Mirta Kupferminc Agulha - Revista de Cultura Mirta Kupferminc

 

revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004

Mirta Kupferminc

Editorial
O retorno a Undr

Agulha defende ações em favor do livro e da leitura. Conforme já observado aqui, em editoriais e ensaios, país desenvolvido é aquele que tem índices elevados de leitura. E mais: o hábito da leitura, historicamente, precedeu o desenvolvimento econômico e social nesses países.

Um dos editores desta revista eletrônica, em sua atuação como intelectual franco-atirador, tem coordenado oficinas literárias voltadas para a criação. Nelas, insiste em que a criação literária é intertextual, um diálogo com outras obras. Em outras palavras: sem leitura, nada feito. E também tem coordenado oficinas ou rodas de leitura para bibliotecários e outros agentes culturais, escolhendo obras que oferecem obstáculos à decodificação. Isso, em oposição à prática perniciosa da veiculação de sinopses, dos resumos escolares que achatam obras complexas, reduzindo-as ao estritamente discursivo e prosaico, eliminando sua dimensão poética.

Em uma das turmas desse projeto de oficinas de leitura para agentes culturais (no município de Barueri), depois de interpretarem O Aleph de Borges sob vários ângulos, foi examinado outro conto do argentino, Undr, de O Livro de Areia. Isso, por sugestão de um dos participantes, que, acertadamente, enxergou continuidade ou correspondência nas duas narrativas enigmáticas. Em Undr (assim como em boa parte da obra borgeana) é lançada a dúvida sobre a relação de significação. A ação transcorre na Escandinávia do ano 1000. Um viajante chega ao povo dos “urnos”. Lá, as relações entre signos e seus sentidos variam bastante. A figura negra de um peixe em um poste amarelo representa a Palavra. Um poste vermelho com um disco também representa a Palavra. Mas seu significado foi esquecido. Apenas um vocábulo tem significado. Qual vocábulo? O que significa? Ninguém sabe. O viajante percorre o mundo para descobri-lo. Muitos anos depois, retorna ao país dos urnos: as mais diversas peripécias lhe haviam ensinado que essa palavra é undr, e significa maravilha. Para conhecer palavras e seus significados, é preciso ser capaz de maravilhar-se. Conta a descoberta a Thorkelsson, poeta urno, seu amigo: “Como é de uso, perguntei por seu rei. Replicou: - Já não se chama Gunnlaug. Agora seu nome é outro. Conta-me tuas viagens”.

Algumas conseqüências da narrativa borgeana saltaram aos olhos do grupo. Transposta para o aqui e agora, é como alguém, depois de percorrer o mundo por anos a fio, de volta ao Brasil, perguntar como vai o presidente, e receber a seguinte resposta: “O presidente vai bem. Mas agora seu nome é outro. Chama-se Luís Inácio Lula da Silva...”.

Enfim, a leitura de Borges, e de tantos outros poetas e narradores, contribui para lançar a desconfiança sobre o que nos é apresentado como realidade, um mundo fenomênico no qual, à luz da crítica, vê-se que nem tudo é o que parece ser. A desconfiança mais acentuada é uma das conseqüências da boa leitura, que assim contribui para formar cidadãos conscientes. É claro que o relativismo borgeano é um dos modos possíveis de crítica ao real. Não deve ser adotado de modo exclusivo, pois acabaríamos conferindo dimensão metafísica a acontecimentos cuja interpretação pode ser muito mais simples e direta. Literatura é plural, o campo da diversidade. Diferentes autores oferecem distintas visões de mundo. A percepção de cada uma delas ampliará a sensibilidade e enriquecerá a crítica.

Faz tempo deixou de ser novidade que meios de comunicação, especialmente a TV, são uma fonte de confusão entre símbolos e significados, o virtual e o real. Contribuem para engendrar réplicas do país borgeano dos urnos, onde as palavras podem significar qualquer coisa, e as pessoas não conseguem mais enxergar a relação entre signos e referentes. Por isso, democracias avançadas impõem regras restritivas às empresas de comunicação: proibição de propriedade cruzada, limites ao monopólio, à "share", o nível de audiência, à extensão e cobertura das redes de emissoras. Assim, evitam que se realize a distopia do Grande Irmão, do controle eletrônico das opiniões e das mentes. É notável que, mesmo nos Estados Unidos sob George W. Bush, não tenha dado certo a tentativa de “liberalizar” essas restrições, ou seja, de entregar tudo ao grupo de Rupert Murdoch e sua rede Fox, em recompensa pelo trabalho de propaganda em favor do militarismo norte-americano.

Já no país dos urnos… Ou melhor, no Brasil: aqui, pesquisas mostram a existência da segunda maior mídia do mundo (de redes de TV a cartazes de rua, passando por tablóides literários e revistas eletrônicas como esta). Sendo a décima-quarta economia do mundo, esses dados revelam uma distorção: é muita mídia para pouco país. A causa, o interesse de empresas, do governo, de seitas e igrejas, de políticos em geral, etc, na posse de meios para influenciar a opinião pública. E está sendo aprovado um financiamento estatal (do BNDES, agência para o desenvolvimento econômico) de bilhões de dólares para cobrir débitos do setor, especialmente do conglomerado do qual faz parte a TV Globo, líder de audiência. Em troca, a TV chapa-branca, transformada em órgão de propaganda do governo. Não, a distopia não está nada distante.

Também a Venezuela, país vizinho do Brasil, do qual temos informações as mais desconexas justamente pelo mesmo fenômeno distópico, a sociedade encontra na mídia seu maior obstáculo para exercer todas as possibilidades possíveis de diálogo com a realidade. A diferença é que, neste caso, a mídia concentra-se em desestabilizar o atual governo. Outro dos editores da Agulha esteve naquele país, em março passado, a convite do Conselho Nacional de Cultura, participando de um Festival Mundial de Poesia que reuniu expressões poéticas de 25 países e de todos os continentes. A despeito da alardeada crise social que enfrenta a Venezuela, o que todos os poetas convidados puderam constatar foi uma grande sensibilidade e manifesta vontade de participação de toda a sociedade, considerando a surpreendente presença de público em 8 dias de leitura de poemas e conferências, não somente em Caracas, como também nas outras principais cidades venezuelanas. Não se deve esquecer que, dentre as iniciativas estatais, encontram-se dois dos mais sólidos projetos editoriais da América Latina, a Monte Ávila Editores e a Fundación Biblioteca Ayacucho - cabendo lembrar que em ambos projetos se encontram editados brasileiros, quando o inverso não se dá, e seguimos desconhecendo, por exemplo, uma das mais fortes tradições líricas do continente -, o que descarta a idéia de populismo circunstancial e confirma uma conquista social que sempre considerou a cultura como elemento essencial na formação de uma sensibilidade crítica.

De volta ao Brasil, o recente investimento do governo do Estado do Paraná na criação de centros de excelência desportiva de imediato traz reflexos positivos em nossa posição perante os esportes olímpicos. A questão não será nunca de obstáculos intransponíveis ou falta de clareza, mas antes de uma complacência ou mesmo interesse ante a confusão conceitual que busca desarticular a realidade. Como interpretar um país que se recusa a tratar com seriedade seus vícios estruturais, que segue a injetar-se todas as fórmulas de corrupção mais gastas e que perdeu por completo a noção de qual seja seu próprio nome? Para onde retorna um viajante quando pensa que está a regressar ao Brasil? A Undr?

Os editores

Mirta Kupferminc

sumário

1 a arte de transgredir: uma introdução a roberto piva. joão silvério trevisan
2 a insignificância perfeita de leonardo fróes (entrevista). fabrício carpinejar
3
alberto ruy-sánchez: um olhar sobre a poesia mexicana contemporânea (entrevista). maria esther maciel
4 além dos símbolos: a tessitura poética do caos na poesia de péricles prade. mirian de carvalho
5 antônio callado & bar don juan: entre o mito e a utopia. wilson coêlho
6 às voltas com frank zappa & indigestões do absolutamente livre (diálogos). floriano martins & mário montaut
7 de cerca y de memoria con jorge enrique adoum (entrevista). edwin madrid
8 elias canetti: a linguagem e a formação da consciência. rodrigo petronio
9 giuseppe ungaretti, ¿hoy? rodolfo alonso
10
herberto helder: viagem e utopia. maria estela guedes
11 josep guinovart: la transfiguración de la pintura. miguel ángel muñoz
12 juan sánchez peláez: el que arrojaba uvas ardientes. lorenzo garcía vega
13 operação cirúrgica e cirurgia plástica: o corpo na poética de luís miguel nava e david mourão-ferreira
14 valdir rocha: a palavra, a imagem e o olhar (entrevista). claudio willer
15 víctor manuel cárdenas: viajero de la poesía (entrevista). ricardo venegas

artista convidado mirta kupferminc (vária) texto de carlos barbarito
livros da agulha joseph rykwert [por mário h. s. d'agostino], enrique krauze [por adelto gonçalves], maria esther maciel [por márcio seligmann-silva], federico garcía lorca, fabrício carpinejar [por ana miranda], celso de alencar [por mirian de carvalho]
& r. roldán-roldán [por r. leontino filho]
galeria de revistas (artigos & entrevistas)
catálogo triplov.com.agulha.editores

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editores
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projeto gráfico & logomarca
floriano martins

jornalista responsável
soares feitosa
jornalista - drt/ce, reg nº 364, 15.05.1964

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américo ferrari
(peru)
benjamin valdivia (méxico)
bernardo reyes (chile)
carlos m. luis
(uruguai)
carlos véjar
(méxico)
eduardo mosches
(méxico)
edwin madrid
(equador)
francisco morales santos
(guatemala)
harold alvarado tenorio
(colômbia)
jorge ariel madrazo
(argentina)
jorge enrique gonzález pacheco
(cuba)
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(porto rico)
marcos reyes dávila
(porto rico)
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(venezuela)
maria estela guedes
(portugal)
mónica saldías (suécia)
rodolfo häsler (espanha)

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sonia m. martín (estados unidos)

artista plástico convidado (vária)
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