Francisco Quintanar Francisco Quintanar

 

revista de cultura # 40 - fortaleza, são paulo - agosto de 2004

Francisco Quintanar

Editorial

Velhos tempos

Em um artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, a 3 de junho, intitulado Conversa Fiada, o arquiteto Oscar Niemeyer tratou, com a autoridade conferida por seus 96 anos de idade, dos “velhos tempos”. Reafirmou sua convicção na necessidade de “melhorar o ser humano”, motivo de sua militância política. Lembrou que “o partido era para muitos coisa sagrada, uma religião e sua crença”. Prosseguiu, lembrando os velhos militantes: “Hoje continuo a admirá-los, convicto, como eles, de que a proposta de Marx e Engels é legítima e apaixonante”. Um erro, para Niemeyer, teria sido a “falta de modéstia”, representado por Kruschev: “Ele, que, ambicioso, voltado para o poder, elaborou o lamentável relatório contra Stálin”. O nostálgico modernizador da arquitetura brasileira associou engajamento, luta por tempos melhores, à submissão: “Até na luta política a modéstia seria eficaz, evitando erros como esse. E, mais ainda, na sociedade sem classes adotada, aceitando-se as limitações que o novo regime – igual para todos – vai estabelecer”.

No final do mesmo mês de junho de 2004, morreu Leonel Brizola, último grande líder do trabalhismo brasileiro, dirigente de um partido socialista, crítico à esquerda do governo Lula. No Jornal Nacional da TV Globo, declarações de um militante em lágrimas: “Para nós, Brizola foi um pai! Um verdadeiro pai…!” No dia seguinte, durante o cortejo fúnebre em São Borja, a mesma TV registra outra declaração de um adepto, também em lágrimas, também envolto na bandeira do PDT, lenço vermelho no pescoço: “Fui um soldado!”

Mas como!? Religião? Coisa sagrada? Um pai? Soldado? A transformação da sociedade não visava a emancipação, e a conseqüente superação de todas essas instâncias, símbolos e metáforas da submissão à autoridade? Ou, sob a capa da militância esquerdista, quer seja socialista, como no caso dos brizolistas enlutados, ou comunista ortodoxa, como em Niemeyer, manifesta-se outra coisa?

Declarações como essas são a expressão de um imaginário associado a militâncias que também poderiam justificar-se invocando avanços sociais reais e ações efetivas de governo. Mas seu vocabulário é mais parecido com aquele dos militantes de ultra-direita, os integristas católicos da TFP, alguma outra ressurreição do falangismo.

O ensaísta italiano Roberto Calasso, no brilhante A Literatura e os Deuses (publicado no Brasil em 2004 pela Companhia das Letras), comenta a pseudomorfose entre religioso e social. Consiste no …social que, progressivamente, invadira e anexara vastas plagas do religioso, primeiro sobrepondo-se a ele, depois infiltrando-se numa insana mescla, e por fim englobando-o em si. Daí resulta a teologia social. Esta, diz Calasso, …se desvincula cada vez mais de toda dependência e ostenta a sua peculiaridade, que é tautológica, publicitária.

A Literatura e os Deuses é de 2001. Em 1972, Octavio Paz já dizia algo semelhante, em Los Hijos Del Limo. Em vez de teologia social, usou a expressão catecismos leigos, aqueles que prometem paraísos geométricos para o futuro, ao postularem uma racionalidade e conseqüente previsibilidade do devir histórico. Nesse ensaio – e em um sem-número de ocasiões – Paz insistiu na crítica às …religiões envergonhadas, sem deuses, mas com sacerdotes, livros santos, concílios, beatos, hereges e réprobos. (…) A crítica da religião desalojou o cristianismo, e em seu lugar os homens se apressaram em entronizar uma nova deidade: a política. (…) O tema mítico do tempo original converte-se no tema revolucionário da futura sociedade.

Antes ainda, em 1935, André Breton já havia argumentado que o estalinismo se identificava aos valores mais tradicionais, a começar pela defesa irrestrita da família, da pátria, de um moralismo fechado. Desde então, foram muitas as críticas à esquerda a partir de uma perspectiva anti-autoritária, argumentando que as esquerdas se haviam convertido em substitutos da religião. Mas nunca, antes, a própria militância havia dado razão a essa crítica, de modo tão claro.

Durante um período de uns duzentos anos, a vida política das sociedades e das partes do planeta que, genericamente, correspondem ao Ocidente, foi regida pela polaridade entre esquerda e direita. Isso, desde a época da revolução francesa até – até quando…? Até 1989 e a queda do Muro de Berlin? Até 1991 e o fim da União Soviética? Ou até 2003 e a posse do governo Lula no Brasil…? – enfim, até algum momento, alguma data na passagem do século XX ao XXI. Criticar a esquerda, ou as esquerdas, ficou, ao longo de quase dois séculos, por conta da direita, ou das direitas, em nome da manutenção do establishment, da ordem estabelecida, ou da tradição, do retorno ao passado, defendida pelos integristas e fascistas.

Ninguém, aqui, se identifica à direita ou às direitas históricas. Mas é preciso indagar qual é o sentido dessa polaridade esquerda-direita, no momento em que, do discurso de esquerda, parece não sobrar muito mais que o lamento nostálgico, a evocação de uma pureza perdida nos “velhos tempos” da militância, daqueles tempos que foram bons porque havia disciplina, submissão, abdicação, sacrifício, pais a serem respeitados e cultuados, exércitos onde perfilar-se. Ou então, pior ainda, quando sobra desse discurso apenas a adesão a algum caudilhismo ou fundamentalismo ou qualquer outra modalidade de autoritarismo, desde que se manifeste contra a presente ordem mundial. Há uma valorização às avessas: se, historicamente, a esquerda se mostrou autoritária, então isso significa que o autoritarismo é bom.

A crítica inevitável – aliás, nem se trata de crítica, apenas de constatação: acabou – é em favor de outra coisa, de algo efetivamente novo e transformador. De um novo que talvez seja algo antigo: daquilo que, à margem da política instituída, por vezes subterraneamente, se manifestou, ao longo do período de vigência da sociedade burguesa, como rebelião em defesa de uma visão poética do mundo.

Algo se encerrou. Mas não estamos no fim dos tempos, porém em um tempo que nos desafia a enxergar onde se anunciam novos tempos.

Os editores

Francisco Quintanar

Sumário

1 a claridade marítima da poesia de sophia de mello breyner andresen. fabrício carpinejar
2 annemaria schwarzenbach: o anjo inconsolável. antonio júnior
3 anotaciones sobre lo cómico en
mijaíl bulgákov. sandra mercedes espósito
4 humberto gesinger: antítesis y oxímoron desde la cultura posmoderna. martín palacio gamboa
5 invólucro: o corpo nas instalações de giovana zimermann. mirian de carvalho
6 ismael nery: príncipe do espírito. carlos perktold
7 jorge restrepo: nada sino la luz. carlos lanza
8 josé luis vega: "siempre vi la poesía como un destino" (entrevista). carmen dolores hernández
9 juan antonio calzadilla arreaza: conceptos para una filosofía de bolsillo (entrevista). augusto aristiguieta  
10
la intensidad interior de giorgio morandi. alberto ràfols-casamada
11 narciso de andrade, o poeta dos ventos e das maresias. adelto gonçalves
12 nestor sánchez: cuerpo y escritura. liliana guaragno
13 piazzas de roberto piva: fruição, contemplação e o misticismo do corpo. claudio willer
14 ruínas: a fotografia como fragmento da arquitetura. fernando freitas fuão
15 saint-john perse: o poeta da totalidade. rodrigo petronio

artista convidado francisco quintanar (gravuras) texto de josé ángel leyva
resenhas livros da agulha roberto calasso (por claudio willer), maria esther maciel (por jorge pieiro), raimundo gadelha, lucila nogueira (por claudio willer), leonardo sanhueza, ruy espinheira filho (por andré seffrin), arcangelo ianelli, joaquim cardozo (por joão denys araújo leite), betty milan (por claudio willer), luiz roberto guedes & ricardo daunt  (por claudio willer)
música
discos da agulha paulo gusmão, mona gadelha, humberto araújo, mário montaut, paulo moura, ana lee, henrique cazes, fernando moura & beto cazes
cumplicidade galeria de revistas  

Francisco Quintanar

Expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(uruguai)
carlos véjar
(méxico)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (gravura)
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