revista de cultura # 38 - fortaleza, são paulo - abril de 2004






 

Elias Canetti: a linguagem e a formação da consciência

Rodrigo Petronio

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A interpretação da fluidez que existe entre indivíduos e tipos é, verdadeiramente, uma das tarefas do escritor.

Elias Canetti

Elias CanettiCreio que um dos problemas mais graves que temos hoje em dia, que extrapola o caráter educacional, mas se manifesta nele de maneira mais visível e perigosa, seja a dificuldade, diria quase a impossibilidade, de se formar indivíduos. Dito dessa maneira, esse parece um daqueles tantos discursos lacônicos, eivados de uma raiva inocente, que propõem métodos para a formação de sujeitos pensantes. De fato, não sei o que significa isso. Dada a complexidade do real, talvez possamos falar em graus de pensamento, mas nunca que uma pessoa é ou não pensante, crítica ou quaisquer outros desses adjetivos vazios e expressivos. Porque se essa é a exigência mais presente no meio intelectual e educacional quando se debate a divulgação dos conhecimentos produzidos por eles, suas conseqüências e objetivos, ela soa algo estranha, e até presunçosa, pois creio também que seja justamente nesse circuito que se dê de forma mais explícita a anulação dos indivíduos, e onde se inviabiliza a formação da consciência, o centro do pensamento reflexivo, a partir do qual – e apenas do qual – pode-se ter uma compreensão lúcida dos fenômenos culturais e sociais e de seus valores.

Talvez esteja sendo taxativo, mas, por ser declaradamente o lugar do saber, às vezes me assusto com algumas características das informações que circulam nas nossas universidades, escolas e agremiações intelectuais, e por isso elas soam tão gritantes. Vivemos em um mundo povoado por grandes estruturas impessoais, conglomerados ideológicos que, tendo como fim último mobilizar o desejo para a aquisição de bens, captura-nos como reféns de seus discursos e em nada estão preocupadas com a vida do espírito. Mídias, grandes corporações, oligopólios, metrópoles: que interesse pode ter, para o funcionamento dessa maquinaria, as nuanças de idéias e de estados de ânimo que uma pessoa possa ter? Nenhum. E, no entanto, não é justamente a capacidade de estar atento a essa mobilidade de afetos e conceitos a matriz, o núcleo mesmo disso que chamamos – pensamento? Quero dizer que o problema está muito além do caráter educacional, embora ele seja um primeiro passo para erradicá-lo. Pois podemos formar profissionais e dar instrumentos para uma pessoa agir; se ela não tiver sequer um germe desse hábito, que para os filósofos de verdade é um vício, de flagrar a sua consciência em movimento e tentar extrair de seu silêncio alguma compreensão dos homens, ela irá, a seu modo, simplesmente repor em circulação essa máquina desumana, talvez com um emprego, alguma prosperidade, mas ainda assim vai ser um simples alimento dela. A maior transgressão que se pode fazer hoje em dia, em qualquer esfera, é tentar ao máximo criar uma ciência de si, identificar essa voz intransponível que só nós podemos ouvir a sós conosco, inalienável e única, e que não pode ser submetida a nenhum tipo de troca. E seria o caso de nos perguntarmos se não podemos chamar essa moeda sem efígie, e, portanto, sem valor, de – consciência? Porque em uma realidade onde premem as coisas e a sua circulação, e em que a personalidade é um amontoado de discursos, uma espécie de geringonça esquizofrênica, feita de modelos impessoais e vazios cuja origem nos escapa, apenas quando o indivíduo consegue reconhecer essa voz interna e plasmar com ela os objetos que lhe são exteriores é que ele estará acrescentando algo à vida e à existência. Barthes já nos advertiu que a ideologia e sua ação nociva entram em nossa vida quando se elide o processo pelo qual uma coisa veio a ser o que é, ou seja, quando se suprime a História. Só o atestado da consciência individual pode demonstrar a forma pela qual um sujeito incorporou, refletiu e traduziu outras idéias em idéias suas, a partir de sua experiência concreta, e, conseqüentemente, nos livrar do absurdo de viver em uma realidade de coisas entre coisas, revertendo-as contra essa espécie de estado de anulação edípica coletiva, já que o ato de nos evitarmos parece conduzir a algum tipo curioso de paraíso artificial, pois todos nós, no fundo, o queremos. Creio que só assim podemos apreender o real – humanizá-lo.

Tomás de Aquino chamava essa voz de uerbum cordis, a palavra do coração.  Esse conceito, que hoje nos soa mais próximo das músicas de dupla sertaneja do que da filosofia, deve ser entendido em sua origem. Homem do século XIII, o filósofo queria referir com ele, de maneira alegórica, uma espécie núcleo de consciência moral, sem o qual não poderíamos avaliar nada do que nos cerca. Por isso ele será de grande importância em toda a doutrina tomista: sem ele não poderíamos nunca distinguir entre o bem e o mal, nem usar o livre-arbítrio, que se manifesta na sindérese, a centelha de consciência divina em nós, escolhendo em Deus e por intermédio da razão o que possa fazer convergir as felicidades terrena e eterna. Porque Tomás de Aquino alia o conhecimento pela verdade revelada de Santo Ambrósio e Santo Agostinho à capacidade de conduzirmos nossa razão, não só a optar pelo certo, mas a querer o certo. Dessa consciência radical de si também estaria imbuído aquele que Nietzsche qualifica como sendo um livre-pensador, mas em contextos praticamente opostos, admitidos a relatividade e a ausência de Deus.

Mirta KupfermincO que ocorre com o ensino e a produção intelectual em uma boa parte dos casos? Dentro dessa circulação de bens materiais parece quase impossível que um lugar de produção de bens simbólicos saia ileso. Com a internacionalização e a hegemonia norte-americana estamos vivendo um momento ímpar da história. A universidade, que herdou o sentido de escola dos gregos, o lugar onde se reúne com desinteresse e se debatem idéias, que desde Alexandria teve a consciência, no sentido que mencionei, como um de seus cernes, e cujo objetivo deveria ser o de propor uma hierarquia de valores e perscrutar os fundamentos do Ser a partir da análise das manifestações das civilizações, torna-se, hoje, uma espécie curiosa de diluição fast food de informações em primeira mão. E a questão não se reduz a dizer que ela está em função do mercado, como é ordinário por aí repetir à exaustão. Essa é apenas a ponta mais óbvia do movimento. Eu diria que ela tem incorporado o mercado e as estruturas impessoais de conhecimento, e já faz muito tempo, talvez desde o século XIX. A cotação do fundo internacional de citações gerou livros que têm mais notas de rodapé do que texto; exige-se, na faculdade de Letras, uma postura científica. Francamente, creio que seja o mesmo que exigir de um quadrado que seja triângulo. O estudo das Letras, que desde Homero tem sido o debate de pessoas cultas, e, portanto, rigoroso de antemão, passou a ter de se enquadrar em modelos de discurso praticamente prontos. Então pergunto: quem me garante que esse caráter científico não é a simples reprodução da forma impessoal, dessas estruturas sem substância que o capitalismo engendrou, que elidem o processo em benefício de uma hipotética clareza e consenso no que diz respeito ao resultado? Quem me demonstra a diferença entre o discurso anônimo de uma pretensa comunidade científica e o anonimato da mídia, que visa a todos e a ninguém, que se desvia do indivíduo concreto, pois ele, se olhar no âmago de si, pode ter vontades contraditórias e contraproducentes? Não seria uma forma de imitar esse pretenso rigor da chamada vida real, e assim justificar, perante os seus olhos, a nossa própria existência e razão de ser? O que significa produtividade intelectual senão a prestação de contas à sociedade que, quando muito, despreza o que se produz dentro de bibliotecas ou inveja alguns arautos do saber pelo mero vislumbre de ascensão social? Acaso seria possível o Conhecimento estar se enamorando da deusa Estatística, a Cretina? Nesse sentido, o educador Bohoslavisky tem razão ao dizer que a opressão é quase a regra das instituições de ensino. Acertou nas palavras, mas errou no contexto. Porque ele parece identificar uma opressão concreta, de professores para com alunos, de indivíduos contra indivíduos. Não vivemos mais em uma sociedade disciplinar, aquela descrita por Foucault a partir do sistema panopticum e do desenvolvimento de técnicas que visavam domesticar o corpo, a sexualidade, o instinto, os hábitos e costumes e os pôr a serviço de um ideal de produtividade e de prosperidade cuja imagem mais emblemática é a do tirano que prescreve normas aos subalternos e exige o seu cumprimento. Vivemos sim em uma sociedade de controle, tal como foi definida por Gilles Deleuze; ela não exerce o poder, ou finge não exercê-lo, e é exatamente nisso que consiste sua malícia e sua eficácia: apaga ou eclipsa o agente de todas as ações sob o véu imperscrutável do mito e do anonimato; forja suas regras e os limites do que é ou não aceitável socialmente, mas seu autor não tem rosto e nem assinatura: é um ideal de beleza estampado em um cartaz, é um conjunto de etiquetas de um certo grupo, é a moda que fornece a grupos de distintas camadas sociais critérios de inclusão e exclusão de seus membros, é um simples gesto que veta outro gesto e um silêncio que recrimina um ato, sendo a pessoa que os executa um mero instrumento que incorporou os sons da natureza a ponto de tocá-los sozinho. Não há indivíduos, e justamente nisso consiste a opressão. Ela é elíptica, abstrata, fluida, incorporada e vivida por cada um de nós em nossas práticas diárias. Está nos discursos e, mais, no que está por trás deles. E a pergunta gritante que deveríamos fazer, mas que é calada freqüentemente, é no que estaríamos transgredindo esse estado de coisas.

As faculdades de Letras estão repletas de estudantes que sabem analisar, ou melhor, dissecar as partes de um poema e verificar o seu funcionamento, mas são incapazes de dizer se se trata de um bom ou de um mau poema. Quando muito sabem identificar esses valores, ou ao menos têm algumas noções claras dos rudimentos dessa arte e um conjunto de critérios básicos a partir dos quais aferir o seu valor mais do que decompor a sua estrutura. Se o conhecimento se reduz a achar algumas associações relativas a uma peça literária, mobilizar outras tantas informações históricas que dêem conta do seu contexto e desmontá-la, é sinal de que ele perdeu o cerne e a essência de sua razão de ser e do motivo de sua existência: a capacidade de atribuir valores às manifestações da cultura a partir deles da maneira mais matizada, vertical e fina possível. E o que podemos dizer a respeito disso? Diremos que as produções acadêmicas são destituídas de interesse? Acharemos boa parte da produção intelectual concernente às humanidades e a outras instâncias do Espírito? Diremos que são inúteis os trabalhos que não tragam esse atestado de singularidade que toda voz madura confere às notas que emite e toda mão madura dá à matéria que lapida? Não, de maneira nenhuma. Mas esse é um futuro professor de literatura, por exemplo. Como é possível alguém instruir outra pessoa sobre o que quer que seja sem ter tido qualquer vínculo afetivo com o seu objeto de estudo? Como transmitir algo que passou pela intelecção sem ter passado pelos afetos, no sentido retórico desse termo? Como chegar ao valor intrínseco de um objeto se não conseguimos fazer concordar – cum cordis, com o coração – ato, vontade e pensamento? No caso das universidades públicas, das instituições de fomento governamentais e afins, a esfera política nos dá a oportunidade preciosa de podermos estudar as manifestações do Espírito  de uma maneira descomprometida e laica, único meio de aceder a um conhecimento pleno do que quer que seja e livrar a consciência das superstições e dos entraves, pode-se dizer até da burrice, que toda tendência instrumental traz em si; a politização do conhecimento gera pessoas que, não entendendo a dimensão e a importância desse fato dentro de um processo histórico mais amplo, nem sendo capazes daquilo que Kant considera uma das maiores virtudes de um artista e de um pensador, a contemplação desinteressada, lêem seus autores e executam seus estudos de maneira epidérmica, através dos olhos amorfos de um departamento ou de uma agremiação, como bons colegiais.

Isso tudo é a ponta do iceberg. Se formos levar em conta os problemas materiais mais corriqueiros da educação, escolas que não tem giz, outras em que o professor escreve na areia, à semelhança dos índios, veremos que se trata da questão mais importante do nosso tempo, à exceção só da exclusão daqueles que não entram nas regras da Nova Ordem Mundial, embora ambas estejam intimamente ligadas. Mas, voltando à consciência, é muito interessante e prazeroso ler o itinerário de formação de uma. Refiro-me à autobiografia de Elias Canetti, em especial ao volume que trata da infância e dos primeiros anos da juventude, chamado A Língua Absolvida. Porque no livro de Canetti temos todos os elementos próprios a alguém que conseguiu sempre atribuir valores aos fatos que o cercava, e, mais importante, ver as correspondências existentes entre suas vivências mais íntimas e irredutíveis e o reflexo que estas tinham em suas idéias e na sua atividade intelectual. Podemos pensar: mas é um escritor; se a linguagem é sua matéria prima e se ele é um intelectual, é claro que isso vai se manifestar de modo particular em tudo o que disser. De fato, é um material suspeito. Mas o que chamo de vida da consciência não é, e não deve ser produto exclusivo dos intelectuais, e muito menos estar ligada à discrepância de classes ou a níveis de instrução. Se o caso de Canetti é exemplar, não é porque ele seja um escritor – o que mais há é escritores esquizofrênicos – mas porque, antes mesmo de ser escritor, ele percebeu a importância que a linguagem desempenha em todas as esferas sociais. Desde o fato mais remoto de sua infância, o do amante de sua ama que ameaçara cortar sua língua com uma navalha caso o delatasse até o alemão cifrado dos pais na intimidade, percebemos nele uma suscetibilidade com as palavras que gerava espantos sucessivos, e lhe desenvolvia a crença de que o mundo deve ser lido para ser compreendido. A ciência da linguagem, portanto, parte de um sentido muito mais amplo, não se restringe àquilo que está posto nos livros, mas se expande por uma zona que podemos chamar de legível: sem essa capacidade de ler e interpretar os códigos de uma cultura, não só a literatura, no sentido mais profundo do termo, mas a própria vida seriam inviáveis.

Mirta KupfermincBasta pensarmos que a religião, que segundo Vico teve em todas as civilizações o papel de centro da construção de uma ordem civil posterior, e sem a qual não haveria nenhuma base comum, nem ética nem legislativa, nasce de um espanto mítico inicial que tem suas raízes na linguagem. Por isso Cassirer diz que é impossível um e outro, mito e linguagem, existirem separados. Ao ouvir um trovão, os gregos acharam que fosse o sinal de um deus: chamaram-no, provavelmente por onomatopéia, Zeus. É nesse instante exato que ocorre a cisão entre o sujeito e os fenômenos sensíveis: sabe que aquele ruído que ele produz entre os dentes guarda correspondências com a mensagem divina, podendo até invocá-la. Para falar com Fernando Pessoa, o mito não é nada – um som que se sopra pela boca. Mas um nada, uma ausência, capaz de dramatizar a presença da totalidade do objeto que ora nos escapa. A consciência disso já é uma forma de racionalidade e, por que não?, de reflexão: ao dar nome o homem se separa da coisa nomeada e, mesmo assim, consegue notar vestígios dela em si mesmo. À sua revelia, poderá invocá-la, já que a palavra é uma espécie de síntese daquilo que representa, e, distinta da violência, talvez tenha sido a primeira forma de poder que existiu.

Quando Canetti atribui um sentido especial aos cadernos de uma amiga que mais tarde iria lançá-lo, a ele Canetti, num caldeirão fervendo, não é necessariamente à escrita que ele está se reportando: está vendo nela o fenômeno condensado dessa possível legibilidade do mundo, que o estimula e envolve. O mesmo ocorre com as figuras de papel de parede da casa na Inglaterra. Atribuir vida e narração a objetos amorfos é o primeiro passo para encenar o drama da consciência se servindo de objetos externos a ela, mas que ilustram sua estrutura, seu funcionamento. Penso em um trecho de importância pouco aparente da Língua Absolvida, quase no seu final, onde Canetti diz que uma das coisas que mais queria ver na escola era uma ciência, uma disciplina, que ensinasse a lidarmos com nossa mitologia particular, a arrumarmos nossos papéis de parede e darmos os seus significados. Diz então que criara para si tais disciplinas imaginárias, e as exercitava sozinho. Seria muito interessante um estudo pedagógico que visasse propor espaços dentro da escola onde se pudesse dar vazão a essas disciplinas, de modo que, além do estudo que compõe o senso comum, o aluno, a partir de atividades lúdicas, desenvolvesse essa capacidade de pensar novos conhecimentos a partir da sua experiência mais imediata com as coisas.

Porque, assim como as disciplinas são fruto de um processo indutivo, ou seja, com o tempo, analisando as manifestações recorrentes, instituiu-se que os homens produzem artes, pensam o universo geometricamente, têm interesse pelas idéias, pela sua própria história e pela geografia de seu meio, entre tantas coisas, e assim se fixou a base das ciências, seria preciso estar atento para o aspecto dedutivo e particular do conhecimento: o exercício daquelas manifestações que talvez só pertençam à esfera privada de um indivíduo pode ser essencial para esse mesmo indivíduo desenvolver as outras faculdades que pertencem ao esteio, à base de todas as outras pessoas e que a sociedade reputou indispensáveis para a manutenção da civilidade.

Talvez seja nesse sentido que Piaget proponha o conhecimento como um misto de empirismo e inatismo, querendo assim superar a ambas correntes dominantes do pensamento ocidental. Porque se a consciência se forma com os dados da experiência que se inscrevem no nosso complexo sensível e passam pelo crivo da inteligência – o cultivo de várias línguas desenvolveu em Canetti uma vontade maior de decifrar a realidade, mostrou-lhe sua diversidade latente –, também podemos pensar que esses dados são apreendidos por estruturas mentais que, não sendo arquétipos no sentido amplo (e muitas vezes equívoco) do termo, são maneiras mais ou menos uniformes de livrar a massa amorfa das sensações de seu estado nascente. O melhor da tradição filosófica a que Piaget se vincula desde Locke se vê às voltas com esse dilema entre a indução empírica e a dedução ideal, e encontrou em Bergson, um dos maiores pensadores do século XX, o seu ápice. Propondo esse fenômeno complexo chamado consciência como produto de uma concepção qualitativa do tempo, destacada do funcionamento biológico mais ordinário do cérebro que podemos chamar simplesmente de estímulos, Bergson viu nela a matéria mesma da intelecção, cujo centro vivo onde se organizam as imagens, que por hábito ou rotina chamamos realidade, seria o próprio corpo. A consciência se forma, então, quando o sujeito percebe na durée, na duração desses estímulos sensórios uma nesga de tudo aquilo que entendemos como Espírito, e que Bergson chama de elã vital.

Se uma das bases da nossa sociedade é uma hipertrofia do olhar, melhor forma de persuadir os ignorantes, e uma liquidação do tempo, que ora se volta contra si e cria espaços de convivência onde se tenta otimizá-lo ao máximo, tornando-o, e a seus habitantes, mecânicos, e ora se extingue no carnaval monótono do pastiche moderno, que encavala e sobrepõe todos os tempos apagando sua dimensão histórica, e está presente nos anúncios publicitários, na arte, na arquitetura e nas coisas mais banais, seria interessante ter como um dos objetivos principais do ensino uma orientação dos estudantes para que possam viver, na sua aprendizagem, esse tempo fluido e contínuo, essência do vitalismo de Bergson, pois só assim poderão no futuro criar novos registros do real e concebê-lo de outra maneira, mais ampla. Poderemos então fugir da lógica seriada das disciplinas e das instituições de poder que Foucault descreveu, e cujo coração é o controle do tempo, a exploração do seu aspecto quantitativo. Controlar o tempo é ter domínio sobre a vida e a morte e, mais que isso, sobre as formas de viver e de morrer. Só a sua experiência matizada, emergindo da consciência, é capaz de nos devolver a vida e de dar-nos uma morte – individual.

Mirta KupfermincA escola se apresenta para Canetti como o primeiro lugar onde ele se deu conta da diversidade existente entre as pessoas. Na variedade dos professores que desfilavam um após o outro ele percebe, pela primeira vez, aquilo que mais tarde ele conheceria: a população do mundo que, segundo ele, é a sua essência. Falando de sua estadia como estudante em Rämistrasse, onde conhece o marcante Eugen Müller, que lhe estimula o gosto pela história grega, ele chega a fazer menção ao teatro: é como se cada professor estivesse encenando um mesmo papel, e impregnando-o com sua própria figura. É nesse momento que Canetti imagina uma escola onde não se estudassem apenas as disciplinas, mas que fosse uma porta para a compreensão da diversidade humana. Esse seria, com certeza, um centro de estudos do homem – frisa.

Com razão. Porque se o conteúdo vinculado por cada matéria é muito importante, o processo pelo qual ele é passado aos alunos e a presença do professor o são igualmente. O professor é, na verdade, o intermediário entre aqueles saberes referentes a um mundo que não pertence ainda ao estudante e seu cotidiano; o professor é, para o aluno, o que há de palpável nesses saberes. Por isso, tenho a impressão que o hábito de se espelhar em alguns professores e repudiar outros, de ver as peculiaridades de cada um e relacioná-las àquelas informações que eles nos trazem seja um passo decisivo para a aprendizagem. Nesse ir e vir, o que está em jogo é sempre a identidade: esquivarmo-nos de nós e nos vermos nos outros, e vice-versa. A partir desse jogo de conhecimento e reconhecimento – quando vemos nos outros algo que parecia então exclusivamente nosso – que desenvolvemos nossa percepção e aguçamos nossa inteligência. A história de Canetti pode ser vista como uma história da linguagem, não daquela falada pelos homens nas suas comunidades, mas a descoberta daquela língua muda que só falamos a sós. Ele intensificou essa descoberta, elegendo-a como matéria-prima de sua atividade e de sua vida, por isso seu registro ser tão pungente. Mas a consciência das coisas, plasmada de linguagem, extrapola a dimensão da literatura – ela é o motivo pelo qual a literatura existe, mas não o contrário, pois vive à sua revelia. A literatura parece sempre dançar entre a aquisição da consciência – a palavra refletida na folha em branco – e a sua anulação: escrita, ela já não nos pertence mais. T. S. Eliot diz que a poesia não é uma expressão da personalidade, e sim uma fuga dela. Mas logo em seguida completa: apenas quem tem personalidade pode levar a cabo esse processo. Isso me parece uma anedota que não se esgota na poesia ou na literatura de modo geral, mas se estende a todas as atividades a que nos dedicamos.

Rodrigo Petronio. Poeta e ensaísta. Autor de Transversal do Tempo (ensaios) e História Natural (poesia), entre outros. Prepara novo livro de poemas que será publicado em breve pela Editora Girafa. Contato: pseudopetronio@directnet.com.br. Página ilustrada com obras da artista Mirta Kupferminc (Argentina).

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