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revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003 |
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Mário Chamie: a palavra-poema e a poesia em movimento Rodrigo Petronio
MC - A relação entre vanguarda
e modernismo, no Brasil, para mim, sempre foi um desafio crucial. Quando
distingui vanguarda "velha" de vanguarda "nova", tinha
em mente essa questão. O concretismo, a meu ver, sustentava um conceito
velho de vanguarda porque não conseguia identificar no movimento de 22 um
feixe de vertentes e de possibilidades criativas. O movimento de 22
surgiu, entre nós, como um movimento abrangente que se opunha à idéia,
até então dominante, de escolas e movimentos unidirecionais, engessados
na rigidez de seus princípios e regras. O modernismo, sob a sua aparente
tônica nacionalista, na verdade, adotou o lema desconstrutor de que
"sabia o que não queria, e não o que queria". No período de
seu maior desenvolvimento produtivo (de 1922 à década de 30), conciliou
esse lema com o que Mário de Andrade chamava de "pesquisa
permanente" e "atualização constante da inteligência
nacional" criadora. O feixe de tendências diversificadas desse período
define e consolida a modernização de nossa literatura; pluraliza divergências
e convergências da poesia à ficção, da ficção ao ensaio, do ensaio
ao estudo de amplo espectro, envolvendo, além da produção literária, música,
artes plásticas, teatro e pensamento social. À sombra desse espectro, a
poesia de Oswald e Mário convive com a de Raul Bopp e Cassiano Ricardo; a
de Augusto Frederico Schmidt com a de Cecília Meireles e Vinicius de
Moraes; a de Guilherme de Almeida com a de Mário Quintana; a de Jorge de
Lima e Murilo Mendes com a de João Cabral ou Drummond; e esta com a de
Abgar Renault ou Emílio Moura. Do mesmo modo, a ficção de Oswald e Mário
soma-se ao romance nordestino (José Américo de Almeida, José Lins do
Rego, Rachel de Queiroz); a ficção de autores díspares (José Geraldo
Vieira, Cornélio Pena, Lúcio Cardoso, Dionélio Machado, Jorge Amado, Érico
Veríssimo, José Cândido de Carvalho) conjuga suas diferenças com a ficção
maior de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Isto sem falar da profícua
complementaridade dos ensaios interpretativos de nossa formação
cultural, realizados por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e
Caio Prado Jr. Diante de painel tão variado, seria sustentável adotar-se
e impor-se "uma visão evolucionista e unívoca do Modernismo"?
Acredito que não. No entanto, foi o que os concretistas tentaram
fazer. Com sua noção excludente de vanguarda, reduziram a pluralidade de
22 à prevalência do "poema-minuto" de Oswald e outras adjacências.
Em termos de linha evolutiva, atrelaram o poema-minuto ao ideograma chinês,
via Pound e Fenollosa. Intercalaram, nesse enlace, a idéia de paideuma, que, desde Frobenius, significa a seleção de poucos para
a obediência de muitos. O resto é o que se sabe: a vanguarda velha
elegeu o paideuma (elenco) de
autores que, segundo ela, emblematizaria a única linha "válida"
e possível de criatividade poética. Tamanho fetiche normativo batia de
frente com o direito à controvérsia, ao dissenso e, sobretudo, com a
"práxis" da subjetividade individual e transgressora do
artista. Face a essa postura, a modernidade plural do modernismo
encolhia-se e regredia à regras dogmáticas do tipo: o verso morreu; a
palavra é "coisa" inerte e neutra; o poema é
"objeto" (não "interpreta objetos externos"); o
"conteúdo de um poema é a sua estrutura", etc. Solitário,
me opus a essa decretação de um monólogo teórico, em causa própria, e
abri o leque do diálogo criativo em busca de outras perguntas para outras
respostas. O resultado dessa abertura consistiu na confluência do ato de
escrever os poemas de Lavra Lavra
com o ato didático de expor a gênese e a práxis de sua dinâmica
compositiva. Essa exposição didática da gênese dos poemas, que tinham
no corpo vivo da palavra o seu núcleo de irradiação, converteu-se em
posfácio (e manifesto) do livro. Publicado este, o seu impacto não se
fez esperar. José Guilherme Merquior, no fervor da hora, o registrou,
assinalando que o "manifesto-posfácio" estava "destinado a
carreira das mais explosivas em virtude da sua agudíssima (e, portanto,
incômoda) denúncia do que entre nós se continua a impor como vanguarda
literária e não passa de impotência organizada". Realmente, o
efeito imediato do manifesto, percebido pelo termômetro merquioriano, foi
o de apontar a impotência de uma ortodoxia estética que conseguira
construir em torno de si o fetiche e a presunção dogmática de ser a única
via pós-22 de nossa criatividade literária e artística.
Desestabilizando a "impotência organizada", a instauração da
vanguarda nova abriu, de um lado, fendas e brechas para a práxis
individual e autônoma do trabalho poético, e, de outro, introduziu uma
compreensão heterodoxa da modernidade. Essa compreensão vinha pautada
por relações dialógicas, através das quais o movimento modernista
deixava de ser visto como um projeto definido em seus limites, e sim como
um ponto de intersecção de projetos passados e de possibilidades futuras
de novas linguagens e discursos. Grande parte de minha obra ensaística
lida e persegue o diálogo que atualiza no tempo posterior presente a
perspectiva futura de tempos anteriores passados. Alguns livros meus
promoveram esse diálogo e fincaram reconhecidos marcos iniciais da
intertextualidade ainda inexistente, antes deles, em nossa crítica literária.
É o caso de Intertexto, de A Transgressão
do Texto e de A Linguagem
Virtual. Em todos eles, desenvolvo o que chamei de "leitura
produtora" que perscruta e desvenda inter-relações inexploradas
entre realidade histórica e destino simbólico da obra escrita. Graças a
essa leitura dialógica (precursora inclusive da crítica de recepção de
Jauss) foi possível descobrir e inter-relacionar Madame
Pommery, de Hilário Tácito, com Memórias
Sentimentais de João Miramar e Serafim
Ponte Grande, de Oswald de Andrade. Foi possível também redirecionar
o entendimento da universalidade paródica do Macunaíma,
de Mário de Andrade, livrando-a dos espartilhos proppianos com que o
senhor Haroldo de Campos pretendeu encarcerá-la. Em relação a Macunaíma, o melhor fruto do nosso redirecionamento pode ser
colhido no livro O Tupi e o Alaúde,
de Gilda Mello e Souza. Do mesmo modo, na inflexão modernista,
revista pela nossa "leitura práxis", Macunaíma
reconvoca a obra de Simões Lopes Neto e sinaliza para a magnitude
incomparável de Grande Sertão:
Veredas, de Guimarães Rosa. Entra nesse processo dialógico a
correspondência retroativa e prospectiva do "claro enigma" da máquina
do mundo, de Drummond, com a "máquina mercante" do "escuro
enigma", de Gregório de Mattos, intermediados pelo
"claro-escuro enigmático" da valiosa e indispensável obra poética
de Abgar Renault. Por tudo isso, é correto dizer-se, como você diz, que
a minha "relação com a modernidade e as vanguardas sempre foi dialógica,
abrangente e inclusiva". Tanto procede sua afirmação que nunca
tratei as minhas releituras de autores e movimentos, preocupado com a
etiqueta do "revisionismo" pro
domo sua. As chamadas "revisões" feitas pela vanguarda
excludente têm por objetivo primordial atrelar o autor revisto às
palavras de ordem do dogma estético que o revisor segue e obedece. Sob
esse critério, Sousândrade (um poeta visto e revisto antes por Fausto
Cunha), na "revisão" programática (e não dialógica) que
sofreu posteriormente, passou a ser prógono tardio do paideuma
concretista. Um prógono por força de alguns poucos e pequenos fragmentos
de sua elaboração verbal, já que o grosso de sua obra não ultrapassa
as fronteiras de sua retórica datada. A mesma coisa aconteceu com a
"revisão" programática do poeta simbolista Pedro Kilkerry. RP - Certa vez você mencionou
em uma conferência a importância do impacto da cidade grande – São
Paulo – não só na formação do poeta Mário Chamie, então recém-saído
da pequena Cajobi, mas até mesmo na formação do movimento Práxis.
Murilo Mendes saudou Lavra Lavra
como sendo as Geórgicas da Era
Industrial. Fale um pouco dessa articulação campo/cidade que vemos em
sua poética. MC - A articulação
campo-cidade, em minha poética, tem raízes geográficas, políticas, míticas
e religiosas. Passei a infância na "lavoura", a adolescência
na pequena urbs (e seu "comércio"),
a juventude e a maturidade no asfalto cosmopolita. Convivi,
entranhadamente, com a palavra e o discurso de cada um desses estágios.
Percebi, pela experiência direta, e depois pela informação letrada, que
cada estágio encarnava um ciclo de realidade e vida. Compreendi que esses
ciclos, entremeados, constituíam, para além de minha biografia, um
sistema mutável e contínuo da natureza das coisas que definem a história
e a cultura de que somos sujeito e objeto, ao mesmo tempo. Compreendida a
passagem e a mutabilidade de cada ciclo, numa espécie de corsi
e ricorsi viquiano, me dei conta de que tanto o nosso cotidiano de
indivíduos quanto a nossa existência de seres gregários (inseridos numa
sociedade ou numa civilização) cenarizam o mesmo conflito que, ora nos
apequena, ora nos engrandece, empurrando o nosso destino de pessoas e de
povos para o vazio do desespero ou para a plenitude da esperança. Essa
teleologia dúplice (desespero e esperança) nos põe em combustão
interior permanente. Pareceu-me, então, que o cenário desse drama contínuo,
dotado de força rediviva, deveria se configurar no corpo do poema. Um
corpo, cuja interna elaboração poética se teceria com o discurso
e as falas de cada ciclo. Essas falas (rurais, urbanas e cosmopolitas) não
traem as suas dicções próprias, ainda que proferidas como vozes
entrecruzadas de um só e amplo coro. Interdependentes, essas vozes e dicções
interagem e se condensam na dicotomia campo-cidade e suas extensões
(palavra-consciência, espaço-tempo). O poema "Abertura", de Objeto
Selvagem (reunião de meus primeiros nove livros) dá a medida
disso: No espaço do campo, passa o homem e sua
miragem.
A saudação de Murilo não
representou um gesto retórico. Ao contrário, ela trazia uma séria
ponderação cultural e estética. Não fosse, assim, ele não teria
evocado as Geórgicas, de
Virgilio. A analogia sincrônica entre Lavra
Lavra e essa obra virgiliana é muito plausível. Como sabemos, as Geórgicas foram escritas num momento de turbulência político-social,
às vésperas da última guerra civil do Império. Não há outra razão
para que a sua linguagem esteja toda impregnada de imagens militares. Senão,
vejamos. O lavrador impera ("imperat") na lavoura; as sementes
do plantio são atiradas como flechas ("jacto semine"); os
ventos engalfinham-se em fortes contendas ("ventorum proelia");
as águas avolumam-se como colunas e legiões ("aquarum
agment"); e os arados, utensílios e carreadores assemelham-se a um
arsenal de armas a serviço dos camponeses. Esses traços de linguagem,
por sua vez, integram-se na consistência mitológica do livro, que tem em
Júpiter o seu centro-motor. Nas Geórgicas,
Júpiter é o Pai ("Pater") que estimula os lavradores a
descobrirem em suas "lavras" não só técnicas de cultivo, mas
também formas de sabedoria e de transformação da terra, a partir das
orações (no sentido de frases e discursos formulados) do pensamento. Júpiter
ordena mesmo aos lavradores: "orate"! Isto é: rezai! Nesta
ordem dada, Virgílio caracteriza as Geórgicas
como um poema épico e didádico, em que a "física" (não a
metafísica) de Lucrécio, a mito-teologia virgiliana e o estoicismo ético
de Epicuro, esteticamente amalgamados, ensinam o homem a humanizar a
natureza e a naturalizar a sua humanidade. Ora, o Lavra
Lavra prenuncia a turbulência que leva aos acontecimentos de 1964.
Carrega no seu bojo toda a estrutura sistêmica de nossas desigualdades e
contrastes. Transforma essa estrutura em matéria-prima de denúncia e de
transfiguração. Instaura um novo dizer poético para uma nova consciência
de leitura e de criação estética. RP - Você sempre demonstrou uma
predileção, não pela manipulação pura e simples da linguagem, mas por
aquela dimensão em que ela se insere no cotidiano e os seus respectivos
processos de significação, como já observou com argúcia Vilén
Flusser. Podemos dizer que, para Mário Chamie, o Sentido está para além
da linguagem e a Poesia para além do poema, embora nasçam deles e a eles
retornem transfigurados? Você concorda com essa definição?
MC - Você tem razão ao
verificar que não manipulo a linguagem, na elaboração de meus poemas.
Simplesmente porque a palavra, para mim, não é um mero instrumento feito
e acabado em si mesmo. Ela não é uma ferramenta externa com a qual
abordamos as coisas ou falamos das coisas. Entendê-la assim, leva à sua
manipulação. E manipular é limitar-se ao uso exterior de técnicas e
expedientes para o ajuste dos meios de expressão. Ora, mais do que mediar
as coisas, as palavras constituem a realidade delas. Uma realidade in
fieri, em movimento. Uma realidade ainda não instrumentalizada. Por
isso, ao invés de manipular a linguagem, penetro no corpo das palavras
que a constituem, recriando-as poeticamente. É nessa recriação interna
da linguagem que levantamos e redimensionamos as significações possíveis
do mundo objetivo, em suas manifestações cotidianas, históricas e
existenciais. Vilén Flusser, notável filósofo da Linguagem, ao analisar
o meu livro Indústria, compenetrou-se de que o livro reelabora um amplo
levantamento de “ditos” (ou dictemas) de um discurso urbano-citadino
tautológico, mecânico e instrumentalizado. Por exemplo, o dito “ossos
do ofício”, foneticamente próximo de “ócios do ofício”. O estudo
de Flusser mostra que a recriação desses ditos, reconvertendo-os em seus
significados e salvando-os da tautologia manipulada de seu uso, confirma
que o poema é o lugar epifânico da Poesia. Ou seja: o Sentido da poesia
nasce das palavras, sobrepõe-se a elas, mas a elas retorna, a cada
leitura do poema. Esse retorno não só traz a marca da transfiguração,
mas também o entendimento de que a Poesia é a Linguagem das linguagens
que o mundo e a vida soletram. RP - Mário Chamie quer poetizar
o poema, e livrá-lo da flor-deserto estéril a que ele acabou sendo
submetido e sob a qual ele hoje está sufocado? MC - Se a tautologia e a
manipulação são uma ameaça que atinge a palavra poética, com mais força
essa ameaça costuma recair sobre o poeta e a sua sagrada liberdade de
tentar ser ele mesmo. Tenho comigo que o dissenso consciente e elaborado
é a fonte primeira da autenticidade que todo poeta deve procurar alcançar.
No universo missionário da imaginação poética, a relação mestre-discípulo,
influenciador-influenciado, merece ser regida pela ética maiêutica do
questionamento. Essa ética se pauta pela freqüência teimosa das
perguntas permanentes, seguida da revisão incessante das respostas dadas.
No que me diz respeito, em nome dessa ética (a ante-sala da originalidade
estética), só escrevo poesia se marco encontro comigo e compareço. A
poesia brasileira, dos anos 80 (século XX) para cá, descontado o
surgimento de algumas boas promessas ou de algum talento em potencial, me
parece entregue a seduções esterilizantes. Deixando de lado os
casos extremos de certa sub-poesia sub-clonada, tem prevalecido, nessa
poesia, a prática do que eu chamo de emulação circunspecta. Nessa emulação,
o poeta novo toma por paradigma determinada tendência ou autor
consagrado, rebaixando sua produção pessoal a uma variável secundária
do paradigma adotado. Nesse processo, confunde-se emulação com competência
criativa, resultando daí um acúmulo de tributos e de pagas tributárias.
Vale dizer: o poeta Fulano paga tributo a Drummond e tributário
drummondiano fica; o poeta Beltrano paga tributo a Cabral e tributário
cabralino restará; o poeta Sicrano tributa-se ao concretismo e concretino
continuará forever (risos). E,
"cosi la nave và"! Procurei retratar esse
panorama letárgico no poema "Esboço de breve manifesto dromedário",
de Caravana Contrária. Com
outras implicações, mas na mesma linha, está o meu "Vamos poetizar
o poema", publicado no Horizonte
de Esgrimas. A referência a João Cabral é explícita. Algumas
distinções, porém, merecem ser apontadas. Como se sabe, o poema de
Cabral ("Alguns Toureiros), pede-nos que não "perfumemos a
flor", nem "poetizemos o poema", para que sua poesia seja
de "mão certa, pouca e extrema". O meu poema faz a réplica
dessa postura, lembrando que o fato de ser ela legítima não a valida
como dogma ou argumento de autoridade. Meu poema, portanto, se opõe a que
se converta a postura cabralina em canônica fechada. Por isso, ele
contorna a lição pétrea de João Cabral e enuncia a energia tensa que a
lição toureira da arena nos transmite: "O
sangue de sua espada/ é sua palavra-poema./ Vamos poetizar a palavra/ com
sua capa toureira:/ as vísceras da metáfora,/ na sua espada
vermelha". RP - Desde Lavra-Lavra e Indústria,
passando pela Quinta Parede e
por Caravana Contrária até
chegar ao novíssimo Horizonte de
Esgrimas, percebemos que sua poética vem se tornando mais orgânica e
menos serial, se é que essas definições não são por demais abstratas
e genéricas para definir conseqüentemente o seu percurso poético. É
como se o poema encontrasse paulatinamente outros ambientes de circulação
e outros processos, e assim alterasse também seu percurso e sua
fisionomia. Você concorda que houve essa mudança? A que se deve essa
alteração na sua visão de mundo, espelhada na sua poesia?
RP - Quais os poetas atuais que
Mário Chamie citaria como interlocutores e partícipes das suas indagações
artísticas? MC - Para mim, há uma diferença
considerável entre "contemporâneo" e "atual". Em
termos de convívio e interlocução, um autor contemporâneo pode ser
inatual, e um autor do passado, mais do que contemporâneo, pode ser atualíssimo.
Nessas circunstâncias, ainda que um pouco recluso, estou sempre aberto à
boa conversação e aos bons interlocutores que sempre surgem, seja
pessoalmente, seja em forma de livro ou palavra escrita. RP - Você acaba de lançar também
um estudo antropofágico da carta de Pero Vaz de Caminha, Os
Caminhos da Carta, que trata de todas as recepções e leituras que
esse documento ímpar já suscitou, até Oswald de Andrade. Fale um pouco
sobre o cerne desse trabalho e quais foram as inquietações que te
conduziram a ele. MC - Em termos de inquietação,
eu poderia citar algumas. Mas, vou me limitar a duas: uma de caráter
geral, e outra de caráter específico. A de caráter geral seria esta:
quando aceitamos que o passado continue a nos ver e a nos ler, corremos o
risco de deixar escapar a possibilidade de entendermos melhor o nosso
presente. O passado tende a se hipostasiar numa verdade estabelecida. Por
isso, rever e reler a visão do passado que nos formou abre um bom caminho
à compreensão do que há de provisório em sua verdade. E se a verdade
é provisória, por que o "desvio" dela não haveria de ser
fecundo? Já a inquietação de caráter
específico seria esta: a instauração práxis, ao introduzir na crítica
brasileira o conceito de co-autoria, formulada de modo completo na concepção
do "textor", fundou novos parâmetros de leitura da palavra
literária escrita. O textor é a mobilização de uma relação tríplice
entre autor, texto e leitor, no processo de desconstruir e reconstruir
significações inesperadas e originais que a palavra escrita contém inscritas
nela mesma. A letra de música "Construção", de Chico
Buarque, serve de referência ilustrativa. Chico, ao cantar essa letra práxis,
passa de autor a seu leitor. Na leitura que faz, Chico permuta palavras e
fragmentos internos da letra entre si, provocando o surgimento e a construção
de novos e imprevisíveis significados acrescidos à sua música. Ora, com
a soma dessas duas inquietações, eu diria que, sob certos aspectos, a
Instauração Práxis está para a segunda metade do século 20, assim
como a Antropofagia e a Poesia Pau Brasil estiveram para a primeira. Isto
porque Oswald tentou, a seu modo, ser co-autor de Pero Vaz de Caminha,
garimpando de sua Carta fragmentos, cujas direções de sentido
"desviam-se" de sua verdade estabelecida. Oswald confere
estatuto de poemas aos seus garimpos e assume a sua "autoria".
Mais: sugere que cada poema representa a ponta do fio de uma meada a ser
seguida, com a expectativa de desfazermos o novelo da bela novela de intenções
encobertas que subjazem no belíssimo texto de Caminha. Isto posto, não será impertinência
afirmar que, no meu livro Caminhos
da Carta, faço uma releitura de Oswald e de Pero Vaz; uma
releitura da desconstrução do texto de um que valha pela reconstrução
do texto do outro, e vice-versa. Assim, de um lado, homenageio a
"desaprendizagem" (ou o "estouro dos aprendimentos"
oswaldiano) que muito nos ensina; de outro, ensino a reaprendizagem
daquilo que, talvez, já tenhamos esquecido. RP - Nesse seu novo livro, há
um leitmotiv que o percorre do começo ao fim, e é justamente o verso que
lhe dá nome, e fala de um horizonte de esgrimas. Há outros versos que se
repetem no seu interior. Mário Chamie pensa o processo serial das cidades
modernas sob uma perspectiva artesanal da poesia e da manufatura do poema? MC - Baudelaire, em seu poema
"Le Soleil", rebaixa a imagem da "esgrima" à
ansiedade doméstica e particular do poeta empenhado em encontrar palavras
para produzir seu poema. Basicamente, a esgrima baudelaireana esgota-se na
porfia da palavra certa para a rima correta. Veja-se: “Je
vais m'exercer seul à ma fantasque escrime,/ Flairant dans tous les coins
les hasards de la rime". A deixa baudelaireana ecoa em boas
paráfrases desse embate cotidiano de esgrimas vocabulares. Veja-se esta
paráfrase de Drummond: "Lutar
com palavras/ é a luta mais vã./ Entanto lutamos,/ mal rompe a manhã".
No meu livro, a mira e o alvo são outros; nele, a pedra-de-toque "um
horizonte de esgrimas" nada tem a ver com a elaboração do verso ou
com a "manufatura do poema". O meu livro é a anti-paráfrase,
por excelência. No poema emblemático "Murilos de vento"
assinalo que ali a poesia se faz "no vôo de sua práxis/ sem a prótese
da paráfrase". Vale dizer: a pedra-de-toque "horizonte de
esgrimas" não se confunde com nenhum bordão de apoio, nem com
a ansiedade baudelaraireana particularizada. Ela é pensamento nuclear ou
idéia-mãe presente e disseminada pelo todo dos poemas. Em termos
musicais, essa pedra-de-toque tem funções análogas às do baixo-contínuo.
Entendo esse baixo-contínuo, aplicado ao meu livro, como um imantado fio
capilar que aproxima e entretece o que aparenta estar separado e
distante. Nuclearidade capilarizada, portanto, a expressão "um
horizonte de esgrimas" permeia, interliga e confronta as situações
poéticas distribuídas pelas dez seções do livro. A esse propósito,
acho bem endereçada a sua pergunta sobre se eu penso "o processo
serial das cidades modernas sob uma perspectiva artesanal da poesia".
Entendo que a serialidade urbana tem muito a ver com a produção em série
do mundo industrial e pós-industrial. Em meu livro Indústria
tento mostrar o quanto a cidade, a par do poderoso redimensionamento de
nossas potencialidades humanas, nos fragmenta e nos automatiza,
tornando-nos sujeitos e objetos replicantes de nossas próprias redundâncias
e repetições. Uma dose de perspectiva poético-artesanal, injetada em
nossos automatismos comportamentais, nos ajuda a ser mais sujeitos de nós
mesmos e menos objetos de neutras e sistêmicas engrenagens exteriores.
MC - A Arte se esconde nos
porões do inconsciente e se expande com a luz da inteligência. A
industrialização gerou duas perplexidades: uma, a de que os dados de
realidade, tais quais são em sua objetividade ontológica, devem se impor
aos artistas; outra, a de que a criação artística deva ser uma extensão
"mimética" desses dados. O suposto comentário de Marcel
Duchamps a Brancusi, dizendo que a arte estaria condenada à morte porque
nenhum artista seria capaz de "reproduzir" o perfeito design técnico
de uma hélice, é fruto de sério equívoco. O equívoco de que a mimese
artística seria mera fatalidade reprodutiva, segundo a qual quando a arte
não imita os fatos e frutos da Natureza, imita os processos e os produtos
da Cultura. Esquece-se que, em meio à clássica antinomia
Natureza-versus-Cultura, a arte imita-se a si mesma. Por isso, a mimese
artística transforma, no tempo e no espaço, todos os dados de realidade
(avião, pirâmide do Egito, desejo de amar ou o pico do Himalaia) em pretextos
de sua criação transfiguradora. Pois a dimensão ontológica da arte é
esta: gerar e introduzir a instância ativa e simbólica da imaginação
humana na espessura inerte das falsas objetividades que levam, entre
outras coisas, à barbárie. Chame-se essa barbárie "marketing
cultural", "consumo descartável" ou "silêncio
autista" dos indefectíveis mentores e burocratas do solipsismo e da
aporia. RP - Há um bom espaço para a sátira,
a mística, as lendas, o amor, os amantes e a poesia fescenina nesse seu
novo livro. Há também um clima fabuloso oriental em muito deles. Hoje em
dia, Mário Chamie está mais para São Paulo, Cajobi ou Damasco (risos)? MC - Aqui, vamos por partes,
como diria o esquartejador de Londres (risos). Quero dizer: falemos um
pouco de cada uma das dez partes em que se divide o Horizonte
de Esgrimas. Espero que o comentário que farei de cada uma delas
valha como razoável resposta à sua bem-humorada pergunta. Sigamos a seqüência. O título da primeira parte
repete o título do livro. Percorre por ela um surdo embate das coisas, ao
sopro do princípio heraclitiano de que em tudo há um devir constante,
uma mutação contínua, fazendo-nos suspeitar de que nada é o que parece
ser. Apesar de conflituosas essas mutações, elas não impedem a conciliação
dos contrários. Os sete poemas desta parte se regem por essa esgrima de
opostos. Assim, através de sua leitura, ficamos conhecendo aquele
"rapaz" que era epicurista de "tanto ser/ o que não
era". Ou acabamos descobrindo que: 1) tanto o cético quanto o cínico
cultivam o mesmo impulso narcísico ("são iguais na diferença");
2) que o lotófago (comedor de lotus) monta para ele próprio o
"transe", o "trânsito" e o "tráfico"
que o leva, náufrago, ao "coração dos mortos" (num
auto-inferno de Caronte e Hades); 3) que os místicos, "cedo ou
tarde", se auto-dilaceram entre êxtases hipotéticos e o gozo tenaz
da carne (lembremo-nos de Santo Agostinho: "Senhor fazei-me casto,
mas não ainda"). Os seis poemas de "O Momo e
o Santo" (segunda parte) hospedam a presença pagã (Momo e Sileno),
as religiosidades cristã (São Francisco), islâmica (Mansa Mussa) e
hindu, num diapasão tocado por "sátiros e santos". Momo é um
deus grego do prazer sensorial que ocupa o seu lugar no Olimpo; Sileno é
outro mito pagão, peregrino e desmedido em suas andanças pela Índia, Frígia
e Grécia; a ele é atribuída a fábula de ter ensinado ao rei Midas (da
Frígia) o segredo e o poder de transformar em ouro tudo o que tocasse.
Deus peregrino e trapaceiro, fez-se, nas suas "idas e vindas", vítima
do próprio ensinamento passado a Midas, pois ao reapropriar-se do ouro a
que Midas reduziu todas as coisas, morreu, também, de "fome mortífera".
A terceira parte ("Heresias
do Perdão") reinstala, matizados, os temas anteriores, revistos em
seus desdobramentos heréticos. Os seus sete poemas agasalham o conflito
judaico-palestino, a interiorização budística, os reformadores (Lutero
e Calvino), além dos evangélicos e da chamada igreja carismática de
nossos dias. Qualquer um desses poemas lê o avesso do outro, já que não
sabemos, ao certo, se o hábito faz o monge ou o monge faz o hábito, ou
se, no horizonte dessa esgrima, "é no pecado/ que o paraíso se
conquista/ e se maquina". A quarta parte ("Amores
Devolutos") é regida pelo entrechoque dos conflitos no plano dos
afetos individuais. Os seus seis poemas perlustram fissuras e rupturas
amorosas que tornam a terra prometida do amor em terra devoluta do engano
e da perda irrecorrível. No desterro da terra devoluta, a perda vai da
"pérola" dada (à amada) até a metamorfose do amado corpo do
outro em "um pobre monstro amoroso/ sem remorso/ sem nome/ sem
rosto". A quinta parte ("Tentativas
de Reconciliação") mexe com ancestralidades históricas infiltradas
no coração e na cabeça do homem e da mulher. Aqui, a esgrima não
rivaliza apenas os signos e os destinos do homem e da mulher, enquanto
opositores ou pólos bio-existenciais. Mais do que isso: rivaliza a
dualidade masculino/feminino, de uma perspectiva ontológica, na qual o
que se desenha é o jogo de domínio e anulação da mulher pelo homem. O
poema "Eterno Diálogo" desce fundo nesse jogo, tentando
vislumbrar até onde "o corvo da história/ patriarca" instalou
na mulher "sua demência máscula". A sexta parte ("Tratos
fesceninos") ergue a bandeira do interregno. Abre, para nós, uma
brecha apaziguante entre as emoções conflitivas dos amores devolutos e
os impulsos desgastados a que levam tentativas de reconciliação,
promovidas por interlocutores fechados em suas redomas. O intervalo desse
interregno não é especulativo. É, sim, sensorial, poroso, epidérmico
(ou bem epitérmico) porque
desarma-se diante do fervor dos desejos ativos e límpidos. Esse intervalo
consigna a face de uma inocência corporal que se desvencilha dos martírios
inibitórios, impingidos pelos complexos espirituais e psíquicos. A sétima parte chama-se
"Inscrições da Metáfora". O meu livro conta com a metáfora
central da esgrima que se materializa na esgrima do tempo contra a pedra.
Metáfora é sina, estigma, cicatriz. Fenomenologicamente, é o núcleo
(caroço) da alcachofra, depois de degustarmos todas as folhas do fruto
(ou do legume). É sina, porque é sinal; estigma, porque é marca da
linguagem; cicatriz, porque é o corte profundo da significação, em meio
a paisagem difusa das palavras; é núcleo, porque sem ela o fruto não
tem semente que floresça e que se expanda na árvore do poema. Por isso,
a metáfora é fatídica e incisiva. Por isso, não há como fugir de sua
"pedra única", pedra "que se lima,/ num horizonte de
esgrimas". Para mim, o limar-se do tempo é o seu polir-se, o seu
corroer-se e o seu condão de pulverizar a "pedra íntegra da
vida". A metáfora do tempo sincrônico que, no meu livro, reúne
passados míticos, presentes históricos e premonições futuras, dá
testemunho de que "o mundo e a vida/ não são sofismas". Além
do poema "Metáfora assassina", os demais cinco poemas da sétima
parte metaforizam a "rua cheia", o "fogo-fátuo", o
"fel da verdade", a "luz da vingança" e o
"baralho dos sonhos". A parte "Inscrições da
metáfora" descortina, por fim, as três últimas e conclusivas
partes do livro. A primeira (que é a oitava) vem com o nome inscrito de
"Respeitosa ironia". A razão disto está em que a grande ironia
é aquela que respeita o alvo de sua seta. É aquela que, astutamente,
exalta as qualidades do seu objeto, com a malícia de sua complacência e
o ardor do seu escárnio. Não é uma contradição, em si, juntar a
palavra "respeito" à palavra "ironia". Essa junção
determina a passagem do segredo irônico para a sátira, guardado, é
claro, o "sigilo do riso" ou da "fala ferina", pois,
segundo ensina meu mestre Menipo: "isto não é aquilo/ e aquilo não
é isto,/ num horizonte de esgrimas". É o sigilo (respeitoso) do
riso que remanesce na fala ferina do poeta maldito ou do símio sábio que
salta "sobre o abismo,/ pulando de galho em galho". A cruel
ironia da morte lazarenta de Euclydes da Cunha não nos inspira o mais
profundo e devoto respeito? Na décima e última parte do livro ("Hipóteses de um eterno retorno"), o poema de mesmo nome mobiliza a esperança que nasce da perda, sempre comprometida com a promessa de recomeço ("que viagem é viagem/ de ida e volta"?"). No fechamento do decálogo (as dez partes do livro), o horizonte que se fecha é o mesmo que se abre já que, heraclitianamente, o caminho que sobe é o mesmo que desce: "Se o começo recomeça/ pelo fim e fio/ de uma história,/ o retorno é sempre o rio/ que se enrosca/ em outro rio/ que derrama e se deforma". Enquanto isso, Abelardo continua, em seu eterno retorno, a amar Heloísa, "sob intrigas e batinas/ de sua igreja perdida/ num horizonte de esgrimas". |
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Rodrigo Petronio (Brasil, 1975). Poeta e ensaísta. Autor de Transversal do Tempo (2002). Contato: pseudopetronio@hotmail.com. Página ilustrada com obras da artista Remedios Varo (México). |