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revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003 |
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Mário Viegas: a vida em alta velocidade Viriato Teles
Discípulo
da escola brechtiana de teatro vivo e actuante, Mário Viegas fez tudo o
que de melhor se pode fazer nas artes de palco. Sem claudicar. Mais do que
«apenas um actor de teatro», como gostava de se definir, foi um
interveniente, um recriador de palavras. Vinícius de Morais comoveu-se até
ao arrepio quando ouviu a sua interpretação de "Trópico de
Cancer", Almada Negreiros morreu sem imaginar que o seu
"Manifesto Anti-Dantas" havia de renascer um dia com tanto
vigor, Mário-Henrique Leiria deve boa parte da popularidade que alcançou
postumamente ao talento deste Mário Viegas que um dia trocou Santarém
pela cidade grande e se tornou no maior actor e recitador de poesia da sua
geração. Os
últimos anos de vida dedicou-os, por inteiro, à Companhia Teatral do
Chiado, instalada na sala-estúdio do Teatro São Luiz, um projecto que «nasceu
da ideia de fazer uma companhiazinha com meia-dúzia de tarecos e sem
dinheiro». Com três mil contos atribuídos pela Secretaria de Estado da
Cultura para a montagem de uma peça de Miguel Rovisco, "Um Homem
Dentro do Armário", Viegas acabou por levar à cena quatro espectáculos.
Depois deitou contas à vida e chegou à conclusão de que «mesmo com as
casas permanentemente esgotadas, o dinheiro não dá para pagar a toda a
gente». Mas não parou de trabalhar e de sonhar. Assim,
quando nos encontrámos para esta entrevista, em meados de Fevereiro de
1992, o actor estava a preparar a estreia de "A Tersseira
Classe" (assim mesmo, com dois esses), uma peça ao jeito de todas as
produções de Mário Viegas, provando que, mesmo sem meios grandiosos e
com montagens "pobrezinhas" ("A Birra do Morto", por
exemplo, custou 38 contos, o preço do caixão) é possível fazer um
teatro de grande humor e muita qualidade, «a pensar nas pessoas normais e
não naqueles que já pensam saber tudo.” "A
vida em alta velocidade" foi o título, quase premonitório, que na
altura dei a esta entrevista. A doença incurável que, escassos quatro
anos depois, acabaria por vitimá-lo, ainda não se havia manifestado, e Mário
Viegas estava no cume da sua criatividade. Mas não parava. Como se
tivesse receio de não conseguir concretizar tudo o que tinha para fazer.
Desconcertante até na morte, partiu a 1 de Abril de 1996, dia das
mentiras, com 47 anos, deixando aparvalhados os amigos e a legião de
admiradores do seu talento e da sua verticalidade. Como herança, deixou a
sua memória de uma arte que reinventou com invulgar mestria de cada vez
que subiu ao palco. Fosse na pele de "D. João V", de
"Baal", ou "A Espera de Godot", no cinema onde criou o
memorável "Kilas", fosse ainda como divulgador de poesia, onde
teve um papel só comparável ao de João Villaret, deixando disso
testemunho em mais de uma dúzia de registos discográficos e em duas séries
de programas de televisão que deram a conhecer também o grande humorista
que sempre foi. Algum
tempo antes de morrer anunciou a sua candidatura à Presidência da República,
cujo programa foi apresentado no espectáculo "Europa, Não!
Portugal, Nunca!" - uma genial provocação a favor de "uma política
sem máscaras", que só a doença impediu de levar até ao fim, mas
que ficou como derradeiro exemplo de insubmissão. Total, radical,
verdadeira, absoluta. A doer, como a vida. [V.T.] VT
- Não
é comum um actor ter tanto trabalho como tu tens agora. Como é que isto
aconteceu? MV - Olha, calhou. No ano
passado fiz várias coisas que me deram muito trabalho, mas que só este
ano terão os seus eventuais "lucros" artísticos. Uma foi o
filme do Manoel de Oliveira, "A Divina Comédia", no final do
ano. Foi a primeira vez que trabalhei com o Manoel de Oliveira… VT
- E
gostaste? MV - Muitíssimo. Só o
conheci pessoalmente no primeiro dia de filmagens. E, quando acabei o
filme, estava completamente fascinado por ele, como pessoa. É um homem
duma vitalidade extraordinária, duma simpatia humana, duma educação
exemplar. Há nele um grande gosto de trabalhar com os adores, uma segurança
até aos mais pequenos pormenores que faz com que as pessoas realizem
mesmo o que ele quer. Do ponto de vista de trabalho e de contacto humano,
fiquei fã máximo do Manoel de Oliveira. VT
- E
o filme? MV - Acho que vai
resultar: o argumento é muito bonito, os diálogos são muito engraçados.
E reuniu-se ali uma equipa de actores e de técnicos com um enorme
respeito pela obra e pelo passado do Manoel de Oliveira. Vai ser, com
certeza, mais um filme polémico e, até, diferente daquilo que ele tem
feito. Foi uma honra muito grande ter trabalhado com ele. E, para mim,
que, estava habituado a trabalhar de outra maneira, com outro tipo de
cineastas, (principalmente com o José Fonseca e Costa, meu querido amigo,
até já estávamos a ficar "conotados" um com o outro), este
era um mundo diferente, uma nova estética. E isso, profissionalmente, foi
muito bom para mim. VT
- Entretanto
criaste a Companhia Teatral do Chiado… MV - Foi mais ou menos ao
mesmo tempo. A formação da Companhia surgiu na "ressaca" de
uma coisa que me deu imenso trabalho e imenso prazer, o programa
"Palavras Vivas", realizado pelo Nuno Teixeira. Foi um trabalho
muito espaçado, de meses. Era para começar a ser transmitido em
Dezembro, mas por causa das eleições presidenciais isso só aconteceu a
partir do dia 19 de Janeiro. E foi na sequência disto tudo que tive a
ideia - penso que, até agora, feliz - de formar a Companhia com um grupo
de amigos e de jovens actores. VT
- E
vens parar ao São Luiz… MV - …porque sabia que
havia aqui um "buraquinho" aberto - aliás, fechado - e que os
serviços culturais da Câmara queriam dinamizar o Teatro Municipal. De
facto não há fome que não dê em fartura: neste momento, há no São
Luiz imensos espectáculos de jazz, bailado, ópera, despedidas de
cantores… E há esta sala-estúdio, que eu já conhecia, sabia que tinha
havido aqui teatro infantil, o "Teatrinho Branca Flor". Então
fiz a proposta de apresentar nesta temporada de 1990/91 seis espectáculos
diferentes. Foi um trabalho muito exaustivo, não só porque os encenei a
todos como ainda participo como actor. VT
- Em
todos? MV - Quase. Só não
entro no espectáculo infantil e na "Tersseira Classe". Além
disso, tinha já um compromisso com o João Lourenço, do Teatro Aberto,
para entrar novamente na peça "O Suicidário", de que fui
protagonista há oito anos. Portanto, neste início do ano, vou estar em
cena simultaneamente em quatro espectáculos: quatro papéis diferentes
por semana, como actor, e em dois teatros diferentes. Ou seja: à
segunda-feira que é o dia de folga, faço na sala-estúdio do São Luiz o
monólogo "Mário Gin Tónico Volta a Atacar", com novos textos
e inéditos de Mário-Henrique Leiria. Além disso tenho duas representações
com "A Última Badana de Krapp" (uma das peças dos "Três
Actos" de Samuel Beckett, que estou a fazer com a Carmen Dolores),
mais três espectáculos com "A Birra do Morto". E depois vou a
correr para o Teatro Aberto ensaiar "O Suicidário", que tem
estreia prevista para Março… VT
- E
consegues conciliar isso tudo? MV - Até agora sim. É
uma situação um bocado louca. Mas penso que aguentarei isso tudo, não só
física como psicologicamente, porque como me sinto melhor é a fazer
teatro… VT
- O
regresso do "Mário Gin Tónico" está a ser um êxito. E tu
tens uma predilecção grande pelo Mário-Henrique Leiria… MV - Durante anos, sempre
trabalhei em coisas de humor, sempre disse poesia e fiz espectáculos a
solo. E, tanto nestes como nos recitais de poesia, metia sempre poemas ou
pequenos textos do Mário-Henrique, que é um dos muitos autores que gosto
muito de dizer e que têm a ver comigo. Geralmente só escolho textos que
gostaria de ter escrito… Depois, na minha passagem pelo Teatro
Experimental do Porto, aconteceu ser necessário fazer mais um espectáculo.
Mas, porque só estava lá como encenador, achei que era melhor fazê-lo
sozinho. Aí reuni uma série de textos do Mário-Henrique e construí um
espectáculo com uma hora e quarenta e cinco minutos, só com palavras
dele. Depois fui acrescentando mais textos, aquilo foi aumentando e quando
me dei conta o espectáculo estava já com três horas… VT
- É
aquilo a que pode chamar-se um grande espectáculo…
VT
- Isso
já acontecia na primeira vez… MV - Pois, mas agora
acontece mais, até porque descobri outros textos inéditos. Durante a
gravação do "Palavras Vivas" - um dos programas é dedicado
precisamente ao Mário-Henrique - confirmei aquilo que já sabia: que na
Biblioteca Nacional se encontra um espólio dele muito importante, com
colagens e textos inéditos que deviam ser publicados. E eu sei, por
exemplo, que o Manuel de Brito, da Galeria 111, tem várias coisas do espólio
do Mário-Henrique Leiria e está, penso eu, totalmente aberto a quem
esteja interessado em publicá-las. Ele já morreu vai fazer onze anos e
creio que era necessário editar um novo livro. Poderiam ser os "Novíssimos
Contos do Gin" ou os "Contos Póstumos", qualquer coisa
assim… Porque ele é, de facto, um humorista extremamente original. Não
é um autor menor nem é só um contador de histórias, mas também um
poeta, com grande qualidade, ligado ao surrealismo. Penso que valia a pena
fazer isso… VT
- Conheceste
bem o Mário-Henrique? MV - Conheci-o,
ocasionalmente, em 1978. Já conhecia os livros dele, claro, sobretudo os
Contos do Gin Tónico e os Novos Contos do Gin, mas a partir daí passei a
dizer mais coisas dele. Nunca fui muito íntimo do Mário-Henrique Leiria,
mas tivemos uma cumplicidade imediata pelos copos, pelo convívio, pelo
sentido de humor… Ele achava muita graça à maneira como eu dizia os
seus poemas - que ele, aliás, dizia de uma maneira muito diferente… E
sei disso não só porque o ouvi, algumas vezes, mas também porque há
duas gravações que conheço, uma delas uma entrevista autobiográfica,
extraordinária. A outra, feita antes do 25 de Abril, foi a que me deu a
ideia deste espectáculo. É um documento um pouco trágico-cómico, em
que ele se vai embebedando progressivamente, tal como eu faço no espectáculo
(quer dizer: eu finjo que me embebedo, ele embebedava-se mesmo…), à
medida que diz os textos. VT
- Voltando
ao teu programa na televisão. Que poetas privilegiaste? MV - Eu é que fui
privilegiado por ter a oportunidade de dizer esses poetas. Escolhi só
portugueses que já morreram, para que os vivos me não chateassem. E
escolhi vários, sobretudo do nosso século: Fernando Pessoa, é óbvio,
com "A Tabacaria", o Almada Negreiros, a quem me sinto muito
ligado até por ter gravado o "Manifesto Anti-Dantas" e "A
Cena do Ódio", o Mário-Henrique, o Pedro Oom, o Miguel Rovisco…
Mas sobretudo procurei poetas com quem tenho afinidades sentimentais ou
pessoais. O programa é assumidamente muito pessoal: falo de mim, das
minhas ligações, das minhas primeiras leituras e das minhas amizades com
alguns poetas que tive o prazer e o privilégio de conhecer e de conviver,
casos do José Gomes Ferreira, Zeca Afonso, Raul de Carvalho, Pedro Homem
de MeIo, etc. É mais ou menos um programa sobre amigos meus, uns que
conheci pessoalmente, outros só através dos livros, e que me fizeram
crescer como recitador e como actor. E
que acabou por despoletar a descoberta dos imensos espólios literários.
Sempre que se fala de espólios ou de defesa do património pensa-se logo
num pedregulho que cai, nos Jerónimos ou numa igreja não sei aonde. Mas
os papéis são, de facto, mais frágeis do que as pedras… (Este é o Mário Viegas que eu conheci. Actor de
teatro e cidadão, homem preocupado com o seu mundo e com a nossa memória
colectiva, tão fascinado , pelas palavras como pelos pedaços de história
viva que elas lhe revelam. O trabalho é, assim, não só um prazer, mas
também um acto de cidadania, assumido com o mesmo empenhamento com que
fez tudo aquilo a que se propôs. Siga a prosa e a conversa.) MV - Um dos programas é
dedicado ao Camilo Pessanha, esse genial poeta da literatura portuguesa,
que tem, na Biblioteca Nacional, os poemas da Clepsidra
escritos todos com a letrinha dele, que é lindíssima - o que dá uma
extraordinária "fotografia" do Camilo Pessanha e da sua poesia.
Aliás, quando estava a gravar, mexia naquilo com muito cuidado e até
tive ocasião de dizer a um técnico que achava graça ao meu respeito:
"Olhe, cada folhinha destas dava-lhe para comprar um andar ou um
automóvel de luxo…". Mas não foram só papéis e arcas como a do
Pessoa ou fotografias como as do Sá-Carneiro ou do António Pedro que
descobri na Biblioteca Nacional. Foram também gravações e filmes. É o
caso dos arquivos da RTP onde, ao procurar imagens para o programa, fui
encontrar no meio de uma série de milhares de horas ainda por catalogar,
filmes e documentos visuais inestimáveis: com o Zeca, o Raul de Carvalho
ou o José Gomes Ferreira. Coisas que foram apresentadas logo após o 25
de Abril, em "Artes e Letras", ninguém deu por elas no meio
daquela confusão toda e nunca mais foram vistas. Outras estão perdidas
no meio de bobines que é preciso identificar… Por exemplo: ao procurar,
numa longa bobine, o poeta Raul de Carvalho encontrei, misturado, o antigo
actor Raul de Carvalho, do Teatro D. Maria II. E atrás dele, encontrei
mais uma série de coisas. Até me descobri a mim, dizendo uns poemas n'A
Barraca, com o Zeca Afonso, num encontro sobre a vinda a Lisboa do Paco Ibáñez… VT
- Quer
dizer: foste uma espécie de "arqueólogo literário"… MV - Mais ou menos. Aliás,
há histórias curiosas. Como sabes, eu tive durante cinco anos um
programa de poesia na Rádio Comercial. Um dia, telefonou-me uma senhora a
dizer que tinha uma gravação do Mestre Almada a dizer o "Manifesto
Anti-Dantas". Ainda pensei que era uma senhora perturbada ou confusa,
que tivesse ouvido o meu disco, mas não. Era uma grande amiga do Almada,
a casa de quem ele ia todos os domingos depois do almoço passar as tardes
e que um dia, já velhote, dois anos antes de falecer, gravou o
"Manifesto Anti-Dantas", que é um documento fundamental na história
do humor do nosso século. E mais: à conversa com a senhora e o marido,
ia contando como tinha nascido o "Manifesto". Só esta gravação
daria um extraordinário disco… E provavelmente ter-se-ia perdido se a
senhora não tivesse telefonado. VT
- Mas
nunca ninguém o editou… MV - Eu sei que o filho
dessa senhora contactou várias editoras. Mas parece que nenhuma se
mostrou interessada… Essa é mais uma das surpresas de "Palavras
Vivas": a voz do Almada a dizer, comigo, o "Manifesto". E
mais coisas: há dezenas de fotografias e de quadras inéditas do António
Aleixo, no Algarve… Quer dizer: pensa-se que alguns poetas já estão
"fechados", que já está tudo feito, quando, afinal, está tudo
em aberto, por descobrir e por defender. E se, de facto, nós temos alguma
coisa que valha a pena defender é a nossa cultura, os nossos poetas. Pese
embora o que alguns dizem, nós temos uma das poesias mais originais de
toda a Europa. VT
- Mas
entre nós há uma certa tendência para o "deixa andar", não
é? MV - Pois é. Olha: na
Rua da Conceição, em plena baixa lisboeta, há uma placa na casa onde
nasceu o Mário de Sá-Carneiro que tem um número da data enganado. Eu
sei, é uma coisa que não interessa nada: ele nasceu a 19 de Maio e está
lá a dizer que foi a 10. Aparentemente não tem importância nenhuma… VT
- É
uma questão de rigor.
VT
- Entretanto
gravaste um disco com a Manuela de Freitas. MV - Foi. "Poemas de
Bibe", produção da UPAV. É um dos discos que mais prazer me deu:
eu e a Manuela, estilo paizinho e mãezinha, a lermos, muito calmamente,
umas dezenas de pequenos poemas, que podem ser ouvidos por meninos e
meninas, de preferência com menos de dez anos. Porque são poemas muito
ingénuos, muito simples e que abrem janelas e portas aos miúdos,
despertando-os para a poesia. E também tivemos a preocupação de pôr
uma grande lista de poetas, para que aqueles nomes fiquem já nas cabeças
das crianças. É um disco extremamente didáctico e agradável de ouvir,
não só para crianças como para adultos. Muito calmo, muito sereno, está
muito bem gravado. É o décimo terceiro disco que eu gravo, os outros estão
todos esgotados, e é talvez aquele que mais gozo me deu fazer. VT
- Tu
tens, normalmente, uma relação fácil com as crianças? MV - Não, nem por isso.
Nunca fiz teatro infantil, não tenho filhos… Não tenho assim uma relação
muito íntima com elas… VT
- Mas
lembro-me de um programa teu, "Peço a Palavra", feito com miúdos,
que dava um pouco essa ideia… MV - Foi um programa que
me deu um prazer muito grande, uma experiência muito bonita e que me
enriqueceu muito como actor. Mas, mesmo assim, não tenho uma grande
experiência de trabalho com crianças. Não é que não goste de crianças,
muito pelo contrário. Tenho muito respeito por elas e acho que não são
atrasados mentais nem anões - isto sem querer ofender os anões, por quem
tenho muito respeito. Até já trabalhei no teatro com um, o senhor Lúcio,
que era uma pessoa extraordinária. Foi na peça "Baal", no
Teatro do Mundo… Lembro-me até de ter dito, nessa altura, a um colega
teu, que era urgente fazer-lhe uma entrevista, era um homem com imensas
histórias para contar. Por exemplo, o modo como foi utilizado, pela
propaganda oficial no tempo do fascismo: lembras-te daquela fotografia em
que se vê o Salazar morto, na urna, com um anão e aquele gigante de Moçambique,
que morreu há pouco tempo? VT
- O
Gabriel Mondjane? MV - Esse mesmo. O anão
da fotografia era o senhor Lúcio… A tal entrevista nunca foi feita, é
mais uma das histórias que ficaram por contar… VT
- Ainda
é vivo? MV - Não, já faleceu.
Morreu, salvo erro na Mitra, na miséria, completamente desconhecido… VT
- Tudo
isso a propósito das crianças… MV - Pois. Como eu estava
a dizer, as crianças não são nem anões nem atrasados mentais em
crescimento. Tenho um grande respeito pelas crianças, pela opinião delas
e este disco não tem nada de paternalista. Não adianta pensarmos que as
crianças não vão perceber, porque elas percebem muitíssimo bem e têm
uma grande sensibilidade em relação à poesia. Eu tenho feito vários
recitais que os miúdos ouvem e de que gostam muito. Aquelas imagens que,
às vezes, para nós são misteriosas, para eles não têm mistério
absolutamente nenhum. E mesmo que tenham, como dizia um grande criador,
fica um "buraquinho negro" na cabeça delas e, se calhar, anos
mais tarde, o "vírus" da poesia vai-se despoletar: "Ah,
afinal o que aquele tipo quis dizer, quando eu tinha dez anos, era
isto…" É por isso que é muito errado pensar-se que as pessoas não
vão perceber, que este ou aquele texto é muito difícil para elas. Essas
coisas que se dizem como se nós fôssemos os doutores, nós é que
sabemos, é que temos o acesso à cultura. Isso passa-se, também, com os
textos do Samuel Beckett, de que tenho em cena três peças em um acto. Há
quem diga que é muito elitista, mas já fiz várias peças dele e tenho
tido reacções extraordinárias de pessoas muito simples que me vão ver
sem qualquer tipo de preconceito pseudo-intelectual. E que, por vezes,
percebem as coisas mais rapidamente que muitos universitários que aqui
aparecem já com ideias feitas sobre o Beckett sem nunca terem visto nada
dele e só tendo lido algumas "caganças" sobre o assunto. VT
- Recentemente
fizeste regressar o "Bucha e Estica". Qual é o público que
reage melhor a esse espectáculo? MV - É o público que
ronda os setenta anos. Porque o Laurel e o Hardy eram os heróis da infância
deles. E os miúdos. Nós temos aqui ao sábado e ao domingo, um espectáculo
com a Maria Vieira contando histórias, fazendo jogos, lendo poemas e
convidando vários artistas. Cada semana é diferente. É um cantinho
dela, em que dá largas à sua imaginação e ao seu talento junto dos miúdos
e que está a resultar muito bem. Chama-se mesmo "O Cantinho de
Maria", mas esteve para se chamar "Simplesmente Maria"… VT
- E
a Carmen Dolores, como é que ela aparece na Companhia Teatral do Chiado? MV - Eu estreei-me como
encenador num espectáculo chamado "Confissões numa Esplanada de Verão",
que era constituído por quatro peças em um acto: uma de Strindberg,
outra de Tchekov, outra de Pirandelo e outra de Beckett. E nessa altura
convidei a Carmen para fazer a do Strindberg, um monólogo de vinte e tal
minutos chamado "A Mais Forte". Ela aceitou imediatamente e eu
fiquei-lhe sempre muito grato. Depois trabalhámos juntos no filme do Zé
Fonseca, "A Mulher do Próximo", dei-me sempre muito bem com
ela. Agora convidei-a outra vez. A razão é simples: por um lado, pela
grande amizade que tenho por ela, pelo seu grande talento. E também
porque a Carmen é muito mandriona, estava há dois anos e tal sem fazer
teatro e acho que não tem o direito de fazer isso. Também lhe faltava
ainda representar um autor como o Beckett e ficou fascinada pelo texto.
Chama-se "Balanceado", é muito bonito, com tradução do Luís
Francisco Rebello. É uma peça pré-gravada, que vive muito da voz. E a
voz da Carmen é uma voz milagrosa, em que acontecem várias coisas, tanto
mais que ela fez teatro radiofónico durante muitos anos. VT
- Depois
de todos estes anos a fazer teatro, o balanço tem mais recordações boas
ou más? MV - A maioria são boas.
Fiz as coisas boas e más na altura em que tinha de as fazer. Claro que as
melhores recordações que tenho da minha carreira (não gosto muito de
utilizar a palavra carreira, mas enfim) são as coisas que concretizei
principalmente fora de Lisboa, por norma as menos
publicitadas. Faço regularmente centenas de espectáculos, recitais de
poesia e é aí que tenho realizado as coisas de forma mais livre, mesmo
antes do 25 de Abril. "O Manifesto Anti-Dantas", do Almada
Negreiros, "0 Operário em Construção", do Vinícius de
Moraes… Comecei a dizê-los aos 20 anos e foram noites e momentos memoráveis.
E tive a oportunidade, graças ao meu trabalho como divulgador de poesia e
recitador, de contactar com milhares e milhares de pessoas por todo o País
e de ter convivido, de ter acompanhado, de ter crescido como cidadão e
como artista com as pessoas da nova música portuguesa, como são os casos
do Zeca Afonso, do Adriano Correia de Oliveira, do Carlos Paredes. Foi,
para mim, uma experiência extraordinária. Paralelamente, tinha uma
carreira mais ou menos institucional no teatro. Isto depois do 25 de
Abril, porque antes estive proibido muito tempo de actuar em público, por
causa da censura. Aí, no
teatro, não me sentirei tão realizado. Porque, evidentemente, estando
integrado numa companhia, mesmo que essa companhia seja dirigida por mim,
é muito mais difícil fazer tantas digressões e contactar com o público
tão facilmente como numa colectividade de recreio ou numa escola. Mas
todas as viagens que fiz, todas as paixões que tive, as aventuras agradáveis
e loucas que aconteceram na minha vida estão todas ligadas ou ao teatro
ou à recitação de poesia. VT
- Uma
vez, numa entrevista, definiste-te como "um anarquista de
esquerda". Essa "loucura" de que falas não tem nada de
premeditado?
(À medida que fala, Mário Viegas vai desfiando memórias,
lembranças de outro tempo que é também o seu tempo, encantos perdidos e
achados, desencantos e anedotas de si mesmo. Um nome, uma imagem, um episódio
perdido algures no tempo. Histórias sempre com gente, muita gente, toda a
gente.) MV - Há dias descobri
uma carta que escrevi aos meus pais, quando vim para Lisboa, e onde Ihes
dava muitos pormenores sobre o que fazia, aquilo que via, as coisas que me
aconteciam. E uma das que lá conto tem a ver com uma festa da Associação
de Estudantes de Medicina que acabou com uma intervenção violenta da polícia
de choque e onde eu tinha ido recitar uns poemas. Ninguém sabia quem eu
era, mas estavam lá, lembro-me perfeitamente, o Sinde Filipe, de quem
mais tarde me tornei muito amigo, o Carlos Paredes e a Maria Barroso, que
foi ali dizer vários poemas. Disse um de que me lembro muito bem, chamado
"Liberdade" de um velho poeta comunista, o Armindo Rodrigues.
Isso impressionou-me tanto que, no primeiro disco que gravei, o primeiro
poema da face A é exactamente o poema "Homem Abre os Olhos e Verás"
do Armindo Rodrigues. E eu, na carta aos meus pais, lá mandava dizer que
a Maria Barroso era "uma mulher extraordinária, casada com o grande
poeta Mário Dionísio"… Estás a ver a minha ingenuidade da
altura! Um dia destes vou-lhe enviar uma fotocópia dessa carta (já
passaram as eleições, não é nenhuma "engraxadela"), que
demonstra até que ponto ela foi para mim uma referência muito grande. E
eu pus sempre esses valores à frente, antes e depois do 25 de Abril.
Tanto que, quando eu fiz a tropa… Eu fui posto à força na tropa em
1971, e foi uma coisa, essa sim, que marcou muito a minha vida pessoal e a
minha vida artística, porque estive três anos sem poder fazer teatro nem
actuar em público, apesar de actuar às escondidas… VT
- E
aprendeste alguma coisa na tropa? MV - Hmm… Sim… Quer
dizer: agora, com 42 anos, a gente começa a ver à distância e tem é
saudades de não ter 22 anos, que era a minha idade quando fui para Mafra.
Mas sim, aprendi alguma coisa. Do mal também nasce o bem… Pelo menos
deu-me uma certa energia e uma certa disciplina que, afinal, eu tenho -
porque se não fosse assim eu não aguentava estar a fazer quatro peças
ao mesmo tempo. Mas, pronto, aprendi algumas coisas. Não sou cem por
cento anti-militarista. Sem falar, claro, daquela estupidez da hierarquia
militar. O que eu te quero dizer é isto: hoje em dia, entre a malta mais
nova, não há estes "grandes mestres" que teve a geração que
tem agora 40 anos: o Zeca, o poeta
Raul de Carvalho, o José Gomes Ferreira, o mestre Almada, que eu não
tive a honra de conhecer, o Zé Carlos Ary dos Santos, com quem tanto
convivi, nas suas loucuras, nas bebedeiras e tudo isso… São pessoas que
eram referências, eram mitos que, hoje, a malta mais nova não tem… VT
- Isso
talvez tenha a ver com a queda dos mitos que se verifica um pouco por toda
a parte… MV - Sim. Mas olha que
talvez não seja bom. Isso de se dizer que os jovens estão muito mais
libertos… Não sei. Falta-lhes um incentivo, uma coisa por que lutar. E
foi isso que deu origem a que a nossa geração formasse os chamados
grupos de teatro independente que, afinal, são praticamente os únicos
que continuam. Com perspectivas, com sonhos, não é
aquela coisa ultrapassada e passadista, "lá vêm os quarentões, lá
vêm os anos 60". De facto são essas as pessoas que têm ainda hoje
energia para estar no teatro. E são as mesmas pessoas que criam as
oportunidades para a malta mais nova. A coisa que mais me choca quando vou
passear à noite (e eu sou um homem que gosta da noite e conheço Lisboa
muito bem à noite) é ver uma série de jovens de 16, 17, 18 anos sem
quaisquer perspectivas. Porque se nós nos embebedávamos, se fazíamos as
nossas loucuras próprias da adolescência, o que acho muitíssimo bem,
era com um objectivo "anarqueirante", era contra o regime, tudo
isso. Agora não é com objectivo absolutamente nenhum, parece-me ser só
o desespero pelo desespero. Depois, dizem que estamos velhos e que lutámos
por um ideal que não resultou. Mas a verdade é que tivemos uma
perspectiva, uma ideia de sociedade que nós não vimos falhar. Que
alegria maior pode haver, para nós que temos 30 e tal ou 40 anos, que
vivemos o período de passagem do fascismo para a democracia e que, 17
anos depois, vivemos em total liberdade, sem o fantasma terrível da
guerra colonial? Isso é uma coisa que se deve muito a nós. Eu, por
exemplo, passei o 25 de Abril na tropa, fui um militar do MFA, e até
acabei por "meter o chico" por mais seis meses, uma coisa que
nunca me tinha passado pela cabeça… Se calhar está a nascer uma nova
ideologia, que é a ideologia do vazio, da despolitização absoluta, da
falta de respeito pelas pessoas que criaram coisas. E é isso que leva a
que muitos jovens não tenham respeito por nada. A verdade é que tenho
ido a universidades e a escolas dizer poesia e, às vezes, nem o Camões
sabem quem é… VT
- Começa
a haver uma falta de memória preocupante, é isso? MV - Sim. Mas olha que não
estou nada pessimista, antes pelo contrário. E vou dar-te um exemplo
relacionado com a Companhia Teatral do Chiado: nas primeiras representações
de "A Birra do Morto", quarenta por cento dos bilhetes que
vendemos foi para estudantes. E acho que o espectáculo corresponde à
"onda" de que eles estavam à espera. Há ali, uma ideologia,
tal como há no "Mário Gin Tónico", e que passa por brincar
com os valores instituídos como a política, a Igreja, a morte. Porque os
espectáculos do vazio, do esteticismo pelo esteticismo, pós-modernismos
a imitar modas que, lá fora, até já passaram (se é que alguma vez
chegaram a sê-lo) , isso não me interessa nada… NOTA |
|
Viriato Teles (Portugal, 1958). Jornalista, tem trabalhado como redactor ou colaborador de diversas publicações, programas de rádio e televisão. Autor de Bocas de Cena (2003), de onde reproduzimos esta entrevista. Agradecimentos a Cláudia Abreu, da editora Campo das Letras (Porto, Portugal). Contato: viriatoteles@sapo.pt. Página ilustrada com obras da artista Remedios Varo (México). |