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Editorial
Burocratas
lêem Baudelaire?
Dificilmente.
E com menor chance ainda a sua contribuição à crítica literária.
Pois
deveriam ler o ensaio sobre Théophile Gautier, no qual o poeta de As
Flores do Mal defende os
belos raios de sol da estética contra a
doutrina da indissolubilidade entre o Belo, o Verdadeiro e o Bem
que, para ele, não passava de uma
invenção do filosofismo moderno. Entenda-se, da ideologia da
Idade da Razão, com a qual, por considerá-la constitutiva da
sociedade burguesa, promoveu um permanente acerto de contas através
de invectivas como esta: O que
me entedia na França é que todo mundo se parece com Voltaire.
Para
Baudelaire, havia separação ou independência entre três esferas:
uma delas, a da estética e da arte (o Belo, em seus termos); outra,
da ética e por conseguinte da política (o Bem); e a terceira, a do
conhecimento, inclusive e principalmente o científico (o Verdadeiro).
Em sua crítica de 1862 a Os
Miseráveis, de Victor Hugo, que marcou a ruptura com aquele que
foi, na época e por muito tempo, a figura máxima da literatura
francesa do século XIX, a argumentação é a mesma. Naquela obra de
denúncia da opressão e da miséria, Victor Hugo teria posto a
literatura a serviço dos bons sentimentos, do politicamente correto
(para usar o termo contemporâneo), ignorando a irremediável e
definitiva separação entre as três esferas.
Os elogios
a Gautier e as críticas a Victor Hugo podem ser entendidas como
defesa da autonomia da arte; portanto, da liberdade de expressão e de
criação. Equivalem à recusa da sua instrumentalização, da submissão
à “mensagem”. No texto sobre Gautier, reclama
...que a França tenha sido providencialmente criada para a procura do
Verdadeiro, de preferência ao Belo, (e) mais
ainda de que o caráter utópico, comunista, alquímico, de todos os
seus cérebros só lhe permita uma paixão exclusiva, a das fórmulas
sociais.
Certamente,
muitos leitores de Agulha acompanharam, através de jornais e
TV, a polêmica em torno dos critérios para o patrocínio de projetos
culturais por empresas estatais brasileiras vinculadas ao governo
federal.
O assunto
já foi solucionado ou, ao menos, bem encaminhado. Mesmo assim,
justifica-se comentá-lo. Em resumo, enquanto o Ministério da Cultura
teve seu orçamento reduzido a qualquer coisa como cento e trinta milhões
de reais, a soma dos recursos disponíveis para o patrocínio de
projetos por empresas estatais, através das leis para o incentivo da
cultura, chega a seiscentos milhões de reais. A Secretaria da
Comunicação da Presidência da República, Secom, deveria orientar
esses patrocínios.
Havia,
portanto, dois ministérios da Cultura no Brasil: o ministério pobre
e o ministério rico. Respectivamente, o Ministério da Cultura
propriamente dito e a Secom.
A orientação
da Secom, o ministério rico, consistiu em exigir “contrapartida
social” dos projetos beneficiados por recursos de empresas estatais,
assim exibindo o que Baudelaire havia chamado de paixão
exclusiva pelas fórmulas sociais.
Obedecendo
à diretriz, a Eletrobrás informou que patrocinaria projetos em
sintonia com o programa Fome Zero, tendo como diretriz fundamental a
exigência de contrapartidas sociais, notadamente, geração de
emprego e renda para as comunidades carentes, capacitação de jovens
para a produção de cultura popular e acesso gratuito ou a preços
populares a atividades culturais. Furnas, por sua vez, pediu
prioridade para jovens de comunidade de baixa renda, portadores de
deficiência física, portadores de doenças crônicas graves, idosos,
estudantes de escolas publicas. Comunicados de corporações
vinculadas ao Estado ainda falavam em valorização do folclore e da
“identidade nacional”.
Como seus
autores não leram Baudelaire, confundiram cultura e filantropia. E
transferiram tarefas e funções de outros órgãos e setores da
administração pública, desconhecendo que o desenvolvimento cultural
deve ser visto, em si, como prioridade social.
Tais
diretrizes foram criticadas, recebendo acusações de populismo e
dirigismo cultural, e, por intervenção direta do Presidente da República,
acabou-se por decidir que o Ministério da Cultura passaria a
coordenar a utilização desses recursos. Acertadamente, unificou-se a
política cultural brasileira.
Os autores
daqueles comunicados e instruções não devem ser vistos
necessariamente como réplica dos burocratas estalinistas, empenhados
em transformar a qualquer preço a cultura em propaganda. Pode-se
enxergar, antes, amadorismo, desconhecimento do assunto.
Contrapartidas sociais já são exigidas por leis de incentivos para a
cultura. Na verdade, exibiram o mesmo imediatismo de alguns dos
responsáveis pelos patrocínios por empresas privadas, que não estão
nem aí para o valor propriamente cultural do projeto, porém de olho,
apenas, nos resultados estritamente mercadológicos, na centimetragem
na imprensa, tempo na TV e demais indicadores da eficiência publicitária.
Homens de marketing de empresas privadas ou públicas se equivalem:
querem apenas mostrar serviço para seus chefes, nada enxergando além
de resultados de curto prazo. Uns, para veicular programas do governo;
outros, para embutir, sempre que possível, publicidade comercial em
projetos culturais.
Acompanhando
a polêmica, tem-se ainda a impressão de que no Brasil a cultura
consiste apenas em produção audiovisual, cinema. Claro que fizeram
bem os cineastas, ao tomarem a iniciativa de criticarem publicamente a
ameaça de dirigismo estatal e instrumentalização política da
cultura. Há motivos para aplaudir a retomada de crescimento do cinema
nacional. Cineastas estão projetando o Brasil no exterior. Valorizam
escritores, adaptando-os e chamando-os para criar argumentos e
roteiros. Mas é inevitável questionar os fundamentos de um debate no
qual a cultura voltou a ser confundida com o espetáculo, com a
circulação dos produtos com visibilidade imediata, colocando em
segundo plano a transmissão do conhecimento, incluindo formar
leitores e estimular a leitura (conforme observado no artigo de Carlos
Figueiredo e Claudio Willer em defesa da poesia, retransmitido por Agulha,
denunciando o investimento zero em literatura por essas estatais).
Se nós,
editores de Agulha, fôssemos dirigentes públicos, promoveríamos
um curso de iniciação à poesia para essa gente. Com especial atenção
à poesia e à crítica de Baudelaire.
Os editores
ps.: Esta
edição da Agulha conta com um número substancioso de novos
colaboradores: Rolando Sánchez Mejías, Carlos A.
Aguilera, Viriato Teles, Roberto Piva, José
Aníbal Campos, Maurício Matos, Jéferson Assumção, Mauro Jorges
Santos e José Ángel Leyva. Os editores lhes dão as boas vindas,
certos de que tornar-se-ão freqüentes, como os demais. Abraxas |