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revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004 |
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Eis dois cachimbos: roteiro para uma leitura foucaultiana de René Magritte Jorge Lucio de Campos
A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas
em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível. 1
Interrogação acerca das afinidades e não-afinidades
que um objeto, isolado de seu contexto habitual de acontecimento, poderia
vir a ter consigo mesmo: relação de inversão entre o que contém
e o que é contido, entre o que está fora e o que fica dentro,
entre o que é parte integrante e a totalidade que o elucida, entre o
colossal e o minúsculo, de auto-ruminação ontológica, linguajeira,
ideativa… Eis algumas senhas do que seria, então, sua segunda fase (de
1936 a 1949) – nominada de ‘paradoxo do mesmo’. Ambas seriam retomadas
por Magritte – após um breve período impressionista ou neo-impressionista
ou tachista (ou, ainda, Renoir) iniciado em 1943 e encerrado
no ano seguinte, em que ele experimenta trabalhar en plein air ou
en plein soleil [Talvez como um esforço compensativo – alternativo em sua
evasividade – à existência precária da Bélgica ocupada durante a
Segunda Guerra, Magritte revelou, nesta ocasião, um esmero maior quanto ao
uso da paleta: a luz parece deveras matizada à maneira dos impressionistas
franceses e, em especial, de Renoir. Cf., entre os mais célebres óleos do
período, L’incendie e Le premier jour, ambos de 1943, e Les
heureux présages, de 1944.], como preferia dizer, e um outro, ocorrido em 1947
e 1948, apelidado de vache (‘vaca’) [Nela Magritte afirmou, com virulência,
uma atitude ‘antipictórica’ – de traçado tosco e índole colorística
– pela qual ambicionava a debochar de si mesmo, de sua arte e da arte em
geral. Cf., entre outras, os óleos Le contenu pictural, de 1947 e La
famine, de 1948.], palavra utilizada, de início, para parodiar
o termo fauve (‘fera’) [Nome dado pelo crítico de arte Louis Vauxcelles aos
grupo de pintores (dali em diante conhecidos como fauvistas) encabeçados
por Matisse quando de sua exposição no Salon d’Automne – exposição
anual de outono, realizada em Paris e fundada em 1903 como alternativa ao
Salon oficial e ao Salon des Indépendents. Apontando para uma escultura de
estilo quatrocentista exposta no mesmo espaço, teria exclamado:
“Donatello au milieu des fauves!” (Donatello entre as feras!”).], mas levada a sério
e incorporada, a partir de 1949. É consensual que um bom quinhão das composições
magrittianas – embora estas sejam amiúde qualificadas, ao menos num
primeiro momento, como estranhas e desconcertantes – também
se notabilizou por conter dados visuais facilmente ‘acessíveis’,
rapidamente ‘reconhecíveis’, graças, sobretudo, a um indisfarçável e
estratégico traço realista. (Magritte, na sua obra, lançou mão de uma técnica
propositalmente descuidada, pintando as coisas como surgem à percepção
normal o que lhe angariou, muitas vezes, a pecha de ‘acadêmico’.) Foi, sem dúvida, graças a tal peculiaridade que elas puderam
exercer, até os dias de hoje, um fascínio especial sobre o observador,
desafiando-o a trilhar um caminho aberto, como que por encanto, diante de
seus pés, rumo à coalescência porosa da imaginação e às possibilidades
intensas do intelecto. Afeitos a temas como pássaros, molduras, balaústres,
janelas, chapéus, sapatos, nuvens, espelhos, árvores, trens, cavalos, relógios,
nuvens, montanhas, valises e outras referências sempre revisitadas, alguns
de suas telas – que não são poucas – lidam, em particular, com a
representação de cachimbos, em geral, acompanhados por enigmáticas
frases (ou por seqüências ‘escritas’ que, na prática, repelem
qualquer condição fácil de encadeamento lógico) cujo escopo é uma
paradoxal afirmação da negação do que parece patente, a saber, a
condição daquilo que, a priori, é o que aparenta ser, porém
apenas porque assim se mostra. Contudo, como veremos a seguir,
algumas interpretações suas – como a que propôs Foucault – desconfiam
da diretividade dessa impressão inicial, observando e enfatizando,
de preferência, nas relações estabelecidas entre aqueles ‘cachimbos’
e ‘frases’ (na verdade, simples imagens pintadas de supostos cachimbos
‘reais’ e frases ‘efetivas’), uma intencionalidade ambígüa,
contraditória e não-representativa, originária das próprias
relações existentes entre as palavras e as coisas. 2 Foi após uma troca de missivas entre Magritte
e Foucault, iniciada pelo primeiro em meados da década de 60 –
estimulado, na ocasião, pela trama conceitual de Les mots et les choses:
Une archéologie des sciences humaines (em particular, por seu segundo
capítulo, intitulado “A prosa do mundo”) – que pôde ser implementado
um fértil diálogo em torno do que, depois, se configuraria como uma teoria
geral da representação pictórica. Já ao filósofo atraiu, sobretudo,
uma das reproduções de quadros, anexadas por Magritte (“(um) que pintei
sem me preocupar com uma busca original no pintar” – disse o belga) em
que este havia anotado, no verso, a enigmática frase “Isto não é um
cachimbo” - no verso dessa reprodução,
Magritte escreveu: “o título não contradiz o desenho, ele o afirma de
outro modo”. Na carta que escreveu a Foucault, datada de 23
de maio de 1966, ele argumenta não existir, entre as coisas, semelhanças,
mas sim similitudes: “As palavras Semelhança e Similitude
permitem ao senhor sugerir com força a presença – absolutamente estranha
– do mundo e de nós. Entretanto, creio que essas duas palavras não são
muito diferenciadas, os dicionários não são muito edificantes no que as
distinge. Parece-me que, por exemplo, as ervilhas possuem relação de
similitude entre si, ao mesmo tempo visível (sua cor, forma, dimensão) e
invisível (sua natureza, sabor, peso). O mesmo se dá no que concerne ao
falso e ao autêntico etc. As ‘coisas’ não possuem entre si semelhanças,
elas têm ou não têm similitudes. Só ao pensamento é dado ser
semelhante. Ele se assemelha sendo o que vê, ouve ou conhece, ele torna-se
o que o mundo lhe oferece.”
Logo após a episteme pré-clássica –
a da tal ‘prosa do mundo’ perseguida nos séculos XV e XVI, ou seja,
durante a Renascença italiana – ter almejado unir palavras e coisas
numa teia inconsútil de similitudes, a episteme clássica,
consolidada nos séculos XVII e XVIII, empenhou-se em excluir qualquer relação
possível entre ambas, em termos de semelhanças, introduzindo um esquema pré-figurado
de ordens e de relações, baseado, por seu turno, em sistemas
sígnicos nomeadores e classificadores do mundo. A expressão
visual sintetizadora dessa nova táxis epistêmica – privilegiadora
de uma ciência universal da medida (máthesis) e de um
princípio taxonômico de tabulação – seria, para Foucault, o quadro
de Velázquez, inicialmente intitulado A família e, alguns anos
depois, rebatizado como As meninas, um dos mais conhecidos exemplos
do virtuosismo figurativo do período. Se, como Foucault sustenta, foram as idéias de
Descartes – as do primeiro Descartes: o das Regulae
ad directionem ingenii (1628-9) – as que melhor teriam encarnado as
possibilidades da episteme clássica da representação, quando esta ainda
se definia no outono da episteme renascentista da similitude, Las meninas
(completada em 1656), igualmente encarnou, com perfeição, a idéia de uma autoproblematização
do jogo representacional, ao expor, de modo sutil, as suas normas intrínsecas
de funcionamento. Em outros termos, Velazquez teria ali resumido as linhas
de força de um sistema epistêmico alternativo, no qual aquilo em torno
do qual gira a representação deve permanecer invisível (o lugar vazio
dos soberanos é o lugar que será, na episteme seguinte – a moderna
– ocupado pela figura do homem, do sujeito como um dado a ser
levado em consideração). Para Foucault, o elogiado traço
‘simulacional’ velazquiano ocultaria, na verdade, uma proposta ainda
mais ousada: uma tentativa simbólica de constituir visualmente a própria
idéia de representação que se valeria, para tanto, dos recursos
inerentes à máquina de pintar barroca: o tipo de olhar enviesado
– desenraizado do tempo e do espaço – que funda a cena sendo, na prática,
‘desconstruído’ nesta fundação mediante uma série de pressupostos
especulares vertiginosos. Sob tal prisma, o único elemento, com efeito,
sugerido pelo quadro é o que fica ausente. Em vez de instituir uma relação
simples de mímese, o tema principal do quadro, a saber, as figuras
do rei e da rainha ficariam, no fim das contas, imperiosamente indicadas (ou
dissimuladas pelo número excessivo de pistas fornecidas), por toda parte,
como uma espécie de vazio essencial. Desligada de seu objeto, a
representação acabaria se comportando como uma freqüentação ‘fantasmática’
de si mesma. 3 A resposta – se é que se pode chamar assim
– de Foucault à ‘provocação’ de Magritte foi a elaboração de um
pequeno ensaio cujo título - Ceci n’est pas une pipe - inspirou-se
na frase mencionada. De certo modo, este se comportava como uma continuação
implícita de As palavras e as coisas (embora direcionado a apenas
alguns aspectos deste último) concentrando forças na descrição e na análise
específica de duas telas – La trahison des images (1926) e Les
deux mystères (1966). Movido por uma hipótese de trabalho – ou
seja, a de uma possível (re)afirmação (de ordem puramente sígnica
e não ilustrativa) do texto pela imagem e vice-versa
– Foucault empenhou-se em elaborar, como já antecipamos, uma teoria geral
da representação pictórica (constituída em torno das questões da semelhança
e da similitude), centrada na dualidade entre ícone e símbolo,
no entre-deux típico das formulações discursivo-pictóricas
magrittianas. O argumento de Foucault acerca das propostas de
Magritte é que o que vemos (ou custamos a ver) naquelas telas – segundo,
é claro, estratégias diferenciadas – é um sutil velamento da idéia,
propositadamente sugerida e incentivada pelo pintor, de um possível
‘terreno comum’ entre os objetos e os dispositivos lingüísticos que
buscam designá-los. Amparado nessa convicção, ele argumenta que seria
tal velamento que permite que nos sintamos estimulados a compará-los entre
si, embora não tenhamos base alguma para tanto, muito menos para afirmar
que se assemelham. Tanto a versão de 1926 quanto a de 1966
apresentam o desenho de um cachimbo e, embaixo dele, a inscrição que dá
nome ao livro. O que as diferencia é a presença, na segunda, de um
cachimbo adicional, que parece pairar sobre uma outra tela em seu cavalete,
quase idêntica, por sinal, à da primeira (a cor do plano de fundo,
contudo, as diferencia). Foucault procura explicar os motivos que levaram
Magritte a lançar mão, em ambas, daquele enunciado que, tão
categoricamente, nega o que, a princípio, nos é passado aos olhos como óbvio,
isto é, o fato de que ali se encontram cachimbos. Se, em La
Trahison, tal ‘contradição’ se limitaria a um conflito lógico
entre a presença do objeto e o teor da frase que o ‘acompanha’, em Les
deux mystères, como acabamos de dizer, um terceiro elemento – o
cachimbo gigantesco e flutuante – decerto multiplica as incertezas e as
possíveis decodificações. “Primeira versão, a de 1926, eu creio: um
cachimbo desenhado cuidadosamente; e, embaixo (escrita à mão, com uma
caligrafia regular, aplicada, artificial, uma caligrafia de convento, como
se pode encontrar, a título de modelo, no cabeçalho dos cadernos
escolares, ou sobre um quadro-negro, após uma aula dada pelo preceptor),
esta menção: ‘Isto não é um cachimbo’”. Quanto à segunda,
prossegue: “a outra versão – acredito que seja a última – pode ser
encontrada em Aube à l’antipode. Mesmo cachimbo, mesmo enunciado,
mesma escrita. Mas, em vez de serem justapostos em um espaço indiferente,
sem limites nem especificação, o texto e a figura são colocados dentro de
um quadro; ele próprio está apoiado sobre um cavalete e este, por sua vez,
sobre as ripas bem visíveis de um assoalho. Acima, um cachimbo exatamente
semelhante àquele que está desenhado sobre o quadro, mas bem maior”. 4 La trahison des images. não é uma composição que, a princípio, ofereça
dificuldades: trata-se, com efeito, da mera exposição de uma figura e do
texto que a nomeia. Magritte iniciou com ela uma série de interrogações
– que o ocupariam por quase toda a vida – acerca das relações entre linguagem
e coisa, entre representação escrita e visual.
“Aqui, o contraste é afirmado por uma negação e parece baseado num jogo
bastante simples: o enunciado negativo é ambíguo porque baseado num dêictico
(‘isto’), que tanto pode se referir ao tema do desenho quanto ao próprio
desenho”. A sensação de contradição nos é passada pela frase que nos
alerta não ser um cachimbo aquela imagem enganosa, situada acima dela. A
estranheza aqui não é causada por uma suposta contradição entre
imagem e frase, já que ambos, não sendo enunciados, não podem,
portanto, se contradizer. Seria a frase, então, fidedigna uma vez que o
desenho que representa o cachimbo não é, ele próprio, um? Existe,
entrementes, no quadro – é impossível negar isso – um outro
enunciado, entrelinearmente inserido na imagem cujas formas caprichadas –
dadas à verossimilhança típica dos vade-mécuns – parecem, por sua vez,
querer nos garantir: “Somos um cachimbo. Olhe pra nós. Não nos parecemos
com um?”.
Na opinião de Magritte, se perguntássemos a
um espectador o que vira em La trahison, ele, naturalmente,
responderia que vira um cachimbo e, junto com ele, uma afirmação um tanto
‘incoerente’ a seu respeito. Contudo o belga, com a autoridade de mentor
do quadro – assim como de um crítico perceptivo e atento às filigranas
de sua opus – responderia, em alto e bom som, que ali nunca houve
ou haverá um cachimbo acompanhado por uma afirmação ou uma negação
quaisquer, porém, pura e simplesmente, uma imagem pintada. Não mais que
isso: um conjunto de marcas, feitas à mão com um pincel embebido em tinta,
na superfície de linho de uma tela comum. Trata-se-ia de uma típica composição
magrittiana a explorar a idéia do que se pode chamar de ‘interpretação
multívoca induzida. A imagem, ao mesmo tempo afirmando e negando a existência
do cachimbo, como que nos incita a perceber sua condição de representação
duplamente referenciada. Por outro lado, as palavras, ao afirmarem que não
se trata de um cachimbo, e se afirmarem assim enquanto tais, indicariam sua condição
de imagem, de representação de algo que apenas simula ser uma frase.
Ao mesmo tempo, são oferecidos dois níveis de leitura e de interpretação
– um que, explícito (visual) tensiona o implícito (lógico) e um outro
que, implícito, relativiza o que é explicitado. [Cf. relação de dupla
captura entre o texto e a imagem intestinamente configurada,
em ambos quadros, pelas possibilidades lógico-semiológicas de consideração
simultânea de uma ‘imagem escrita’ (regida pela verossimilhança lingüística)
e de uma frase ‘pintada’ (regida pela verossimilhança plástica).] 5 Se Le trahison chama a atenção por sua
curiosa simplicidade, a tela de 1966 é mais detalhada, provocando uma
perturbadora incerteza no espectador quanto à relação entre as imagens e
seus possíveis significados. “A
primeira versão só desconcerta pela sua simplicidade. A segunda
multiplica, visivelmente, as incertezass voluntárias. A moldura de pé,
apoiada contra o cavalete e repousando sobre as cavilhas de madeira, indica
que se trata do quadro de um pintor: obra acabada, exposta e trazendo, para
um eventual espectador, o enunciado que a comenta ou explica. E, no entanto,
esta escrita ingênua que não é exatamente nem o título da obra nem um de
seus elementos picturais, a ausência de qualquer outro indício que
marcaria a presença do pintor, a rusticidade do conjunto, as largas tábuas
do assoalho – tudo isso faz pensar no quadro-negro de uma sala de aula:
talvez uma esfregadela de pano logo apagará o desenho e o texto; talvez
ainda apagará um ou outro apenas para corrigir o ‘erro’ (desenhar algo
que não será realmente um cachimbo, ou escrever uma frase afirmando que se
trata mesmo de um cachimbo). Malfeito provisório (um ‘mal-escrito’,
como quem diria um mal-entendido) que um gesto vai dissipar numa poeira
branca? Em Les deux mystères, como acabou de
confirmar Foucault, estão presentes o mesmo desenho de um cachimbo e a
mesma frase, só que agora envolvidos por uma moldura, contidos numa outra
tela apoiada num cavalete situado por Magritte um pouco abaixo e à direita
de um segundo cachimbo, bem maior que o primeiro e que parece ‘flutuar’,
livremente, sobre o conjunto. Ali a relação conflitante entre o cachimbo
“de baixo” e a frase que o acompanha permanece óbvia, não só em função
de sua proximidade espacial, como pelo fato de sua relação ser
intensificada pela moldura que os envolve. Até determinado momento, o
cachimbo “do alto” parece isento e indiferente ao conflito, afastado de
qualquer questionamento a respeito de si. No entanto, o espectador não
demorará muito a também incluí-lo em suas perquirições. Afinal, a frase
poderia estar negando não apenas o cachimbo que com ela divide o interior
negro da moldura, mas igualmente o “do alto” que, ao não se mostrar estável
em sua condição derivante, comportar-se-ia como uma espécie de
sonho ou névoa que, por milagre, teria adquirido a silhueta de um cachimbo.
Sobre ele, diz Foucault que “a enormidade de suas proporções torna
incerta a sua localização (efeito inverso do que encontramos em Le
tombeau des lutteurs, onde o gigantesco está captado no mais preciso
espaço)”. Entretanto, de seu outrora aparente estado de indiferença, o
cachimbo pintado parecerá desejar ser um de verdade, e não apenas um
conjunto de linhas habilmente agenciadas no espaço retangular de um quadro.
Nem mesmo a ‘frase emoldurada’ será capaz de se manter longe de um
questionamento. A sensação de instabilidade refletir-se-á até mesmo no
cavalete em que se apóia a moldura, que poderá, de súbito, desabar,
reduzindo a pedaços tudo nela contido. E, sem sua presença, até que
ponto, até quando, o cachimbo “do alto”, desmedido e sem parâmetros,
conseguiria resistir à condição de solidão? 6 Um dos trechos mais interessantes do livro é o
que versa sobre os recursos semióticos do caligrama, para o qual é
dedicado um capítulo inteiro. Foucault se empenha em esclarecer nele porque
a figura do cachimbo nos parece tão ‘estranha’. Tal fato ocorre porque
o referente da sentença não verifica a imagem (que se parece bastante com
a de um cachimbo). Logo adiante, busca explicitar o raciocínio a ser
seguido para entender o processo, enfatizando que um desenho que representa
muito bem um objeto não se torna, em função disso, ele próprio, aquele
objeto.
Os caligramas, por sua natureza híbrida,
garantiriam uma dupla captura da qual não são capazes os discursos
por si sós e os desenhos em sua pureza visual. Comportar-se-iam antes como
uma escrita que lança no espaço a visibilidade provável de uma referência,
invocando os signos, do âmago da imagem que configuram – por um recorte
de sua massa na página – aquilo de que falam. Segundo Foucault, Magritte
lançou mão deste estratagema, concebendo tanto La trahison des images
quanto Les deux mystères, a partir de uma separação prévia de
seus elementos que, na confusão caligramaticamente ordenada, se apresentam,
em via de regra, superpostos. La trahison representaria pedaços de
um deles, desamarrado, aparentando querer voltar à sua disposição
anterior e retomar as três funções, mas somente para pervertê-las e
inquietar, desse modo, todas as relações lingüísticas tradicionais. Do passado caligráfico, as palavras
conservariam sua derivação linear e seu estado de coisa desenhada. Sob tal
ótica, não passariam de palavras que desenham outras palavras. Texto em
forma de imagem. Porém, inversamente, os cachimbos prolongariam a escrita.
Mais que ilustrá-la, completariam, de algum modo, o que lhe estaria
faltando. Figura em forma de grafismo. Magritte teria, previamente, cruzado
escrita e desenho e, quando desfez o hibridação, cuidou para que a figura
retivesse em si a paciência escritural e que o texto fosse apenas uma
representação desenhada. O texto nomearia o que não tem necessidade de
ser nomeado, pois sua forma é bem conhecida, e a palavra muito familiar. No
momento que deveria dar um nome, nega que seja um cachimbo. Esse estranho
jogo de esconde-esconde é, na essência, o do caligrama ao dizer duas vezes
(logo redundantemente) quando uma já seria suficiente. O ‘texto-figura’ retomará então seu lugar
natural, abaixo do ‘desenho-frase’, enquanto que este permanecerá,
formado pela continuidade das linhas. O cachimbo, agora autonomizado,
parecerá dizer que é, sim, um cachimbo já que agora, sozinho, se
representará melhor do que se o desenhassem palavras. Enquanto isso, a
frase poderá passar-nos mais do que diriam seus próprios componentes.
Separando a ambos, Magritte os faz dizer o que não seriam capazes de dizer
sob a pressão da camuflagem caligramática, que sempre se baseia numa relação
de exclusão: ao lermos o texto, não perceberemos o desenho e, ao olharmos
o desenho, as palavras parecerão perder seu sentido textual para assumir o
papel de linhas estruturantes. Um leque hermenêutico, que estaria fechado
num interior significante, é, enfim, aberto e tornado freqüentável por
tal ardilosa ação. 7 Outras valiosas colocações do ensaio dizem
respeito ao alcance e à natureza da ruptura, efetivamente implementada por
três artistas, relativamente ao que Foucault sustenta serem os dois grandes
princípios poéticos da pintura clássica (em vigência, a seu ver, desde o
século XV). O primeiro é o da separação entre representação
plástica (que implica a semelhança) e referência lingüística
(que a exclui). Far-se-ia ver pela semelhança, falar-se-ia através da
diferença, de modo os dois sistemas nunca se cruzam ou fundam. É preciso
que haja subordinação: ou o texto será regrado pela imagem
(quadros que representam um livro, uma letra…) ou a imagem o será pelo
texto (que o desenho vem completar, como se encurtasse um caminho que as
palavras estariam encarregadas de representar). O signo verbal e a
representação visual jamais seriam dados de uma só vez. Sempre uma ordem
os hierarquizaria, indo da forma ao discurso ou do discurso à forma. Foucault assevera que foi Klee quem aboliu a
hegemonia desse princípio ao colocar em destaque, num espaço incerto e
reversível, a justaposição das figuras e a sintaxe dos signos. Barcos,
casas, gente, são, ao mesmo tempo, formas reconhecíveis e elementos de
escrita. Não tratar-se-ia mais, agora, de um caligrama que joga com o rodízio
da subordinação do signo à forma. Não tratar-se-ia também de colagens
que captam a forma recortada das letras em fragmentos de objetos, mas do
cruzamento, num mesmo tecido, do sistema da representação por semelhança
e da referência pelos signos – o que supõe que eles se encontram num
espaço completamente diverso daquele do quadro. O segundo princípio que teria regido, durante
todo esse tempo, a pintura ocidental coloca a equivalência entre o fato
da semelhança e a afirmação de um laço representativo. Basta que uma
figura se pareça com algo para que se insira no jogo da pintura um
enunciado evidente, mil vezes repetido e quase sempre clandestino: “O que
vocês estão vendo é isto”, pouco importando se a pintura é remetida ao
visível que a envolve ou se cria, sozinha, um invisível que se lhe
assemelha. Para Foucault, foi Kandinsky quem rompeu com esse princípio
com um duplo apagar simultâneo da semelhança e do laço representativo
pela afirmação, cada vez mais insistente, das linhas e das cores, as
quais, dizia ele, eram ‘coisas’, nem mais nem menos que o
‘objeto-igreja’, o ‘objeto-ponte’ ou ‘objeto-homem cavaleiro com
seu arco’. Afirmação nua que não toma apoio em nenhuma semelhança e
que, à pergunta: “o que é isso?”, só pode responder se referindo ao
gesto que a formou, uma ‘improvisação’, uma ‘composição’… 8 À primeira vista, ninguém estaria mais
distante de Klee e de Kandinsky que Magritte. Foucault nos mostra, contudo,
com que real intenção a pintura deste último prender-se-ia à exatidão
das semelhanças, multiplicando-as, voluntariamente, como que para
confirmá-las. Não seria suficiente que o desenho de um cachimbo se
parecesse com um cachimbo. Tratar-se-ia de uma pintura empenhada em separar,
cuidadosamente, o elemento gráfico e o elemento plástico. Estes só se
superporiam em seus quadros sob a condição de o enunciado contestar a
identidade manifesta da figura (que o nome parece sempre prestes a lhe
atribuir). No entanto, o projeto de Magritte não seria estranho aos dos
outros dois, constituindo, de preferência, diante deles e a partir de um
sistema que lhes é comum, um esquema, ao mesmo tempo, oposto e
complementar. A exterioridade, tão visível em Magritte, do
grafismo e da plástica, seria simbolizada por uma não-relação ou
por uma relação complexa e aleatória demais entre as telas e seus títulos.
Magritte as nomearia tão-somente para salvaguardar a potência da
denominação pois, num espaço quebrado, estranhas relações seriam
tecidas, intrusões produzidas, substituições implementadas de modo a
anular qualquer possibilidade representativa. Um bom exemplo da utilização
de tais dispositivos ‘desrelacionais’ nos é fornecido por Personagem
caminhando em direção do horizonte (1928), tela em que as palavras de
modo algum se articulam, diretamente, com os elementos pictóricos, se
comportando antes como meras inscrições ‘figurais’ sobre manchas e
formas intencionalmente randômicas.
Segundo Foucault, Magritte procederia,
fundamentalmente, por dissociação (déliaison). Rompendo as ligações,
estabelecendo sua desigualdade, ele teria levado tão longe quanto possível
a continuidade indefinida da similitude. Se a semelhança tem um ‘padrão’,
um elemento original que ordena e hierarquiza todas as suas cópias,
o similar magrittiano se desenvolveria em séries possíveis de se percorrer
em qualquer sentido, que não obedecendo a hierarquia alguma, se propagariam
de pequenas em pequenas diferenciações. Se a semelhança serve à
representação, que reina sobre ela, a similitude remeteria à
repetição que corre através dela. Retornando ao desenho-de-um-cachimbo que tanto
se assemelha a um cachimbo e àquele texto escrito que se tanto se assemelha
ao desenho-de-um-texto-escrito, lançando esses elementos, uns contra os
outros (mediante uma justaposição forçada) ou, simplesmente, expondo-os
aos bel-prazeres do fora do encontro, é possível observar como eles
próprios acabam anulando a semelhança que, aparentemente, traziam em
(dentro de) si e, pouco a pouco, passam a fomentam uma rede aberta de
similitudes acontecimentais. Finalmente livre das exigências do
cachimbo-coisa e do texto-coisa – à sua indiferença ontológica a
qualquer desenho ou palavra – cada símile de Isto não é um cachimbo bem
poderia manter aceso esse discurso enganosamente negativo – pois se trata
apenas de negar, com a semelhança, a asserção de realidade que ela
comporta que, no fundo, é afirmativa – da ordem do simulacro, do sentido
sempre disperso na languidez do que pretende ser.
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Jorge Lucio de Campos (Brasil, 1958). Poeta e ensaísta. Autor de livros como A vertigem da maneira: pintura e vanguarda nos anos 80 (1993), A dor da linguagem (1996) e À maneira negra (1997). Contato: jorgeluciocampos@bol.com.br. Página ilustrada com obras do artista René Magritte (França). |