas, en esta carcajada que sacude y reacomoda el edificio de la argumentación y el discurso con varios espesores de sentido. Bloom: “Los más libres de entre los libres son Hamlet y Falstaff, porque son las más inteligentes de las personas de Shakespeare”.

Con Las encantadas Samoilovich, más que agotar una vía propia, abre un espacio poético. La rareza de nuestro presente consiste en que, agotado estéticamente el siglo XX bastante antes de su final cronológico, no podemos cerrar el broche del siglo XX: el visible carácter epigonal de todo cuanto llega a nuestras manos así lo muestra. Como algunos poetas argentinos más jóvenes que él (y ésta es una de las virtudes de Samoilovich, constante al menos desde la fundación del Diario de Poesía en 1986: no sólo saberse y pronunciarse deudor de sus mayores, cosa fácil, sino haber desarrollado una gran capacidad de sincronía e intercambio con los más jóvenes, cosa bastante más complicada), pienso en García Helder, en Martín Gambarotta o en Sergio Raimondi, Samoilovich parece haber decidido que, en tanto no esté en nuestras manos echar por la borda las estéticas ya conocidas, nuestro deber es llevarlas hasta su grado máximo de posibilidad, hasta su esfera más alta de enrarecimiento, allí donde sus potencialidades se vuelven contradicciones y donde sus instrumentos expresivos hacen parodia de sí mismo: es decir, donde el poema es proyecto cuyo espacio se prolonga más allá de su propia vibración, como la cuerda del arco. Las Encantadas oscila en esa frecuencia y por eso leerlo y escucharlo aparece no sólo como ocasión de disfrute sino casi como deber en la senda de la sensibilidad poética que vendrá.

[Edgardo Dobry]

 

O Amante Brasileiro, por Betty Milan10 O Amante Brasileiro, por Betty Milan. Editora Girafa. São Paulo. 2003.

Romances epistolares são uma modalidade anacrônica por excelência. Estão associados às origens da narrativa moderna em prosa, gerando pelo menos um grande clássico, uma obra que permaneceu, Ligações Perigosas, de Laclos. Isso, quanto às cartas fictícias, não aquelas escritas pelo autor, mas atribuídas aos personagens desse autor.

Narrativas epistolares clássicas adotavam essa forma porque era assim que as pessoas se comunicavam, em um tempo em que não havia telefone, nenhum outro meio eletrônico, e a palavra escrita era algo mais importante, muito mais levado a sério. Hoje, a carta é exceção, um signo do distanciamento, da dificuldade de comunicar-se diretamente. E, entre a carta e o e-mail, há uma diferença fundamental: este é meio de comunicação rápido, econômico, breve. Nas cartas, seus remetentes se expandiam: eram às vezes confessionais, outras ensaísticos. Daí cartas de verdade, as não-ficcionais, terem um valor autônomo, atestado pela permanência das centenas de páginas do volume da correspondência entre Goethe e Eckermann, pelas obrigatórias cartas de Rimbaud, esclarecendo sua poética, ou pelas Cartas do Yage de Burroughs e Ginsberg, narrativa de suas viagens alucinadas e alucinógenas.

Mas Betty Milan, nesta sua mais recente narrativa em prosa, mostra sua contemporaneidade. Expõe o modo como a epístola retoma lugar em nossas vidas, agora sob forma de e-mail, e não mais de carta pelo correio ou através de um portador.

Ao longo das páginas de O Amante Brasileiro, o fio do enredo é sustentado pela escrita mínima da correspondência eletrônica. Seu requisito de síntese e condensação adapta-se ao estilo dessa narradora. E não a impede de passar em revista o amor, ao longo da história da humanidade.

Há uma tensão nas entrelinhas dos e-mails trocados entre Clara e Sébastien, mais que um drama explícito. A questão, o aparente conflito central da narrativa, aparentemente, é apenas quando irão finalmente encontrar-se fisicamente, libertar-se das mediações. Acabam, ao final, conseguindo transpor a distância entre continentes. Mas o interesse não está apenas nesse fio do enredo, nem em alguns enredos paralelos, porém na reflexão sobre a relação a dois. Betty indica o sentido dessa reflexão, ao mencionar Octavio Paz e seu A Dupla Chama, obra que, na esteira do surrealismo, reafirma a relação amorosa, na continuidade do amor cortês, como desafio à odem estabelecida.

O Amante Brasileiro é repleto de alusões. Parece sugerir que sempre há algo entre, alguma mediação a interpor-se. Fronteiras vão sendo superadas; mas comunicar-se não é questão apenas de cliques através do computador: lutamos contra uma agenda que determina onde poderemos estar; mesmo hoje em dia, quando, cada vez mais, tornamo-nos cidadãos do mundo. O amor não perdeu a natureza problemática, e O Amante Brasileiro poderia ser lido como metáfora. Clara e Sébastien não são Werther e Carlota, ou quaisquer outros arquétipo do amor impossível. Mas, ao mesmo tempo, o são. Isso é sugerido pelo restante da rede de comunicações de Clara: seus e-mails não são apenas com Sébastien, porém com aquelas pessoas que a consultam, e expõe, por sua vez, seus relacionamentos (em um enredo calcado, aparentemente, na experiência da própria Betty ao conduzir um chat, sessões de conversa pela net, sobre esses temas). E nessas histórias paralelas há assimetrias, buscas do impossível, experiências abissais, trajetórias que não chegarão a bom termo, renúncias e abdicações.

O Amante Brasileiro é uma narrativa autônoma, com interesse próprio; e, ao mesmo tempo, mais um capítulo dentre do conjunto da obra de Betty Milan, autora que, a cada novo título, vai expondo angulações e possibilidades do relacionamento, do diálogo, inclusive amoroso, entre os seres humanos. Talvez responda a algumas das questões suscitadas no ensaio O que é o Amor. Mas também pode ser lida em confronto com as crônicas de seu Paris não acaba nunca. Betty é a autora que, distante, residindo parte do ano em Paris, sente-se mais brasileira. Se, em Paris não acaba nunca, expressava seu amor por essa cidade, aqui temos sua recíproca, a história do francês que, amando uma brasileira, torna-se o amante brasileiro. Esse é o principal sentido das metáforas de O Amante Brasileiro: vê o amor, não apenas como união de pessoas, superação de distâncias físicas, existenciais, psicológicas, mas como reunião de culturas, na qual a unidade coexiste, em uma síntese, com o sincretismo.

[Claudio Willer]

 

Paixão por São Paulo, antologia poética paulistana [ org. Luiz Roberto Guedes]11 Paixão por São Paulo, antologia poética paulistana [ org. Luiz Roberto Guedes]. Editora Terceiro Nome. São Paulo. 2004.

Não faltaram publicações de interesse para comemorar os 450 anos de São Paulo. Entre delas, destaca-se esta antologia preparada pelo também poeta Luiz Roberto Guedes. Reúne, nas 182 páginas de uma edição graficamente atraente, sugestiva e bem acabada, algumas dezenas de autores que escreveram sobre a metrópole desde 1911, com Afonso Schmit, até hoje. Abrange, portanto, modernistas e contemporâneos. E seu recorte cronológico dá a impressão de que São Paulo é um fenômeno do século XX, ao menos como tema de poesias. E, por mais que tenha mudado, que a cidade continua a mesma, pois, em 1942, Afrânio Zuccolotto já proclamava: Meu irmão, esta cidade/ Está crescendo demais. Mal sabia ele… A metrópole aparentemente alucinada desse e de outros poetas da primeira metade do século XX ainda era um burgo aprazível, se comparada ao que viria depois.

Ao longo das nove décadas cobertas pela seleção, o que se mantém, o que permanece o mesmo, é a própria mudança, o fato de a cidade não ser a mesma. Por isso, a diversidade dos poemas, a multiplicidade de estilos, das soluções formais e das poéticas subjacentes, com seus contrastes e antagonismos, talvez retrate melhor a realidade paulista do que este ou aquele poema, tomado isoladamente. Talvez a dinâmica, esse atributo da modernidade, conforme já havia antecipado Baudelaire, seja aquilo que mais atraiu e inspirou os poetas, desde Mário de Andrade (no modo mais obsessivo e recorrente) até Joca Reiners Terron e Sérgio Cohn.

Mas não é apenas a diversidade de estilos e poéticas que chama a atenção. Também não há unidade temática, e esta é uma das qualidades dessa antologia. Inteligentemente, Luiz Roberto Guedes fugiu à subordinação ao tema. Nem todos os poemas “falam” de São Paulo, no sentido de se referirem expressamente ou de procurarem descrevê-la. Assim, Luxo/Lixo de Augusto de Campos passa a ser sobre São Paulo no contexto desta antologia, por haver sido incluído nela. Igualmente, meu amor fuma luís-quinze, de Rubens Rodrigues Torres Filho, poderia ser (ou estar, ou acontecer) em qualquer lugar do planeta; torna-se paulistano pela inclusão. Proceder desse modo, desatrelando o poema da descrição, da referência externa, enriquece a compreensão das relações entre poesia e realidade.

Há diversidade, também, na relação dos poetas com a cidade, desde a paixão e fascinação até o horror. Exaltada por Sérgio Milliet e Paulo Bomfim, entre outros, é um luxuoso lixo para Augusto de Campos, e objeto de relação ambivalente em Sérgio Cohn: Amar esta cidade é um ato de necrofilia.

Os textos de Paixão por São Paulo se distribuem ao longo de dois eixos: um deles, o da diacronia, da história, da temporalidade; o outro, da sincronia, da contemporaneidade, das visões de São Paulo hoje. Por sua condição de poeta contemporâneo, diretamente ligado à vida literária de São Paulo, é compreensível que Luiz Roberto Guedes tenha dado especial atenção a este segundo eixo, através de um critério de inclusão abrangente e até generoso, que possibilita a presença de bastante gente nova, ou que ainda não consta entre os antológicos obrigatórios. Possivelmente, tenha procurado traduzir, através dessas escolhas, sua própria visão de São Paulo.

No eixo da contemporaneidade, destaca-se a participação de Roberto Piva. Isso, não só por ter-lhe sido dado um número maior de páginas, mas por comparecer, por sua vez, como tema ou alusão direta no vigoroso Cine Piva de Joca Reiners Terron, na dedicatória de Paulistana, de Rodrigo Garcia Lopes, e na menção em A Cidade e os Livros de Carlos Vogt; e, sem dúvida, como intertexto em outros dos autores presentes em Paixão por São Paulo. É como se Guedes o propusesse como poeta emblemático da cidade.

Antologias têm, em primeira instância, função documental. Paixão por São Paulo vai além, pois, além de oferecer oportunidades de fruição, sugere discussões, releituras da poesia e da própria cidade.

 

T. S. Eliot e Fernando Pessoa: Diálogos de New Haven, de Ricardo Daunt12 T. S. Eliot e Fernando Pessoa: Diálogos de New Haven, de Ricardo Daunt. Landy Editorial. São Paulo. 2004.

Fernando Pessoa e T. S. Eliot se desconheciam. Não se encontraram em vida. Menos ainda, em New Haven. Quem esteve lá foi o narrador, crítico e estudioso de literatura Ricardo Daunt. Nessa localidade, desenvolveu um estudo comparativo, demonstrando haver diálogo, não entre os personagens históricos Pessoa e Eliot, porém entre seus textos.

Literatura comparada é o campo onde a crítica, entendida como estudo universitário de literatura, respira. Promove sua desburocratização, ao libertá-la do jugo deste ou daquele paradigma. Trabalhando diretamente com o texto, busca, não apenas relações lineares de influência, porém aquelas mais complexas de intertextualidade e, ainda, as sincronias, diálogos implícitos, entre autores que, em alguns casos, sequer chegaram a ter a oportunidade de ler um ao outro.

Assim procede Ricardo Daunt - de quem também acaba de ser publicada a narrativa Anacrusa, pela Nankin Editorial - ao confrontar dois vultos maiores da literatura no século XX. Examina, não apenas o que têm em comum, porém diferenças que correspondem, por sua vez, a relações de complementaridade.

No plano das diferenças e da complementaridade, o modo como ambos organizaram sua obra, deixando-nos, no caso de Pessoa, um caos, uma profusão de anotações e textos esparsos, em um desafio a compiladores e organizadores, conforme bem registra e comenta Daunt; e, no caso de Eliot, um corpus perfeitamente organizado. Complementares também foram suas vidas, e a recepção de suas obras: na década de 1930, Eliot já era um poeta reconhecido e um crítico respeitado, ganhando aos poucos a reputação de mestre; e Fernando Pessoa ainda era o autor de textos em revistas literárias, reconhecido por não muito mais gente que os integrantes de Presença e os remanescentes de Orfeu.

Diferenças entre esses dois vultos maiores tornam mais importante ainda o exame das afinidades: cada um a seu modo, herdaram a ironia simbolista, especialmente de Laforgue, e se identificaram com os metafísicos, de Donne em diante. O modo como viram a questão, central em poesia, da relação de razão e emoção, estaria ligado, mostra Daunt, a seu vínculo com a vertente metafísica.

Há continuidade de T. S. Eliot e Fernando Pessoa: Diálogos de New Haven com relação a O Castelo de Axel de Edmund Wilson, onde, de modo precursor, foi estabelecida a conexão entre os simbolistas Laforgue e Corbière, e os modernizadores anglo-americanos Pound e Eliot. Cotejando O Castelo de Axel e T. S. Eliot e Fernando Pessoa: Diálogos de New Haven, vê-se que Daunt prossegue e completa a contribuição de Wilson ao introduzir Pessoa, dando-nos uma versão mais completa da gênese dos modernismos e vanguardas do século XX.

T. S. Eliot e Fernando Pessoa: Diálogos de New Haven também serviria como argumento adicional para reforçar as afirmações de Octavio Paz (em Os Filhos do Barro e em seu ensaio sobre tradução, Traducción: Literatura y Literalidad) sobre o caráter transnacional e translinguístico das literaturas: …mais correto seria considerar a literatura do Ocidente como todo unitário, no qual os personagens centrais não são tradições nacionais - a poesia inglesa, a francesa, a portuguesa, a alemã - senão os estilos e as tendências. Nenhuma tendência e nenhum estilo têm sido nacionais, nem sequer o chamado “nacionalismo artístico”. Todos os estilos foram translingüísticos: Donne está mais próximo de Quevedo do que de Wordsworth; entre Gôngora e Marino há uma evidente afinidade, enquanto nada, salvo a língua, une a Gôngora e ao Arcipreste de Hita que, por sua vez, faz pensar por momentos em Chaucer. Os estilos são coletivos e passam de uma língua a outra; as obras, todas enraizadas em seu solo verbal, são únicas.

A citação acima é de Traducción: Literatura y Literalidad, onde, justamente, Paz examina a influência de Laforgue, de um modo em Eliot, de outro em modernistas hispano-americanos, resultando em poemas distintos, imitando o simbolista francês e oferecendo, ao mesmo tempo, versões originais. São Lunario Sentimental de Leopoldo Lugones e Zozobra de López Velarde, de um lado, e Prufrock and other observations de Eliot, de outro: Em Boston, recém-saído de Harvard, um Laforgue protestante; em Zacatecas, escapado de um seminário, um Laforgue católico, diz Octavio Paz.

O modo como Octavio Paz examinou essas conexões não retira a originalidade do ensaio de Daunt. Ao contrário, serve para acentuá-la, mostrando que enfrentou um desafio, ao apresentar um acréscimo importante à compreensão de como se constituiu a grande poesia do século XX.

A originalidade de T. S. Eliot e Fernando Pessoa: Diálogos de New Haven não reside apenas na comparação efetuada, mas no estilo. Sem abandonar, em momento algum, o rigor acadêmico, a boa fundamentação de seus argumentos, seu autor escreve como se conversasse com alguém. Os diálogos do título da obra não se referem apenas às relações entre Pessoa e Eliot, mas ao modo como procura relacionar-se com seu próprio leitor.

 

[Claudio Willer]

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