revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004






 

O desejo do silêncio: R. Roldán-Roldán
(entrevista)

João Nunes

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R. Roldán-RoldánR. Roldan-Roldan escreve romances, contos e poemas compulsivamente. Escrever para ele tem o mesmo sentido de viver. Nascido na Europa, passou pela África antes de aportar na América. A Latina, o que significa dizer muita coisa. Seus escritos refletem algumas temáticas recorrentes como a identidade, a solidão e o erotismo, sem deixar de lado o conteúdo social – não por acaso, proclama com todas as letras ser a favor de todas as minorias. Assim como muitos escritores, ele confessa que escreve para dar sentido ao absurdo da vida. Este é o sentido exato de sua escrita e a razão da compulsividade no escrever. Nesta entrevista, Roldan-Roldan fala um pouco de si e sua obra. [JN]

JN - Como é Roldan na intimidade?

RR-R - Escrevo. E subordino tudo à literatura.

JN - Você já disse que a vida se resume a escrever, não disse?

RR-R - Sim. Sou uma pessoa limitada. Sei apenas escrever.

JN - Você é limitado em que sentido?

RR-R - Não sou abrangente. E sou (e não estou) deslocado.

JN - Você fala em dor de viver. O que significa isso?

RR-R - Não ser abrangente. Não poder absorver o universo. Ser limitado. E, sobretudo, ser deslocado, em todos os sentidos. Não se pode viver tudo numa única existência, pois a vida que é muito vasta. E o deslocamento se dá, em parte, porque não se pode viver o absoluto na rotina do dia-a-dia.

JN - Portanto o dia-a-dia é desagradável?

RR-R - É. Na medida em que é impossível estar constantemente no ápice. Ou seja, criando.

JN - Você tem laços profundos com quatro paises: Brasil, Espanha, França e Marrocos. De qual dele você se sente que mais próximo? 

RR-R - Pertenço de um modo ou de outro a todos eles.

JN - E como se sente como cidadão do mundo?

RR-R - Sinto-me, antes de mais nada, escritor.

JN - Escritor brasileiro?

RR-R - Clarice Lispector foi uma escritora brasileira nascida na Ucrânia. Sou um escritor brasileiro nascido na Espanha. Os escritores, sejam brasileiros, chineses, russos, ou americanos, têm algo em comum: são escritores, com a conotação universal que isso implica.

JN - Sua abordagem do sexo choca alguns leitores pela sua crueza. Você não acha que poderia ser mais sutil?

RR-R - Guardo as sutilezas para outros campos. Como, por exemplo, o jogo amoroso, tão rico, complexo, e extenso. Essa batalha delicada e voraz que se estabelece entre duas pessoas que se amam. Pois o amor, como o sexo, também é, no fundo, uma questão de poder. Mas por que deveria usar sutilezas numa penetração vaginal ou anal, numa felação ou numa masturbação? Por que não encarar o sexo com mais naturalidade, com mais espontaneidade? Além do mais, sinto os eufemismos muito próximos da hipocrisia. Por outro lado, a estética do gosto médio é medíocre e, em certos casos, vulgar. Não me interessa em absoluto pasteurizar o gozo. Faço questão de não edulcorar o prazer. 

JN - Você aceita o risco de ser rotulado de pornográfico?

RR-R - A vida é feita de riscos. Viver é muito perigoso, dizia Guimarães Rosa. Quem não arrisca acaba na flacidez da acomodação. E isso é lamentável. Além de vulgar. Eu gosto daqueles que arriscam e ousam. Sexo, para mim, é uma celebração da vida. Como uma boa refeição. Ou como um banho de mar ou de cachoeira. A pornografia é a exploração comercial do sexo pela mídia. Pode ser soft core ou hard core. Aliás, eu diria que, via de regra, o soft é mais pornográfico que o hard. Quanto a rotular, bem, isso não passa de mero reducionismo.

JN - O amor é um tema muito presente em sua obra. O que representa o amor para você?

RR-R - E onde é que o amor não está presente? O amor é tudo. O amor é a antítese da morte. E amar é o mais poderoso antídoto contra a morte. Portanto, é vital. É vida. E nada é mais importante do que a vida.

JN - E a solidão?

RR-R - O ser humano é irremediavelmente só.

JN - E a dor da identidade de Roldan?

RR-R - É a dor de não pertencer a nada. Algo muito pessoal. É um preço a ser pago por um caminho que eu não escolhi.

JN - Você, apesar de cético e às vezes muito sombrio, celebra a vida, e seus romances sempre se fecham com esperança. Você condena o suicídio?

RR-R - Não. Cada um deve ter a liberdade de decidir quando quer partir. Logo, é uma questão de liberdade individual.

JN - E a pena de morte?

RR-R - Sou contra a pena de morte. A sociedade não pode cometer o mesmo ato atroz cometido pelo homicida.

JN - E o aborto?

RR-R - Sou a favor do aborto. Mas com restrições.

JN - Quais?

RR-R - Há mulheres que, por relaxo, fazem cinco ou seis ou sete abortos. Simplesmente por não tomarem cuidado. E isso é brincar com a vida. E não se deve brincar com a vida. Uma mulher estuprada, por exemplo, tem todo o direito de fazer aborto. Ou em qualquer outra circunstância grave ou séria. Mas, por outro lado, quero deixar claro que não sei se teria a mesma opinião a respeito do aborto se eu fosse mulher. Pois é muito fácil julgar algo ou alguém quando se está literalmente fora da situação. O que acabo de dizer é um ponto de vista masculino.

JN - E o homossexualismo?

RR-R - O homossexualismo é uma realidade que existe desde que o homem existe. Inclusive existe entre algumas espécies de animais. Hoje já se sabe que não se trata de doença, nem de formação, nem, como se diz popularmente, de sem-vergonhice. Nasce-se ou não homossexual. Não existe essa tal de opção sexual. A pessoa não opta: é ou não é homossexual. Portanto os homossexuais devem ser respeitados. E, afinal de contas, é também uma questão de liberdade individual. Cada um faz com seu corpo o que bem entende. Um homem que deita com um homem ou uma mulher que deita com uma mulher não está invadindo a liberdade pessoal de ninguém. Sexo entre dois homens ou entre duas mulheres não prejudica ninguém na sociedade.

Carlos M. LuisJN - Mas é algo que ainda incomoda a sociedade.

RR-R - Sim, de fato, ainda incomoda. A sociedade tem pavor de tudo o que foge ao padrão vigente. De tudo o que foge do modelo a ser seguido. Do modelo pré-estabelecido. De tudo o que é diferente. E eis a questão. Ser diferente. Aí entramos em algo muito mais abrangente que o homossexualismo propriamente dito. Durante séculos, em todas as culturas do Planeta, ser diferente foi o equivalente a ser culpado. Ser diferente era um espinho que tinha de ser extirpado da sociedade. Era coisa do demônio. O ser diferente era apontado como um ser marcado para morrer. E assim se cometeram, durante séculos e séculos de intolerância, as maiores atrocidades contra todo tipo de minorias, fossem religiosas, raciais, étnicas ou sexuais. E massacraram índios, negros, judeus, ciganos, armênios, curdos, homossexuais e mulheres que não se submetiam às condições aviltantes impostas pelo patriarcado. Em nome de quê? Do fanatismo com sua cegueira e intolerância. Pobre daquele que acha que sua religião é a melhor. Ou que sua etnia é a melhor. O que seu país é o melhor. Não ultrapassou ainda a Idade da Pedra. 

JN - Você é a favor do casamento entre homossexuais?

RR-R - Por que não? É uma questão de bom senso. O casamento heterossexual é apenas um contrato comercial. Por que não o seria o casamento homossexual? É evidente que um contrato genuinamente capitalista na sua origem, não tem nada a ver com o amor. Pessoalmente acho que duas pessoas que se amam (um homem e uma mulher, duas mulheres, ou dois homens) não têm nenhuma satisfação a dar a ninguém, principalmente à sociedade, assinando hipocritamente um contrato.

JN - O que é ser livre?

RR-R - Ser o que se é. Ter a coragem de respeitar-se, mesmo que isso implique enfrentar a fúria da maioria silenciosa. Ousar viver integralmente as convicções sem restringi-las por motivos escusos, sejam políticos, sociais, ou morais.

JN - Existe influência de Nietzsche em sua obra?

RR-R - O homem superior? Talvez. Mas não direta.

JN - O que é ser superior?

RR-R - Despojar-se de tudo o que é supérfluo para atingir a essência. E ter a coragem de viver na vida prática certos preceitos de elevação espiritual sem subordiná-los a interesses ou convenções sociais. Ser superior tem muito a ver com ser livre.

JN - A busca constante em suas obras tem a ver com essa superioridade e essa liberdade?

RR-R - Sem dúvida. Mas não é só isso. Entra também o absurdo e o desejo obsessivo de compreender o sentido da vida. 

JN - Como você vê a violência?

RR-R - Enquanto houver desigualdade social e miséria, haverá violência. Os privilégios que desfruta a classe dominante no Brasil são absurdos e não condizem com o mundo atual. A Revolução Francesa de 1789 ainda não chegou ao Brasil. É inconcebível que essa classe dominante seja tão burra que não chegue a entender (ou não queira) que tem que ceder algo para conservar a sua posição. É evidente que nos não temos democracia. É evidente que todo brasileiro não é igual perante a lei. As leis sempre foram feitas por determinados grupos para favorecer esses mesmos grupos, no poder. A divisão de riquezas no Brasil não é lógica, não faz sentido. Socialmente o Brasil é um país cruel, o que acaba gerando algo totalmente irracional como a violência. É absolutamente inadmissível que um ser humano não tenha o que comeRR-R - no Brasil ou em qualquer país do mundo – quando há comida para todos no Planeta. Logo, nada, absolutamente nada, nenhuma ideologia, religião ou raciocínio criminoso, justifica que um ser humano passe fome e acabe morrendo de fome. E se eu tivesse filhos pequenos chorando de fome, roubaria com a consciência tranqüila, pois seria, em tal circunstância, um direito natural que me assiste. Em outras palavras: roubar para comer é um ato legal.

JN - E o respeito à propriedade privada?

RR-R - A propriedade privada que se renove e reestruture a sociedade para que não haja fome. E isso não é utópico. Basta querer fazê-lo.

JN - Você fala muito em sua literatura de ética. Como vê a ética hoje em dia? 

Carlos M. LuisRR-R - Aidética. Hoje em dia só existe a ética do dinheiro. Tudo se vende e tudo se compra neste imenso bordel em que se transformou a sociedade consumista neoliberal e todas as suas instituições. O capitalismo selvagem – desculpe o clichê – conseguiu destruir todos os valores éticos do Ocidente e, por extensão, da humanidade. Acabou-se a ética, a lealdade, a honra, a retidão de caráter, os princípios, até a justiça virou uma farsa a serviço dos interesses criados. Tudo, absolutamente tudo, foi submetido ao podeRR-R - logo a degradação – do dinheiro. E embora o grande Quevedo já denunciasse o poder corruptor do dinheiro no século XVII, nunca se chegou ao cinismo que atingimos agora nesse sentido. Portanto, vivemos num mundo de putos e putas que legalizaram a putaria putamente instituída com o puto dinheiro.

JN - E Deus, onde anda?

RR-R - Deve estar em outra galáxia. Ou no limbo. Cansado do gênero humano.

JN - Então não há nada em que se possa acreditar?

RR-R - Por uma questão de princípios temos que continuar a acreditar na conscientização das pessoas. Temos que continuar a acreditar na ação.

JN - Que ação?

RR-R - Manifestar-se. Tomar posição. Tomar partido. Paralisar um país. A desobediência civil. O boicote. Existem inúmeras maneiras de dizer não sem apelar para o terrorismo. O que não podemos é ficar parados como lacaios.

JN - O que você acha do terrorismo?

RR-R - Sou contra a matança de inocentes.

JN - E o 11 de Março em Madrid?

RR-R - O governo de Aznar não tinha por que ter enviado tropas ao Iraque. Está na hora de a União Européia deixar de ser vassala de Bush.

JN - Sua peça As Loucas Gaivotas Morrem na Fronteira é sua obra mais “política”. As tiradas de alguns personagens contra a globalização e o belicismo do governo Bush são particularmente fortes. Como você vê o consumismo e a globalização?

RR-R - O consumismo é um entorpecente. As mentes viciadas ficam embotadas, impedidas de pensar, portanto alienadas. E não só não reclamam, como em sua deplorável letargia, ficam satisfeitas e felizes nessa espécie de anestesia da consciência. Logo, o lema “seja imbecil e consuma” encaixa-se perfeitamente nesta situação. Quanto à globalização, já falei em meus livros e em outras entrevistas. Uma pessoa verdadeiramente honesta não pode admitir a injustiça social da globalização. Eu não posso admitir um sistema que faz a fome aumentar no mundo, que fomenta a corrupção e que degrada os valores humanísticos. E não posso respeitar uma sociedade que é movida apenas pelo lucro. A globalização é imoral. Há algo sórdido em sua lógica mercenária que promove a putificação do ser humano. É um lixo com verniz de falsa liberdade e de prosperidade para uma minoria. Sou humanista e parto do princípio fundamental de que a dignidade humana deve ser preservada. E a miséria degrada a dignidade humana. Isso é um fato. Deveríamos ser mais generosos uns com os outros. Afinal de contas, é um preceito fundamental.

JN - A sua obra está pontuada por música, pinturas e esculturas. Qual é a cor de sua literatura?

RR-R - As cores de Goya, Caravaggio, Delacroix, O vermelho e o negro, de paixão e morte, de modo geral. Mas eventualmente aparece a lucidez metálica do azul, ou o abismo metafísico do branco.

Carlos M. LuisJN - E qual é o som?

RR-R - O do violoncelo. Bach. Handel. Mozart. E outros, claro.

JN - Há também muitas referências cinematográficas em sua obra. Quem você “vê” em seus livros, além de Visconti, Angelopoulos e Resnais.

RR-R - Muitos, pois sou cinéfilo e eclético. Fellini, Scola, Antonioni, Zurlini, Pasolini, Bergman, Terrence Malik, Saura, Tarkovski, Mizoguchi, Satyajit Ray, Manuel de Oliveira, Orson Welles, Herzog e, claro, Buñuel. Mais recentemente, Sokurov, Kusturica, Gianni Amelio e Lars von Trier. Enfim, de modo geral, todos os grandes. Minha obra tem uma forte influência do cinema.

JN - Algum filme marcante ultimamente? 

RR-R - Dogville de Lars von Trier. Uma experiência extraordinária. Um ensaio impecável sobre a ética e a política realizado com inconcebível ousadia. O impacto da década.

JN - Algum escritor vivo?

RR-R - Saramago. Identifico-me totalmente com sua literatura. E com suas idéias. Admiro-o como escritor e como homem.

JN - Algum escritor brasileiro vivo?

RR-R - Para não ferir suscetibilidades, prefiro citar um que já partiu: Osman Lins. Mas é claro que existem bastantes, vivos, que admiro.

JN - O que significa a literatura para você?

RR-R - Um sacerdócio. Uma fonte de prazer e de tristeza.

JN - Explique-se.

RR-R - A entrega é total, absoluta. Criar é um gozo. Um prazer de deus. Não ser lido é uma dor. Uma tristeza de pária. 

JN - Em seus livros, seus comentários sobre os escritores não são propriamente lisonjeiros. Como você explica isso?

RR-R - Estou apenas me autogozando. O que acho bastante sadio, pois sou muito sério. Mas eu tenho um profundo orgulho de ser escritor. 

JN - Você pretende continuar a escrever teatro?

RR-R - Sim.

JN - Algum projeto?

RR-R - Uma outra peça de teatro.

JN - Pode falar sobre ela?

RR-R - Não. Ainda não.

JN - Algum desejo?

RR-R - Sim. O silêncio.

JN - Não é uma contradição?

RR-R - Não.

João Nunes (Brasil). Jornalista. Trabalhou, entre outros, nos jornais O Estado de São Paulo, Diário do Grande ABC e Correio Brasiliense. Atualmente é editor-assistente do caderno de cultura do Correio Popular de Campinas. Entrevista realizada em março de 2004. Contato: nunes@rac.com.br. Página ilustrada com obras do artista Carlos M. Luis (Cuba).

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