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revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004 |
livros da agulha
Este
livro é a celebração dos dez anos da revista Azougue. Dentre os
diversos recortes possíveis de sua trajetória (havia, por exemplo, a
possibilidade de uma antologia dos poetas novos que passaram – ou mesmo
estrearam – em suas páginas, assim como dos autores traduzidos), decidi
me ater àquele que para mim é o mais representativo do espírito da Azougue:
uma reunião dos poetas brasileiros homenageados nos números da revista. Para
melhor se entender o que estou chamando de homenagens, é necessário
voltar ao contexto em que a Azougue foi criada, em 1994. Éramos um
grupo de jovens na faixa dos 20 anos. Havíamos descoberto, quase por
acaso, a poesia de Roberto Piva, o que pela primeira vez nos sugeriu a
existência de uma literatura brasileira subterrânea, que passava ao
largo dos manuais acadêmicos e da mídia. Empolgados com as perspectivas
abertas por essa descoberta, rapidamente estávamos lendo um elenco de
autores - o próprio Piva, Claudio Willer, Afonso Henriques Neto, Antonio
Fraga, Campos de Carvalho, e mesmo nomes como Jorge de Lima e Murilo
Mendes -, que criavam um panorama muito diverso da literatura brasileira
do que nos havia sido ofertado até então. E cada novo nome era uma
conquista: como era praticamente impossível encontrar seus livros nas
estantes das livrarias, éramos levados a peregrinações pelos sebos da
cidade, assim como a intermináveis tardes na Biblioteca Municipal,
copiando alegremente à mão poema por poema dos livros que encontrávamos. Paralelamente,
começávamos a esboçar os nossos próprios textos, claramente
influenciados pelas obras desses autores. Não demorou muito para
percebermos o quanto era necessário expor nossas influências para que
nossos poemas fossem compreendidos. Como resposta a isso, e à vontade de
trazer a público a obra de autores que tanto amávamos, decidimos criar
uma revista de poesia. E
foi a consciência dessas intenções que gerou a estrutura da Azougue.
Estava claro para nós que não fazia sentido publicar análises ou textos
remissivos a uma poesia na época inacessível, especialmente para o público
alvo da revista (uma das características da Azougue é a sua intenção
de não ser uma revista restrita aos leitores assíduos de poesia,
buscando sempre conquistar um público jovem e diversificado - por isso as
festas de lançamento que misturavam poesia, música e cinema). Assim, a
função primeira da revista seria a de apresentar essa poesia, permitindo
o acesso a ela. A forma escolhida para isso foi simples: pediríamos
depoimentos aos poetas, falando sobre a sua própria obra, e acrescentaríamos
a esses depoimentos uma antologia o mais abrangente possível de sua obra.
Cada número traria dois poetas, além de poemas de autores novos e traduções.
Essa acabaria sendo a marca principal da revista: dar voz direta aos
poetas, sem grandes intervenções dos editores. Fomos criando assim uma série
de homenagens, como chamávamos, já que não nos agradava a palavra
“dossiê”, que nos remetia a uma coisa distante, fria. Ainda mais
porque essas homenagens eram, como já dizíamos no editorial do número
zero (quando ainda era um fanzine em xerox), “um pacto com poetas”. São
esses pactos que se encontram aqui reunidos.
Mas,
afinal, de que poesia trata a Azougue? Embora
seja possível perceber diálogos e convergências dentre os poetas aqui
presentes, eles representam uma rica diversidade de dicções e motivações,
e seria mais que temerário, até mesmo um erro, tentar unificá-los em
uma ou outra tendência. Mesmo assim, vamos trabalhar com a hipótese (não
inteiramente fora de propósito) de que há uma coerência interna na
escolha dos autores que foram homenageados na revista e que agora fazem
parte desse volume. A única forma de se pensar essa coerência seria
através de uma aproximação inversa, a partir daquilo que esses autores
não são. Se
há uma característica comum na obra de todos esses poetas, é a eleição
do verso como forma predominante de construção poética. Verso livre, já
que entre todos eles apenas Paulo Henriques Britto adota formas fixas,
mesmo assim as trabalhando de maneira irônica e inovadora. Mas a adoção
do verso já demonstra a quase total ausência da influência da poesia
concreta em suas obras. É possível ver elementos concretos em alguma
Dora Ferreira da Silva de Andanças, por exemplo, ou em um ou outro
Rubens Rodrigues Torres Filho, mas são poemas de exceção dentro do
corpo de suas obras. Da
mesma forma, os autores aqui presentes passaram à margem de outras tendências
fortes da poesia brasileira da segunda metade do século XX, como a da
poesia engajada estilo CPC-Violão de Rua da década de 1960 e a poesia
marginal da década de 1970. Essa segunda afirmação talvez cause uma
certa estranheza. Deixe-me explicá-la: ao pensar poesia marginal, estou
pensando na acepção strictu sensu do termo, da poesia epigramática,
informada com Oswald de Andrade, muitas vezes bem-humorada e cotidiana, de
autores como Chacal, Charles, Cacaso e Francisco Alvim. Embora se possa até
perceber alguns ecos dessa poesia, como, por exemplo, na primeira Maria
Rita Kehl, não é necessário um olhar muito atento para se constatarem
as diferenças em relação à poesia presente neste volume. Estamos,
portanto, trabalhando com dicções poéticas que se situam à margem dos
principais movimentos da poesia brasileira contemporânea, o que é
intensificado se pensarmos que a grande maioria dos autores aqui presentes
nasceu entre os últimos anos da década de 1930 e os primeiros da década
de 1950, sendo suas obras portanto inteiramente contemporâneas a essas
tendências. Talvez
isso possa ser considerado ainda um pouco vago como definição da poesia
aqui reunida. Certamente o é. Mas preferimos deixar para o leitor a
possibilidade de encontrar outras caracterizações possíveis. Como aliás
sempre foi do feitio da Azougue. Gostaria
de dizer algumas palavras sobre a organização deste volume. Dos
depoimentos aqui publicados, quatro são inéditos, sendo que três deles
foram realizados especialmente para esse livro: Gerardo Mello Mourão,
Jorge Mautner e Vicente Franz Cecim. A entrevista com Hilda Hilst,
realizada em 2000 com a intenção de ser publicada na revista, acabou,
por uma série de fatores, permanecendo inédita até a presente publicação
(embora uma versão anterior dela tenha sido publicada no Suplemento Literário
de Minas Gerais). Os outros depoimentos são aqui reproduzidos com o mínimo
de alterações em relação à sua publicação original. Se alguma foi
feita, foi no sentido de esclarecer um ou outro ponto mais obscuro, sempre
tentando preservar ao máximo o conteúdo original. Durante todo o
processo de organização desse livro, estabeleci como princípio a intenção
de preservar o clima original da revista, o que inclui o que ele continha
de frescor e muitas vezes ingenuidade. Pelo
mesmo princípio de mínima intervenção, optei, no lugar da ordem cronológica
de publicação, pela ordem alfabética de autores. Tentei assim criar uma
leitura o mais isenta possível dos depoimentos; se o leitor escolher
refazer o caminho das publicações da Azougue, encontrará a referência
de publicação nos dados bibliográficos de cada autor, antes do
depoimento. A idéia, sempre, é deixar o leitor com os olhos livres, para
citar a célebre proposição de Oswald de Andrade. Ainda
para manter o espírito da revista, decidi incluir uma pequena antologia
de cinco textos de cada autor após os respectivos depoimentos (com exceção
de J. J. Veiga). Agradeço aqui a todos os autores, por sua generosidade e
pela confiança depositada ao me permitirem a escolha dos textos.
Confesso, entretanto, que, se tentei apresentar da forma mais ampla possível
a obra de cada um, não consegui fugir completamente da minha
parcialidade. Já faz tempo que percebi, ao criar as antologias da Azougue,
que elas são na verdade uma forma discreta de ensaio. O recorte dentro de
uma obra é um guia para sua leitura, muitas vezes com a mesma força de
uma análise crítica. Assim, talvez cheguemos à melhor definição do
espírito da Azougue: ao se debruçar sobre as obras dos autores,
torna-se uma revista que se expressa, mais do que pela fala, pelo olhar. E
nisso consiste afinal o nosso sempre renovado pacto com poetas. [Sérgio
Cohn]
As
sinestesias, correspondências e analogias já têm 150 anos de história
em nossa tradição poética, desde Baudelaire. Ao relacionar informações
dos diferentes sentidos, emoções e sentimentos, o poeta de Correspondências
acreditava em relações secretas entre as coisas, a serem reveladas pelos
poetas. Assim inaugurou um ciclo, aquele do primado do pensamento analógico
na poesia, contraposto á lógica dedutiva, do qual fazem parte simbolismo
e surrealismo, e que está longe de esgotar-se. Assim como não se
encerraram as possibilidades oferecidas à criação poética através das
imagens, entendidas por Pierre Reverdy como aproximação de realidades
distintas, sendo tanto mais fortes e justas quanto mais distantes forem as
realidades aproximadas; portanto, como negação dos princípios lógicos
da identidade e não-contradição. Um
exemplo da continuidade e ao mesmo tempo da renovação e revitalização
da poética das analogias e correspondências é dado por Soletrar
o Dia, de Rosa Alice Branco. Demonstrando a vitalidade da poesia
portuguesa contemporânea, integra uma obra extensa, composta por sete
livros publicados em Portugal, além de traduções e edições em outras
línguas, e que vem recebendo merecido reconhecimento da crítica. Rosa
Alice Branco escreve em versos longos, quase prosa, com um ritmo pausado,
como se estivesse falando, conversando com o leitor. Seu modo predominante
de expressão é a imagem. Não por acaso, em um dos poemas de Soletrar
o Dia, homenageia Malcolm de Chazal, mestre moderno da escrita em
imagens feitas de aproximações de aparentes contrastes, da analogia e do
poema em prosa. Assim,
prosseguindo essa dicção, Rosa Alice Branco diz que Caminhamos
na respiração do outro. Nada sabemos. A ignorância como uma flor do
deserto. Em O sorriso das pernas,
cria através do encadeamento de imagens, resultando em algo como deixo um nenúfar à porta/ para quem chegue com o fardo da noite. Um
copo para a minha sede. E declarar que Dentro
de mim/ a pele da cidade penetra o corpo dos ciganos/ em vôo rasante
sobre nada. Nesses
trechos, vislumbra-se uma filosofia ou uma mística pessoal, um sentimento
de harmonia universal, conforme já observado por outro ensaísta (por
Maria Irene Ramalho, em um ensaio na edição portuguesa de Soletrar
o Dia). Relaciona as esferas dos símbolos e das coisas, do corpo e do
mundo inanimado - possibilitando Caminhar
com o chão a roer os pés, ou Atravessar/
a pele até o outro lado, e aquelas do sujeito e do mundo objetivo: Agora sou o dia. É
interessante o sentido do significante pele
na poesia de Rosa Alice Branco: sugere aquilo que deve ser ultrapassado,
um limite precário ou fronteira provisória, além do qual se instaura o
poético, e se chega ao âmago do mistério. Assim, refere-se ao amor como
o acordo ortográfico que só
existe/ no fundo da pele. A experiência poética, amorosa, do
maravilhar-se ou deslumbrar-se, sempre equivale a ultrapassar as
fronteiras do “eu” e, metaforicamente, os limites do próprio corpo. Dotada
de sólida formação filosófica e nos estudos da linguagem e dos signos,
especialista em Leibnitz e em Berkeley, Rosa Alice Branco escreve sobre a
própria linguagem, e interroga a palavra, conforme já havia sido
observado com precisão pelo notável crítico português Oscar Lopes.
Mas, mesmo com essa bagagem teórica, ela nunca é árida e cerebral. Sua
poesia é, antes, demiúrgica. A enunciação pelo poeta cria o mundo: As
palavras são as primeiras a chegar, como é dito em Passos
sem memória, o poema que abre o livro. Palavras precedem e configuram
a subjetividade e a consciência: Antes
não era eu. Nunca estava dentro/ do que sou (em Ser o que falta). Permitem Inventar
a pele (outro de seus títulos), e o dia, no título do livro e neste
verso: Soletro o dia que há de vir
da outra margem/ da noite, e, em acréscimo, também soletrar
a noite, além de fundar o amor: Soletramos
o amor com a letra mais pequena de uma língua/ acabada de inventar. E
a própria identidade: Deixo-me
soletrar/ descalça, pois Antes
não era eu. Homenageando Malcolm de Chazal, reconhece que Chazal deu um sentido plástico ao meu corpo. Ao
mesmo tempo, as coisas são signos, linguagem. A mesa é uma gaivota
de escrever, e, por sua vez, A
gaivota atira-se/ ao mar. Só ouço o grito das vogais/ sobrevoando a
areia. Reciprocamente, a poesia é crítica ao que se apresenta ou nos
é apresentado como realidade: Invento
palavras para não saber. Ou então, Sempre
tive problemas com o verbo ser. Nega o estável, o que é e se
apresenta como fixo, e também o que transcorre e passa, pois O tempo é uma invenção recente. Rosa
Alice viaja bastante. Mas cada viagem também é metáfora, remetendo á
viagem pelo mundo simbólico. Viagens, quer simbólicas ou físicas, não
são apenas ocasião para descobertas, mas para a recriação do mundo, ao
dizê-lo: Soletro Kairouan nesta
casa vazia/ sem arcos de passagem onde abrigar/ a tua ausência. O
lugar passa a existir e ter sentido ao ser dito, ou melhor, no código
particular de Rosa Alice Branco, soletrado, escandido, falado em outro
registro. Assim, revive e renova a experiência do maravilhar-se, quando a
descoberta do Souk, o velho mercado de Damasco, é a visão de que Só
um rio continuará correndo, só umas mãos eternamente vivas, só uma
gota a transbordar dentro do que somos. Desses
lugares, talvez por representar o encontro de Oriente e Ocidente, de dois
mundos, Granada parece equivaler ao illo
tempore, à permanência da Idade do Ouro e do tempo suspenso e reversível
no encantamento: Ninguém é velho/
em Granada. Descem o Albayzin, os corpos rolando/ pelas vertentes do
Darro, deslizando ao longo/ das pedras da Alhambra e este contraste/ é o
puro pleonasmo de ser jovem.. Estar lá permite-lhe enfrentar os
grandes desafios: como dizer o
tempo?. Na
série granadina, um poema especialmente revelador pode ser O
gato andaluz. Há uma paráfrase involuntária com relação ao filme Um
cão andaluz, de Buñuel e Dali, invertendo seu sentido. E uns tantos
contrastes inesperados. Cabe lembrar que a intenção de Buñuel e Dali,
ao escolherem esse título, foi insultar García Lorca, com quem haviam
rompido. A resposta de Lorca à ruptura com Dali foi o auto-exílio, e a
conseqüente criação do Poeta em
Nova York, sua obra mais frenética e dilacerada (não estou
especulando, porém baseando-me na sólida biografia de Lorca por Ian
Gibson). Tomando o que Rosa Alice Branco escreve, e lendo-o sob essa ótica,
vemos um inesperado jogo de espelhos: o poeta andaluz esteve em Nova York;
a poeta portuguesa está em Andaluzia, na terra de Lorca: No lugar do cão,
seu animal-antônimo, o gato. Poeta
em Nova York é o dramático poema da separação, perda e solidão: Agonia,
agonia, sonho, fermento e sonho./ Este é o mundo, amigo, agonia, agonia.
Soletrar os dias é o poema do
encontro, da integração e harmonia: Aceitar
o dia. O que vier. Evidentemente,
isso não significa que a poesia de Rosa Alice Branco de algum modo
contradiga, negue ou questione a enorme contribuição de García Lorca.
Ambos, inclusive, expressam o pensamento analógico, e expressam-se através
das imagens. A relação é de complementaridade. Confrontadas, mostram a
extensão do universo revelado pela poesia, e como os poetas dialogam, até
mesmo ao se parafrasearem, de modo deliberado ou por obra do acaso. [Claudio
Willer]
José
Jeronymo Rivera, que já nos deu traduções primorosas, como Rimas,
de Gustavo Adolfo Bécquer (2001), e ainda Cidades tentaculares, de
Émile Verhaeren (1999), e Poesia francesa: pequena antologia bilingüe
(1998), além de atuar em sentido inverso, colaborando na tradução para
o castelhano de Poetas portugueses y brasileños de los simbolistas a
los modernistas (BuenosAires/Brasília, 2002), oferece, agora, ao
leitor a tradução de Gaspard de la Nuit: fantasias à maneira de
Rembrandt e de Callot, de Aloysius Bertrand, aliás,
Louis-Jacques-Napoléon Bertrand (1807-1841). Filho
de um militar francês e uma italiana, casal que se fixou em Dijon, na
França, depois da queda do império napoleônico, Bertrand nasceu em
Ceva, no Piemonte. Boêmio, morreu jovem, aos 34 anos, sem tempo de ver
impresso seu único livro, trabalho de toda uma vida, mas pronto em 1836
e, desde então, nas mãos de um livreiro-impressor que não o publicou. A
obra só saiu à luz em 1842 pelas mãos de outro editor e precedida por
uma Notice assinada por ninguém menos que Sainte-Beuve. Como
se lê no erudito e bem escrito prefácio que Xavier Placer fez para a
tradução de Rivera, o livro de Bertrand foi, desde o começo, uma obra
rara, acessível apenas a poucos literatos, como Baudelaire que admitiu tê-lo
lido pelo menos vinte vezes numa confissão que fez em Le spleen de
Paris, conhecido geralmente por Petits poèmes en prose.
Mas, depois da “descoberta” de Baudelaire, foi grande a fortuna
crítica do livro de Bertrand, reeditado e analisado na França, lido e
traduzido em outras partes. Segundo
Placer, no “Gaspard” e nas “Peças soltas”, secções que compõem
o livro, a par da novidade da forma fíxa (o poema em prosa), técnica e
estilo apontam para o clássico na forma, o realístico no tema. São 65
unidades poéticas, com ilustrações de Rembrandt e Callot, acompanhadas
de uma cronologia breve da vida de Bertrand.
São
histórias que ressumem a Idade Média, embora tenham sido escritas no
começo do Oitocentos - algo assim como Miguel de Cervantes (1547-1616)
fez em Dom Quixote colocando personagens a falar não como se
falava ao seu tempo, mas como se falava duzentos ou trezentos anos antes,
à época das novelas de cavalaria, que ele queria ridicularizar - e,
afinal, ridicularizou - porque já eram anacrônicas. Claro
que, hoje, à distância de tantos séculos, só se tivéssemos um
profundo conhecimento do francês antigo para ler Bertrand no original e
entender todas as nuanças de sua linguagem que, apesar do talento e do
esforço do tradutor, perdem-se na passagem para o português de hoje. Mas
é assim mesmo: as obras-de-arte só alcançam essa transcendência porque
são entendidas em todas a línguas. Talvez o que entendamos seja outra
coisa, não exatamente o que o autor queria dizer ao seu tempo. Mas a
verdade é que o lemos e o entendemos ao nosso modo. Assim como não
precisamos ter conhecido ou vivido em São Petersburgo na segunda metade
do século XIX para ler (e entender) os livros de Dostoiévski. Por
que Bertrand, se há outros tantos poetas renomados à espera de tradução?
É o que questiona (para, logo, responder) Anderson Braga Horta, outro
fino poeta de Brasília, responsável pela apresentação do livro. Se
mais não fosse, Horta lembra que, para os amantes da música, Bertrand
deve soar familiar porque Maurice Ravel, com o nome Gaspard de la Nuit,
compôs, em 1908, uma suíte para piano baseada em três poemas do livro. Bertrand,
em seus poemas em prosa, não esteve preocupado apenas com reis, rainhas,
princesas e castelos, como era comum na época na qual situou os seus
personagens, um tempo em que a lírica trovadoresca ainda não havia sido
substituída de vez pelo classicismo. Por isso, nada há de anacrônico no
fato de o seu livro retratar um certo medievalismo romântico que vem das
figuras de extração menos nobre, quando não francamente popular, até
porque ao tempo em que viveu Bertrand os costumes pré-Revolução
Francesa e até mesmo os valores medievais ainda não se haviam dissipado
de todo. Sem
contar que Bertrand também estende seus poemas em prosa e suas crônicas
a Espanha e Itália, países em que a sucessão das estéticas literárias
não seguiu necessariamente o mesmo ritmo registrado na França. Bertrand
é também o filósofo que sabe retratar a sua
época de profunda devassidão nos costumes políticos e sociais,
tempo que haveria de inspirar Honoré de Balzac (1799-1850) a escrever,
entre 1835 e 1843, As Ilusões Perdidas (Illusions Perdues),
seu mais vasto romance. Neste livro, Balzac conta a história de Luciano
de Rubempré, o tipo universal do talento provinciano seduzido pelo brilho
de Paris, que serviria, mais tarde, de inspiração a Eça de Queirós
para escrever A Capital (1881). Por
meio das aventuras de Rubempré, Balzac antevê o imenso poder concentrado
nas mãos dos jornalistas (ou dos donos dos jornais) e, com seu pessimismo
inato, procura expor todos os abusos a que esse poder se presta, quando se
deixa enlamear pela corrupção e passa a defender interesses escusos. É
essa época que se pode antever também à página final de Gaspard de
la Nuit, quando Bertrand diz: “(...) Não, a Glória, nobreza cujos
brasões não se venderam jamais, não é o sabonete do vilão, que se
compra por preço de tabela na botica de um jornalista!” Linhas
adiante, Bertrand questiona a fragilidade do homem diante do destino, ao
compor uma frase que é também a síntese de sua visão de mundo: “Ah!
O homem - diz-me, se o sabes - o homem, frágil joguete a cabriolar
suspenso nos fios da paixão, não será ele apenas um boneco, com o qual
brinca a vida e a quem a morte destrói?”
Ler este livro de Bertrand é entender um pouco não só da França
medieval mas também compreender a do século XIX em que o exemplo de
Napoleão estimulou muita gente medíocre a pretender ir além das próprias
pernas. [Adelto
Gonçalves]
“Te trampearon, Vicente Janto, te trampearon”. Ahí la
certeza inicial de esta novela sin trampas, pero siempre, hasta la última
página, sabiamente rodada en el misterio. Un
hombre corriente sale de una capital anónima en busca del hijo que no
conoce. Le avisan por carta del nacimiento de la criatura y falta a su
trabajo para viajar a la ciudad del interior donde está radicada la madre
del niño. Espera sorprenderles con su visita. Y a él le sorprende el
destino en forma de agua. Una
población inundada, un botero que, en lugar de ayudarle a cruzarla, le
deja abandonado en un tejado luego de robarle el único bolso que llevaba.
Después la dictadura del agua, sus víctimas, con las que convivirá
Vicente Janto en su permanente afán de escaparse de allí, de escaparse
de sí mismo y del futuro. Lo
único que sabemos es lo que el agua ejerce en sus marionetas, lo que
queda del pasado como deteriorada moneda de cambio para traficar,
remodelar, volver a usar en un presente estancado, teñido por completo
con el color de la degradación, un líquido marginador cuyas memorias se
cuelan en las páginas de la novela con la misma eficacia que van
emergiendo los perfiles gastados de los protagonistas. Miguel
Motta emplea la pintura verbal para delinear un cuidadísimo ejercicio
narrativo, sobrio, preciso en su lenguaje, con irrupciones poéticas muy
bien dosificadas sobre un relato que fluye sin fisuras atrapando al lector
en la corriente. Los
personajes están dibujados con las líneas suficientes para que sean creíbles
y no se interpongan en el ritmo de la historia. El narrador les acompaña
en todo momento cual director de orquesta, sin adelantarse a lo que pasará,
sino marcándoles el compás de los sucesos, describiendo el ahora y apoyándose
en una expresiva ilustración de los entornos, los objetos, las atmósferas
que flotan dentro y fuera de cada ser. La
novela incorpora con grande acierto uno de los recursos más olvidados o
torpemente utilizados por buena parte de la narrativa contemporánea: el
uso de diálogos fieles a la naturaleza de cada personaje, en este caso
adecuándose al medio rural y a las difíciles circunstancias que los
rodean. No hay largos soliloquios ni afanes filosóficos o indagatorios de
la sicología de cada uno. Sus palabras les definen, como también el carácter
y algunos detalles físicos que les imprime el autor. Estamos,
pues, ante un claro ejemplo de narrativa pura: disponer de una historia,
unos personajes “vivos” y una voz que se dedica a contarnos lo que
pasa desapareciendo voluntariamente de los escenarios. Las conclusiones,
las reflexiones de fondo, los juicios o complicidades quedan en manos del
lector. Pero
también aparece en “Los días del agua” una especial tonalidad,
mantenida en toda la obra, que impregna el discurso literario de una
velada tristeza, sensible al devenir anclado, estático, incapaz de
rebelarse contra el ahogo existencial que impone el agua. Los
seres que flotan en la población inundada no son tan diferentes a los que
vegetan en la ciudad. Ambos entienden el presente como una adecuación sin
cuestionamientos. Los primeros, aferrados a los restos del pasado como
soportes de sus jornadas, los segundos, atorados en la rutina diaria que
les permite objetos nuevos y actitudes discriminatorias para quienes no
viven como ellos. Ninguno de estos grupos humanos aceptará al otro. Lo
más notorio es el color de los inundados, clara metáfora del color de la
indigencia, tan difícil de borrar por quienes la padecen. Hay
otra metáfora que podría leerse en la novela, la que alude al deterioro
del Uruguay y, por extensión, a la de los países deslizados en las vías
sumergidas del subdesarrollo. Más de un lector compatriota encontrará
diversas señales al respecto, dejadas por Motta como un guiño dolido en
las orillas de unas cuantas páginas. “Los
días del agua” supone un importante avance en el camino literario del
autor, que anteriormente había publicado “Breviario de un
mediocampista” (su primer libro, en 1992) y “Código para una
muerte” (1995), títulos también editados y galardonados desde la
capital uruguaya. Miguel
Motta, nacido en Salto (Uruguay) en 1954 y hoy residente en Montevideo,
reafirma con su tercera novela un innegable oficio en la creación de
estructuras narrativas, una personalidad literaria dotada de imaginación,
experiencia vital y talento para comunicar su atenta mirada sobre el
hombre y sus frágiles navegaciones. [Héctor
Rosales]
Para
integrar a coleção Melhores Crônicas, que tem recebido numerosos
elogios da crítica e a aceitação do público, a Global apresenta agora
um nome bastante familiar em seu catálogo: Ignácio de Loyola Brandão
que chega à coleção pelas mãos da professora Cecilia Almeida Salles.
Os textos aqui reunidos foram publicados originalmente no jornal O
Estado de S. Paulo, onde, desde 1993, Loyola mantém uma coluna
semanal no Caderno 2. Segundo
a professora Cecilia Almeida Salles em sua apresentação “a publicação
de coletâneas de crônicas é uma espécie de convite para uma nova
leitura de textos veiculados pelo jornal semanalmente. Matérias um dia
marcadas pelo tempo jornalístico mesclam-se em uma inevitável
hipertextualização em que a determinação temporal se esvai”. Por
essa razão, ela optou em apresentar as crônicas aqui reunidas, sem se
guiar pela ordem cronológica original. Preferiu agrupá-las a partir dos
temas recorrentes na escrita de Loyola. Assim, temos uma reunião de
textos, em seções com nomes sugestivos como: Presente da Memória,
Araraquara como foi, Nas ruas de São Paulo, Um modo de olhar,
“Acasos” do cotidiano, Inteiramente pessoal, Caderno de anotações,
Alguns personagens e, por fim, Ficção ou quase. Como
nas demais obras do escritor, o leitor estará defronte a textos
bem-humorados, irônicos, instigantes e nas entrelinhas, conforme diz a
selecionadora, é convidado a embarcar nos delírios de uma reflexão
desenfreada, sem qualquer expectativa de confronto com o cotidiano jornalístico;
em outros, é levado a se identificar ou se posicionar diante das indignações
que sustentam todos os relatos. Ignácio
de Loyola Brandão é natural
de Araraquara, interior de São Paulo e trabalha como jornalista desde os
16 anos. Já publicou 26 livros, entre romances, contos e viagens. Como
escritor já recebeu vários prêmios entre os quais os da APCA, Jabuti e
Pedro Nava. Alguns de seus livros já foram traduzidos para o alemão,
inglês, espanhol, italiano, coreano, húngaro e francês. Cecilia
Almeida Salles é professora titular do Programa de Pós-Graduação em
Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo (PUS/SP). É coordenadora do Centro de Estudos de Crítica Genética.
É autora do livro Gesto inacabado – Processo de criação artística
pela Editora Annablume e Crítica genética – Uma (nova) introdução
pela Educ.
Se
Herberto Helder colocasse sua força anímica e mágica para espelhar a
realidade, e não para distorcer e criar um outro mundo, surreal e de
absoluto crime, o que aconteceria? Não seria ele, é óbvio, até porque
estaríamos lendo Ana Marques Gastão. Enquanto Helder explode, Ana
implode. Enquanto o primeiro se expande para fora dos limites do humano, a
segunda se concentra no sórdido íntimo e se retém ao caroço da
existência. Tudo nela arde em despedida para dentro de casa. Como que
revelando o mesmo batimento cardíaco descompassado da literatura de
Clarice Lispector, Virginia Woolf e Sylvia Plath. Nós/Nudos
é um livro permanente, perpétuo em seu estar indo, desafiador. Não é
recomendável lê-lo sentado ou na cama. É de se atravessar
de mãos dadas tamanha a solidão que o desdobra em gomos de um quarto. Os
poemas da escritora portuguesa Ana Marques Gastão sobre 25 telas da
genial pintora Paula Rego, também portuguesa, assombram com seu universo
feminino dilacerado, com uma beleza desparelha, áspera, e uma verdade
nada tranquilizadora. Versos escritos com suor, secreção, choro, líquido
do ventre, sangue, esperma. Nós permite a leitura do tecido coletivo da
conjugação tanto quanto o aperto de uma corda, o soluço de uma corda
esticada. É uma obra violenta, como se fosse feita somente de relâmpagos,
apartada da chuva. Relâmpagos em dias claros, de clareza cegante das
experiências. “Suporto a ferida como animal decadente/ sem a
concordância do mundo./ Ninguém me diz quando começa o mar”. Violenta
porque traz imagens verbais poderosas, uma aura da agressão no momento em
que ela ainda é afeto. Não é uma raiva para fora, uma raiva interna,
contida. Uma raiva recusa a piedade, a compaixão, o perdão. “Não é
teu forte, a piedade.” Os poemas não legendam a pintura. Não são
entranhas da cor. Não ilustram e decoram. Estão lado a lado, como um diálogo
de cotovelos. Um diálogo de dilúvios. Ana
Marques Gastão faz seu livro mais intenso, único, singular, sobrevoando
a insistência da metalinguagem, adjetivação expiatória e excesso de
pudor que perpassava seus livros anteriores. Há uma voz genuína,
transparente, ambígua. Sintomático que tenha encontrado a saída ao
poema na pintura. O poema aprende aqui que a dor não se expulsa, mas a
dor apenas se acomoda no nervo de outra alegria. A autora parte da
“paisagem do osso” para a paisagem líquida do prazer, descentrando a
escrita, contradizendo-se com volúpia, censurando e pedindo, refugando e
chamando, na instabilidade que é peculiar ao desejo. Veja a importância
da letra viva e vacilante, do tremor do braço ainda reticente do dizer,
em metáforas como a “gramática do silêncio”, “ortografia cega”,
“caligrafia de um tudo anterior” e “fechado à distância do lápis”.
É impressionante perceber que as mulheres habitam o corpo e nadam no espaço
de suas vísceras e pulsões. Nunca um corpo pacífico, inerte, porém um
corpo que arrebata na espontaneidade do esgar e deboche. O erotismo se
alcança na crispação, no entreabrir da pele que se oferece a princípio
para insultar de amor depois. É uma flutuação que segue a separação
de sílabas. Poesia amorosa porque está muito perto da zona misteriosa da
mudez. Um silêncio saciado, não esgotado: “As palavras morrem se forem
ditas”. Uma mudez optada, que não significa renúncia, loucura liberta
do idioma: “Morre-se de um beijo com um grito dentro”. As
protagonistas se regozijam no tato, no veludo dos poros, em alegorias de
tecido cru e grosso: “as mãos ainda estão húmidas de ti” ou “água
apenas de um com outro”. A
seleta Nós/Nudos, em edição bilíngüe, traduzido com elegância
ao espanhol pelo brasileiro Floriano Martins, transcende a descrição
para a indiscrição emocional, rumando em direção à antena da
impureza, à coerção orgânica do que é lembrado quando apagado em vivência,
do que é esquecido porque está sendo vivido. “Somos reminiscência de
um quarto pelo qual dançamos até morrer”. Desorganização que
se organiza nas miudezas, no palco de resistência que é a camisola, o
vestido, a mortalha, o manto. Espaço da crueldade que é bondade de se
dar ao mundo sem pedir nada em troca. O humano é divino, o divino ainda não
se crê humano. Mulheres elétricas, distorcidas, sem olhar de frente,
convencidas de que a comoção acontece na periferia dos atos, nos
desvios, na “ópera menor” dentro dos ouvidos. As mulheres de Ana
escutam os seus próprios pensamentos. Não espere encontrar suavidade. O
que emerge é o estado provisório do fogo, da combustão. “E a luz, táctil,
clarão, poema a crescer na exaustão, suprime a distância entre o rio e
a árvore”. Animais queimando, com cabelos do fogo desalinhados,
“animais cintilantes”, da ordem das brasas e da franqueza explícita.
As figuras estão conscientemente inacabadas, inconclusas, como algo que
está sendo escrito no momento em que se soletra. Elas estão
irremediavelmente sozinhas, entretanto, não aceitarão menos em função
disso. Apreensão
que se consuma na repreensão. Ferocidade que se completa na velocidade do
recuo. Abundância que progride no mínimo. Imobilidade que é invocação.
A escritora Ana Gastão ultrapassa o poema para atingir o luminoso e
dolorido desvestir. Viver não é uma posse, mas uma possessão. [Fabrício
Carpinejar]
Guerras,
terror, imperialismo, intolerância, mentes fanáticas, pobreza, ignorância,
injustiças. O retrato do mundo apresenta-se, diante dos olhares atônitos
dos que defendem os direitos e a liberdade política, como imenso desafio.
Ao contrário de outras épocas, quando a esperança de vencer o erro e o mal habitava as perspectivas filosóficas, teológicas e artísticas – o século XVIII é o grande momento daquele anelo – o século XXI começa com trevas e horrores que podem repetir os sofrimentos do século XX, com os campos de concentração, os genocídios e a Bomba sobre milhares de seres humanos. Cada ato que nega os direitos civis, o convívio no Estado de direito, as infrações às leis internacionais, repercute como desafio a ser vencido pelos que ainda não se curvaram aos novos despotismos. No mesmo passo, no Brasil descortina-se o presente melancólico ou mesmo atroz, fruto de um pretérito hediondo de escravidão e morte. Roberto Romano, em O Desafio do Islã, não pretende estar de posse de alguma miraculosa ou salvadora fórmula, proposta ou mágica, que a retórica ideológica, política, religiosa e mesmo científica costumam apresentar nos seus discursos diretos ou midiáticos como soluções para as contradições brasileiras ou para os dilemas do mundo. Apenas convida os cidadãos à análise fria da nossa vida cultural. Seguindo a norma de jamais pensar pelo leitor, mas diante dele, cada um dos ensaios reunidos neste livro da coleção Debates, dedica-se ao trabalho de identificar e discutir desafios que se colocam ao homem de nosso tempo nos domínios do Estado, do credo, das artes, da universidade e da cultura, sem demasiada raiva, mas com interesse apaixonado. Em cada uma de suas páginas encontra-se o respeito máximo pelo enunciado de Max Weber segundo o qual “neutro é quem já se decidiu pelo mais forte”. |
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