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revista de cultura # 34 - fortaleza, são paulo - maio de 2003 |
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Hermann Broch: o poeta relutante Maria João Cantinho
(…)
tanto mais poderoso e esquivo se tornava o verbo, um mar pairando, um fogo
pairando, pesado como o mar e leve como o mar, mas sempre Verbo: não era
capaz de o reter, e não o devia reter; o verbo tornara-se, para ele,
inconcebível e inexprimível, pois estava para lá da linguagem. Hermann Broch
Hermann
Broch nasceu em 1886, em Viena, filho de Joseph Broch, grossista em têxteis
saído de uma família judaica e pobre da Moravia, e de Johanna Broch,
nascida Schnabel, igualmente judia e filha de um grossista de cabedais, em
Viena. Tinha um irmão e as suas lembranças da sua infância são descritas
sumariamente em Autobiografia Psíquica como a de uma criança solitária
com uma infância desprovida de afecto e impregnada de uma culpabilidade que
o haveria de marcar para o resto da vida. A mãe, de temperatmento
profundamente nevrótico, era uma mulher ríspida para com os filhos,
deixando-lhe, além desses traços nevróticos de que fala na sua Autobiografia,
uma imagem de mulher-modelo que iria, para sempre, ocupar o centro da sua
vida sentimental. O pai, com o seu temperamento rígido e materialista,
irritável e violento, anti-intelectual e arrivista por excelência,
desprovido de “todo o sentido moral” e totalmente fechado em si, possuía
uma certa bonomia, apenas aparente e superficial, que lhe conferia um charme
inegável. Em Viena, Joseph Broch era conhecido por “tio Pepi” e
frequentava assiduamente bordéis masculinos. A mulher, Johana, fechava os
olhos aos hábitos do marido, mas o seu temperamento ia-se agravando, ao
longo dos anos, e pioravam também as suas doenças psicosomáticas. Para
ele e à boa maneira burguesa (que Broch tanto detestou e criticou), os pais
haviam pensado num futuro de industrial e, de facto, Broch prossegue os seus
estudos em engenharia têxtil, mas inscreve-se simultaneamente na
Universidade de Viena, onde segue igualmente os cursos de filosofia, de
matemática e de física, nos anos de 1904 e 1905. Por volta de 1909, tendo
já terminado o curso e estando a trabalhar como assistente da direcção de
uma fábrica de têxteis, interrompe e empreende, como voluntário e durante
um ano, a sua preparação militar, porém, é obrigado a sair por razões
de saúde. Em Julho desse mesmo ano, converte-se ao catolicismo e no Outono
desse ano, ainda, torna-se membro do conselho de administração da fábrica
familiar, desposando Franziska von Rothermann, filha de um fabricante de açúcar.
Todos
os seus actos de revolta e de libertação -lembrando, ainda, a sua
(igualmente trágica) proximidade com a culpabilidade de Kafka, a esse propósito
- a rejeição da fé paternal, conversão religiosa, casamento, actividades
literárias, foram sempre acompanhados de um profundo sentimento de má
consciência: por mais que se rebelasse e afastasse, Broch sentia-se sempre
culpado, procurando expiar a sua culpa. Desde 1909, procura expurgar a sua
revolta, legitimando-a na substituição do que ele considerava as
“ociosidades” por escritos teóricos e fragmentários sobre a cultura da
época. E essa presença fantasmática e pairante da ética haveria de
persegui-lo, durante toda a sua vida, como a sua própria sombra. O esquema
psíquico (que ele reconhece, ao fim e ao cabo de anos de psicanálise),
permaneceria mais ou menos imutável, ao longo de toda a sua vida e obra:
revolta - esforço de fuga - culpabilidade - fracasso no esforço - expiação.
E esse “esquema”, sabemo-lo por aquilo que Broch nos confessou na sua Autobiografia,
era tão apertado que, sem a psicanálise, Broch jamais seria capaz de
ultrapassar a culpabilidade asfixiante com que se debatia e escrever. Escrever
manteve-o vivo, insuflando-lhe nas veias a vida que nunca soube ter. Embora
seja já um lugar-comum dizer que o autor começou a publicar tarde, é, no
entanto, de 1908/1909 que datam os seus primeiros escritos. Em 1910, Broch
dedica ao famoso arquitecto Adolf Loos um estudo e diversas sugestões para
uma Estética sistemática. Estes escritos de juventude não serão
publicados senão após a sua morte, na edição crítica da sua obra
completa. É apenas em 1913, na revista Der Brenner de Insbruck e sob
a direcção de Ludwig von Ficker, que Broch publicará os seus primeiros
escritos. De 1914 a 1917, já como director da fábrica e dirigindo, ainda,
um hospital da Cruz Vermelha, continua a publicar diversas críticas de
livros, escreve uma série de sonetos, colaborando na revista alemã Die
Aktion, de cariz pacifista, e começa a frequentar os meios literários
de Viena. A amizade une-o a Franz Blei, que dirige a revista Summa, com
a qual ele colabora, a Gina Kaus e Robert Musil. A partir de 1918, as suas
amizades incluiram Milena Jesenka (a famosa amiga de Kafka), Edit Renyi e Ea
von Allesch (com quem viverá, posteriormente, uma relação durante quase
dez anos). Continua a sua colaboração com Die Aktion e Summa
e de 1919 a 1921, conhece Georg Luckacs, karl Mannheim, Bela Balasz,
escrevendo para revistas prestigiadas como Die Moderne Welt, Der Friede,
Der Neue Tag, Die Neue Rundschau, Die Rettung e Prager Presse, entre
outras. Enquanto isso, estuda matemáticas, sob a direcção de Ludwig
Hofmann. Em
1922, Broch publica em Prager Presse e em Kantsutdien recensões
e críticas de livros consagrados à revolução na dialéctica hegeliana e
ao pensamento de Marx e Engels. Passados alguns meses, em Abril de 1923,
divorcia-se de Franziska e dedica-se, cada vez mais, às suas
responsabilidades de industrial. Porém, durante os anos de 1925 e 1926,
Broch empreende estudos de filosofia (o positivismo lógico do Círculo de
Viena), de matemáticas e de física na Universidade de Viena, sob a direcção
dos reputadíssimos Moritz Schlick, Rudolf Carnap, Wirtinger e Hans Hahn. A
amizade desse tempo liga-o a Karl Bühler e frequenta os brilhantes e
intelectuais salões vienenses de Genia Schwarzwald, Bertha Zuckerkandl e
Alma Mahler-Werfel.
Por
outro lado, mesmo quando Broch é atraído pela tentação de contar histórias,
jamais perde a pujança criadora que o caracteriza e que pouquíssimos
escritores contemporâneos conseguirão igualar. O romance - na concepção
que ele defende - tem, para ele, essa capacidade de apreender o umbral da
irracionalidade, aquilo com que a ciência já não pode ocupar-se, como se
pode ler no “prospectus metodológico” do primeiro livro, em que escreve
ao seu editor: “(…)ele [o romance] abraça todo o domínio
da experiência irracional, em particular da zona-fronteira em que o
irracional se manifesta como acto, tornando-se assim exprimível ou
representável”. Mediador entre a ordem do representável, apresentação
concreta do irrepresentável - e, no seu caso, do irracional - , o romance
consubstancializa esse trilho que permite o acesso ao umbral sagrado da
linguagem, nisso que ela contém de fundante. É disso que Broch nos fala,
ao reclamar para a poesia um estatuto de mythos que jamais poderá
ser encontrado em qualquer outro domínio do conhecimento humano. Em
1927, Broch decide vender a fábrica de Teesdorf e inicia psicanálise com
Hedwig Schaxel, conhecendo, por esta altura, Anna Herzog. No ano seguinte e
durante os dois anos que se seguirão, empreende a criação do seu romance Os
Sonâmbulos, começando pelo volume intitulado Huguenau, que será,
de facto, o último da trilogia. Durante essa época, escreve e publica também
alguns artigos de carácter estritamente filosófico. Hannah Arendt sublinha
que a maior virtude desta obra se encontra no facto de ela representar, de
um modo singular, a crise do romance enquanto forma artística. Ao longo dos
três volumes que a constituem, compreende uma diversidade de registos que
conformam o próprio ritmo do seu pensamento, indo de um lirismo acentuado
à mais pura abstracção do ensaio. O sopro que a percorre define
exemplarmente a natureza do escritor, na sua busca obsessiva de totalidade e
de simultaneidade. Enquanto trilogia, pode-se distinguir a obra em três
momentos particulares e três datas correspondentes: 1888 e a dissolução
romântica do mundo antigo, 1903 e a confusão anárquica anterior à
guerra, 1918 e o nilismo tornado activo na história. O desenvolvimento e
articulação entre esses três momentos decisivos deixa bem à vista as
características, não puramente descritivas e factuais, que assinalam a
desagregação dos valores. Como
o próprio nome do romance o indica, Os Sonâmbulos são indivíduos
que existem num estado de epoché entre dois sistemas ou dois ciclos
de realidade, do mesmo modo que o sonâmbulo vive entre o sono e a
realidade, participando dessas duas ordens. Os sonâmbulos de Broch
procuram, a todo o momento, libertar-se dos códigos éticos do passado, em
que já não acreditam, mas mergulhados, ainda, num mundo de que fazem
parte. Protagonizam situações-limite, nas quais a intrusão do elemento
irracional se torna permanente e irrompe, sob a sua forma pulsional. Imersos
nos seus ideais, são personagens que inscrevem/escrevem no seu próprio
corpo o sentido da sua busca e o seu destino, configurando-se como
personagens trágicos por excelência. Quase
sempre este jogo entre realidade e onírico está presente, aproximando
Broch do universo kafkiano. Na verdade, toda a filosofia contemporânea lhe
parece pecar por insuficiência, negligenciando a vastidão dos “territórios”
humanos: a metafísica, o irracional o ético. Daí que o modo mais adequado
que Broch parece ter encontrado para reflectir sobre esses domínios seja a
ficção e só a escrita criativa lhe permita ampliar e distender o
conhecimento e, mesmo, ousar abarcá-lo. Como toda a observação é
“dinamitada” pelo relativismo, Broch defendeu a ideia (que sempre o
fascinou) de que, para apresentar uma ideia, era necessário igualmente
apresentar a personalidade daquele que a pensava. Deste modo, o sujeito da
observação devia ser projectado no campo da observação, enquanto
“objecto de observação”. Em
1930 Broch assina um contrato de publicação dos Sonâmbulos com
Daniel Brody, o director da Rhein Verlag de Munique e Zurique. O primeiro
volume, Pasenow ou o Romantismo: 1888 é publicado em 1930, o segundo
volume, Esch ou a Anarquia: 1905, em 1931. Em 1932, os primeiros
volumes da trilogia serão aclamados pela crítica, mas estão longe de ser
um sucesso de venda. Em Abril, dá uma conferência intitulada “James
Joyce e a actualidade”, que viria a ser incluída na sua obra Criação
Literária e Conhecimento. Neste ensaio, a literatura ainda é concebida
como “tarefa mítica e acção mítica”, enquanto que no estudo sobre
Hofsmanthal, escrito doze anos mais tarde, até mesmo a inigualável obra de
Dante dificilmente será considerada como mítica. O ensaio sobre
Joyce, escrito no mesmo estado de espírito que irrompe nos ritmos líricos
e musicais de A Morte de Virgílio, termina com a esperança de um
“novo mythos”, um mundo que se “ordenasse de novo” e viesse
coroar o ímpeto literário de uma determinada época. Ainda
nesse mesmo ano de 1932, será publicado o terceiro volume dos Sonâmbulos,
intitulado Huguenau ou a Objectividade: 1918. Entretanto, redige
ainda vários artigos críticos para a Die Literarische Welt. A sua
peça de teatro, Die Entsühnung, é finalmente representada em
Zurique (em 1934) e durante esse tempo Broch continua a escrever artigos de
crítica literária para as mais diversas publicações, facto que o coloca
na primeira linha da vanguarda dos escritores de língua alemã. É nesta época,
ainda livre dos sobressaltos da guerra, que Broch concentrará a sua atenção
no desenvolvimento da sua teoria dos valores. Broch
sofreu na pele a devastadora sonda nietszchiana, relativamente à teoria dos
valores e podemos sabê-lo hoje, à luz dos seus ensaios e escritos dessa época.
Ele tinha plena consciência dessa dívida, relativamente a Nietszche, e a
desintegração ou dissolução dos valores era, para ele, a consequência
da secularização do Ocidente. Em todo esse processo havia-se dissipado a fé
em Deus e havia, igualmente, ruído a concepção platónica do mundo,
postulando um “valor” supremo, absoluto e não terreno, o qual conferia
a todas as acções humanas um “valor” relativo e que se inscrevia numa
hierarquia de valores. De acordo com esta visão empobrecida (Broch situa o
início do declínio no final da Idade Média), cada um dos fragmentos que
subsistiam da visão do mundo religiosa e platónica tinha, agora, a pretensão
de se transformar em absoluto, situação que é responsável pela anarquia
dos valores. O relativismo dos valores cria uma confusão tal que o homem
desespera de aí encontrar o seu próprio lugar, bem assim como as suas
referências axiológicas. Um exemplo desse relativismo, podemos encontrá-lo
na idolatria da beleza e no crime perpetrado por Nero, ao incendiar Roma. Daí
que, na nossa época, o kitsh se converta na maior ameaça à arte, pelo que
contém de insidiosamente sedutor e, simultaneamente, de vazio. Ele escapa
ao sistema de valores que o controla e reifica-se, por isso, como “o mal
no sistema de valores da arte”, pela sua deificação descontrolada. A
questão torna-se mais clara se entendermos claramente que o mal radical se
personifica, aos olhos de Broch, na figura do literato estetizante
(categoria na qual incluía Nero, tal como o próprio Hitler). E a afirmação
do mal na arte ocorre pelo poder de sedução que o Kitsh exerce, força
demoníaca e que é, antes de mais, um fenómeno estético e atractivo,
tomado no seu sentido mais amplo, pois esses “estetas” sacrificam tudo
em nome de uma suposta harmonia e coerência, que se esforça por esconder o
vazio dos valores em que assenta (todo o nazismo se converte no mais acabado
exemplo do mal, dissimulado sobre a forma da beleza). Seria inevitável que
Broch visse no nazismo a figura do mal radical, tal como ele se perfilou no
magistral Fausto de Mann ou nos romances de Hermann Hesse. Mas a
questão que importa a Broch não é a estéril lamentação da morte e da
guerra, da violência, o que, sem dúvida, dissolveria os seus esforços no
mais banal dos clichés. O que nos assombra, de
facto, é essa pergunta com que ele nos afronta e na qual remexerá ao longo
de toda a sua vida: “Como é que o conhecimento poderia abolir a morte?”
A outra, imediatamente decorrente da primeira, como uma espécie de
desdobramento, e que supõe um antiquíssimo problema filosófico, é:
“Como poderia um homem vir a conhecer tudo?” Tais questões, como as que
lhe são adjacentes, arrastam-nos ao coração da sua teoria de
conhecimento. Num exercício de clara dedução, a colocação da questão
da possibilidade do conhecimento, no caso de Broch, não poderia senão
reenviar-nos à reflexão sobre o tempo e a morte, centrais na sua obra,
como as questões da totalidade e do absoluto, pois apenas o conhecimento,
na perspectiva de Broch, permite abolir a finitude. Dessa forma de
conhecimento que tudo deseja e abraça, resulta necessariamente a
simultaneidade, abolindo a sucessão do tempo e, por conseguinte, da morte.
Instaura-se, assim, na vida humana uma imagem de eternidade, imagem pairante
e que confere um novo sentido ao vazio da vida, que era medida pelo
tempo-sucessão. Trata-se de conseguir uma simultaneidade que transforme e
opere sobre o tempo enquanto sucessão, transmutando-o em coexistência,
onde o curso temporalmente estruturado do mundo e do seu fluxo empírico se
apresente como imagem de totalidade, que fosse vista por um deus capaz de
ver e tudo e tudo dar a ver, na sua simultaneidade. A
ideia de um absoluto que gera, a partir de si, uma “imaginidade em si”;
capaz de existir mesmo sem a presença de Deus, constitui um pressuposto equívoco
e de natureza duvidosa, se analisado do ponto de vista epistemológico; é
reforçado pela sua afirmação de um “absoluto terreno”, de costas
voltadas para Deus. O facto de tais evidências (não menos imperiosas) só
poderem ser expressas em proposições tautológicas não é, para Broch,
motivo de descrédito. Se bem que elas possam não ser formalmente válidas,
não perdem, no entanto, a sua validade “cognitiva”. Broch
sempre teve uma consciência aguda da distinção entre este ponto de vista
e a filosofia propriamente dita e, por isso, atribui à arte um poder de
conhecimento superior ao da filosofia, pela sua capacidade de captar evidências
e de possibilitar a abertura do homem à totalidade e ao devir, algo em que
a filosofia revela, desde logo, a sua insuficiência. A objecção inicial
à filosofia persiste sempre, pois ela não pode oferecer-lhe, dentro da sua
lógica de cognição, quaisquer resultados definitivos, face às questões
que Broch lhe coloca - a vitória sobre a mortalidade do eu, sobre a contingência
e a anarquia dos valores, etc. Ela [filosofia] limita-se a colocar as
perguntas a que, outrora, o mythos respondeu através da religião e
da poesia. Daí que o misticismo se lhe apresente de modo incontornável na
sua vida e na obra. E esse misticismo, que corresponde à exigência da
totalidade do conhecimento, à superação da finitude e da morte,
contaminará e irradiará como o mais potente caudal do lirismo poético que
percorre a sua escrita. No
estudo sobre Hofsmanthal, que será redigido mais tarde e no qual todas
essas questões serão mais verticalmente reflectidas e Broch afirmará que
ele aprendera com Goethe que “a poesia, para levar à purificação e à
auto-identificação do homem, tem de mergulhar nas profundezas das
antinomias humanas, ao contrário da filosofia, que se deixa ficar à beira
do abismo e, sem arriscar o salto, se contenta com a mera análise do que
viu.” E não era só para a filosofia que Broch guardava esse lugar de
serventia, relativamente à literatura, quanto à validade e ao conteúdo do
conhecimento, mas também para a ciência. Nessa época, Broch ainda podia
afirmar que “o sistema cognitivo da ciência nunca atinge [ao contrário
da arte] esse carácter absoluto da totalidade do mundo que, afinal, é a única
coisa que importa”, enquanto “cada obra de arte é, por si só, o
espelho de uma totalidade”. Mais tarde, como se verá, essa concepção
mudará radicalmente. Em
1936, Hermann Broch instala-se em Mösern, no Tirol, para se consagrar
inteiramente no seu novo romance, O Sortilégio, enquanto traduz
poemas de James Joyce e de T.S. Eliot para a língua alemã, publicando,
ainda, uma nova versão do seu ensaio sobre Joyce, bem como um ensaio sobre
Robert Musil. Essa obra será retomada no final da sua vida e permanecerá
fragmentária. Finalmente, em 1937 Broch redige a primeira versão de A
Morte de Virgílio, enquanto trabalha, ao mesmo tempo, na redacção de
uma Declaração da Sociedade das Nações, condenando o fascismo e colabora
com Hans Vlasics na redacção de uma série de máximas de carácter
proverbial. Em 1938, trabalha já numa terceira versão da Morte de Virgílio,
quando os nazis o vêm prender a 13 de Maio. Feito prisioneiro, ele
continua a trabalhar no romance e é graças à intervenção de James Joyce
e do romancista inglês Stephen Hudson, amigo e tradutor de Proust, que
Broch obtém, no mês de Julho, um visa para Inglaterra e chega a Londres a
24 de Julho desse ano. Thomas Mann e Albert Einstein obtêm-lhe um visa para
os Estados Unidos e ele chega a New York a 9 de Outubro.
A
Fundação Guggenheim é sensível à sua condição de expatriado e
concede-lhe uma bolsa de um ano, em 1940. A quarta versão da Morte de
Virgílio é terminada e, em colaboração com o escritor italiano
antifascista Giuseppe-Antonio Borgese, começa a redigir uma Declaração
em favor de uma Democracia Mundial, a qual será publicada em 1941 e
Broch ocupa-se, também, com Viktor Polzer, em obter visas de imigração
para os refugiados vindos de França. Vive, então, em New York e em
Cleveland Heights, no Estado de Ohio. Renovará, nessa época, as suas relações
com Anne-Marie Maier-Graefe, que se tornará, mais tarde, a sua segunda
esposa e empreende uma primeira versão da sua teoria sobre a psicologia das
manifestações colectivas de loucura. Enquanto
que a composição dos Sonâmbulos tinha sido feita por acréscimos
sucessivos, numa elaboração arquitectónica, A Morte de Virgílio
cresceu organicamente, por enriquecimento e desenvolvimento interno, à
maneira de uma “ideia originária” que fosse encontrando a sua
consubstancialização, nas suas formas particulares. Broch não designava
esta obra como romance, mas antes como um poema lírico que se estende, com
o seu fôlego admirável, ao longo de quinhentas páginas. A base de
sustentação para o designar como um romance só poderia vir da tradição
schlegeliana, para quem o romance seria entendido como tal unicamente num
sentido lato, abraçando em si todas as formas poéticas. Construído como
um poema sinfónico, na sua estrutura quaternária, todo o poema obedece à
organicidade de cada um dos seus andamentos musicais internos. Cada uma das
quatro secções tem um símbolo/elemento central (a água, o fogo, a terra
e o éter), tal como um modo fundamental, concebido em termos musicais (andante,
adagio, maestoso). A sua repetição e desenvolvimento são tratados
conscientemente como variações musicais em torno da ideia da morte do
poeta. No
contexto deste “quadro sinfónico” que são as últimas dezoito horas da
vida de Virgílio, o livro desenvolve-se de acordo com um ritmo distinto. Na
“Chegada”, Virgílio toma consciência disperso da sua vida e entra em
choque. Todo o ritmo é descrito de modo febril, expondo as mais diversas
polaridades e contrastes. À medida que as memórias vão conquistando uma
certa unidade e as suas impressões se unem à memória, nesse estado febril
(“A Descida”), ele dá-se conta, com terror, de que a sua vida inteira,
bem como a sua obra, excluíram toda uma parte da sua existência. Aquilo
que a primeira parte apresentava, nos seus contrastes visuais, e a segunda
numa visão lírica interior - que aparece sob a forma da noite - a terceira
parte, “A Expectativa”, recapitula as discussões dialécticas entre
Virgílio e os amigos. No último capítulo, “Regresso a Casa”, todos
estes elementos conflituais se resolvem numa visão grandiosa e unitária,
enquanto Virgílio morre. É
sobretudo na última parte que Broch exprime, além do intenso lirismo, a
sua visão mística do mundo e da existência. Hannah Arendt sublinha mesmo
a presença do panteísmo de Spinoza, chamando-nos a atenção para o modo
como o particular e o concreto, nessa obra, não se desvelam senão como
aspectos de um Todo eterno, que o poeta vai apreendendo na intensidade dos
momentos finais da sua vida. À medida que ele se aproxima da morte, não é
só a sucessão de factos particulares que se apresenta, como somos, também,
arrastados nesse retrocesso vertiginoso que é a uma história da criação:
Virgílio sente-se retroceder progressivamente às etapas anteriores do ser:
ele percorre inversamente o caminho do Paraíso, descrevendo as etapas da
vida animal, vegetal e mineral. Retorna, passando pela separação original
da luz e das trevas, para a fonte de todo o ser. E, neste ponto, nas duas últimas
páginas do livro, novamente unido a Deus, ele volta-se e, numa visão
final, abraça toda a vida e toda a realidade. A partir desta nova posição
de reunificação com o Todo, vê agora o modelo da completude na vida.
Todas as polaridades desapareceram. Na morte, os contrários
reconciliaram-se, para dar lugar ao Uno. A presença de Heraclito pode ser
aqui entrevista, na aceitação da dor e do sofrimento, de todos os contrários
que assolam o homem e o cindem e que, finalmente, se subsumem na distensão
do instante-limite. Vida e morte tornam-se uma e mesma coisa, numa conjuração
de uma visão mística, apenas igualável às visões extáticas dos místicos
como mestre Eckart ou, numa versão moderna aproximada, aos belos Hinos
à Noite de Novalis. A
representação da morte e do acto de morrer, desse gesto sagrado da
“escuta da morte”, é, sem dúvida, mais do que uma mera imagem ou do
que um gesto de virtuosismo literário, levado a cabo por Broch. Na verdade,
ele reflecte a mais íntima essência do homem que vive a escrita na carne,
a inscrição do envelhecimento no corpo, e a presença da morte que sempre
o acompanhou (nas apresentações da histório e do destino do povo hebreu),
pelo menos desde a segunda metade da sua vida. Por isso, ela (enquanto
imagem e gesto) preenche uma função central na sua obra, que é a libertação
do espírito para os problemas éticos da sua própria vida [de Broch] e
para preparar o pensamento do futuro. A sua fé, em última análise,
residia nesse correlato que se apresenta na literatura e na linguagem, o
“absoluto terreno”. A ideia de que seria possível encontrá-lo (e
demonstrá-lo, igualmente) consubstanciou-se na sua obra A Morte de Virgílio.
Colocando a morte na vida e na obra como expressão dessa procura do
“absoluto terreno”, Broch pretendia anulá-la, no que ela continha de
ameaçador, e abrir a via para um sistema ético fundado, não sobre o peso
da morte, mas apenas e somente sobre as exigências da vida, seguindo o fôlego
quase insustentável do vitalismo de Nietszche. Na
verdade, nesta obra, ele quis criar a experiência da morte -
permitindo ao leitor partilhá-la - enquanto extensão da vida, sobretudo, e
não como caos ou aniquilação da vida. É de redenção e de salvação da
morte, pela aceitação dos contrários que a própria vida implica, que
Broch nos fala e sobre a qual escreve, a cada momento. Sem dúvida que
sentimos com a maior das intensidades a presença latente das mais admiráveis
páginas que o autor de Assim Falava Zaratustra foi capaz de
escrever, celebrando o eterno retorno e a dança do sobre-homem, descobrindo
o tempo como eternidade pairante, para lá da morte e do caos. E é, sem dúvida,
no cântico da vida, ressoando através dos escombros, que escutamos
assombrados o ímpeto vital de Virgílio, encontrando nele a potência do
gesto redentor. Esta é a verdadeira significação da quarta parte da obra,
na qual Virgílio caminha para a morte, passando por uma série de
transformações que a mostram como fonte e complemento da vida, isto é,
como “outra” forma de vida. Deste modo, a morte constitui um resolução
dos opostos, que nos aparecem tão estilhaçados na primeira parte, pois a
dor e o sofrimento, a doença são prolongamentos da morte, como se ela nos
aparecesse como uma extensão da vida num outro reino. Deste ponto de vista,
a perspectiva de Broch aparece igualmente eivada de um romantismo que é tão
caro a Hesse como a Rilke. Em
1942, uma bolsa acordada pela Fundação Rockfeller permite-lhe prosseguir
os seus estudos sobre as manifestações de loucura colectiva. Broch tem
conhecimento de que a sua mãe, a 9 de Dezembro, morre no campo de concentração
de Theresienstadt. Data dessa altura o começo da sua colaboração com Aufbau,
o semanário nova iorquino de língua alemã. Em
1943, começa a psicanálise com Paul Federn, continuando a trabalhar na sua
teoria da loucura colectiva, e em 1944 - ano em que se torna cidadão
americano - o seu editor americano recebe duma fundação uma subvenção
para a publicação da Morte de Virgílio. Finalmente, em 1945, é
publicada a obra prima de Broch, em língua alemã e tradução americana
pela Pantheon Books de New York. Bem recebida pela crítica americana, a
obra não é, porém, tão aclamada na Europa. Broch
sempre achou que tinha terminado a sua carreira com A Morte de Virgílio.
Ele nunca teve um diário que nos permitisse conhecer as suas confissões,
relativamente à sua própria obra literária, mas é sempre por interposta
pessoa e através dos seus ensaios literários que o deixa transparecer.
Assim, quando escreve sobre Kafka, por exemplo, deixa bem clara a ideia de
que a força literária do livro A Morte de Virgílio era demasiado
intensa para a sua mensagem, obscurecendo-a. Procedendo a uma auto-reflexão
dissimulada, acrescentava: “ou a poesia consegue avançar até ao mito ou
vai até à falência”. E kafka, que tentara “avançar até ao mito e à
cosmogonia”, luta contra o seu amor à literatura, sentindo a sua insuficiência
fundamental de toda e qualquer abordagem estética e artística. Justamente
por isso decidiu abandonar o domínio da literatura, pedindo a Brod que a
sua obra fosse destruída (tal como Virgílio pediria a destruição da Eneida,
nesse redrobramento simbólico do gesto, na Morte de Virgílio),
pediu-o para bem do universo cuja nova concepção mítica lhe fora
entregue. Aquilo que Broch diz neste ensaio, além de revelador da sua própria
posição, revela a que ponto levava a cabo com um zelo inexcedível a
tarefa ética que se havia proposto.
Em
1949, muda-se para perto de Yale University, onde redige, Os Irresponsáveis.
Continua, no entanto, a publicar muitos artigos e ensaios e a partir de
1950, Hermann Broch dá cursos de literatura alemã em Yale Universiy e o
PEN Club austríaco propõe a sua candidatura para o prémio Nobel. A
Academia alemã de Letras e Ciências de Darmstadt convida-o para membro e
é convidado a participar no primeiro congresso, em Berlim, para a liberdade
da cultura. Em
1951, o último ano da sua vida, Broch volta ao romance que tinha
abandonado, O Sortilégio, mas esta nova versão permanecerá
fragmentária. Mesmo assim, o livro será posteriormente publicado, a título
póstumo, no texto original alemão, em 1976. Entre todos os romances, Édouard
Roditi refere ser este romance uma sinfonia ao mesmo tempo pastoral e diabólica,
alucinante e que reflecte toda a influência terrífica que o nazismo
instilou em Broch. Se bem que o seu carácter alegórico se aproxime da
escrita kafkiana, em especial da atmosfera de O Processo e de O
Castelo, no entanto, o estilo deliberadamente romântico de Broch
demarca-se do realismo mágico de Kafka, muitas vezes, contrastando mesmo
com a economia narrativa daquele. A
maior das ironias encontra-se no facto de Broch, apesar de toda a sua vida
lutar contra a “literatura”, se consagrar precisamente como romancista. A obra de epistemólogo, a sua teoria de valores e a
crítica que fez ao sistema ético vigente, a sua filosofia da história, da
psicologia de massas e da política, tudo isso foi, ou praticamente ignorado
ou não chegou até nós senão através dos seus romances e de forma
indirecta. A história do pensamento
cometeu, para com a sua figura - Broch nunca foi académico nem trilhou os
caminhos convencionais dos teóricos do conhecimento -, uma injustiça. Mas persiste igualmente um risco imenso em considerá-lo
como um filósofo sistemático. Se, por um lado, a sua impaciência e avidez
de conhecimento o terá levado a abraçar vários domínios do pensamento,
por outro, transformou-se numa vítima da sua própria avidez, caindo na
cilada da totalidade. Essa impaciência de que padecia impediu-o de
desenvolver um verdadeiro sistema, fosse ele qual fosse, e o seu compromisso
radical com a vida arrastou-o num desenvolvimento dinâmico das suas
teorias, que jamais se deixariam contaminar pelo olhar derradeiro da medusa.
Quase sempre, os grandes sistemas petrificaram nessa gelidez e no estatismo
formal que foram e constituíram, antes de mais, a sua própria condição
de desenvolvimento. Se quisermos aceder ao seu pensamento, teremos de
observar a sua vida, ler as suas cartas e ensaios, os seus romances. Ele
tinha consciência de possuir uma missão a cumprir na sua vida e
consagrou-se-lhe com um zelo perpassado de um ímpeto quase messiânico.
Como já não sentia que a literatura fosse capaz de contribuir para a
realização dessa tarefa, acaba por depositar todas as suas esperanças na
política. É sobretudo neste campo e na possibilidade do “auxílio”,
enquanto imperativo ético que se coloca acima de todas as contingências,
que se propõe trabalhar. Para ele, era evidente, antes de mais, a obrigação
de interromper tudo, fosse qual fosse o seu trabalho ou ocupação, para
prestar auxílio e, por isso, torna-se-lhe igualmente óbvio que teria de
presecindir da literatura, pois duvidava que esta alguma vez pudesse
satisfazer a sua “obrigação para com o absoluto da cognição”. Começou,
também, a duvidar se a literatura e a cognição seriam necessárias ao
apoio dos necessitados. Ao
invés do que ele próprio acreditava, as suas ideias não eram originais,
aproximando-se muito o seu pensamento da análise existencialista de Jaspers
e de Camus, mas isso não deve denegrir aos nossos olhos o seu brilho e a
admirável obra que nos legou. Seguramente, ele formulou a sua própria síntese,
de uma sedução ímpar no tempo. Há uma nobreza incomparável na sua
teoria sobre a liberdade humana e no modo como define a responsabilidade
humana que só é comparável aos escritos de Lèvinas. A ideia da imanência
da morte talvez possa ser considerada como o contributo mais original para a
experiência da morte. Essa evocação da totalidade e da simultaneidade da
vida, tal como nos aparece na Morte de Virgílio, é a maior
conquista da sua literatura e apenas poderemos ser justos se colocarmos a
sua obra literária, lado a lado com James Joyce ou Marcel Proust, os heróicos
e geniais arquitectos da literatura moderna. NOTA |
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Maria João Cantinho (Portugal, 1963). Filósofa e ficcionista. Autora de livros como A garça (2001) e O anjo melancólico (2002). Contato: mjcantinho@hotmail.com. Página ilustrada com obras da artista Remédios Varo (México). |