![]() |
revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004 |
|
Andrei Tarkovski: através de uma fina película transparente Vicente Franz Cecim
Parece-me que Berkeley percebe a matéria como uma fina
película transparente situada entre o homem e Deus. Henri Bergson [A intuição filosófica]
O Cinema de Andrei Tarkovski é uma dessas obras assim. Nos
excede. E tudo o que dissermos dele ainda será insuficiente. Diferente é a experiência de nos iniciarmos diretamente
em seus filmes. Quando sós, face a face com eles, sempre nos falam com
ampla generosidade, se entregando profundamente, em retribuição ao nosso
silêncio. Respeito e prudência, ao falarmos deles, então se impõem.
Deixar que eles se digam. E, previamente, apenas deles falar por alusões. A alusão aqui eleita é a frase acima de Bergson sobre
Berkeley, que nos remeterá à própria idéia central do pensamento de
Berkeley mais adiante. E assim, passo a passo, quase sem nos darmos conta
disso, teremos dito algo sobre o cinema de Tarkovski. Mas obliquamente: por
reflexos de vozes ecoando em espelhos. A frase de Bergson já nos dá o exemplo: o hesitante parece-me
com que ele a inicia é signo de humildade e aceitação das Incertezas. E,
precisamente por isso, também se aplica ao cinema de Tarkovski. Aqui, a fina
película transparente de que Bergson fala se referindo a Berkeley vem
se fundir à fina película transparente que é um filme: sua película,
sua matéria prima, esse Olho aplicado à epiderme do Real, destinado a
receber as impressões que a vida - Ela, que no dizer de Heráclito: Ama
ocultar-se - se consentir nos doar, nos consentir a graça de ver. Já haveria, num filme qualquer, Mistério em abundância
para esse Olho mecânico, o olho da câmera, registrar, se visse
apenas por si, isolado de toda presença humana. Tamanha é a Presença das
coisas em si mesmas diante de nós, se dizendo a nós: Esse est
percipi/Ser é ser percebido - nos diz Berkeley. E quando o olho humano
vem fazer companhia a esse Olho mecânico, vem humanizá-lo, digamos
assim, no sentido pleno das visões, intuições, carências, indagações,
ilusões, possíveis saberes, esperanças, miragens, que fazem dele um olho
humano, e se isso se dá não mais num filme qualquer, mas num filme de
Tarkovski? Esse est percipere/Ser é perceber - nos diz Berkeley.
Bergson nos diz: Se 'percipi' é passividade pura, o
'percipere' é pura atividade. A fina película então é o elemento intermediador
entre a epiderme do Real, que se entrega a Tarkovski em percipi, se
deixando ser percebida, e lhe permite o ato de percipere, perceber e,
o por ele percebido, nos revelar. Mas, a esta altura, ainda estamos falando da fina película
que é um filme, ou imperceptivelmente já ingressamos no coração obscuro
do nosso assunto: já nos surpreendemos falando da matéria como uma fina
película transparente situada entre o homem e Deus? A ambivalência das palavras, ah: tanto nos naufragam como
nos socorrem. E o que leremos a seguir, ao lermos a palavra doutrina,
seja lido como sinônimo da palavra vida. Pois é implicitamente a ela, como visão de mundo de
Berkeley, que Bergson se refere, quando nos diz: Dela nos aproximaremos
se pudermos atingir a imagem mediadora (…) - uma imagem que é quase matéria,
pois se deixa ainda ver, e quase espírito, pois não se deixa tocar –
fantasma que nos ronda enquanto damos voltas em torno da doutrina e ao qual
é necessário que nos dirijamos para obter o signo decisivo, a indicação
da atitude a tomar e do ponto para onde olhar. É permitido ao homem, através da mediação da
Arte, não somente percipere/perceber mas também dar a perceber aos
outros homens o que, através da fina película transparente,
percebeu? No cinema, em todas as épocas, a alguns isso foi
consentido: Bresson, Ozu, Antonioni, Dreyer, mais recentemente a Alexander Sacha
Sokurov e ao próprio Tarkovski. Diante do Abismo que é o Assombro de existirmos, humanos,
face a face com a espessura e as transparências da Vida que nos habita e na
qual habitamos, sutis como uma sombra, densos como um corpo, devemos ser
gratos a eles, pela vertigem que em nós sempre despertam, pelas quedas para
o alto em que sempre nos precipitam, nos impedindo de adormecer na
desoladora fronteira que inventamos para nossas omissões, no passo que não
damos, entre o Imanente e o Transcendente.
E no livro que escreveu com esse título, e não apenas
através das imagens dos seus filmes, nos fala de uma urgência alarmante: -
O homem moderno não quer fazer nenhum sacrifício, muito embora a
verdadeira afirmação do eu só possa se expressar no sacrifício. Aos
poucos vamos nos esquecendo disso, e, inevitavelmente, perdemos ao mesmo
tempo todo o sentido da nossa vocação humana. Que vocação é essa? A vocação de uma entrega total, de um consentir
permanente que luzes lampejem em nós, nos permitindo ver - mesmo que
por breves clarões, na vida como numa escura sala de projeções, sacrificando
nossas consolações vazias, nossas paixões condenadas a cinzas, nossa
avidez de um agora efêmero – aquela que ama ocultar-se e que, em
seu Pudor, é a Fonte permanente do nosso mais intenso fascínio? Clarões. Ainda que estonteantes, cegantes. Mas de uma cegueira que
nos liberte de continuar vendo através de um cristal escuro e nos
conceda outros olhos capazes de ver através dessa fina película
transparente situada entre o homem e Deus - sabemos o que essa Palavra
significa, em todas as suas metamorfoses. É esse o olhar que reivindicava Berkeley, segundo Bergson. E esse é o olhar que buscou Tarkovski, com seus filmes que
são fendas abertas na espessura da matéria, e que ele, também,
reivindica, quando afirma: - E o que são os momentos de iluminação, se não percepções
instantâneas da verdade?
- A moderna cultura de massas (…) está mutilando as
almas das pessoas, criando barreiras entre o homem e as questões
fundamentais da sua existência, entre o homem e a consciência de si próprio
enquanto ser espiritual. São palavras que devemos manter acesas em nós quando as
luzes se apagarem e os filmes de Tarkovski começarem a cintilar para os
nossos olhos. Nesses Templos de um tempo sem templos em que podem se
transformar as salas de projeções, ante filmes como os de Tarkovski, já não
se trata de simplesmente ver, mas de penetrar profundamente, através da fina
película transparente que o seu cinema nos oferece, até nos revelarmos
a nós mesmos, e orando em silêncio: - Agora, abrir os olhos. Agora, começar a sonhar o sonho
de ver como somos vistos. |
|
Vicente Franz Cecim (Brasil, 1946). Romancista. Autor
de Viagem a Andara, o livro invisível (1988), Silencioso como o
Paraíso após a expulsão das criaturas humanasr (1994) e Ó
Serdespanto (2001). Contato: andara@nautilus.com.br. |