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revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003 |
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Rodrigo Petronio: crítica &
ruína das mistificações Floriano Martins
RP - Há um acontecimento
envolvendo Paul Valéry e André Gide que eu acho bastante curioso. Ambos
foram a uma conferência de um scholar
sobre a Ilíada. Gide, que
sempre nutriu uma grande reverência pelo poeta de Sète, vendo-o
circunspeto ao seu lado, assim também ficou. Lá pelas tantas, quase uma
hora de exposição, Valéry se vira para o amigo e pergunta: “Você por
acaso conhece algum livro mais chato que a Ilíada?”,
e retorna à sua compostura inicial, deixando Gide totalmente consternado
e sem saber o que fazer. Creio que esse episódio anedótico, meio nonsense,
ilustra de maneira interessante algumas das nossas possíveis relações
com a literatura, as artes e o legado humano de modo geral. Nós podemos
ter um interesse puramente intelectual por um resíduo arqueológico ou
amar ferozmente a torção do corpo de uma mulher preservada pela lava
calcificada do Vesúvio a ponto de podermos efetivamente ressuscitá-la,
como ocorre com Arria Marcella na magnífica novela de Théophile Gautier.
Cada uma dessas disposições psíquicas que nos levam a esses objetos que
devolvemos à vida tem a sua beleza. Todas as maneiras de se aproximar do
passado pressupõem algum tipo de civilidade, e a civilidade é um bem que
nunca existe em demasia. Crer que essa aproximação deva seguir tais ou
tais normas para servir a tais ou tais valores e ser assim mais ou menos
vital é uma atitude que, por melhor que seja a sua intenção e
finalidade, pode estreitar muito a nossa percepção da realidade e até a
nossa inteligência. Todas as maneiras de abordar o passado são criticáveis,
devem ser, como tudo. Mas acreditar que elas sejam excludentes é algo que
só colabora para o benefício da exclusão e não do espírito. As únicas
coisas decisivamente intoleráveis são os regimes de exclusão. Estes
sim, e seus proponentes, deveriam ser dizimados e levar uma surra pública
periodicamente. No mais, achar que há formas mais vivas e outras menos
vivas de dialogar com a tradição é navegar em um romantismo pueril no
qual eu felizmente não me aventuro mais há algum tempo. Agora, confesso
que gostaria de saber em que contexto o nosso amigo Sucre dá essa definição.
Porque dita assim, nesses termos, acho-a mais imbecil do que provocativa.
Ela me é tão alheia que tenho dificuldade de começar a desenvolvê-la.
Acho que na verdade a questão é bem diferente, muito mais complicada e
triste. Dizer que os clássicos são amenos e enfadonhos pode ser um bom
pretexto, uma estratégia das mais reacionárias, para conservar o espírito
do tempo do jeito que está e nos deixar circulando hipnotizados dentro do
circuito de porcaria que nos acomete todos os dias, cuja única finalidade
é de fato abolir a história e nos deixar à deriva de todas as
metamorfoses que o Vazio possa cumprir em um mundo de mercadorias e de
coisas. O problema é que os clássicos acabaram sendo relegados a dois
extremos: aos especialistas e à indigência. Assim é muito fácil
criticar qualquer abordagem do passado como sendo uma operação sonífera
de carbono 14 ou uma prática enciclopedista de diletantes. Mas isso é,
antes de mais nada, triste. Porque demonstra que o debate civil, no
sentido mais radical e profundo dessa palavra, e a esfera pública onde a
literatura deveria entrar com toda a força, onde essas obras deveriam
circular sem peias e sem adjetivações pernósticas, estão em falência,
se é que já não estão ambos totalmente mortos. É por amor a essa
tradição que você vê explanada nesse livro e a outras tradições que
não entraram nele que eu faço algumas pontes, e venho tentando
timidamente, via imprensa, inserir o debate de uma maneira que não soe
como a legitimação de um acadêmico. Tampouco como o desbunde de um
tropicalista ou de um ignorante, o que, cá entre nós, é a mesma coisa.
Antes de mais nada, gostaria de compartilhar com os leitores a felicidade
que sinto lendo esses livros. O Quixote,
o Barão de Münchhausen e o Gargântua
e Pantagruel estão entre os livros mais saborosos, divertidos, cômicos,
maliciosos, malignos, anárquicos e festivos de quantos alguém já
escreveu nessa existência. Não há proselitismo, muito menos erudição,
que pague ou apague o frescor de suas páginas. E se for o caso, pro
inferno com a erudição. Muito me assusta pensar que há gente que tema
retroagir a esses tempos temendo não ter munição especializada para
tanto. Esse discurso é muito ruim, porque esvazia as obras de sua própria
essência, que consiste na sua condição irredutível, intraduzível e
intransferível, que só se realiza no corpo a corpo que o leitor trava
com ela. E aqui começamos a entrar na segunda parte da sua ótima
pergunta, que é na verdade uma pergunta em leque. Não acho de nenhuma
maneira que os livros sobre autores e sobre outros livros sejam meros
entrepostos críticos que separem a obra do leitor. Se assim o cresse, não
teria escrito e publicado esse livro. Essa é uma visão positivista, que
pensa a obra como uma entidade fechada, unívoca, perfeita em si mesma, e
que em grande parte é a responsável pela depauperação do nosso
discurso crítico, que se encontra praticamente estropiado, em frangalhos.
Na medida em que nós cindimos o texto criativo do texto historiográfico,
filosófico, crítico e reflexivo, sob o pretexto fútil de que estes estão
a serviço de um hipotético rigor científico (na maioria das vezes de um
rigor mortis), estamos transformando a crítica em uma bula de remédio
que deve ser prescrita a uma paciente, ao fim e ao cabo, moribunda,
chamada literatura. Isso é um grande problema. No Brasil essa tradição
é muito forte. Contribui também para fortalecer a burocracia do
pensamento, e temos prosadores que fazem prosa, poetas que escrevem em
versos e críticos que criticam. Uns ficam esperando que os outros cumpram
o seu papel, o que obsta uma crítica em ação, algo realmente tático,
ágil e fecundo do ponto de vista da arte e das idéias. Haja vista o número
irrisório de poetas e ficcionistas que têm algo de razoável a dizer em
termos de arte ou que tenham uma boa verve reflexiva sobre os aspectos técnicos
de sua prática. Quanto à questão da obra, creio sinceramente que a
obra tem um quê de ilusório. Não é possível definir exatamente o que
ela venha a ser. Podemos muito bem dizer que as leituras que se somam a
uma obra também fazem parte dela, e que o poema é muito mais do leitor
que o leu diversas vezes do que do autor que o escreveu apenas uma, para
lembrar a inversão engenhosa de Borges. Se formos computar e pesar bem
pesado, a melhor literatura que se fez nos últimos vinte séculos é em
grandíssima parte filosófica, exegética, historiográfica e sacramental
(aquela circunscrita aos ritos religiosos, como o sermão, por exemplo), não
necessariamente poética e ficcional. Além do quê, os limites entre a
voz do autor e as vozes que ele incorpora à sua e das quais ele se serve
são sempre muito tênues. Essa questão que você coloca, do
distanciamento que o texto ensaístico promove entre a obra e o leitor, me
lembra, muito a propósito por sinal, uma tirada de Montaigne, na qual ele
se lamenta de sua época, dizendo que nela há muitos comentadores e
poucos autores. Essa frase, porém, é de uma malícia inimaginável, e as
edições anotadas dos Ensaios,
por pior que sejam, não por ironia, têm rios de notas de rodapé
indicando as fontes de onde o mestre francês tirou aquelas idéias para
glosá-las à sua maneira, sem nem sequer ter a preocupação de camuflar
a origem de seu pensamento pouco original, já que para sua época
originalidade era ambição de loucos ou de idiotas. Lembremos também que
o próprio Montaigne foi durante muito tempo tratado como um comentador
dos antigos, não como um autor. Isso chegou até a gerar uma polêmica na
Academia Francesa no século XVIII. Em outras palavras, essa idéia da
literatura reflexiva como um arremedo da literatura propriamente dita é
uma invenção recente, cujos estragos sentimos na pele. Se lermos
Gourmont, Lezama, Calvino, Paz, Camus, Berlin, Eliot entre tantos e tantos
outros mestres, percebemos que a vibração de seu pensamento atinge uma
tal freqüência e tais pontos de beleza quando se referem às obras em
questão que é como se naquele instante efêmero e mágico eles as
fizessem suas, e o seu
desenvolvimento atinge aquela graça que é própria apenas à poesia em
seus melhores momentos ou à melhor prosa de ficção. É claro que isso
é com eles, estou engatinhando
em tudo isso, e só posso pedir indulgência do leitor. Mas esse tipo de
literatura me atrai e atrai muito. Minha grande ambição não é fazer do
ensaio um instrumento extrínseco àquilo que ele enuncia, mas sim um
campo de tensão onde se encene o drama da linguagem, das formas e do
pensamento, com toda a autonomia a que eles têm direito.
RP - É temeroso falar da crítica
no Brasil. Corremos o risco de nos tornarmos uma caricatura, como José de
Alencar, que se propôs a palmilhar e sintetizar milhões de quilômetros
de incongruências. Essa acepção em que Paz, sempre agudo, toma a
palavra crítica, é muito interessante. Está ligada ao conceito de Paidéia,
que é um conjunto de saberes que fundamentam a própria civilidade, não
ao sentido escolar, sectário e cartorial que essa palavra desenvolveu
entre nós, mas sim em oposição a método, e naquele sentido em que
Nietzsche a concebe: um traçado errático de referências organizadas a
partir do núcleo de consciência de quem organiza. Tendo isso em vista,
creio que só possamos falar em crítica no Brasil dando nomes aos bois e
falando de críticos brasileiros. Só falo de idéias específicas e de
indivíduos concretos. Abomino generalidades e superestruturas. Elas são
a fonte de toda a nossa escravidão. FM - No entanto, se fala em crítica
no Brasil, a ponto de haver uma aceitação irrefutável de certos nomes,
decorrendo daí prejuízos imensos, a exemplo do descrédito promovido por
Wilson Martins a respeito da obra de Jorge de Lima e da adjetivação de
tardio aplicada por José Paulo Paes à presença do Surrealismo no
Brasil. Que tal começarmos por estas idéias específicas e estes indivíduos
concretos? RP - Esse menosprezo à obra de
Jorge de Lima é tão sem sustentação que vai acabar se voltando contra
quem o propugna. Tendo em vista os rumos vagos, frouxos e afunilados que a
poesia brasileira vem tomando de tempos para cá, com fantasmas que ficam
tricoteando esse papo furado de poesia feita com sinal de menos e
glosando, entre um e outro murmúrio hospitalar, mais alguns
lugares-comuns sobre síntese e concisão poéticas, daqui algum tempo
falar mal da explosão do Ser que o poeta de Invenção
de Orfeu leva a cabo vai se tornar uma espécie de atestado de burrice
assinado de próprio punho. Não precisamos nos preocupar em evidenciar o
valor de sua poesia, evidente para qualquer um que entenda do assunto, por
mais que tenha aspectos criticáveis e equívocos, o que também não
podemos omitir. Wilson Martins é um homem que escreve muito e sobre
muitas coisas. Essa exposição excessiva acaba comprometendo alguns dos
seus juízos. Sua crítica a Guimarães Rosa chega a ser engraçada, pela
veemência da voz de uma pessoa que se pronuncia contra valores
elementares da arte literária do autor mineiro. Mas Wilson Martins não
se reduz a isso. Seria errado também da nossa parte diminuir a importância
do seu trabalho a esse ponto. Acompanho semanalmente a sua coluna no Globo
e vou dizer uma coisa: talvez ele seja um dos poucos críticos brasileiros
capazes de sustentar polêmicas instigantes no mais alto nível. Ele está
entre os pouquíssimos que ainda exercitam isso que deveria ser a tarefa básica
da crítica. Goste ou não goste ou esteja ele errado ou não, isso não
importa. Há muito a verdade já não é mais uma questão fundamental
para a inteligência - felizmente. Mas essa tomada de partido, isso sim é
essencial, e ele o faz à sua maneira e com muitos fundamentos. Quantos no
Brasil hoje em dia batem de frente com estruturas viciadas e corriolas
literárias? Talvez dê para contar nos dedos. Por isso acho o seu
trabalho importante. Oxalá mais críticos tivessem a hombridade de fazê-lo
e estivessem duramente implicados naquilo que analisam, não fossem ventríloquos
pelas bocas dos quais ecoa teoria importada da Europa e dos EUA ou bonecos
de estopa que só sabem manipular alguns truques, blagues, engenhocas e
jargões. Quanto ao José Paulo Paes, não sei exatamente o que dizer.
Como poeta ele é bastante fraco. Sua poesia pode ser um bom instrumento
pedagógico em cartilhas escolares, mas acho difícil levá-la a sério
confrontando-a com outras tradições poéticas e com outros poetas. Por
outro lado, ele foi um excelente, exímio tradutor, com um trabalho
monumental, admirável sob vários aspectos. Seus prefácios e textos históricos
sobre os autores traduzidos também são de muito boa cepa. O que acontece
com Paes é algo parecido: ele acabou se tornando um crítico
profissional, um analista de suplementos, um resenhista em tempo integral,
com holerite e carteira assinada. Isso é complicado, porque as pessoas são
falhas, embora busquem a arte justamente para deixarem de sê-lo. E ele não
agiu apenas no nível da informação, mas da valoração. Essa burocracia
crítica gera alguns problemas visíveis. Vemos Paes dizer que Laurence
Sterne é um ótimo prosador e depois, em um outro texto de circunstância,
dizer que tal autor é um ótimo prosador. Então lemos Sterne e o tal
autor e percebemos que há algum erro terminológico, que há algo de equívoco
em um dos dois - ou no autor do juízo. Em suma, é mais ou menos isso que
acho desses intelectuais. FM - Mencionas alguns nomes
fortes na crítica, a exemplo de Lezama, Calvino, Paz, Camus, Berlin,
Eliot, mas todos são igualmente criadores. A vibração do pensamento e a
identificação com o instante mágico da criação estão aí em consonância.
Como pensar em críticos que não tenham sido criadores, a exemplo de
Harold Bloom ou Wilson Martins? O exercício crítico sente-se aí
desfalcado de uma parcela que lhe é essencial? RP - Talvez o que o poeta possa
oferecer de específico é uma visão estrutural de sua arte, coisa que
muitas vezes a um filósofo, historiador ou crítico literário pode
escapar drasticamente e comprometer toda uma leitura. O poeta também pode
executar aquela espécie de crítica em ação, fazer uma ponte entre a
feitura, a confecção da obra, e sua leitura, eliminando o espaço que
separa a ambas. Mas não acho de modo algum que isso seja um desfalque
essencial. Décio Pignatari é um crítico e se crê poeta, e veja só a
crítica que ele faz. Você quer algo mais risível do que um sujeito que
tem a obra poética que ele tem usar seu voto público para votar em si
mesmo como um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos? É aquela
velha história: não precisamos de ficção nem de circo - já temos a
realidade e os intelectuais. Acho que aqui estamos em um campo semelhante
ao da primeira pergunta. O mundo de hoje comporta tudo, absolutamente
tudo, menos um pensamento de exceção. Tudo é possível e válido como
construção, e assim deve ser tomado, analisado, desmantelado e destruído,
se for o caso. A única coisa inadmissível é partir da exclusão como
premissa, tomar-se a si mesmo, sob qualquer hipótese ou premissa teórica,
como o corolário de um processo, o centro de uma prática, o fim
afunilado e último da história. Quem age assim pretende transformar
todos ao seu redor em fantasmas que chegaram tarde demais ao banquete do
conhecimento. E isso é álibi de falsários que devem ser aniquilados
sumariamente.
RP - O grande problema que a crítica
enfrenta hoje é uma progressiva disjunção entre as descrições e as práticas.
É um problema estrutural, de conseqüências graves, porque de difícil
diagnóstico. O que acontece é que a teoria da literatura e a crítica
literária são coisas novas, estão a serviço da aferição de valor dos
objetos da cultura em um mundo liberal, regulado pelo dinheiro. O crítico,
por mais que tenha um papel de deduzir o valor das obras do espírito, no
fundo acabou se tornando um leitor especial, um funcionário do saber, um
intermediário burocrático, um entreposto comercial entre o leitor que
compra e o escritor que vende. Até séculos atrás tínhamos algo
bastante diferente: doutrinas de artes. Elas eram geralmente escritas a
partir de códigos estabelecidos e visando tão somente o aprimoramento da
prática artística e questões específicas e técnicas dessa atividade.
Com a modernidade houve uma explosão dos referenciais, dos códigos e dos
parâmetros, o que acabou exigindo uma atividade gigantesca do crítico,
que muitas vezes sequer sonha com esse nível de debate. O bom crítico
seria aquele que conseguisse se munir de conhecimento ideológico e histórico,
para historiar as formas e os conceitos, de força retórica,
sensibilidade aguda e entrega incondicional ao seu ofício. Na maioria das
vezes essas facetas não vêm conjugadas, o que cria lacunas sérias no juízo
que se produz. Essas lacunas tiveram que ser preenchidas por alguma coisa.
E foram. Por quê? Por agregados teóricos que muitas vezes dão conta
apenas da exterioridade do fenômeno artístico, evitam o seu coração e
estão longe de constituir uma verdadeira filosofia da Forma. Então nos
restou epistemologia, metodologia, hermenêutica, glossários,
onomasiologia, semasiologia, estruturalismo, historicismo, semiótica,
idealismo, pragmatismo, entre tantos e tantos outros resíduos discursivos
de uma época menos complicada e provavelmente mais feliz. Muitas dessas
vertentes se justificam nas mãos de um bom crítico, que as usa com o
intuito único de fechar o círculo de sentido da obra e pô-la em seu
devido lugar, a partir de um juízo crítico que a situe historicamente e,
a despeito de todo o relativismo, consiga lhe fornecer um valor,
na acepção mais profunda do termo, rigorosamente objetivo. Porque a base
da crítica é a fundamentação do valor, e isso é uma coisa muitíssimo
séria. É assustador ver como muitos críticos procedem como se tivessem
tentando preencher o número de toques e de laudas que o seu editor exigiu
ou como se estivessem redigindo uma petição em um cartório. Resumindo,
o que vemos é uma disjunção progressiva e devastadora entre as descrições
e as práticas, que deixaram de caminhar juntas. Temos um aparelho teórico,
ideológico e burocrático descomunal muitas vezes mobilizado para
endossar poemas (estou sendo indulgente) que não suportam uma crítica
estrutural mínima de um poeta simplório que ainda não tenha sido
contaminado pela logorréia. E estamos de volta ao núcleo de nosso
problema: a positividade. Se você desmancha o conceito de literatura, e o
faz apoiado em teorias, você faz da literatura uma serva daquilo que
deveria estar a seu serviço e que deveria ser apenas uma de suas dimensões.
É o mesmo estrago causado por quem a quer uma ciência. E o grande cancro
aberto nessa dimensão do conhecimento é que, nesse caso, a teoria
funciona como álibi, como fonte inesgotável de legitimidade que dá
autoridade às tais obras e aos ditos poemas. Creio que seja desnecessário
desenvolver aqui o lastro de significados da palavra autoridade. Não
estou propondo uma volta às preceptivas e às doutrinas de arte do século
XVII. De jeito nenhum, tanto porque seria impossível. Felizmente houve
essa abertura e arrebentamos com essa visão mecânica das artes e do
mundo. Mas quando um poema vira ornamento de teorias e o crítico aquele
que prescreve suas possíveis interpretações à luz das teorias que o
mesmo poema veicula e visa, então estamos inaugurando um suicídio simbólico
coletivo. A própria fruição estética se torna uma atividade abstrata,
como se comêssemos um fruto feito de enxofre, porque ela deixa de passar
pelo gosto e pelo lado mais empírico da experiência artística: vai
direto da obra às estruturas conceituais vazias que lhe engendraram e que
o leitor inconsciente e automaticamente mobiliza, como um cão adestrado
de Pavlov ao ouvir o som do sininho. Creio que isso tenha conseqüências
nefastas para a cognição. E o pior de tudo é que o fazemos cheios de
civilidade e assepsia, entre um sorriso e outro, e ainda recriminamos quem
é mais contundente em suas críticas e crenças. Quanto aos antídotos, há
alguns. Proponho que comecemos pondo em prática aquilo que Deleuze chama
de empirismo radical. Todo campo de conceitos transcendental, ou seja, que
esteja além ou aquém do valor imanente da obra, deve ser destruído. É
uma superestrutura vazia de significado, só subsiste de maneira tautológica,
apoiada em si mesma. Isso tem que ruir. O homem só conhece aquilo que ele
faz, já dizia Vico. O saber teórico é descritivo, pode no máximo nos
dar o desenho exterior de um processo e a consciência do Ser. Só quando
nos imiscuímos nesse processo e o internalizamos como partícipes é que
podemos ter de fato uma ciência do Ser, um conhecimento da essência
mesma de um objeto ou de uma prática. Só então nasce aquele saber só
de experiências feito, de que nos fala o maior poeta da língua
portuguesa. Um exemplo: se eu já escrevi um soneto tão bom quanto os
sonetos de Petrarca, Góngora, Quevedo e Mallarmé, uma elegia tão
perfeita quanto as de Propércio e Rilke e uma terza rima da altitude da
de Dante, só então eu terei o
direito de dizer que tais formas estão desgastadas e ultrapassadas, que o
verso livre suplantou as formas fixas e representa uma libertação delas,
que o verso morreu ou que a terza
rima é um recurso exclusivamente medieval. Caso contrário, quem o
fizer, deve ser tratado como merece: como um perfeito idiota. É no vácuo
estrutural da arte poética que todas as ideologias e teorias perniciosas
se alojam. Comecemos limpando o terreno e concentrando nosso foco na
poesia como fato exclusivamente
poético, à revelia dos sentidos políticos, ideológicos, sociais, filosóficos,
morais ou éticos que ela por ventura possa conter. Acho esse um bom começo.
FM -
Em entrevista que te fez para o Rascunho,
Alfredo Fressia comenta a respeito da ausência de vozes latino-americanas
entre teus interlocutores presentes em Transversal
do Tempo. Embora não veja tal presença como indispensável, dá-me
curiosidade indagar-te a respeito de dois casos em particular, o mexicano
Octavio Paz e o cubano José Lezama Lima, de quem dizes ser leitor
entusiasta. Antes recordemos uma preocupação tua em relação a Francis
Ponge, quando temes que ele “seja lido como conceito e não como realização”,
e que “sua arte vire receituário para escritores sem assunto
preconizarem o silêncio sem terem dito ainda uma única palavra”. Não
crês que o mesmo se passa com os dois poetas que menciono, considerando não
mais o silêncio mas sim a analogia e o barroco - em um entendimento
quando menos gratuito de convergências e impenetrabilidades? RP - Você fez aí uma ótima
conexão. Às vezes parece que entre nós ler os autores como conceito e não
como realização é a própria regra, não a exceção. É aterrador ver
como há pessoas que vêem Décio Pignatari e James Joyce como irmãos
espirituais. Há uma diferença gritante entre aqueles que se reivindicam
pertencentes a um paideuma e os autores que o integram. Quem ainda não
percebeu isso não entende absolutamente nada de nada de nenhum dos
autores em questão e não entende absolutamente nada de nada de
literatura. Deveria voltar aos bancos escolares. Da minha parte, confesso
que nem sei como é possível seres tão diversos (os integrantes do
paideuma e aqueles que o constroem) habitarem um mesmo planeta. Mas como
essa aproximação se efetiva? Por intermédio de abstrações vazias:
progressismo, capitalismo, vanguarda, radicalidade, invenção, ruptura,
transgressão, e toda essa fauna taxonômica colhida na reflexão teórica
de quinta categoria que corre por aí. São palavras que não dizem
absolutamente nada, moedas sem efígie e cheques em branco que os sujeitos
preenchem a seu bel-prazer sem ter que arcar com o ônus de rigorosamente
conquistar o estágio artístico que defendem. Mas essas palavras têm
sido o ópio com o qual os intelectuais vêm se drogando em público no último
século. Aqui entra o empirismo radical para destruir esse castelo de
cartas. A dificuldade é que os receptores da grande tradição da arte
moderna, os grandes cabotinos brasileiros, criaram seus precursores de
maneira bem estratégica, e cabe a alguns poucos tolos fazer o caminho
inverso: convalidar essa armadilha que faz deles os descendentes em linha
direta de uma tradição que, não fosse pela sua intervenção teórica
desavergonhada, eles nunca chegariam sequer a representar a sombra da
sombra da sombra, como dizia Hesíodo. Pois bem. Você sabe melhor do que
eu que Lezama nunca falou nada de Neobarroco. O que ele fala é do Señor
Barroco, personagem de um dos seus ensaios e protótipo de certas características
criollas autóctones, específicas do homem americano e da cultura
de ultramar. Entre outras, uma das principais características desse
senhor seria a capacidade de estabelecer uma relação com o mundo que
passasse sempre pelo crivo da sensualidade, quer na esfera prática quer
na dimensão religiosa e intelectual. Isso geraria uma voracidade infinita
de conhecimento e um gosto pelo excesso, ambos movidos pelo pacto faustico
e pelo movimento luciferino de perquirição das causas, pelo
transbordamento e pela mistura, aspectos que Lezama identifica nas
fachadas das igrejas peruanas talhadas pelo índio Kondori, em um poeta
como Gorostiza ou na erudição onívora que encontramos nos escritos de
um autor como o Inca Garcilaso de la Vega. O fato é que a leitura que
temos de Lezama Lima é aquela filtrada pelo movimento Neobarroso
argentino, encabeçado pela figura de Nestor Perlonguer, e aclimatado ao
Brasil pelas mãos do concretismo. Então todo o fundo ontológico e
formal do grande poeta cubano foi transformado em reivindicação ideológica
de uma estética que pretendia fazer da forma um conteúdo, e transformar
o sensualismo mencionado acima em um prazer estéril de manipulação pura
e simples de significantes, o que, com o tempo, transforma a arte poética
em uma atividade afásica e reduz todo o mundo à condição de enunciado.
Em último caso, temos uma arte pedante e um deslumbramento semiológico
que não me parecem próprios ao autor de Paradiso e Dador.
Não há maneiras mais ou menos certas de ler um autor, mas sim mais ou
menos hegemônicas. As conseqüências que toda hegemonia acarreta para o
debate em questão são bastante conhecidas. No caso, seria preciso fazer
uma crítica dessas leituras e demonstrar seus equívocos. Assim estaríamos
dando espaço à diversidade de vozes que a voz de Lezama contempla e
apontando novos horizontes artísticos e conceituais, não afunilando
ainda mais a sua compreensão em uma leitura que é muito mais uma
apropriação do que uma leitura, com todos os inúmeros problemas que
pesam sobre esta palavra. Já no que diz respeito a Octavio Paz, não
saberia dizer ao certo. Há a excelente abordagem de Maria Esther Maciel,
que me parece uma das melhores. É possível que acentuemos demais o lado
do Paz envolvido com a lingüística e com o estruturalismo, comentador de
Lévi-Strauss, autor do Blanco e de alguns ensaios de Signos em
Rotação, sobretudo aquele dedicado à análise do soneto em yx de
Mallarmé. Talvez seja o caso de começarmos a olhar com mais atenção
para um outro lado de sua obra, um lado que flerta com as teorias herméticas
e com o pensamento mítico, com a libertinagem e com o ascetismo, a meu
ver representado por alguns magníficos e impecáveis livros de poemas,
como La Estación Violenta, pelos seus relatos sobre a Índia e
seus ensaios sobre Sade e Ruben Darío, por Conjunções e Disjunções,
pelo seu belíssimo livro sobre Sor Juana Inés de la Cruz e até mesmo
pelo seu pequeno trabalho sobre Duchamp, onde ele ressalta os traços de
um tipo de pensamento selvagem que está por trás da obra do artista
francês. Seria até uma maneira de rever a mistificação que se criou ao
seu redor.
RP - Você tem razão ao dizer
que isso não compromete a qualidade. Isso é um registro de temperamento,
além de ser uma opção artística. Podemos até distinguir dois tipos de
autores, uns mais personalistas e outros que vêem a arte da literatura
como um verdadeiro baile de máscaras. Os românticos se firmaram em oposição
àqueles que eles chamavam de clássicos, que seriam esses autores mais
impessoais e menos preocupados em deixar a marca de sua individualidade
nas obras. Mas o debate existe desde sempre, eu acho. Eu me identifico
total e exclusivamente com os autores que tendem à variação, à mudança,
às máscaras, à mediação racional e artificial do discurso. Mas admiro
muitos artistas que por toda a vida escreveram e reescreveram um único
livro, a ponto de se confundirem com a própria obra. FM -
Observemos um caso como o de Milan Kundera, em que ensaio e narrativa
ficcional mesclam-se em um híbrido fascinante. Tens uma dupla estréia,
na poesia e no ensaio. Como se põem em diálogo ambas realizações? RP - O que posso dizer é que a poesia e o ensaio, junto com a narrativa breve (conto ou fábula) são os gêneros literários que me dão mais prazer e nos quais me sinto mais à vontade. Agora mesmo estou trabalhando em uma narrativa longa. Tanto que seu subtítulo é: uma rapsódia. Ela é feita de capítulos relativamente curtos, se passa em um nível fantástico e é muito veloz. Não sei se pode ser chamada de romance. Ultimamente tenho lido muita filosofia e poesia. Acho que essa estréia é algo natural. Sempre gostei muito desse tipo de literatura crítica e reflexiva, desde menino mesmo, mas me vejo em primeiro lugar como poeta. Na adolescência era um entusiasta de Sartre e Camus e isso também me levou a fazer a faculdade de Letras. A única coisa que não admito e que não faria nem com um revólver na cabeça é colocar o meu trabalho poético como uma espécie de causalidade natural da história da literatura que esboço nos ensaios. O dia que alguém vir esse tipo de coisa nos meus escritos gostaria de ser dura e impiedosamente criticado. Odeio com todas as minhas forças todo tipo de centralidade e teleologia. É óbvio que há algo entre eles e o que faço. Falo desses autores porque amo suas obras. Mas quem se coloca no topo de uma cadeia evolutiva e faz dos autores que glosa os precursores de si mesmo são eunucos que nunca criaram nada. Toda a crítica que venho empreendendo pode ser reduzida a uma crítica ao conceito de Evolução. Não posso pactuar com aquilo que detesto. Procuro sim fazer o seu avesso, destruir a idéia de evolução e demonstrar que as coisas não se superam - mas apenas se sucedem. É engraçado: dizem que as artes prenunciam o que ainda vai acontecer nos outros campos do conhecimento. Hoje em dia é o contrário: enquanto os físicos falam em tempo complexo e dizem que a matéria não existe, os artistas são darwinistas carolas e materialistas de carteirinha assinada. É o que sempre digo: antes tínhamos o beletrismo acadêmico, hoje temos o bom-mocismo de vanguarda. Não sei o que é pior. |
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Rodrigo Petronio (Brasil, 1975). Poeta e ensaísta. Autor de Transversal do Tempo (2002). Contato: pseudopetronio@hotmail.com. Entrevista realizada em abril de 2003. Página ilustrada com obras da artista Remedios Varo (México). |