revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004






 

Valdir Rocha: a palavra, a imagem e o olhar
(entrevista)

Claudio Willer

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Valdir RochaDesde o final da década de 1990, a obra e a atuação de Valdir Rocha vêm atraindo a atenção. Ou melhor, o modo como ambos, obra e atuação, se confundem ao se realizarem através de mostras, e de originais projetos editoriais e multimeios. Neles, poetas são convocados para dar continuidade, no plano do texto, às obras visuais. Ou então, são estimulados a criar para publicações pensadas por este artista. O resultado está em uma série de edições - Intimidades Transvistas, Fui eu, Xilogravuras, Testamentos – que, somando-se às edições de obras do próprio Valdir Rocha, como Gravuras em Metal e Cabeças, sem dúvida inovam nesse campo.

A seguir, algo sobre a gênese dessas obras e o pensamento de Valdir Rocha, as idéias que norteiam e dão sentido a essas iniciativas, e também exemplares de sua criação visual, no dizer do crítico Jorge Anthonio e Silva (na publicação de Gravuras em Metal), imagens inconclusas ao olhar precipitado, mas geratrizes de intranqüilidade ao olhar responsável pela vivificação atemporal da arte, e também uma arquitetura de representações hieráticas de acentuada majestade, expressões contraditórias, ambigüidade latente, e força expressiva feita de antagonismos que se organizam subjetivamente no espectador como um jogo solitário. O que vem a seguir é complementado pelo que já consta no Jornal de Poesia de Soares Feitosa, em www.jornaldepoesia.jor.br/feito111.html. [CW]

CW - Em primeiro lugar, queria saber sobre sua gênese, sua formação. Como se dirigiu para as artes plásticas e, correlatamente, parece-me, às artes gráficas? O que o influenciou ou fez despertar sua vocação? Em outras palavras, de onde você saiu?

VR - Voltei-me às artes plásticas, inicialmente, como mero espectador. Isso mesmo: quando adolescente, meu primeiro emprego, como "office-boy", levou-me a trabalhar como andarilho profissional a executar tarefas nas ruas do Centro de São Paulo. O dia inteiro ocupava-me com ir de lá para cá, de um a outro lugar. E era ligeiro; modestamente, gastava metade do tempo dispendido pelos meninos, meus colegas, para executar e bem as mesmas tarefas. Meu chefe então mostrou-me que isso era bom mas tinha um lado ruim: reconhecia meu empenho e, concomitantemente, ficava preocupado com que seus superiores viessem a entender que ele não necessitava de um auxiliar. Orientou-me, assim, a usar o tempo, conforme as tarefas que me atribuía. O tempo sobrante, eu utilizei para ver. Ver muito. O centro da Cidade era uma delícia para mim, que vinha de bairro periférico.

E vi tudo, sobretudo multidões e muitíssimas exposições. Lembro que as principais galerias de arte, naquela época, estavam localizadas no Centro da Cidade e mesmo o Museu de Arte de São Paulo tinha a sua sede na Rua Sete de Abril. Trabalhava seriamente e deliciava-me, também. Foi naquela época que descobri que nunca tivera antes uma aula de verdade sobre desenho, que era o nome da disciplina que deveria apresentar as artes plásticas, no antigo ginásio: meus professores limitavam-se a indicar umas tolices a copiar. Sempre fui péssimo em cópia; não aprendi essa lição e os professores não conseguiram ensiná-la a mim; ficamos empatados. Daí que minha formação, no âmbito das artes plásticas, deu-se pelo método conhecido como autodidático: aprendi vendo; ensinou-me quem me surpreendeu o olhar.

Aprendi, por mim, com tantos, lições libertadoras. Aprendi e apreendi só o que me interessava; todos os que realizaram as coisas que vi - e apreciei ou não - ensinaram-me o que buscar e do que me afastar. A minha lista de influências seria imensa, pois.

Adolescente, pus-me, sozinho, a estragar materiais até obter os primeiros resultados. Joguei, sem dó, muita coisa fora (como ainda continuo a fazer).

O autodidatismo, no início e durante muitíssimo tempo, decorria também da total impossibilidade de tomar aulas, fosse porque não tinha como pagá-las, fosse porque não teria como adquirir materiais normalmente solicitados a acompanhar lições, porque àquela altura - se tivesse recursos - talvez eu soubesse escolher um professor avesso a ensinar cópias. Adolescente, realizei algumas exposições coletivas e uma individual e soube, de vivenciar, que teria de ganhar a vida com outros recursos, até porque – aí há vaidade - nunca quis fazer concessões, não queria usar esta ou aquela cor, este ou aquele motivo - que não fossem meus - só porque eram vendáveis.

Tive todo apoio de meus pais, dentro de suas possibilidades materiais, para minhas escolhas - não posso esquecer.

Decidi continuar desenvolvendo minha pintura, meu desenho, mas sem com eles me obrigar a ganhar o dinheiro necessário a levar a vida. Sabia que correria o grande risco de deixar tudo aquilo pelo caminho. Felizmente, mantive disciplina de trabalho permanente; desenhei e pintei, no mesmo passo em que fui fazendo outras coisas.

Cuidei do pão e da paixão, como as circunstâncias permitiram.

Fiz o Curso de Letras e depois a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, onde, subseqüentemente, concluí o Doutorado e obtive a Livre-Docência. Muitos dos que conhecem meu trabalho dessa área nem sequer sabem da minha paixão pela criação artística, e vice-versa.

Como vê, não tive aquela formação dita metódica nas artes plásticas - o que, sem dúvida, deve ter muitos prós e muitos contras.

CW - Nesse percurso, houve artistas ou obras de artes plásticas que o impressionaram especialmente, o influenciaram ou, em outros termos, "fizeram sua cabeça"?

VR - Desde antes de me propor a ingressar nos domínios incertos da criação, tive a oportunidade de tomar contato com a obra de inúmeros artistas. Tantos foram os que me impressionaram: Giotto, Brüeguel, Rembrandt, Goya da fase negra, Van Gogh, Picasso…

Admiro, por princípio, simplesmente e só um pouco, cada autor sério, disciplinado e buscador, mesmo que não tenha empatia com sua obra. Valorizo a busca, sabedor de que cada qual tem lá seu caminho e poderá chegar a algum lugar, desde que se ponha a andar. E admiro, de modo especial, aqueles que, além de buscarem, encontraram, dizem ou disseram com personalidade.

Para dar nomes de alguns artistas brasileiros que acharam algo, menciono Livio Abramo, Oswaldo Goeldi, Marcelo Grassmann e Odetto Guersoni (na gravura) e de Alfredo Volpi e Portinari (na pintura), dentre aqueles que admiro. Mais que todos, parece-me que Wega Nery terá criado obra pessoal, singular, pronta e acabada, de grande valor intrínseco - a sua criação pictórica, a partir das paisagens imaginárias, é o que vejo de mais rico no cenário das artes plásticas brasileiras.

Admiração é uma coisa; influência é outra. Admito admirar, porque admiro mesmo, a muitos. Nego influências, ainda que admita poder tê-las, inconsentidamente. Acontece que, por puro medo, fujo das influências, pois nessa seara da visualidade, todas elas parecem-me danosas e perversas. Atrevo-me.

Quem me fez a cabeça terá sido habilíssimo: cuidou também de não me deixar registro cômodo e consciente de sua atuação. Não gostaria que isso fosse visto como mera ou vera presunção, mas sim como espécie de vacina constantemente renovada. Tenho, admito, a vaidade de procurar produzir coisa com marca pessoal, ainda que não a encontre jamais. Mário Quintana escreveu, no Caderno H, que "Um pintor, por exemplo, não pinta uma árvore: ele pinta-se uma árvore." Cada desenho, pintura, gravura ou escultura há de ser um auto-retrato, independentemente de seu assunto.

CW - Fale sobre essa relação que você promove entre criação visual e poesia.

VR - O meu interesse pela literatura é bastante antigo. Fiz a Faculdade de Letras e lecionei Literatura Brasileira no Curso Colegial. A poesia e a ficção sempre me falaram alto.

Acho essencial a todos os homens essa incursão nos estimulantes domínios da palavra. Não quero com isso dizer que toda pessoa deva exercitar a literatura como criador; quero, sim, afirmar que a leitura é um meio enriquecedor de tantos quantos a ela se dedicam. 

Criar é revelar; acessar a criação é contatar com a revelação.

A poesia e a ficção revelam muitos mundos; permitem viagens sem deslocamento; promovem diálogos acalorados entre calados…

Valdir RochaVejo como coisa natural e necessária acompanhar a abordagem de assuntos e temas que me são caros, visualmente, por aqueles que se valem da linguagem literária. Quando leio, acompanho mais o que aponta para os assuntos de que me ocupo.

A palavra ilumina o olhar, assim como a imagem visual há de aguçar a palavra. 

Desenvolvi projetos que contaram com a participação de muitos poetas - hoje são dezenas aqueles com que tenho alguma espécie de parceria em livros que reproduzem minhas pinturas e gravuras (Intimidades Transvistas, Escrituras, São Paulo, 1997, com 20 poetas; Fui Eu, Escrituras, São Paulo, 1998, com 41 poetas; Xilogravuras, Escrituras, São Paulo, 2001, com 4 poetas).

Além disso, há algumas produções surgidas espontaneamente, especialmente no âmbito da Internet, que me têm dado muita alegria, como é o caso muito especial de um poema e de um conto de Soares Feitosa, textos que conversam com a minha pintura "Fui Eu".

Os poetas e os ficcionistas - descobri há muito tempo - são olhadores privilegiadíssimos. Vejo-me com os olhos deles.

CW - Vejo que seus projetos de cooperação ou interação ou diálogo entre o visual e o texto crescem. Começam com uma antologia de poetas ilustrados por você (aliás, ilustrados e também, parece-me, diagramados, visualmente programados, foi isso?). E uma recíproca, poetas ilustrando literariamente um quadro seu, Fui eu. A partir daí, as dimensões e possibilidades de variações desses trabalhos foram crescendo, tornaram-se edições em vários volumes, séries de poetas que você ilustrou ou programou visualmente, e também vários volumes do mesmo poeta, no caso, de Celso de Alencar. E, nesse projeto, você multiplica as dimensões do diálogo, convoca poetas-críticos a participar, para escreverem sobre os volumes do Celso de Alencar. Onde isso vai dar? Até onde se expandirá esse diálogo? Você tem idéia de quais serão os próximos projetos? Conte algo, também, sobre a gênese desse projeto recente com o Celso. Como ocorreu a idéia? Foi você quem propôs os temas? Qual a razão desses temas, alguns bíblicos, todos lendários ou arquetípicos?

VR - Suas indagações dão-me a oportunidade de fazer esclarecimentos muito importantes: primeiro, nunca ilustrei qualquer livro. Não sou ilustrador; não desenvolvi nem quero desenvolver essa aptidão. Valorizo muito o trabalho dos ilustradores mas não está em mim ser um deles.

Efetivamente, no livro Intimidades Transvistas compareceram vinte poetas com quatro poemas cada, criados em torno de oitenta diferentes pinturas minhas. Por iniciativa do editor, cada poeta recebeu quatro fotografias de pinturas minhas, por ele escolhidas, com indicação dos respectivos títulos e o convite a realizarem poemas a partir do assunto, tema ou situação por elas sugeridos. A rigor, não houve trabalho de ilustração: as pinturas precederam os poemas. Houve certa inversão da ordem habitual: os poemas, todos inéditos, partiram de algo sugerido pelas pinturas, com elas se harmonizando, mas funcionando independentemente também. Os poetas presentes nesse volume foram escolhidos pelo editor, que se incumbiu da diagramação visual (não sou diagramador). Fiz sugestão de alguns nomes de poetas de quem conhecia a produção - alguns aceitos, outros não -, sendo de se assinalar que nem sequer conhecia a obra de muitos dos que afinal foram reunidos.

A poeta Eunice Arruda procurou-me, depois, com uma idéia que concebera: consistia em reunir um número significativo de poetas de sua escolha pessoal a quem ela convidaria para escrever cada qual um poema, sempre em torno de uma única pintura, exatamente Fui eu, que, aliás, ela conhecera por estar reproduzida no livro Intimidades Transvistas, de que e participara. A inciativa, sinceramente, agradou-me e, apoiando-a, cuidei de multiplicar cópias fotográficas da pintura, que foram enviadas aos autores convidados. A coordenação da Eunice Arruda, que eu não conhecia pessoalmente antes desse trabalho, resultou em volume com a participação de 41 poetas. Aproveito para anotar que Eunice Arruda, como coordenadora do volume, dissera-me que não incluiria poema seu no volume e eu insisti muito em sua presença como autora. Assumo essa responsabilidade; não se trata de compadrio mas de insistência decorrente da admiração que tinha e tenho pelo trabalho dela, que usa a palavra parcimoniosamente, com peso, severidade e certa rudeza até. Diria que ela escreve com os mesmos elementos com os quais eu há muito procuro desenhar, pintar, cavar.

Na seqüência, surgiu o volume Xilogravuras, que reuniu o conteúdo de quatro álbuns. Nesse caso, usei de escolha pessoal e convidei os poetas Álvaro Alves de Faria, Celso de Alencar, Eunice Arruda e Raquel Naveira a, depois de conhecerem as minhas gravuras de cada álbum pronto e acabado, a desenvolverem poemas para elas. Insisti em que fossem poemas que se reportassem aos assuntos objeto das xilogravuras, mas que funcionassem também quando delas separados. Ou seja, ninguém ilustraria ninguém. Fiquei feliz com a aceitação dos convites.

No caso específico do livro Testamentos, de Celso de Alencar, a história foi em tudo muito diferente. Desafiei o Celso a escrever dez seqüências de poemas, cada uma delas enfeixada por dez títulos que eu apresentaria, um a um, progressivamente e só depois de concluída cada etapa mensal. Segundo as regras do jogo que apresentei, a continuação poderia ser destratada se o tema não lhe interessasse ou parecesse impertinente etc. Da minha parte, também poderia pôr um paradeiro se a etapa dada como concluída deixasse a desejar. Um e outro não necessitaria justificar o fim de jogo. Desafio aceito, Celso pôs-se a criar os poemas. Algumas seqüências, sinto, terão sido mais duras ou doloridas ao poeta porque o título proposto possivelmente mexia muito com experiências pessoais mais entranhadas, ou, de antemão, dissesse pouco. O título de uma das seqüências, O Filho Pródigo, foi sugerido por Jorge Anthonio e Silva e, de início, relutei em aceitá-lo, mas depois convenci-me de que era em tudo muito adequado, pois buscava alternar títulos que fizessem o poeta transitar entre o sacro e o profano - esse era o único motor das provocações. Eu mesmo não tinha, desde o início, os títulos de todas as seqüências e eles foram surgindo com o desenvolvimento do texto. Pandora foi título apresentado com a solicitação de que se escrevesse na primeira pessoa do singular, com narrativa feminina, e o Celso aceitou. Uma particularidade: o título Testamentos, que dei ao volume, só o revelei ao Celso (que se pôs de acordo com ele) quando quase pronto todo o texto do livro. No volume editado, as seqüências aparecem na ordem inversa à da feitura ao longo dos meses. Os dez poetas-críticos convidados a escrever sobre cada uma das sequências, por minha iniciativa, foram escolhidos de comum acordo com o Celso. A escolha buscava, de algum modo, chamar posfaciadores que, a nosso modo de ver, tivessem alguma ligação com cada temática.

Entendo que é muito frutífera a interação entre as diferentes formas de manifestação criativa. Continuarei a provocá-la sempre que me ocorrerem idéias aproveitáveis.

Sinceramente, não sei onde isso vai dar. Estou aberto a diferentes caminhos.

CW - Perguntaria se você acrescentaria algo. E faria apenas observações adicionais, que você pode comentar. Algo bem observado no extenso e detalhado (e bem fundamentado) ensaio de Péricles Prade sobre sua série de esculturas, Cabeças - a volta do totêmico - talvez uma versão pessoal da famosa inversão oswaldiana do tabu em totem. Primitivismo, diálogo com máscaras, cabeças e ícones de culturas de sociedades tribais, recuperação de uma origem, isso equivale a um projeto, a uma busca proposital em sua criação?

VR - As cabeças atraem-me, absorvem-me e consomem-me. Quando comecei a traçá-las embrionariamente eram coisa muito diversa daquilo a que cheguei com elas ou elas chegaram-se a mim e em mim.

Valdir RochaTalvez, no início, minhas cabeças estivessem mais próximas dos retratos. Desinteressei-me completamente pelos retratos e passei a ocupar-me apenas de tentar registrar atitudes e estados de ânimo. Possivelmente para atingir esse propósito, fui me valendo de simplificações e distorções que me permitissem ficar apenas com o essencial, por um lado, e expressar mais com menos, de outro. Daí essa remissão que faz referir-se ao primitivismo. Certamente não me entendo como um primitivo. Assumo que sou um simplificador deliberado (que já terá tido seus dias de complicador).

Quanto às máscaras, converso com elas mas já dialoguei mais. Hoje estou mais próximo do desmascaramento nu e cru de meus personagens. Acentuo: trato minhas cabeças como personagens que são; cada um deles tem uma história pessoal completa (com começo, meio e fim), que ignoro antes de trazê-las à luz.

A concentração nas cabeças, inevitavelmente, acaba me levando a muitas paragens - o que inclui todas as culturas, todas as tribos, orientais, ocidentais, sejam elas ancestrais, contemporâneas ou pósteras - universais e pantemporâneas. Nesse sentido, inclui-se desde a recuperação de uma origem até a projeção de destinos. Todos os homens são, foram e são um só.

Ao meu trabalho, interessam os mitos, os místicos, o que está no alto e no chão e sobre todas as coisas suas atitudes. Até quando lido com "simples" paisagem tenho em mira os personagens ou sua ausência.

Sobre a minha criação, sei mais do que não quero para ela. Meu projeto de criação diz muito com a constância do trabalho, que não quero circunscrito e predefinido exatamente para não desperdiçar as oportunidades apresentadas pelo acaso e pelo espontâneo.

CW - Algo sugerido pelo ensaio de Carlos Soulié do Amaral sobre suas gravuras em metal - há, sim, uma releitura da vida urbana, metropolitana - todas essas caras, essa diversidade de ícones e de fisionomias, pode ter uma relação com a diversidade caótica da vida na metrópole, sem dúvida sua primeira influência ou fonte de informação visual, pelo modo como você percorria a cidade como mensageiro, observando-a, ao trabalhar nas ruas, como relata na resposta a nossa primeira pergunta.

VR - Aceito bem a leitura urbana, metropolitana, que se faz de meu trabalho. Eu mesmo não tinha e não tenho ainda agora a preocupação consciente de promover releitura urbana. Carlos Soulié do Amaral viu mais do que eu em meu próprio trabalho; e penso, refletindo, que viu certeiramente. Todo texto, inclusive o visual, há de comportar todas as leituras que dele se possam tirar. Se eu risquei, está riscado. Ressalvo apenas que desenhei, há bons anos diversos perfis de construções urbanas - desprovidas de pessoas - com preocupação mais formal do que de outra ordem. No entanto, o papel do crítico ficou latente para mim, qual seja, o de promover outro olhar, profundo, culto e revelador, quando mostrou esse aspecto urbano presente em meus personagens, independentemente de onde estejam geograficamente localizados.

Quanto a sua referência a "diversidade caótica da vida na metrópole", diria que o caos está na metrópole e fora dela, porque antes de tudo está intimamente enraizado no homem, independentemente de onde se encontre. O ajuntamento e o isolamento humanos, típicos da metrópole, parecem traduzir melhor a noção de caos, mas sem exclusividade. Meus personagens podem ocasionalmente reservar essa leitura lembrante do caos ou não. Quando digo "meus personagens" sei que freqüentemente estou me apropriando de personagens milenares ou seculares e conferindo-lhes apenas minha versão, meu jeito de vê-los e fazê-los vistos. Enquanto trabalhador da visualidade, não me ocupo em ser crítico social; no entanto fico atento às contradições, aos deslizes, às incoerências e às atitudes paradoxais, traduzíveis por caóticas. Como não sou um intérprete dramático, valho-me no máximo de alguma ironia.

CW - A propósito do conjunto formado pelos livros recentes, inclusive o do Celso de Alencar, e pelos CDs. Esse conjunto vai desde o artista quase ausente, ou extremamente sublimado, comparecendo, em Testamentos, à exceção da capa, como fonte de idéias, de temas propostos, e não mais de imagens visuais, até a exposição da produção visual, passando pelo encontro de diferentes registros, o vocal inclusive, nos CDs. O que é isso? Arte total, atualização da idéia wagneriana? Uma versão pessoal, não-redutora, do verbi-voco-visual? Faça os comentários que julgar cabíveis.

VR - Eu poderia aproveitar a abertura dada por sua colocação para valorizar indevidamente o que não tem maior valor, mas é preciso pôr as coisas em seus devidos lugares. No caso do recente livro do Celso de Alencar, Testamentos, não se trata de querer me omitir, fazer-me ausente, encenar ou criar mistério e, sim, de deixar claro que nada fiz além de provocar, por etapas, com mínima interferência, além daquela posta no núcleo do jogo. A resposta do poeta é tudo o que conta e o que fica.

Quanto aos CDs, talvez você se refira na verdade a um único CD, o Xilogravuras, com reprodução de meu trabalho e registro escrito de poemas e vozes do Álvaro, do Celso, da Eunice e da Raquel, que significa apenas uma forma a mais de promover a interação entre o visual, o escrito e o vocal. Essa interação deveria ser muito mais freqüente.

Valdir RochaAliás, tenho sugerido a muitos poetas que promovam o registro de suas vozes, porque a vida é coisa passageira e a voz vai se pondo em frangalhos, com o passar dos anos. A gravação sonora da voz poderá ser muito útil ao próprio poeta gravado, quando e se ela vier a ficar, como costuma acontecer, muito ruim: ele poderá ouvir-se com a sonoridade com que já leu um dia.

Quando conheço a voz de um poeta, leio seus poemas como se o ouvisse e isso me ajuda a dar o ritmo e a entonação adequados.

 

ÚLTIMAS EXPOSIÇÕES E LIVROS DE/SOBRE VALDIR ROCHA

1. EXPOSIÇÕES

Com dedicação às artes plásticas desde 1967, as últimas exposições de Valdir Rocha foram:

Cabeças, na Galeria Arte Aplicada, em abril de 2002, em São Paulo, com pinturas e esculturas em bronze; e

Domínios e Dominações, na Sala Mario Pedrosa, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, com xilogravuras, pinturas sobre ex-matrizes e gravuras em metal, em setembro de 2002.

2. BIBLIOGRAFIA

Parte representativa de sua obra está nos seguintes livros e álbuns:

Mentiras, Verdades-meias e Casos Veros (Escrituras, São Paulo, 1994), mistifório em que juntou pequenos textos (aforismos etc.) com reproduções de pinturas, esculturas, desenhos etc.

Intimidades Transvistas (Escrituras, São Paulo, 1996), com reprodução de 80 de suas pinturas, ilustradas com poemas de 20 autores, a saber: Alonso Alvarez, Christiane Tricerri, Cristina Bastos, Eunice Arruda, Gonzaga Leão, Hamilton Faria, Helena Armond, Ives Gandra, Jorge Mautner, Marola Omartem, Neide Arcanjo, Nilson Machado, Olga Savary, Pedro Garcia, Raimundo Gadelha, Raquel Naveira, Renata Pallottini, Renato Gonda, Thereza Motta e Wilson Pereira, com apresentação de Aguinaldo Gonçalves. Nesse volume, inverte-se a ordem usual das edições em que desenhos ou pinturas ilustram textos anteriormente escritos: os poemas partem de algo sugerido pelas pinturas de Valdir Rocha, com elas se harmonizando;

Fui Eu (Escrituras, São Paulo, 1998), volume em que 41 poetas brasileiros, sob a coordenação de Eunice Arruda, escrevem poemas em torno de uma única pintura que lhes serve de ponto de partida. Participam do volume: Alcides Buss, Álvaro Alves de Faria, Álvaro Faleiros, André Carneiro, Anibal Beça, Aristides Sergio Klafke, Astrid Cabral, Beatriz Helena Ramos Amaral, Carlos Nejar, Celso de Alencar, César Leal, Cláudio Willer, Donizete Galvão, Dora Ferreira da Silva, Eunice Arruda, Fernando Py, Flávia Savary, Iacyr Anderson Freitas, Ieda Estergilda de Abreu, João de Jesus Paes Loureiro, Jorge Tufic, Leila Echaime, Leila Miccolis, Lindolf Bell, Lucia Ribeiro da Silva, Luciano Maia, Maria Lucia Dal Farra, Maria Rita Kehl, Neide Arcanjo, Núbia N. Marques, Olga Savary, Orides Fontela, Renata Pallottini, Rodrigo de Haro, Rubens Jardim, Ruy Proença, Samuel Penido, Terêza Tenório, Ulisses Tavares, Urhacy Faustino e Virgilio Maia, com apresentação de Marlise Vaz Bridi;

Memórias (São Paulo, Quaisquer, 2001), 17 xilogravuras, acompanhadas de poemas de Eunice Arruda;

Nus Frontais (São Paulo, Quaisquer, 2001), 16 xilogravuras, acompanhadas de poemas de Raquel Naveira;

Sete (São Paulo, Quaisquer, 2001), 25 xilogravuras, acompanhadas de poemas de Celso de Alencar;

Vagas Lembranças (São Paulo, Quaisquer, 2001), com 27 xilogravuras, acompanhadas de poemas de Álvaro Alves de Faria;

Valdir Rocha – Xilogravuras (São Paulo, Escrituras, 2001), com mais de 120 xilogravuras reproduzidas e apresentação de Nelly Novaes Coelho;

Cabeças (São Paulo, Arte Aplicada, 2002), com reproduções de pinturas e esculturas em bronze, texto de apresentação de Péricles Prade e texto de orelha de Sabina de Libman;

Gravuras em Metal (São Paulo, Artemeios, 2002), com texto de apresentação de Carlos Soulié do Amaral;

A Escultura de Valdir Rocha, de Mirian de Carvalho (São Paulo, Escrituras, 2004, no prelo), com mais de 100 reproduções; e

O Desenho de Valdir Rocha, de Péricles Prade (São Paulo, Escrituras, 2004, no prelo), com mais de 150 reproduções.

Informações sobre os volumes editados pela Escrituras e pela Artemeios podem ser obtidos pelos e-mails escrituras@escrituras.com.br e artemeios@premiopar.com.br.

3. OPINIÕES E COMENTÁRIOS

Sabina de Libman: “Valdir explora um jogo de várias possibilidades: domínio, submissão, temor e coragem – enfrentamento. Há, sem dúvida, uma revelação: a arte cumpre o seu papel.”

Jorge Anthonio e Silva: “Valdir Rocha é um transgressor de reentrâncias insondáveis, um criador de negros aveludados de aranhas, um lírico poeta de nostálgicos meios tons, de ranhuras sonoras e de uma saudade cruel de tudo o que um dia poderá ser.”

Carlos Soulié do Amaral: “As cabeças e as faces que o lápis e o buril de Valdir Rocha Vêm criando têm como foco de interesse algo que supera a figura em si mesma. Com um mínimo de atenção fixada, facilmente percebemos que o alvo em mira é um sentimento intangível, uma evocação, uma “expressão” da realidade desligada da realidade, transfundida e transformada pela abstração poética e reflexiva numa tentativa de comunicação que propõe mais uma contemplação do que uma observação. Sente-se que os fragmentos do caráter e da natureza humana foram transportados, por uma síntese própria de elementos gráficos e formais, para o plano psicológico sutil, no qual a personalidade do artista procura estabelecer contato com a sensibilidade de seu interlocutor. Se o contato for “estranho”, será ótimo. A arte sempre surpreende porque mostra outras possíveis dimensões do real, dimensões diferentes daquilo que estamos acostumados a ver e a pensar.”

Mirian de Carvalho: “Ao interpretar o motivo, Valdir Rocha percorre intimidades dos homens e dos deuses. Entre o eterno e o precário, o mundo da vida, perspicácia dos animais. Animização do vegetal. E das coisas. Transmitindo sentimentos, certezas e dúvidas, as Cabeças se inscrevem no poético, com significados que perpassam lenda e cotidiano.”

Péricles Prade: “Valdir Rocha, profundo conhecedor do código de princípios e elementos do desenho, sintetizando idéia/forma com rigor aos utilizar os instrumentos, técnicas e suporte no tratamento ritualístico-temático das cabeças-motivo, vale-se de estratégia de função metalingüística vocacionada por uma personalidade plasmada pelo expressionismo simbólico-figurativo pancontemporâneo, cuja poética gestual fovista contida, sem perda de originalidade, fundada na experiência diária de seu ofício sedutor, se insere com humor dramático, autonomia, unidade e integridade na linhagem do que há de mais significativo na arte brasileira atual.”

Álvaro Alves de Faria: “Desde o primeiro contato, a gravura de Valdir Rocha me passou a idéia de solidão, um retrato quase sempre aflito de rostos inquietos construídos com traços que mais parecem cicatrizes, alguns fundos, outros leves, mas sempre com esse registro do incerto. São figuras comoventes, que se contorcem num espaço escasso de onde não se pode escapar.”

Celso de Alencar: “O trabalho de Valdir Rocha não tem vocabulário. Ele se insere no grupo da arte-muda. A que tem o poder de provocar o espectador, sem registro de som.”

Eunice Arruda: “Rostos solitários, indefesos, forçados a nascer. Não conhecem os pássaros do céu. Nem os ardores do verão. Pedaços de alguma plenitude. Silenciam o pânico. Quem são?”

Nelly Novaes Coelho: “… compreende-se a essencialidade do ícone escolhido pelo artista: a cabeça (sede do conhecimento), com olhos abertos (é do ver que chegamos ao conhecer) e sem orelhas (faz-se urgente ouvirmos a voz interior e não mais a voz exterior – hoje reduzida a simples ruído, que só pode perturbar o caminho da busca). É, pois, de busca que se trata.”

Adelaide Petters Lessa: “Penso que sua idade ultrapassa a de seu RG pois contém milênios como usuário das mãos de artista e milênios de sentimentos de psicólogo. Tão humano!”

Claudio Willer (Brasil, 1940) é um dos editores da Agulha. Entrevista realizada em São Paulo, em março de 2004. Contato: cjwiller@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Valdir Rocha (Brasil).

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