Carlos M. Luis Agulha - Revista de Cultura Carlos M. Luis

 

revista de cultura # 39 - fortaleza, são paulo - junho de 2004

Editorial
Identidade cultural: se não se espalha não se espelha

A idéia de uma “Identidade Brasil” é algo que já nos persegue há muito. Por mais que vá sendo ultrapassada ou aparentemente vencida está sempre a ressurgir. Estamos sempre a dois passos de um novo acesso de xenofobia. Mário de Andrade falava em polifonismo e simultaneidade, e pode-se mesmo dizer que aí se encontraria a grande raiz de toda a cultura brasileira, nesta cascata de vozes inúmeras que se entrecruzam não para formar um novo núcleo mas sim para seguir criando multiplicidades de perspectivas artísticas e culturais.

Conceitos como “Identidade Brasil” ou “Povo verdadeiro”, mais do que simplesmente regressivos, são excludentes, endogâmicos, restritivos. E há nuanças as mais escorregadias, como a negação do passado ou uma afirmação do insular como condição propícia para se proteger uma cultura. Há exemplos de ambas tanto no manifesto do Concretismo quanto na apologia de uma cultura popular do Nordeste do Brasil levada a termo por um ideal positivista.

O assunto é delicado, por mais que recorrente, e ainda conduz a enganos como a crença na necessidade de se produzir mais conteúdo nacional (nos meios artísticos e jornalísticos, por exemplo) como fator condicionante de um fortalecimento cultural. Adicionar elementos, sim, mas não limitá-los a uma feição única. Não permutar xenofilia por xenofobia. Não adianta, por exemplo, discutir que 80% dos filmes que entram no Brasil são importados considerando este percentual como uma necessidade apenas quantitativa de fazer circular mais cinema nacional entre os brasileiros. A rigor não temos uma tradição cinematográfica tão rica quanto nosso carente prosaísmo ufanista decanta. Todo o recurso destinado pelo Estado à produção de cinema – que é demasiado e em completo desequilíbrio com as demais áreas de criação artística – deveria ser reavaliado e em grande parte deslocado para cursos de formação de roteiristas.

Em meio a essa discussão em torno do que seja genuinamente brasileiro, o Ministro da Cultura observou que, “se cruzarmos os braços poderemos ter nossa cara cultural ameaçada”. Mas é preciso que o Ministro esclareça que a ameaça não vem de fora e sim de dentro. Como não temos ações que despertem nossa sensibilidade – e não se trata aqui de apologia do folclore em seu sentido mais cristalizado -, estamos sempre às voltas com as reações, não chegando sequer a estabelecer uma cultura do protesto mas sim uma paisagem dispersa de atônitos personagens que perceberam demasiado tarde que havia algo em questão.

Uma visita ao site do Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, nos leva a essa retomada de uma “Identidade Brasil”. Uma declaração do diretor Guel Arraes cabe aqui com justeza à nossa observação. Diz ele que “temos no Brasil uma situação privilegiada, com todo o horário nobre ocupado com produção brasileira”, logo concluindo que “o povo brasileiro ama a televisão brasileira”. O que seria então uma televisão brasileira, considerando a existência de outras empresas televisivas – com programação de alguma maneira distinta – e a clonagem de modelos da televisão estadunidense em grande parte dessa programação? Pensando ainda no já referido conteúdo nacional, em termos de argumento ele já foi melhor resolvido em produções de outras décadas, tendo hoje se convertido em didatismo exemplar, com um sentido moral quando menos questionável, sobretudo considerando seu poder de intromissão nos destinos do público, o povo brasileiro.

A cultura de massas é uma arte da indução e não do esclarecimento. No entanto, no afã de uma recaída nacionalista nos pegamos com todos os detalhes quantitativos e à mão, esquecendo (sempre) a qualidade e o submerso. Diz o ator José Wilker que “os franceses são de um rigor, de uma exigência e de um deleite, um prazer com a cultural nacional deles”. Há pelo menos duas maneiras de deleitar-se com a cultura de cada país: expandindo-a ou enclausurando-a. Pensando em termos de música encontramos exemplos em Hermeto Pascoal e Antonio Carlos Nóbrega, frisando o respectivamente.

A rigor, esse deleite – como qualquer outro - não pode ser usufruído se não se difunde. Se não se espalha não se espelha. E a grande infusão realizada por nossos meios de comunicação (termo que hoje é de um eufemismo extremo) diz respeito a uma digestão mais fácil, o que acaba contribuindo intencionalmente para manter em índices os mais ínfimos a sensibilidade brasileira. Trata-se, a rigor – o rigor a que se refere José Wilker com relação à cultura francesa, mas que se faz de desentendido quando o assunto é Brasil – de uma manipulação da sensibilidade, onde não somos levados a experimentar mas antes nos tornamos experimentos, espécie de cobaias de um deus solúvel.

O assunto de que trata este editorial está plenamente compreendido por todos aqueles nomes aqui referidos. O que mais nos inquieta é a complacência de todos em relação ao tema. Será esta a verdadeira “Identidade Brasil”, a benevolência, a comprazia? O Ministro da Cultura tem lá a sua razão: se cruzarmos os braços o mundo se desfaz. Mas que mundo estamos querendo impedir que se desfaça? Os elementos que já aportamos aqui parecem ser suficientes para o convite a uma discussão. Agulha gostaria de ouvir seus leitores, invocando a multiplicidade de vozes para tratar de um assunto que não requer senão outra compreensão: a da multiplicidade.

Os editores

Sumário

1 a propósito de surrealismo e dos manifestos de andré breton: algumas comparações. claudio willer
2 andrei tarkovski: através de uma fina película transparente. vicente franz cecim
3
caminhos do rock. pablo laignier
4 diálogo com manuel gusmão (entrevista). floriano martins
5 eis dois cachimbos: roteiro para uma leitura foucaultiana de rené magritte. jorge lucio de campos
6 gerald thomas: "não quero e não posso aparecer no brasil tão cedo" (entrevista). antonio júnior
7 gilce velasco: a mulher e os jogos. daisy peccinini
8 israel pedrosa: poéticas da cor nascente. mirian de carvalho
9 los sueños sanguíneos de irene arias. josé ángel leyva
10
louise bourgeois: el tránsito de la memoria. miguel ángel muñoz
11 manuel bandeira y la lengua veraz del pueblo. rodolfo alonso
12 murilo mendes y joão cabral de melo neto: dos hispanistas brasileños. márcio catunda
13 o desejo do silêncio: r. roldán-roldán (entrevista). joão batista nunes
14 o sentido do espaço. em que sentido, em que sentido? fernando freitas fuão
15 poiesis: diálogo com rodrigo petronio (entrevista). wanderson lima

artista convidado carlos m. luis (vária) texto de lorenzo garcía vega
resenhas livros da agulha azougue 10 anos (por sérgio cohn, rosa alice branco (por claudio willer), aloysius bertrand (por adelto gonçalves), miguel motta (por héctor rosales), ignácio de loyola brandão, ana marques gastão (por fabrício carpinejar) & roberto romano
cumplicidade
galeria de revistas (artigos & entrevistas) [5 novas revistas nesta edição: arquitrave (colombia), fronteras (costa rica), salamandra (espanha), tropel de luces (venezuela)]
catálogo triplov.com.agulha.editores

Expediente

editores
floriano martins & claudio willer

projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

correspondentes
alfonso peña (costa rica)
américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(uruguai)
carlos véjar
(méxico)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
josé luis vega
(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
maría antonieta flores
(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

saúl ibargoyen (méxico)
sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (vária)
carlos m. luis

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