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revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004 |
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O sentido do espaço. Em que sentido, em que sentido? Fernando Freitas Fuão
Normalmente, atribuímos existência aos espaços e às
coisas, mas na realidade, sem nós, elas não existiriam. Pensar um espaço
como existente, significa pensar em si próprio. Infelizmente, na exigência da objetividade, acabamos por
abstrair os espaços, as coisas e, conseqüentemente, nossa própria existência.
Gabriel Marcel, certa vez disse: “Quanto mais eu acentuar
a objetividade das coisas, cortando o cordão umbilical que liga à minha
existência, mais converterei este mundo num espetáculo sentido como ilusório”. Para os existencialistas a existência precede a essência.
Em termos filosóficos todo objeto tem uma existência, um sentido e uma
essência. E essa essência é o próprio sentido, ou vice-versa.
Entretanto, muitas pessoas crêem que a essência vem antes da existência.
Essa idéia tem sua origem no pensamento religioso do século XVIII quando
se acreditava na existência de uma essência natural, um sentido para os
homens como natureza humana e, por exemplo, conceitos inatos do que
deveria ser uma casa, uma praça, uma escola, etc. O que derivaria,
posteriormente, na teoria dos tipos e fenótipos, na cruel teoria
determinista do caráter em psicologia. Exemplificando, Sartre em O Ser e o Nada, explicou
esse falso sentido da natureza determinista, ironicamente, citando o caso
das ervilhas e dos pepinos: “Muitas pessoas crêem que as ervilhas, por exemplo, se
arredondam conforme a idéia de ervilha e os pepininhos, são pepininhos,
porque participam da essência de pepininho. Não é a idéia, a essência,
o sentido, o significado inato que atua sobre a ervilha a fim de arredondá-la,
sobre o pepino a fim de alongá-lo, mas sim o organizador dos embriões ou
qualquer outro agente misterioso”. E no caso da casa, da arquitetura e do espaço: o
arquiteto. Daí a grande inclinação do arquiteto em se tornar um
demiurgo, pois ele é diretamente responsável não só pela materialidade
da coisa, da existência da arquitetura, mas também porque manipula
conscientemente ou inconscientemente essa pseudo-essência ou sentido, que
normalmente creditamos à arquitetura e à sua autonomia. Para os que acreditam na criação divina ou no mito do
darwinismo, tudo que vive no mundo da matéria explica-se pelos
antecedentes imediatos até os mais longínquos. A essência do vivente
está por assim dizer no germe, em sua raiz. E que uma forma é pré-determinada
por uma anterior, isto é, o que podemos chamar de determinismo arquitetônico.
Com uma certa freqüência encontramos nos livros de história da
arquitetura a árvore genealógica da arquitetura ocidental com suas raízes
e troncos nas arquiteturas egípcia, grega ou mesopotâmica. Podemos
observar o mito do darwinismo arquitetônico também na proposição do
Abade Laugier, no século XIX, remetendo à origem dos tipos arquitetônicos
à cabana primitiva, à tenda árabe, entre outros. Essa tem sido a trajetória do sentido do espaço, ou seja:
o sentido remete-se a uma origem mais ou menos perdida, seja divina ou
humana. Não existe uma essência a priori, segundo os
existencialistas. A essência do ser humano está suspensa na sua
liberdade, em seu projeto, em sua possibilidade, por assim dizer, de sua
construção. Para eles a origem, a existência humana é algo totalmente
sem sentido, e o sentido é sempre produzido, inventado e reinventado. Talvez fosse melhor ver o espaço arquitetônico apenas
como um estado de uma situação em constante mudança. A construção de
um nada que vem a ser um projeto, um envio. Só ao se tornar ‘para mim’ o espaço recebe um
significado, um sentido. O espaço ‘para mim’ ao contrário do espaço
em si, só existe porque estou aqui. Nós não dependemos dele; ele é
quem depende de nós, e sem nós nada seria. O sentido do espaço só existe a partir da experiência do
‘eu’; portanto, o sentido do espaço da arquitetura não está no
interior da abstração do espaço, no interior da arquitetura, na relação
utilitária entre o cheio e o vazio, e tampouco nas entranhas das paredes.
Qualquer sentido que se possa atribuir está fora dele, muito além de sua
superfície. Está no interior de quem o vivencia, está nas pessoas que
nele se deslocam constantemente. Curiosamente transportamos o sentido do
espaço para qualquer lugar que formos. O espaço não é, como crê a maioria dos arquitetos, uma
realidade rígida e válida para todos. Ele em si é tão plástico e
imaterial como o próprio tempo, variando com os indivíduos, com os
povos, com as épocas, e, principalmente, com os pontos de vistas. Não
existe um espaço objetivo e autônomo do ser humano. Existem diferentes
maneiras de perceber e compreender esse espaço ‘bruto’, lá fora, sem
significação, a espera de minha chegada. Por exemplo, desse mesmo espaço
podemos produzir as mais diversas representações, como a do pintor, do
arquiteto, do fotógrafo, do engenheiro, do médico etc. Mas certamente, a
somatória deles nunca retratará a experiência de cada um, apenas
ampliará seus sentidos, mostrando a existência de diversos pontos de
vista. A fenomenologia tem tratado a questão do espaço a partir
do eu, da dimensão corporal, resgatando as orientações do acima-abaixo,
frente-trás, esquerda-direita, mas colocando o papel do homem numa
profundidade corporal também questionável. Mais precisamente a
Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty se contrapôs à concepção
espacial cartesiana, abstrata, indiferenciada, uma espécie de plano
regular, homogêneo, onde se dispõem todos os corpos. Merleau-Ponty nos
fez ver que o corpo é a nossa principal referência espacial e que o espaço
deve ser compreendido não só a partir dele, mas também como uma extensão
do próprio corpo. Essa compreensão fenomenológica do espaço apoiou-se
na experiência corporal e vivencial, abrindo espaço para incorporar também
os estudos de Piaget. A partir dos anos 60-70 alguns teóricos da
arquitetura aportaram uma grande contribuição para esse tipo de visão
do espaço. Nesse sentido é que foram produzidos os trabalhos
principalmente de C. N. Schulz, J. Muntañola, Charles Moore, Kevin Lynch
entre outros. Os objetos, os espaços e a arquitetura, servem-nos apenas
de instrumentos. Caso não tenham nenhuma relação com o nosso desígnio,
permanecem no estado de existentes brutos: são como se não existissem.
Os espaços que nós visualizamos, quando deixam de ser usados,
vivenciados, voltam ao estado de ser bruto, esvaziado. Mas seus múltiplos
significados, seus sentidos, nós transportamos. Existe uma passagem de Paul Foulquié em O
Existencialismo, na qual narra a transformação do ‘eu’ em
representação, de seu esvaziamento quando percebe sua própria existência. “Estou no jardim público da álea de castanheiros,
contemplo o verde relvado em cujo centro se ergue uma estátua: tudo isso
existe para mim. Mas de súbito um outro passeante detém-se a contemplar
esse espetáculo que também engloba a minha pessoa. Imediatamente a minha
representação que é para mim o verdadeiro mundo se desagrega e seus
elementos se organizam em torno do recém chegado; agora, é para ele que
tudo isto existe (…). Não só o relvado, a estátua, o banco, a sebe
organizam-se em torno dele como instrumentos de seus desígnios ou como
obstáculos: eu também me acho classificado entre as coisas, reduzido ao
papel de meio, de representação, para realizar os fins de outrem”. Quando as coisas começam a nos olhar, explicou Leyla
Perrone-Moisés ao descrever os distintos modos de ver do poeta Fernando
Pessoa, estamos experimentando não o mistério do conhecimento, mas o
mistério do desconhecimento. É aquela experiência do inconsciente que
Freud conceituou como unheimlich (a inquietante estranheza) e que, quando
deixa de ser eventual, passa a permanente, se chama loucura, psicose.
Ver-se vendo, olhar-se olhando, é deixar de olhar e de ver o que se olha
e vê fora de si, para tentar captar, no sentido inverso, o próprio ponto
de onde o sujeito olha. O resultado dessa operação, além da perda do
objeto exterior, é o eclipse do próprio sujeito, que topa com o ponto
cego da consciência tentando captar-se a si mesma como objeto. Nessa situação “tudo parece oco”, como disse Fernando
Pessoa. Sempre que se fala nesses clichês conceituais: sentido do
espaço, sentido da arquitetura, ou significado da arquitetura, me lembro
do divertido e lúcido filme do Monty Python, O Sentido da Vida, no qual
eles passam o filme todo procurando o sentido ou significado da vida como
se fosse um objeto, sem nunca encontrá-lo. “É difícil responder àqueles que julgam suficiente
haver palavras, coisas, imagens e idéias. Pois não podemos nem mesmo
dizer, a respeito do sentido, que ele exista: Nem nas coisas, nem no espírito,
nem como uma existência física, nem com uma existência mental”. A busca de um sentido das coisas e do espaço é todo um
sem-sentido, e qualquer tentativa em compreender, deve passar pela lógica
do non-sense. O sentido não vive sem o sem-sentido, pois justamente é
ele que alimenta o sentido. Deleuze em a Lógica do sentido mostrou que “O não senso
e o sentido acabam com sua relação de oposição dinâmica, para entrar
na co-presença de uma gênese estática, como não-senso da superfície e
sentido que desliza sobre ela”. “O bom senso se diz de uma direção: ele é senso único.
Exprime a existência de uma ordem de acordo com a qual é preciso
escolher uma direção e se fixar a ela”. O non-sense: é o que destrói
esse bom senso, o sentido único, o senso. Se pensarmos no sentido como orientação, temos seu
oposto, a desorientação. Deleuze encontrou esse universo desorientador
em Lewis Carrol. “Em que sentido, em que sentido?”, perguntava Alice.
Essa pergunta não tem resposta nem sentido porque é próprio do sentido
não ter direção, orientação, não ter bom sentido, mas sempre as duas
ao mesmo tempo. A desorientação é a perda do sentido, do significado, a
porção esquecida e pouco estudada, principalmente, na arquitetura, mas
que faz parte do processo de consciência da existência. É a experiência na qual não sabemos mais exatamente o
que está diante de nós e o que não está. A desorientação devolve o indivíduo ao espaço
existencial, bruto, indiferenciado. É o estado no ser que desconjuga a
relação espaço-tempo, jogando-o no abismo dos sentidos. Um lapso da razão que transporta para a infinitude do espaço
e da insignificância de todas as coisas contidas nele. Tudo é igual na
desorientação e nada nos causa estranhamento neste estado porque nada é
reconhecível ou identificável. Freud foi um dos primeiros a nos mostrar que os mecanismos
do sentido passam pelo não sentido, pelo inconsciente, e foi em seu
ensaio Das Unheimlich (A Inquietante Estranheza), onde procurou demonstrar
a existência de um domínio todo peculiar da estética que escapava às
formulações clássicas da teoria do belo. A unheimlich freudiana, no
fundo, pode ser vista também como um estudo sobre a orientação. Didi-Huberman em sua obra O que vemos, o que nos olha, nos
explica que Freud propunha ainda um último paradigma para explicar a
inquietante estranheza: a desorientação, experiência na qual não
sabemos mais exatamente o que está diante de nós e o que não está; ou
então se o lugar para onde nos dirigimos já não é aquilo dentro do
qual seríamos desde sempre prisioneiros. Propriamente falando, o
estranhamento inquietante seria sempre algo em que, por assim dizer, nos
vemos totalmente desorientados. A Inquietante Estranheza relaciona-se com o sobrenatural,
algo de fantástico que emerge dentro da realidade e que ocasiona o
sinistro. A desorientação que Freud analisa não é tanto a desorientação
provocada pelo aparecimento do imprevisível, mas sim como ele mesmo disse
aproveitando-se da definição de Schelling do sinistro, como algo que
deveria ter permanecido oculto, mas saiu à luz. Freud procurou demonstrar
que o fenômeno da unheimlich está nas coisas familiares, mas que de
repente mostram-se desfamiliares, perturbadoramente estranhas. Ou seja, em
outras palavras: que a desorientação pode brotar também inesperadamente
das coisas estruturadas pelo sentido da orientação. Esse conceito vai servir como uma luva para justificar a
unheimlich como uma manifestação do reprimido. Sua teorização sobre a unheimlich tinha suas bases na
literatura fantástica em voga no final do século XIX e início do XX. E,
irá se utilizar precisamente do conto de E.T.A. Hoffmann: O homem de
areia e o conseqüente drama da perda dos olhos para ilustrar a
unheimlich. “O escritor”, diz Freud referindo-se a Hoffmann,
“provoca em nós, inicialmente, uma espécie de incerteza, na medida em
que, e decerto intencionalmente, não nos deixa perceber se nos introduziu
no mundo real ou num qualquer universo fantástico por ele criado”. Algo
similar acontece nos filmes de R. Polansky, O bebê de Rosemary e O
inquilino, que nos fazem vacilar se os acontecimentos são reais ou
frutos da imaginação paranóica do personagem central. Além das conotações da unheimlich, que podem ser
traduzidas como Inquietante Estranheza, sinistro, não familiar,
estranhamento, desorientação, todas estão associadas à teoria favorita
de Freud: repressão-castração. Alguns estudos críticos posteriores trataram de elucidar
melhor as proposições de Freud sobre a Inquietante Estranheza, como O
espelho da medusa, de Tobin Siebers, que desmontou praticamente toda
teoria da unheimlich mostrando uma série de debilidades dos argumentos
freudianos, evidenciando-a como uma forma da superstição. Esses estudos
mais atualizados mostram que o fantástico, a Inquietante Estranheza, o
sinistro, a desorientação ou a falta de sentido não nascem da rejeição,
da castração e repressão, embora possam atuar sobre eles. Eles são
elementos intrínsecos à formação da realidade convencionada, do
sentido comum, do bom senso, do familiar. Representam um não sentido da
realidade, um questionamento dentro da lógica social, que se introduz na
realidade para afirmar a própria debilidade da realidade, já que para
dar sentido à sociedade e à cidade foi necessário organizá-la de uma
maneira ‘lógica’. Eles alimentam e reafirmam a realidade através de
sua ocultação, enquanto permanecem silenciosos. Por isso, quando a
Inquietante Estranheza aparece, tem a capacidade de desestruturar,
desorientar e principalmente desestabilizar o centro onde se localiza o
sentido ocidental. Tudo parecia estranho, sinistro, aterrador e surpreendente
para Freud. A unheimlich demonstra bem os temores da sociedade do início
do século XX, principalmente os temores de Freud, que acreditava, talvez,
serem imutáveis ao longo do tempo. O tema da repetição, que aparece como um componente da
desorientação, da Inquietante Estranheza, em Freud baseava-se num certo
temor de que um fato que envolvesse o ‘eu’ pudesse repetir-se
indefinidamente e independentemente de sua vontade, como o automatismo. E
é justamente, o fato de estar perdido, desorientado, de retornar ao mesmo
lugar contra a sua vontade, que provoca o sentimento do eterno retorno.
Quando Freud se perde nas ruas de uma pequena cidade italiana, o que lhe
parece terrivelmente assustador é o fato de ter de retornar àquela rua
onde todas aquelas mulheres perceberiam que ele estava perdido, andando
zonzo, totalmente desorientado. Muito mais a vergonha de revelar seu
estado, do que o medo ou o desconforto propriamente dito de que algo terrível
poderia lhe acontecer. A desorientação, o descontrole, são estados que
não gostamos de revelar, e que portanto devem permanecer ocultos. Talvez
por ser desestruturadora, desorientadora e pouco compreensível, é que a
Arquitetura Deconstrutivista recebeu fortes críticas por parte dos
arquitetos mais tradicionais e conservadores, no final do século XX,
recalcando-se em sua lógica construtiva em detrimento das riquezas de
seus aspectos de orientação. Certamente, para Freud seria difícil perder-se em uma
cidadezinha do interior da Itália. Essa sensação de não poder
controlar sua vontade de ir onde deseja ir lhe incomodava, suscitava o
desejo de retornar a um lugar seguro, de voltar a sua casa, ao conforto
doméstico do lar. Mas isso, para muitos, hoje, está longe de provocar um
sentido imediato ao retorno familiar, às coisas familiares, muito pelo
contrário. Revelar o oculto da casa concordando com Freud é revelar o
reprimido, as entranhas, as instalações, o esqueleto, o que faz
funcionar e sustentar a casa. Revelar o oculto, o sinistro, é sempre
revelar também o estranho e o surpreendente. Foi justamente com essa força
que trabalharam os Brutalistas Peter e Alison Smithson, Rogers e Piano no
Beaubourg, Archigram e sua Arquitetura Pop , ou mais pontualmente David
Greene, reavaliando o que seria o habitar, o lar para uma só pessoa, um
envoltório único, sua roupa, seu Living Pod, sua bolsa. Toda interpretação
estética de Freud, tanto em seus aspectos negativos ou positivos, sempre
tratou as pinturas e os livros, as obras e os fenômenos em geral, como
objetos que encobrem um segredo, uma ocultação, e que através de um
processo analítico se pode revelar esses elementos ocultos. Observa-se que Freud também relacionava o loop a uma
conjunção, a uma coincidência que pode acontecer, como no caso do número
62, que ele cita como exemplo. Coincidências estas que são vistas como
sinais, como premonições de algo, superstições, ou artimanhas do
acaso, objetivo tão explorado pelos surrealistas, como André Breton e
Michel Carrouges, por exemplo. Para os surrealistas o sentido ou o significado da imagem e
das coisas brota do encontro, isto é, não existe sozinho como fato ou
coisa isolado, brota da conjunção de duas ou mais partes. E quanto mais
distantes estas partes estiverem uma da outra em seus sentidos anteriores,
mais sentido e intensidade poética terá a nova imagem criada. O acaso
pondera de forma determinante nesses encontros. Agora, esse mais sentido
buscado pelos surrealistas é exatamente o mais sem-sentido. Entretanto, devemos observar que repetição não tem nada
a ver, pelo menos num primeiro momento, com reprodutividade técnica, a
reprodução infinita. A repetição pode ser limitada e pode não
produzir a eterna sensação do loop infinito como andar em um carrossel. O que se pode observar hoje é que o conceito da unheimlich
freudiana não é um conceito muito sustentável, pois é mutável ao
longo do tempo e carece de um sentido atualizado. O que ontem para Freud
ou qualquer contemporâneo seu pudesse ser algo ‘unheimlich’, sinistro
para nós, hoje faz parte do cotidiano e não nos provoca nenhuma sensação
temerosa. Pelo contrário, muitas vezes e em determinadas situações,
como estar perdido, pode ser extremamente lúdico e divertido. Atualmente, é difícil transladar os sentimentos da
unheimlich para a arquitetura, exceto dentro de outros suportes de
representação, como no cinema, nos filmes de terror gótico de Drácula,
Frankstein ou mesmo nas suas versões darks de Aliens. Uma das tentativas
bem sucedidas de aproximação da Inquietante Estranheza para o universo
da arquitetura foi feita em uma série de ensaios escritos por Anthony
Vidler em seu livro The architectural uncanny, essays in the modern
unhomely. Neste livro, como ele mesmo diz, “não tentei uma história
exaustiva ou um tratamento teórico do tema, tampouco construí ou
apliquei uma compreensão da teoria da uncanny baseada na fenomenologia,
na dialética negativa ou na psicanálise. Mas escolhi algumas aproximações
que se mostram relevantes para a interpretação dos edifícios e projetos
contemporâneos provocados pelo ressurgimento do interesse da uncanny como
metáfora da condição moderna”.
Os primeiros passos para uma organização dos sentidos,
tal como compreendemos, hoje, foram dados no Quatrocentos, quando se
inventou a perspectiva e se utilizaram vários instrumentos ópticos para
a representação em profundidade. Sentido este que logo se fez reticulado
como um tabuleiro, seguindo as regras gramaticais da confecção da
perspectiva: pirâmide visual albertiana, pontos imaginários no infinito,
linha do horizonte, distância do observador, etc. Foi nesta época que a pirâmide, que articulava o
cosmo-mundo segundo o eixo vertical ascendente-descendente, foi derrubada.
Ao se inverter a pirâmide substituiu-se o olho divino, localizado no vértice
superior, pelo olho humano, colocando-o no vértice deitado. Essa seria
exatamente a pirâmide visual, a veduta de Alberti, que proporcionava o
efeito de profundidade na superfície da tela, ilusão da realidade,
diametralmente oposta à representação e organização medieval. Esse
foi o princípio de uma gramática universal das imagens que se
estabeleceria nos séculos seguintes com todos os tratados de pintura e
perspectiva, em outras palavras, estabelecendo as origens das imagens técnicas,
da fotografia. É justamente essa orientação imposta pelas imagens técnicas
estabelecidas basicamente mediante os critérios de luz, distância, e
fotogenia, que norteia nossa vida atual, nossos sentidos. Praticamente
desde o Renascimento, toda a concepção do espaço tem-se fundamentado no
sentido de profundidade ou de verticalidade. Mas “o mais profundo é a pele”, já dizia Paul Valèry. “Portamos o espaço diretamente na carne. Espaço que não
é uma categoria ideal do entendimento, mas o elemento despercebido,
fundamental, de todas as nossas experiências sensoriais ou fantasmáticas.”
Didi-Huberman com outras palavras comenta esse mesmo deslocamento da
geometria que expliquei anteriormente, utilizando-se de uma passagem de O
Processo de Kafka. “Assim o homem do campo portava em seus ombros, na fadiga
do envelhecimento e no progressivo escurecimento de seus olhos, uma espécie
de geometria. Num certo sentido ele a encarnava, ele decidia sobre seu
tempo passado diante da porta, decidia, portanto, sua carne. Com freqüência
houve engano sobre o estatuto da geometria. Quando se fez dela – no
Renascimento, por exemplo – um simples ‘fundo’ ou uma espécie de
cenário teatral como nas pinturas de Piero de La Francesca, sobre os
quais se destacavam os corpos humanos e suas ‘histórias’
mimeticamente representadas; de maneira simétrica, houve engano - no
minimalismo, por exemplo - quando se fez da geometria um simples objeto
visual ‘específico’ do qual toda a carne estaria ausente”.24 A busca desesperada do sentido muitas vezes nos leva a
bater na figura da porta ou entrar no labirinto. A porta é o elemento que se abre, é a cisão, o corte que
permite a passagem dos corpos, estabelece um dentro e um fora, estabelece
uma ligação. Porta em si a própria existência do espaço, o inicio da
vida. Na antiga Escandinávia os exilados levavam consigo as
portas de suas casas, em alguns casos lançavam-nas ao mar e desembarcavam
no lugar onde encalhavam essas portas. Eram, a sua vez, passagens e bússolas.
Mas existem portas que não levam ao nada, num jogo
sinistro, um labirinto composto de portas e passagens, como no filme O
cubo. Na desorientação estamos simultaneamente dentro e fora,
ou simplesmente nem dentro nem fora. É essa desconfortável sensação
fora da lógica que define a sensação expressa por Heidegger, do
‘eu’ se ver desagregar e se tornar um objeto de representação para o
outro. De se abrir em nós o que nos olha no que vemos, apropriando-nos
mais uma vez da expressão de Didi-Huberman. A palavra desorientação associa-se a uma indisposição
espacial, uma desorganização. Isso porque acreditamos que orientar é
organizar e vice-versa, dar um ‘sentido’ às coisas. Daí a importância
da geometria ocidental, que sempre privilegiou a visão e a regularidade
dos espaços, os alinhamentos da cidade reticulada na formação do
sentido moderno. Quanto mais a sociedade do espetáculo avança em sua
trajetória ao nada, mais rígidas e especializadas suas formas se tornam.
Para a organização de nossa cultura foi necessária uma
disciplina imposta às formas, ao longo de alguns séculos, através de
estratégias estéticas compositivas baseadas em simetria, assimetria,
ritmos, em uma disposição dos corpos no espaço organizados e
disciplinados, sobretudo de uma acomodação da visão mediante as regras
da perspectiva, do distanciamento entre os corpos, e do incremento de luz
despejado sobre eles. Ou seja, a perspectiva não existe como coisa
natural, foi preciso criar e construir essa realidade pintada. O sentido da geometria clássica, ou dentro da própria
psicanálise, tem sido visto como uma tecitura de continuidades, tanto
visual, como literária e espacial. O sentido, nesse sentido, se dá através
da seqüência da ordem da continuidade. O ponto de enlace por excelência,
como disse Lyotard, em seu livro Discurso, figura. Entretanto, não devemos confundir a desorientação com o
estranhamento ou com o surpreendente (schock). Freud já apontava a
diferença, entre a palavra unheimlich e o surpreendente. A desorientação
nunca chega a ser uma surpresa, ela imediatamente joga o sujeito num espaço
indeterminado, num espaço liso, escorregadio, num tempo indeterminado,
onde não há lugar para o surpreendente, onde ele não faz o menor
efeito. O
estranhamento foi um recurso bastante utilizado pelos surrealistas, por
Eisenstein, Bertolt Brecht e também pelos artistas dos anos 60, com a
intenção de acabar com a apatia estética. O estranhamento pressupõe um
corte, um schock, um despertar; e não necessariamente uma desorientação,
muito menos pode ser visto como algo sinistro. Entretanto, no universo das
artes, alguns teóricos e críticos afiliados a Freud, principalmente a
escola francesa de estética, recorreram à Inquietante Estranheza para
designar, por outro viés, a teoria do estranhamento, do schock. A inquietante estranheza produz a desorientação, mas, uma
vez desorientado, nada mais produz a inquietante estranheza. A desorientação
é um deslize do espaço-tempo. Talvez o mais difícil de entender e
articular é que o sentido do espaço é também o sentido do tempo. Todo
nosso sentido, nossa compreensão do mundo, é fruto desse casamento
contratual entre espaço-tempo. Mas com a desorientação do espaço vem
junto o aniquilamento do tempo. O tempo zero. O sentido de orientação e desorientação do espaço-tempo
pode ser melhor compreendido com o auxílio dos conceitos de tempo cíclico
e de tempo linear. No tempo circular, característico dos povos
primitivos, a arquitetura e os espaços são quase imutáveis, a cultura
de um modo geral permanece a mesma. O que aconteceu com meus avós está
acontecendo comigo agora, e o que aconteceu comigo agora, acontecerá com
meus sucessores. Na cultura ocidental, linear e acumulativa, os espaços e
a arquitetura mudam freqüentemente, e se reserva à arquitetura o papel
de monumento, de reservatório da história. O elemento que resiste à
passagem do tempo. No tempo cíclico as orientações espaciais arquitetônicas
permanecem as mesmas devido à permanência das formas; já no tempo
linear elas estão constantemente mudando, provocando não só um estado
de constante desorientação, conforme a sociedade vai mudando, mas essas
desorientações são graduais, e na maioria das vezes permitem que só
possamos compreendê-las através das gerações. Por isso, utilizamos
flechas, placas, sinalizações para nos orientarmos no tempo e no espaço. A nadificação do tempo é esse período nem sempre agradável
que experimentamos quando estamos desorientados e sentimos um forte
impulso para retornar à casa, ao lar, como indicava Freud, e que não tem
correspondente nem no tempo cíclico, nem no linear, ou tampouco no
espetacular, constituindo uma outra categoria de tempo, muito próxima ao
que poderíamos designar como ‘tempo zero’, onde tudo se move mas o
tempo não passa. Onde o próprio tempo se contradiz. Uma experimentação
íntima, real, pessoal em todos os sentidos, mas que não existe para os
outros. Geléia ontem ou geléia amanhã, mas jamais geléia hoje,
dizia Alice. A desorientação também pode ser interpretada
circunstancialmente como “estar perdido”. Significa andar, andar e não
encontrar nenhum ponto de referência ou chegada. Uma situação onde
andamos em círculo como os ponteiros do relógio, o tempo passa, mas
temos a nítida sensação que permanecemos no mesmo lugar, no mesmo espaço
delimitado. Tudo é também igual nessa situação, todas as coisas se vêem
envoltas no velo do igual, e não conseguimos encontrar uma saída. É como estar no labirinto, como se todas as portas se
fechassem, nos sentimos como que aprisionados. Na desorientação estamos
sempre fora, fora de nós, fora do mundo organizado. Nesse estado o
interior passa a ser a saída, a orientação. Na desorientação podemos experimentar, entre outras, dois
tipos de sensações: uma, onde o tempo não passa, mas o espaço
permanece em sua extensão; e outra, onde o tempo passa, mas o espaço
parece condenado a um encarceramento definitivo. Tudo sugere que no estado
da desorientação existe uma ruptura da sincronia do enlace tempo-espaço,
uma outra compreensão do mundo, uma outra visão. O tempo da desorientação é o período no qual nos vemos
enquanto representação. Deslocados de tudo, de todos, inclusive de nós
mesmos, ocos. Passamos para o outro lado do espelho. É como se fôssemos
jogados ali sem saber porquê e nem quando. Lembro-me de um antigo seriado de TV, que ajuda a ilustrar
essa sensação de desorientação espacial temporal, O Túnel do Tempo,
cujos personagens são dois cientistas que viajam pelo tempo através de
uma curiosa máquina em forma de túnel, onde eram literalmente jogados em
diversos momentos e situações da história por essa máquina que havia
fugido ao controle. Funcionava aleatoriamente, andando à deriva ao longo
da história. Esses personagens, a cada vez que eram jogados nesses
momentos da história, experimentavam rapidamente essa forte sensação de
desorientação, sem saber o que estava acontecendo; para orientá-los, um
ou outro sempre comentava que deveriam estar, provavelmente pelas roupas,
ações, em determinado ano, em determinado lugar, cidade, ou determinado
fato histórico. Na verdade quem acabava orientando-os era o conhecimento
da história, a própria história universal, essa pseudociência que não
tem outra função do que a pretensa orientação temporal do homem, que
preferiu o tempo linear ao cíclico. O grande indutor da orientação e desorientação é o
conhecimento, reconhecimento e desconhecimento. Reconhecer um determinado
lugar, uma determinada situação, é orientar-se, dar um sentido. O
conhecimento é aquilo que explica, “agora faz sentido”. Mas numa época cada vez mais plena de mudanças e
desorientações, cada vez mais é necessária sua contrapartida: a aquisição
de memória a granel para guardar nosso conhecimento, para que não se
perca nosso sentido, nossa história. Mircea Eliade, em seu clássico Mito e realidade, nos dá
um ótimo exemplo da relação memória-esquecimento com a orientação-desorientação,
sentido e não-sentido. “Buda no Dighanyhâya afirma que os deuses caem do céu
quando lhes falta memória, e sua memória se confunde; ao contrário dos
deuses que não esquecem, são imutáveis, eternos, de uma natureza que não
conhece mudanças. O esquecimento equivale ao sono, mas também à perda
de si mesmo, ou seja, à desorientação, à cegueira”.34 Numa outra passagem, Eliade explica: “Mas a mitologia da
memória e do esquecimento se modifica, enriquecendo-se de uma significação
escatológica, quando se esboça uma doutrina de transmigração. A função
do Letes (esquecimento) é invertida: suas águas não mais acolhem a alma
que acaba de deixar o corpo, com o fim de fazê-la esquecer a existência
terrestre. Ao contrário, o Letes apaga a lembrança do mundo celeste na
alma que volta à terra para reencarnar-se. O esquecimento não simboliza
mais a morte, mas o retorno à vida”. O não-sentido equivale ao esquecimento e tem seu lado
positivo e negativo. Faz parte de um mesmo fenômeno, a busca da renovação
do sentido. O esquecimento está diretamente associado ao esgotamento
mental, aos traumatismos e à alienação. Apóia-se no esgotamento e nas
extensões humanas. O esquecimento é uma coisa absolutamente humana e é
visto por nós na maioria das vezes como algo negativo. Talvez seja por
isso que os computadores têm memória, mas não esquecem. Curiosamente
com a delegação da memória ao computador, como prótese mesmo, acabamos
por dar-nos ao luxo e relaxamento de esquecermos mais e mais e mais,
porque, como disse McLuhan, no lugar do corpo onde as próteses, as extensões
atuam, acaba provocando uma espécie de anestesia, uma atrofia da parte
metaforicamente amputada. Esse aparente non-sense, desorientação para a qual
caminha a sociedade, é fruto de um falso desejo patrocinado e controlado
pelos organizadores da Sociedade do Espetáculo: as corporações de
telefonia, informática, bancos, agências de cartões de crédito, indústrias
da segurança, etc. Cada vez temos mais mapas, radares, GPS, celulares, e
podemos ser localizados em qualquer parte, controlados, mapeados. Lembrando um pouco W. Reich, o corpo é o receptáculo da
memória e dos traumas, basta ativar certas partes para virem à mente
certas lembranças. Como o corpo é memória, e se o esquecimento é
incentivado pela indústria das memórias, isso significa uma certa política
de aniquilamento do corpo enquanto corpo e receptáculo da memória.
Quanto mais próteses de memória mais esquecimento. Em uma das passagens do livro Cem Anos de Solidão,
García Márquez nos apresenta uma curiosa doença que a princípio se
manifestaria através da peste da insônia e que evoluiria para uma situação
mais terrível: o esquecimento. Quando o enfermo acostumava-se a estar
acordado por dias e dias, sem sentir-se cansado, sua memória começava a
se apagar, gradualmente. Primeiro as lembranças de infância, depois o
nome e o sentido das coisas e das pessoas, e, num estado terminal,
esquecia-se por completo da consciência da própria existência, caindo
em um estado que Márquez descreveu como uma espécie de idiotice sem
passado. Os Situacionistas opuseram-se aos sistemas ideológicos, ao
trabalho e ao conceito de arte, ou, em outras palavras, a qualquer situação
onde aparecesse um sentido da vida, um sentido comum, lá estavam para
detoná-lo. A desorientação foi um elemento fundamental para a Teoria
da Deriva formulada por Guy Debord. A deriva era algo próximo à figura
do flaneur de Baudelaire. Os situacionistas perambulavam, como fizeram os
surrealistas André Breton e Aragon pelas ruas de Paris, ou como fez muito
antes Rétif de la Bretone em Les nuits de Paris, por seus labirintos em
busca de desejos subversivos e novidades. O perder-se era sempre o objetivo perseguido pelos
situacionistas, e para isso não mediram estratégias físicas e espaciais
para a desorientação. Para eles através da deriva era possível
conseguir uma consciência crítica do potencial lúdico dos espaços
urbanos e de sua capacidade para engendrar novos desejos”. No fundo, a Teoria da Deriva de Debord também reivindicava
e vinha somar com as proposições dos anos 60-70 de uma nova sociedade nômade,
onde a mobilidade deveria desempenhar um papel fundamental. A concepção
da cidade como um novo território nômade, onde se produzisse uma série
de desorientações programadas, aparece mais nitidamente na idéia dos
mapas psicogeográficos (naked city) de Debord. A deriva deveria
constituir-se numa ciência, que eles denominariam psicogeografia, e para
isso enumeraram toda uma série de campos de investigação científica
que poderiam ser utilizados pelo método psicogeográfico. Entretanto, deve-se pensar que vagar, errar, é sempre um
perder-se de certa forma controlado, e não significa estar perdido, como
por exemplo, vagar sobre territórios conhecidos em busca do inusitado.
Outra situação oposta é vagar em um território ou espaço totalmente
desconhecido, inusitado, tentando orientar-se, com o risco de se perder. Talvez a maior contribuição da Internacional
Situacionista, se tivéssemos que resumi-la, seria a tentativa de derrubar
todas as barreiras entre a arte e a vida. A arte como política revolucionária,
como estratégia de criar situações. Negando a própria condição da
arte tradicional, a IS e os Provos, 40 nos anos 50, já utilizavam a
cidade como palco e ferramenta para suas criações que libertariam a
sociedade. Como preferências e anticonformismos pela arte
tradicional, vão ter nas performances rápidas e irrepetíveis, na criação
de ambientes, na mail art, na criação de situações, na intervenção
sobre cartazes, nas decollages suas formas prediletas para acabar com a
apatia e a sonolência da sociedade do espetáculo. Utilizaram-se da estética do shock, do estranhamento e do
princípio do détournement (desvio de um objeto de sua função
original), que se apropriaram descaradamente do princípio surrealista da
collage, do acaso, para produzir suas situações. “Quando alcançarmos
o momento da construção de situações, a meta final de nossa atividade,
todo o mundo poderá manipular situações inteiras mudando essa ou aquela
condição determinante”. Uma das estratégias arquitetônicas para alcançar esse
fim era a utilização do labirinto. Os labirintos deveriam funcionar como
espaços de deriva através das cidades. Em 1959, no Stedelijk, Museu de
Amsterdã, a IS transformou algumas salas em labirintos, em uma clara
homenagem à obra de Gustav Hocke, Maneirismo, o mundo como labirinto. Constant, um dos principais integrantes, criou sua proposta
de anticidade: Nova Babilônia, baseada no princípio do labirinto
mutante. “O labirinto como concepção dinâmica do espaço, oposto à
perspectiva estática. Mas também e, sobretudo, o labirinto como
estrutura de organização mental e método de criação, vagabundeios e
erros, trajetos e caminhos sem saída, escapadas luminosas e reclusão trágica,
na mobilidade generalizada da época (mais aparente que geral), a grande
dialética do aberto e do fechado, da solenidade e da comunhão”. Para Constant, o que interessava era a invenção
ininterrupta, a invenção como modo de vida. Assim ele chegará à
‘arte da cidade como labirinto’, depois de ser expulso da
Internacional Situacionista por Guy Debord. O labirinto é o espaço para a desorientação. É a
metalinguagem da existência do espaço, do espaço bruto. Não é à toa
que para alguns autores é no labirinto, no mito do Minotauro e de
Ariadne, que repousa a origem da arquitetura. Talvez o documento mais importante sobre a desorientação
seja um pequeno mas contundente texto de Constant, O princípio da
desorientação, o qual trato de reproduzir quase em sua íntegra, abaixo: “É um fato óbvio que na sociedade utilitarista, a
construção do espaço baseia-se no princípio da orientação. Se não
fosse assim, o espaço não poderia funcionar como lugar de trabalho.
Quando o uso do tempo se põe desde o ponto de vista da utilidade, é
importante não perder tempo e minimizar os deslocamentos entre a casa e o
lugar de trabalho. Dito de outro modo, se valoriza o espaço à medida que
se utiliza com esse objetivo. Por esse motivo, todas as concepções urbanísticas,
até o presente, partem da orientação. Se pensarmos, entretanto, numa
sociedade lúdica, na qual se manifestam as forças criativas das grandes
massas, esse princípio perde sua razão de ser. Uma construção estática
do espaço é incompatível com as contínuas mudanças de comportamento
que se podem produzir numa sociedade sem trabalho. As atividades lúdicas
conduziriam inevitavelmente a uma dinamização do espaço. O homo
ludens atua sobre seu entorno: interrompe, troca, intensifica,
percorre os trajetos e deixa as marcas de sua atividade. Mais que uma ferramenta de trabalho, o espaço se converte
para ele em um objeto de jogo. Por isso quer que seja móvel e variável.
Como já não necessita deslocamentos rápidos, pode intensificar e
complicar o uso do espaço, que para ele é principalmente um terreno do
jogo, de aventura e exploração. Seu modo de vida será favorecido pela desorientação, que
fará com que o uso do tempo e do espaço seja mais dinâmico. Com o labirinto, a desorientação se persegue
conscientemente. Em sua forma clássica, a mais simples, a planta de um
labirinto mostra, num dado espaço, o trajeto mais longo possível entre a
entrada e o centro. Cada parte desse espaço se visita como mínimo e
solenemente uma vez: no labirinto clássico não se pode escolher. Mais
tarde inventaram labirintos mais complicados, acrescentando caminhos sem
saída, pistas falsas que obrigam a voltar atrás; entretanto, existe um
único caminho correto que conduz ao centro. Este labirinto é uma construção
estática que determina os comportamentos. A liberação do comportamento exige um espaço social,
labiríntico e ao mesmo tempo continuamente modificável. Já não haverá
um centro ao qual se deva chegar, mas sim um número infinito de centros
em movimento. Já não se tratará mais de se extraviar no sentido de se
perder, mas sim no sentido mais positivo, de encontrar caminhos
desconhecidos.
Numa sociedade lúdica, a urbanização terá
automaticamente o caráter de um labirinto dinâmico. A criação e recriação
contínua dos modos de comportamento requerem a construção e reconstrução
infinita de seus cenários, isto é o urbanismo unitário”. No labirinto clássico todos os trajetos são programados
entre duas paredes que vão dobrando e redobrando-se, sem sinais,
orientados a um final, a um ponto de chegada central, ou simplesmente a
uma estratégia de cruzar o espaço de um lado a outro. Uma vez dentro
dele, procura-se controlar e orientar seu trajeto para não voltar ao
ponto de partida, para não dar de cara na parede ou continuar a girar em
círculos, tal qual uma máquina desgovernada, um disco arranhado. O labirinto expressa o mundo existencial, simboliza o
inconsciente, o erro, a errância e o distanciamento da origem da vida. A
qualidade de perdido que determina a particular psicologia do paraíso
relaciona-se com o sentimento geral de abandono e de queda que o
existencialismo reconhece como estrutura essencial no humano, como afirmou
Jean-Eduardo Cirlot.45 Para ele o tema de se perder e tornar a se
encontrar tem seu paralelo no tema da morte e da ressurreição.
“Sentir-se perdido ou abandonado é sentir-se morto, pois, ainda que se
projete a culpa ou a causa desse extravio circunstancial, sempre reside um
esquecimento da origem e da ligação com essa origem que é o fio de
Ariadne.” O próprio fio que desvendou a lógica do labirinto
constitui em si origem do labirinto. O que Ariadne fez com seu fio foi
desdobrar o labirinto, esticar, desenredá-lo. Isto porque os labirintos
estão próximos dos entrelaçamentos, dos laços, dos arabescos, dos nós.
Do nó do universo, do caos. Há esse outro sentido para o labirinto, o de nó, um laço
que deve ser desatado. O que me fez lembrar de um trecho extremamente
esclarecedor e lúcido de R. D. Laing, em seu clássico livro, Laços,
que nos permite avançar na busca de uma saída para o labirinto. “A gente está dentro O sentido não está na origem, no centro, nem dentro, nem
fora do labirinto, não está em parte nenhuma; talvez possamos compreendê-lo
por sua mitologia. Certas culturas têm alimentado o mito de que o sentido
ou a essência está no centro, no vazio das coisas ou do labirinto. O próprio
Tao remete-se à utilidade das coisas e dos seres ao vazio. A origem é o centro do labirinto, seu fim e seu início.
Mas no centro não há nada, a não ser a história e o mito que
carregamos e adquirimos durante sua travessia. Exatamente no centro habita
o falso sentido de que em seu centro sempre existe algo, e que este algo
é o centro do qual tudo parte e tudo chega. E esse centro é sempre
vazio. Essa crença é encontrada também em Cirlot: “A
travessia, a peregrinação, a passagem, são formas diversas de expressar
o mesmo avanço, partindo de um estado natural para um estado de consciência
por meio de uma etapa na qual a travessia simboliza justamente o esforço
de superação. Essa travessia implica o avanço através do labirinto até
descobrir seu centro, que é uma imagem do centro, na sua identidade”. O vazio que se encontra no centro do labirinto, nos espaços
e lugares em geral ou nas salas vazias, faz parte de um sentido comum
secular muito discutido nas religiões, que gerou o equívoco de que a essência
reside no vazio, no centro, na relação entre o cheio e o vazio, entre um
dentro e um fora. Mas a história dos que conseguiram sair do labirinto
esqueceu de contar que para perceber esse vazio é necessário estar
presente ‘ali’. E o que se encontra no final do labirinto é sempre o
próprio ser ocupando o espaço, o ‘eu’. O vazio e/ou o silêncio não existem. Cabe reconhecer a
inexistência do silêncio, não só por dedução teórica, mas porque
dizem as orelhas, como disse ironicamente Quetglas. Na Antigüidade,
o labirinto simples e clássico possuía um centro, um coração, uma cabeça.
O que Constant de certa forma mapeava em sua proposta é que a analogia do
labirinto com o corpo, do centro como lugar do sentido, como coração, já
não faz mais sentido. Nos labirintos modernos já não há um centro e,
por isso, nos propõe uma Babilônia, uma gigantesca metáfora de uma
megalópole onde seria quase impossível seu registro, seu mapeamento,
pois estaria em constante mudança. Um outro mito que tem alimentado o labirinto é o de que
ele é o lugar do encontro. A função do labirinto da cidade nunca é o
encontrar-se, mas sim o perder-se. É uma armadilha, uma trampa
para aprisionar e matar. Seu objetivo é que, uma vez lá dentro, não se
consiga mais sair, seja por um motivo ou por outro. Só que nesse processo
do perder-se, o homem acaba, algumas vezes, encontrando seu sentido através
da desorientação. Os labirintos são literalmente prisões, assim imaginou
Piranesi em seu Cárceres. O seu oposto - a vastidão, o mar, o
deserto - não deixam também de ser uma espécie de prisão, labirinto,
assim visualizou Jorge Luis Borges em um conto de suas Mil e uma noites. Não é no fato necessariamente de vagar pelo labirinto,
numa espécie de novo nomadismo, que nos encontraremos, mas sim, talvez, o
permanecer estático ante sua imensidão e complexidade. O vagar a zonzo
em busca de uma saída só pode levar à loucura ou à diversão, que foi
a maneira encontrada pelos situacionistas para viver sua existência,
viver enlouquecidamente à deriva na cidade. Os mitos servem não só para explicar que todas as coisas
têm uma origem e servem de modelos para novas criações, mas sobretudo
para estabelecer proibições, criar medos e temores, supertições, o
oculto, a unheimlich. Mas o que oculta o espaço do labirinto clássico? Se não
há janelas nem portas, só dobras. Pode ele ser revelação, como crêem
alguns? Se nele não há a janela albertiana tradicional, não há ponto
de vista para a perspectiva, não há uma fuga. Os jogos infantis desde a Antigüidade até os atuais
videogames incorporaram o labirinto tratando-o como um elemento importante
na aprendizagem da orientação, para vivermos e nos deslocarmos com
habilidade dentro deles. Curiosamente é o labirinto (maze) um dos
primeiros véus que nos colocam para não ver que possa existir um fora,
fora o jogo do dentro e do fora. O papel do labirinto, de certa forma, tem sido de não nos
deixar ver o mundo que existe fora dele, ou pelo menos imaginá-lo. Sua
função é exatamente não só encarcerar o corpo, mas a mente também,
sob a alegação de proteção, de uma aprendizagem para a orientação,
de seu aspecto lúdico. A lógica do labirinto é a lógica do jogo. Mas esse jogo
tem uma função enganosa, típica do labirinto: uma vez dentro não se
pode parar de jogar. Sua lógica é a de não propiciar outra
possibilidade espacial fora do labirinto, a não ser de repetir sua própria
lógica do jogo. Os labirintos são como as mônadas de Leibniz, não agem
diretamente umas sobre as outras; elas não têm portas nem janelas pelas
quais tudo possa entrar ou sair, mas cada uma está em correspondência
com todas as outras. Deleuze serviu-se da metáfora do labirinto para explicar o
conceito de espaço em Leibniz, em seu livro A Dobra. Diz Deleuze,
“Leibniz explica em um texto extraordinário: um corpo flexível ou elástico
ainda tem partes coerentes que formam uma dobra, de modo que não se
separam em partes de partes, mas sim se dividem até o infinito em dobras
cada vez menores, que conservam sempre uma coesão. Assim, o labirinto do
contínuo não é uma linha que dissociaria em pontos independentes, como
a areia fluida em grãos, mas sim é como um tecido ou uma folha de papel
que se divide em dobras até o infinito ou se decompõe em movimentos
curvos, cada um dos quais está determinado pelo entorno consistente ou
conspirante. Sempre existe uma dobra na dobra, como também uma caverna na
caverna. A unidade da matéria, o menor elemento do labirinto é a dobra,
não o ponto, que nunca é uma parte, e sim uma simples extremidade da
linha”. O espaço ‘leibniziano’ é constituído como um labirinto
com um número infinito de dobras, algo similar à cidade composta de
quadras, casas, quartos, móveis, dobras dentro de dobras, dobras que
conformam espaços, como um origami, a arte da dobradura do papel. O labirinto serve-se de uma representação racional - a
geometria clássica - para explicar uma outra geometria espacial
existente, nem sempre visível de se representar, conformada por dobras
sobre dobras. A função da dobra, como a do labirinto, é ocultar,
cegar. Talvez, a morte de Deus explique e fundamente o mito da
modernidade, o fim da essência, o início da existência. A essência dá
lugar à existência. O mito à história. O espaço descentralizado ao
fim do centro como elemento estruturador e orientador do espaço. “Ao lado dos deuses supremos e criadores que se tornam dei
otiosi e se eclipsam, as histórias das religiões conhecem deuses que
desaparecem da superfície da terra, mas desaparecem porque foram mortos
pelos homens. Contrariamente à morte do deus Otisus, que apenas deixa um
vazio rapidamente preenchido por outras figuras religiosas, a morte
violenta dessas divindades é criadora. Algo de muito importante para a
existência humana surge em decorrência de sua morte”. Mas a crença de que existe um sentido do espaço, uma essência,
persiste em suas roupagens camufladas ou emboloradas. E, mais do que em
qualquer outra parte, ele sobrevive na historia e teoria da arquitetura,
na mente de muitos de seus teóricos que continuam a acreditar que a
arquitetura tem uma essência, um significado. Isso porque eles, talvez,
na maioria das vezes não são capazes de se desvencilhar de suas crenças,
sem deixar de levá-las para a arquitetura. Nossas estantes estão cheias
de significados, sentidos e essências desvanecentes, basta dar uma olhada
na grande produção bibliográfica arquitetônica a partir dos anos 70.
Esse modismo pode ser explicado ou justificado como uma reação à angústia
existencial surgida nos anos 50-60, e para superar essa angústia
recorreu-se à ciência da lingüística para voltar a significar,
preencher o mundo esvaziado. A história ou o passado parece que tem pouco a oferecer
para encontrar o sentido da arquitetura, isto porque a história é toda
senso comum, montagem de cacos, e o sentido nunca é princípio ou origem,
ele é produzido, criado, reinventado, constantemente como a própria história.
A idéia de que o sentido carregue uma profundidade só pode ter uma
explicação lógica na origem da representação em perspectiva. Numa
profundidade disposta na superfície de representação da pintura, numa
ilusão totalmente oposta à representação medieval, que abria portas e
janelas, derrubava paredes para mostrar a profundidade dos corpos,
misturava tempos distintos em sua narrativa, evidenciando um sentido que
se abrigava na profundidade dos corpos, no interior de suas casas. O sentido despeja-se na superfície. Na superfície que se
dobra sobre si mesma. Na continuidade entre direito e avesso, que se
confundem na seqüência das dobras, como na folha de uma revista com seu
verso e seu reverso, e com toda sua perversão da arte das superfícies,
que a collage explora muito bem. Devemos entender que o sentido incorpora
o outro lado da versão e que a pseudoneutralidade do sentido e da superfície
é inseparável de seu estatuto de duplo e paradoxo. A dobra é a
continuidade do avesso e do direito, do verso e reverso da folha, a arte
de instaurar esta continuidade entre as superfícies. Foi mais ou menos
assim que compreendeu Deleuze A lógica dos sentidos. O que está dentro está fora, e o que está fora, logo
pode estar dentro. “A superfície, a cortina, o tapete, o casaco, eis onde o
cínico e o estóico se instalam e aquilo de que se cercam. O duplo
sentido da superfície, a continuidade do avesso e do direito, substituem
a altura e a profundidade. Nada atrás da cortina, salvo misturas inomináveis.
Nada acima do tapete, salvo o céu vazio. O sentido aparece e atua na
superfície, pelo menos se soubermos convenientemente, de maneira a formar
letras de poeira ou como um vapor sobre o vidro em que o dedo pode
escrever”. Como frisou Deleuze, “De tanto deslizar, passar-se-á
para o outro lado, uma vez que o outro lado não é senão o sentido
inverso. E se não há nada para ver por trás da cortina é porque todo o
visível, ou antes, toda a ciência possível, está ao longo da cortina,
que basta seguir o mais longe, estreita e superficialmente possível para
inverter seu lado direito, para fazer com que a direita se torne esquerda
e inversamente”. O que ele nos diz, em outras palavras é que toda lógica
do sentido assenta-se sobre uma lógica do não-sentido, com toda a carga
de seus paradoxos, e que a superfície onde se funda o sentido se desdobra
constantemente, transformando-se em non-sense, e vice-versa como num anel
de Moebius. Mas o anel de Moebius também é um terrível labirinto,
ele é uma armadilha simples e perfeita para o mito do eterno retorno. A
metáfora do anel de Moebius ou da cortina com seu forro e opacidade é o
que realmente nos impede de ver um outro tipo de espaço que não seja
esse que se dobra e desdobra num contínuo infinito de repetições. A
perspectiva de quem vaga ainda sobre o anel ou a cortina é de um olhar
voltado para sua superfície de base, para seu horizonte infinito; a isso
continuamos a chamar tridimensionalidade ou profundidade redobrada pela
superfícies. É exatamente a opacidade dessa superfície, desse horizonte
incerto que a física nos faz duvidar a cada amanhecer, que não nos
permite visualizar as duas faces de sua superfície em simultaneidade,
criando a falsa ilusão de que ora estamos dentro, ora estamos fora. Mas
existe um ‘fora’ do anel, e esse fora que a lógica perversa do
labirinto, do anel com suas oposições, não nos permite ver. E quando
percebemos as repetições a que somos submetidos pela lógica do espaço,
quando nos vemos nos vendo, somos acometidos pela Inquietante Estranheza,
pela sensação de ficarmos como condenados a vagar pelo labirinto, ou de
nos transformar nas formigas que andam em um único sentido no anel
desenhado por Escher. Sempre poderemos ver o outro lado da superfície do
anel, da cortina, do espelho, mas nunca o que está fora da superfície ou
dentro da espessura inconcebível dela.
No corte, na emenda do anel, do labirinto, da cidade é que
se pode vislumbrar a possibilidade de que em algum momento eles possam se
tornar transparentes, revelando uma outra visão não só calcada e
recalcada em um sentido e em um não-sentido, mas uma visão completamente
distinta desde o dentro para fora, como do fora para dentro. Como se de
repente o labirinto opaco se espelhasse, refletindo o universo fora dele.
Mas a lógica perversa das mônadas diz que esse outro fora pode ser mais
um labirinto. O problema do labirinto, já não é o de entrar e
perder-se; para quem nasceu no labirinto, para os filhos do Minotauro, o
problema é sair dele. E na medida que a pseudo-imensidão de um ‘aí
fora’, do deserto, do espaço, é tão assustador quanto o próprio
labirinto, continuamos a espichar e a estender nossas cidades
interminavelmente até que nos expliquem uma outra lógica da compreensão
do espaço. Há os que dizem que no labirinto a gente não se
perde, a gente se encontra; há outros que defendem que o labirinto é o
lugar da perda. Na verdade o labirinto seja em suas dobras ou em sua dupla
superfície, é o lugar da simultaneidade da perda e do encontro; isso
porque faz parte mesmo da lógica do sentido e da cidade. Restaria uma
pergunta, talvez sugerida pelos Situacionistas, mas nunca dita, ou seja,
se a lógica da cidade assenta-se sobre a lógica do sentido, ou se a lógica
do sentido é fruto da lógica da cidade, ou de como se dá essa
correspondência? A desorientação, a inquietante estranheza é a percepção
da existência de uma fratura no espaço e no tempo. O lapso, a
descontinuidade, a emenda, a cola de quando se passa de dentro para fora
do Anel de Moebius. Pelo efeito da dobra, a cidade se apresenta ora como
uma produção ordenável lógica, ora como um labirinto ilógico, carente
de qualquer sentido, dependendo do lado da superfície em que estamos. O
sentido é muito frágil, se rompe fácil, quando sua superfície é
cortada ele caí na profundidade do abismo, dos significados. Deveria-se ainda pensar se o sentido da arquitetura não
deveria também ser interrogado no seu sentido de persistência, nessa
pseudo-essência da permanência, em sua imortalidade ante o tempo, ou
mesmo em sua transitoriedade. Ou ainda de ser não só a própria superfície
onde se integram as demais artes, mas o suporte onde se depositam as
proposições do sentido. Curiosamente, tampouco o sentido da arquitetura
está na superfície, em seu revestimento, como tentaram mostrar os Novos
Brutalistas ao pelarem a arquitetura mostrando a beleza de sua nudez, de
sua estrutura, criando uma espécie de anti-arquitetura, e reinventando um
novo sentido para a arquitetura, evidenciando seu aspecto de construção
bruta e de espaço existencial. A estória dos três porquinhos, nesse sentido é mais que
ilustrativa para mostrar os falsos sentidos da arquitetura criados entre
permanência e efêmero. Desde cedo a estória trata de colocar na cabeça
das crianças o valor de uma arquitetura sólida, permanente, em
contraposição à arquitetura frágil e efêmera. Por trás do pano de
fundo dessa estória encontra-se associada a valorização do trabalho,
onde aqueles que não trabalham devem morar numa arquitetura frágil e
perecer, ou então se abrigar na casa do porquinho prático. Era contra
isso que os Situacionistas, e principalmente Debord, em sua Sociedade do
espetáculo, se debatia. Só o sólido com seu paradoxo efemeridade tem
sentido para uma sociedade baseada na exploração do trabalho, na produção
pela produção, na sociedade de consumo. Para isso a estória opera
diretamente com o terror da sinistra figura do lobo mau que derruba as
casas com seu sopro. Ignasi Sola Morales, em seus últimos ensaios também
percebeu essas diferenças, “Os lugares da arquitetura atual não podem
ser permanências produzidas pelas forcas da firmitas vitruviana. São
irrelevantes os efeitos de duração de estabilidade, do desafio da
passagem do tempo. É reacionária a idéia de lugar como cultivo e
entretenimento do essencial, profundo, de um genius loci difícil de
acreditar em uma época de agnosticismo. Mas essas desilusões não têm
porque levar ao nihilismo de ma arquitetura da negação.” Encontramos falta de sentido em muitas coisas e em muitos
sentidos, como as já apresentadas anteriormente: a orientação, a existência,
a memória, o espaço do labirinto, etc. Mas existe ainda um outro sentido
não diretamente vinculado ao espaço, mas que poderíamos associar à
proliferação repetitiva das coisas, à produção excessiva de objetos,
às grandes megalópoles; toda essa infinidade de coisas, por um motivo ou
outro, acaba nos parecendo igual, despertando-nos a baunasia, a falta do
sentido do espaço, das cidades e da própria existência. A perda de
sentido é também a perda da individualidade, da identidade, anunciada
por Freud como o problema do duplo na unheimlich, ou a constante preocupação
apontada no IX e no X Congresso Internacional de Arquitetura Moderna sobre
a perda da identidade na arquitetura; ou ainda o triunfo do anonimato, a
perda da aura, anunciados por Edgar Alan Poe, Baudelaire e W. Benjamim. Para o sentido do espaço ou do lugar não existe o não-lugar.
Triste expressão, pois todo lugar é um lugar. Todo espaço é uma
possibilidade de um vir-a-ser ou do que já foi. O espaço é anterior ao
homem, e se não for é parte da extensão dele. Logo, é impossível
levar adiante a categoria de não-lugar como algo que inexiste. É
evidente que tanto para Melvin Webber, nos anos 60, como para Marc Augé,
o não-lugar não significa o não-lugar propriamente dito. Os espaços
que eles designam como não-lugares são lugares sem significação,
desatados do tempo, da história, da memória, iguais ou semelhantes em
todos os lugares, sem identidade. Desde sua ótica: desorientadores. Entretanto, dentro do sentido de orientação da sociedade
eles possuem um papel relevante de serem lugares de transição de uma
cultura a outra, de comungar o universal, de criar territórios orientáveis
em qualquer território distinto do viajante, ou mesmo dentro da própria
cultura. Por exemplo, uma das funções dos aeroportos é não provocar a
desorientação dos viajantes, mas sim amenizar qualquer desorientação
que se possa produzir, levando até ao paradoxal efeito de se ter
aterrissado no mesmo lugar. A maioria deles possui regras de orientações
comuns, ditadas mundialmente, como, por exemplo, embarque no segundo
pavimento e desembarque no primeiro, setores de check in, etc. Os rápidos deslocamentos de um ponto a outro, sem ao menos
percorrer as distâncias sobre terra, percebendo lentamente suas diferenças
de um território a outro, fazem com que os aeroportos e todos esses não-lugares,
façam parte de um código de orientação universal. Essa pseudo falta de
uma identidade formal arquitetônica bastante criticada, não é mais que
o correspondente de uma outra lógica formal, cuja função é não
provocar a desorientação, mas que infelizmente é pouco trabalhada em
termos de arquitetura. Não bastando todos os labirintos físicos e reais que nos
aprisionam, recriamos novos labirintos nos espaços virtuais. Pelo medo da
desorientação continuamos a construir labirintos por onde passamos. No mar ou no deserto da Internet encontramos muitas coisas
interessantes. Um trabalho plástico com um lúcido e interessante texto
é O lugar: agora... onde mesmo? Um labirinto, mais um labirinto de Duane
Michals. Um trabalho que mostra mediante textos e imagens que nossa
orientação é totalmente equivocada e imposta pela onipresença das
imagens técnicas, pela janela da máquina fotográfica. O texto diz o
seguinte: “O lugar é feito pelo olhar, mas o nega. Atrai a visão
e a modela. Tem uma luz artificial, mas que não vem substituir a do sol:
vem concorrer com ela, brigar com ela pela primazia de fazer ver o
existente. O lugar é feito a partir de uma janela: a janela da máquina,
a janela maquínica que abre para uma outra realidade – a realidade
virtual. Na casa, a porta é o limite entre o dentro e o fora. Na
casa, a janela é a abertura do fora, como um quadro para o dentro, e do
dentro como uma nesga para o fora. Mas agora, na casa outra janela se
abre, e vê-se um outro ‘fora’ por onde se entra, uma outra realidade
que luta com o dentro da casa e o fora da casa pela atenção do olhar, do
sentir e do pensar. Para as máquinas, funcionar, agora, é conectar-se aos
humanos e impor-lhes a inteligibilidade, os limites maquínicos. Como que convida para um labirinto, a máquina convida o
homem a ir consigo. O homem aceita”. O que elas dizem é dito num espaço sem compromissos de
fixar no tempo a mensagem – o que se vê/lê hoje pode desaparecer amanhã,
sem aviso. Endereços não são mais encontrados, a busca de links esbarra
em ‘file not found’. A NET é o espaço do puro presente, que foge do
futuro, apagando o passado”. Se certas coisas ou certas arquiteturas nos parecem hoje
sem sentido, não importa. Assim como o esquecimento, logo a memória
retorna, logo a face do não-sentido se desdobra e dá espaço a um novo
sentido. Quanto mais hoje as coisas pareçam sem sentido, mais sentido terão
amanhã, por força mesmo da natureza do sentido. O descortinar do sem-sentido sempre passa pelo labirinto,
cruza de ponta a ponta a cidade. Os poetas Floriano Martins e Claudio Willer escreveram um
interessante editorial para a revista Agulha sobre cidade e memória,
salientando a essencialidade do instante, da deriva, não apenas
recorrendo ao bordão da ruptura, mas antes sondando as inúmeras
possibilidades de identificação, complementaridade, desdobramento. “As cidades e sua música abrasada de extravios são uma
imposição de falsos encontros. Tudo é perda ali, a começar pelo que
julgamos encontrar: a idéia precária de localização que ostentam as inúmeras
sinalizações, os caminhos dados como únicos, ainda que bifurcados. A
rigor, a única razão para que o homem mergulhe no labirinto aflitivo da
malha urbana é a de buscar perder-se de todo e descobrir ali uma antítese
para o que lhe foi deturpado a caminho. Entrar ali para perder-se de si,
tratando de recuperar um outro já de muito desfeito. Portanto, as cidades
não são lugar de encontro, mas antes de acento da perda. Assim vale caminhar por elas, perdendo-se no esgotamento de
ruas e em sua escuridão ardilosa. Seguir por ali como quem recorda um
verso de René Crevel: ‘com as pernas abertas, uma cidade dorme nua
sobre o mar fosforescente’. Não descartar jamais o erótico. A própria
e cultuada beleza, de prédios, roupas, carros - a estética da
velocidade, seu charme domado - nos engana ao esconder o vazio em que se
ergue. O humano pode se instalar em qualquer espaço, mas deve levar
consigo o sentido. Hoje um ardil conceitual embaralhou o racional ao
irracional, proveniente de uma astúcia respaldada em certo temor atávico
do homem conhecer-se mais intimamente. As cidades devem ser vistas como um
convite a que o homem saia de si, sim, mas que essa aventura se justifique
por uma busca mais ampla de sua existência. Tocar as reentrâncias das cidades; beijar-lhe com sutileza
os caminhos, embriagando-lhes o passo. Um homem não pode compreender nada
fora de si se evita tocar-se. As mulheres estão mais próximas desse
conhecimento essencial porque sabem fazê-lo. Sabem preencher com mãos
internas e externas todo o ímpeto de sua vida. Os homens se distraem com
uma exuberância fortuita e erguem cidades onde ninguém mais se toca
entre si. Pensemos nas cidades como um aglomerado de casas e ruas
conectivas. Não temos aí senão uma fertilização da solidão. Os espaços
de convivência são ilusórios porque o mercado das almas prevalece em
tais sesmarias. As cidades são um lugar fecundo para que se perceba as
vozes que revelam as dissidências. Entregar-se a elas, perder-se nas
dobras insuspeitas. Tornar a vida uma grande aventura. Calvino a elas se
referiria como palimpsestos: raspando-lhes a face vamos dar em outra que
nos evita olhar e logo em mais outra que se abre despojada e outra mais e
mais, até o infinito. No entanto, o que quer que engulamos, terá seu
destino certo sob uma ótica que não é mais apenas laboratorial. As
cidades não são mágicas. Não são fantásticas. Não são indícios de
uma evolução humana. O próprio Calvino diria: não existe linguagem sem
engano. As cidades são a medida exata do homem que temos hoje. Este homem
tão afeito ao racional que consegue desconquistar-se. Não está mais. Não
é mais ele. E rigorosamente não ensina a si mesmo sequer uma rua mais
tranqüila para chegar ao espelho. Raspando a face do que nos mostra o cotidiano damos em um
imenso vazio desconfigurado. Não há cidades. Seguindo as placas, nada
muda, pois abolimos a distinção entre visível e invisível. Perdemos as
cidades, quando o ideal era nos perdermos nelas”. E quanto mais se estende essa busca pelo sentido, mais sem
sentido ela se torna. Este texto carece de sentido, até mesmo sua existência é
questionável. Qualquer intenção na tentativa de compreender o sentido
do espaço, percorrendo esses estranhos lugares em busca de um sentido, só
pode resultar numa tola incursão. Normalmente, atribuímos existência aos espaços e às
coisas, mas na realidade, sem nós, elas não existiriam. Pensar um espaço
como existente, significa pensar em si próprio. Infelizmente, na exigência da objetividade, acabamos por
abstrair os espaços, as coisas e conseqüentemente nossa própria existência.
Gabriel Marcel, certa vez disse: “Quanto mais eu acentuar
a objetividade das coisas, cortando o cordão umbilical que liga à minha
existência, mais converterei este mundo num espetáculo sentido como ilusório”. Para os existencialistas a existência precede a essência.
Em termos filosóficos todo objeto tem uma existência, um sentido e uma
essência. E essa essência é o próprio sentido, ou vice-versa.
Entretanto, muitas pessoas crêem que a essência vem antes da existência.
Essa idéia tem sua origem no pensamento religioso do século XVIII quando
se acreditava na existência de uma essência natural, um sentido para os
homens como natureza humana e, por exemplo, conceitos inatos do que
deveria ser uma casa, uma praça, uma escola, etc. O que derivaria
posteriormente na teoria dos tipos, na cruel teoria determinista do caráter
em psicologia. Exemplificando, Sartre em O Ser e o Nada, explicou
esse falso sentido da natureza determinista, ironicamente, citando o caso
das ervilhas e dos pepinos: “Muitas pessoas crêem que as ervilhas, por exemplo, se
arredondam conforme a idéia de ervilha, e os pepininhos são pepininhos
porque…” |
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Fernando Freitas Fuão (Brasil, 1956). Arquiteto. Organizou o volume Arquiteturas fantásticas (1999). Autor de Canyons (2001). Contato: fuao@vortex.ufrgs.br. Página ilustrada com obras do artista Carlos M. Luis (Cuba). |