revista de cultura # 31 - fortaleza, são paulo - dezembro de 2002

Livros da Agulha

Figuras da Escrita, de Carlos Mendes de SousaClarice Lispector. Figuras da Escrita. Carlos Mendes de Sousa. Centro de Estudos Humanísticos. Coleção Poliedro. Universidade do Minho. Portugal. 2000. 506 pgs. Contato: mdesousa@ilch.uminho.pt.

Se um dia se fizer - se vier a valer a pena fazer - uma história da recepção da literatura brasileira em Portugal, o nome de Clarice terá direito a um capítulo especial. Não porque seja uma escritora popular, longe disso. Mas até por isso mesmo, trata-se de um caso singularíssimo, aliás pouco conhecido enquanto tal, mesmo em Portugal, e por paradoxal que pareça afirmá-lo assim. Os sinais são vários. Por exemplo, um fluxo relativamente continuado - e com novo impulso relativamente recente - de edições. Ou sobretudo uma pequena comunidade de leitores devotos, ainda que dispersos, alguns alcançando o nível de especialistas no sentido preciso do termo, com livros e ensaios publicados. Até a universidade portuguesa, onde os estudos brasileiros ocupam como se sabe lugar modestíssimo, dá disso testemunho precioso. Entre o corpo de autores brasileiros conhecidos, lidos e estudados em Portugal, contemporâneos ou antigos, clássicos ou modernos, Clarice é a única que sobrevive fora da área disciplinar de Literatura Brasileira, e a única reiteradamente objecto de seminários e teses no âmbito da Teoria Literária e da Literatura Comparada. Ora, desde há meses, o melhor exemplo do que afirmo e o ponto mais alto de tudo o que se tem feito em Portugal em torno de Clarice, está disponível na forma de um livro iluminador e inspirado: refiro-me ao monumental estudo de Carlos Mendes de Sousa, Clarice Lispector. Figuras da Escrita, na origem tese de doutoramento defendida na Universidade do Minho e agora publicada pela respectiva imprensa.

Carlos Mendes de Sousa, um dos principais nomes da mais jovem geração da crítica literária portuguesa, sobretudo no âmbito da poesia contemporânea (é dele o melhor livro recente sobre o último Prémio Camões, Eugénio de Andrade), é também um dos poucos brasilianistas activos em Portugal (a ele se deve, por exemplo, a organização, no ano passado, de um excelente número da revista de poesia Relâmpago dedicado à poesia brasileira recente). Mas não se colija daqui que a importância e o valor do seu trabalho se afere pelo contexto português: na verdade, Clarice Lispector. Figuras da Escrita é seguramente um trabalho de referência para os estudos de Clarice, se não for tão-só o melhor estudo disponível do conjunto da obra da escritora. O superlativo é sempre arriscado, aliás desnecessariamente arriscado; mas por vezes não há caminho mais expedito para chegar a afirmar o carácter de excepção de uma obra - e justamente disso se trata.

Será necessário começar por realçar o trabalho primoroso do ponto de vista da scholarship, desde a longa pesquisa realizada ao rigor das fontes e referências, trabalho acurado sem deixar de ser crítico nem embotado pelo mero propósito académico de acribia; a enorme e actualizada informação teórica, sem eclectismo nem confusão metodológica; a forte propensão para a construção ensaística, privilegiando a deriva da argumentação e a fluidez da escrita contra a arquitectura rígida da dissertação; a escrita clara e sóbria, sem deixar de ser elegante; a própria respiração do estudo, que ao longo de densas 500 páginas conjuga os pontos de fulgurante vertigem interpretativa com os períodos de lenta e paciente exposição. Tudo isso, que não é pouco, talvez não chegue a convencer o leitor de que estamos diante de um trabalho modelar de crítica literária e um ponto altíssimo da fortuna crítica de Clarice. Visto que não posso sequer descrever aqui de forma completa um trabalho tão extenso e complexo, deixarei dois traços que decidem a força deste livro.

A indústria universitária de teses, em Portugal (e se calhar em todo o lado), alimenta-se de «contribuições», «achegas», «subsídios», «propostas», estudos parcelares e monografias inconclusivas. Carlos Mendes de Sousa, dominando com inteiro à vontade toda a bibliografia pertinente, tanto passiva como activa, não receou lançar «um olhar exaustivo sobre o corpus» de Clarice, estudando «a totalidade da sua produção literária (romances, contos, crónicas e outros textos)». Além do notável aproveitamento crítico do trabalho de pesquisa que levou a cabo na Casa de Rui Barbosa, articulando cartas e outros inéditos com os textos maiores de Clarice, a leitura de Mendes de Sousa cumpre com pleno sucesso o projecto de rever e renovar a leitura de Clarice na sua totalidade. Isto explica o comportamento perante a bibliografia passiva: também aqui o crítico não recua perante a totalidade, e se nada pode garantir exaustividade, é sem dúvida impressionante o conhecimento e a capacidade de análise crítica do que se escreveu a respeito da autora de Laços de Família. Ora, não se trata simplesmente de cumprimento de formalidades académicas, nem mesmo de respeito pelos predecessores, embora ambos os traços se detectem: trata-se sobretudo de uma operação crítica através da qual Carlos Mendes de Sousa procura abrir o caminho e criar o espaço para a sua interpretação, e começando a fazê-lo precisamente através da revisão dos predecessores. Isto é o que propriamente desde logo define um crítico forte, esta ideia de que não vale a pena fazer os outros perderem tempo a ler uma nova leitura se não se acredita que essa nova leitura é indispensável além de nova. Se tal convicção radicalmente conduz a esse impulso da totalidade, o crítico forte é também aquele que se mostra à altura das resistências que o corpus estudado oferece, desde logo sabendo-as inevitáveis. Di-lo o próprio autor, quase no final do livro, confirmando os dados da nossa leitura: «se o trajecto de leitura tentou empreender uma busca de totalidade (propósito de situar a obra e reconduzir a tarefa hermenêutica a uma visão coerente que conferisse a fisionomia de um todo), esse trânsito mostrou igualmente o peso da intrínseca violência das margens, que por força perturba a visão unitária».

O segundo traço reside na coincidência do trajecto do livro com a tese do livro: a busca da totalidade, enfrentando a força das margens, é o que decide a escolha das figuras (e serão várias: o cego e o professor, a máquina de escrever e o búfalo, a galinha e a rosa...). Impossível resumir aqui a subtil elaboração teórica de Mendes de Sousa em volta da noção de figura, que o salva de reduzir a leitura de Clarice a um âmbito formalista. «O delinear de uma figura (ou de um conjunto de figuras)» - escreve - «aponta na obra para um lugar sempre o mesmo: o da escrita.» É este lugar que Carlos Mendes de Sousa reiteradamente persegue, e é esta a tese que defende: que é possível persegui-lo, porque há um fio a percorrer toda a obra de Clarice de ponta a ponta. Esse fio, graças à ideia de figura, permite-lhe conjugar no texto de Clarice a questionação permanente do literário com um constante processo de autognose. Por isso, a figura última conduz ao nome, ao rosto que o nome diz, à revelação do nome, figura a um tempo de escrita e de escritora, mas sem conteúdo biográfico prévio e efectivo. Este «caminho de revelação do nome» enquanto «revelação do rosto» é, por isso, ao mesmo tempo a figura do trajecto do livro e da leitura de Carlos Mendes de Sousa e a figura da unidade e da coerência da obra de Clarice. A mesma figura, afinal, duma solidariedade e duma paixão que fazem a grande força deste livro.

(Abel Barros Baptista)

Este livro de Carlos Mendes de Sousa obteve, no ano passado, o Grande Prémio de Ensaio da Associação Portuguesa de Escritores. Resenha originalmente publicada na Folha de S. Paulo (07/10/2001), aqui reproduzida com autorização do autor. Abel Barros Baptista é professor de Literatura Brasileira na Universidade Nova de Lisboa, e um dos mais notáveis estudiosos da obra de Machado de Assis.

Versos Comunicantes, I (org. José Ángel Leyva)Versos Comunicantes I (Poetas entrevistan a poetas iberoamericanos), coordinado por José Ángel Leyva. Ediciones Alforja. México. 2002. Contato: http://alforja.tripod.com.

Ediciones Alforja y la Universidad Autónoma Metropolitana ponen en circulación este primer volumen de entrevistas que poetas mexicanos y extranjeros hacen a los poetas mayores de Iberoamérica, entendiendo por ello a los países de América Latina y a los de la península Ibérica (España y Portugal). Este primer tomo comprende 28 conversaciones realizadas por 18 poetas entrevistadores, que integran más de 400 páginas en las cuales navegan a la par la poesía y la conversación. El producto de este ejercicio literario y periodístico es una mirada extensa y honda de los acontecimientos estéticos, históricos, culturales, sociales e individuales que les tocó vivir y registrar a esas 28 personalidades que habitan esta obra colectiva con sus testimonios, opiniones y reflexiones. Poetas de raigambre periodística exploran diversos terrenos del quehacer literario y existencial de sus interlocutores llevándolos de la mano hacia territorios sorprendentes. El libro también nos ofrece una panorámica diversa y plural de la poesía en el siglo XX dentro de esos linderos que se marcan en el concepto "iberoamericanos". El horizonte poético de las 28 entrevistas nos plantea hitos y señales para comprender la esperanzas y las frustraciones, los ideales y las luchas, las causas y los efectos de las utopías que esperanzaron a los hombres del siglo XX. Un libro que sin duda aporta elementos para conocer y ponderar la fuerza de nuestras grandes plumas, de nuestros intelectuales y de quienes hacen verso a verso la historia de nuestras emociones, nuestros pensamientos y nuestros deseos.

Los poetas entrevistados son: Juan Gelman, José Hierro, Gonzalo Rojas, Olga Orozco, Humberto Ak'abal, Jotamario Arbeláez, Juan Bañuelos, Francisco Brines, Juan Gustavo Cobo Borda, Pablo Antonio Cuadra, Gerardo Deniz, Marosa Di Giorgio, Otto Raúl González, Enrique González Rojo, Ferreira Gullar, Roberto Juarroz, Ivan Junqueira, José Kozer, Eduardo Lizalde, Eugenio Montejo, José Santiago Naud, Bertalicia Peralta, Mario Rivero, Mercedes Roffé, Roberto Sosa, José Ángel Valente, Blanca Varela, Raúl Zurita.

Los entrevistadores: José Vicente Anaya, Marco Antonio Campos, Luis Vicente de Aguinaga, Guillermo Samperio, Miguel Ángel Muñoz, Rodolfo Häsler, Guido Tamayo, Rafael del Castillo, Begoña Pulido, Armando González Tejeda, Carlos López, Eduardo Espina, Floriano Martins, Eduardo Olivares, Claudia Posadas, Mary Carmen Sánchez Ambriz, Consuelo Tomás Fitzgerald, José Ángel Leyva. Cabe señalar que este libro tiene como antecedente inmediato el libro Versoconverso, -editado por Alforja-, otro extenso volumen de entrevistas coordinado también por José Ángel Leyva, con el sello de Ediciones Alforja, que contiene entrevistas a poetas mexicanos y de otros países, pero con hondas raíces en México.

A estrela da manhã, de Michael LöwyA estrela da manhã (surrealismo e marxismo). Michael Löwy. Ed. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 2002. 158 pgs. Contato: record@record.com.br.

Nas palavras de Leandro Konder, a respeito deste livro: "Löwy está plenamente convencido de que, no confronto das idéias, o ponto de vista mais avançado precisa ser, também, o mais abrangente. Insiste na vitalidade da rebeldia do movimento surrealista, que, ao contrário do que se costuma afirmar, não se extinguiu nos anos quarenta do século XX. […] Aos ensaios de Löwy se seguem um glossário útil e um conjunto de informações interessantes redigidas por Sérgio Lima sobre o movimento surrealista no Brasil." A maioria dos ensaios deste livro aborda a filosofia política do surrealismo, e sua ligação com o marxismo. A adesão dos surrealistas ao materialismo histórico, corroborado por André Breton, marcou profundamente a história domovimento e, por conseguinte, seu posicionamento político. Mas se o interesse pelo marxismo é essencial, ao mesmo tempo encontra-se longe de ser exclusivo. Desde a fundação do surrealismo, uma sensibilidade libertária também percorre o pensamento destes artistas. Se tantos pensadores - como Pierre Naville, José Carlos Mariátegui, Walter Benjamin, Guy Debord, debatidos neste livro - ficaram fascinados pelo movimento, foi porque compreenderam que este representava a mais alta expressão do romantismo revolucionário.

O século oculto, de Nelson de OliveiraO século oculto e outros sonhos provocados. Nelson de Oliveira. Escrituras Editora. São Paulo. 2002. 224 pgs. Contato: escrituras@escrituras.com.br.

São palavras de Fabrício Carpinejar, nas orelhas deste livro: "Nelson de Oliveira é um caso sério da literatura brasileira, inventor do intenso romance Subsolo infinito e dos endiabrados Treze, O Filho do Crucificado e Naquela época tínhamos gatos. Como inquieto criador, trata-se de um leitor fundador de sua linhagem e de seus antepassados, organizando a loucura da imaginação e desajustando o cânone. Sua crítica reúne sonhos provocados e alguns pesadelos involuntários. Expõe uma imensa perplexidade diante da ficção e poesia da língua portuguesa, cava o inconsciente para corrigir distrações coletivas. O autor vem preencher uma lacuna ao ter a capacidade de discutir fora dos guetos, tribos e reservas ecológicas. Analisa a produção contística desconhecendo a complacência. Exerce a pior crueldade que pode existir: a honestidade. "Literatura não é apenas a arte do absurdo. É, antes de tudo, a arte do inútil", afirma, concluindo que não se deve alimentar a crença na educação pela arte."

Danzas, de Guillermo FernándezDanzas. Guillermo Fernández. Editorial Universidad Estatal a Distancia (EUNED). Costa Rica. 2002. 152 pgs. Contato: tlaloc93@hotmail.com.

La danza es el triunfo del cuerpo sobre la materia. Quizá por eso Guillermo Fernández tituló con el nombre de Danzas su último libro - sin duda, el mejor logrado conceptual y estilisticamente de toda su producción -, haciendo referencia al hecho de que la vida danza ante nuestros ojos cuando es Venus la que nos favorece. El amor es festejado y buscado en estas páginas a lo largo de tes secciones bien diferenciadas por el tratamiento del tema que son: Danzas, Aria del sastre y Rostro de Sirio, apartados que brindan el clima de la celebración, le elegía nostálgica y el encuentro de la transformación existencial. El lector comprobará que la difícil poesía amorosa mantiene su tradición y frescura, en estos versos elaborados por un poeta que conoce su oficio.

Guillermo Fernández nació en San José, Costa Rica, en 1962. Es egresado de la carrera de filosofía de la Universidad de Costa Rica. actualmente, se dedica a la edición, entre otras cosas. Sus libros de poesía son: La mar entre las islas (1982), Atrios (1994), Estocada final (1997), Para días posibles (1998). En cuento tiene los libros Efecto invernadero (2001) y Hagamos un ãngel (inédito).

Sol Sangüíneo, de Salgado MaranhãoSol sangüíneo. Salgado Maranhão. Imago Editora. Rio de Janeiro. 2002. 120 pgs. Contato: imago@imagoeditora@com.br.

No contexto da poesia brasileira atual, em que tantas vozes se cruzam, interagem e/ou se conflitam, nos mais diversos meios e localidades do país, como avaliar com isenção um novo livro de poesia? De que modo destacar sua importância e singularidade e possível influência literária no presente e no futuro? Difícil responder. Só o tempo, capaz de transformar todo poema em elegia, no dizer de Borges, poderá fazê-lo. O que nos cabe, nessa tarefa por certo ambígua (porque fatalmente estaremos falando de nós mesmos) de julgar nossos contemporâneos reside tão-somente em apontar se um poeta é autêntico ou não, como nos aconselha T.S. Eliot.

Diante de O sol sangüíneo, novo livro de Salgado Maranhão, não tenho dúvida em afirmar a autenticidade do poeta. Isso por várias razões. A primeira delas ocorre no domínio da linguagem, artisticamente recriada pelo autor, quer no tratamento das formas fixas e livres, quer na capacidade de expressar com sutileza e precisão lingüísticas sentimentos e percepções da realidade das coisas, da existência humana e da sociedade, em permanente inflexão/reflexão metapoética, em que "voltar ao desolado abrigo/da terra" equivale a "voltar ao fulminante alarde/ da palavra".

Nesse particular, sobressai-se o longo e incisivo poema inicial, que dá título ao volume, no qual podemos acompanhar o desenvolvimento do complexo tema da posse da terra e da lírica, bem como do corpo e do tempo, em uma rede de imagens e idéias que se confrontam e se entretecem dialeticamente entre o retorno, em busca de permanência, às origens e a dolorosa consciência da provisoriedade do ser, enquanto "sopro itinerante da carne".

A segunda razão se prende à originalidade (porque atada outra vez às origens) das imagens do poeta. Possuído pelo estado ígneo, como diria Yeats, Salgado Maranhão executa inesperadas metamorfoses do real, reinventando-o, refazendo-o em metáforas que o iluminam, em alguns versos memoráveis. Impulsionado por essa imaginação incandescente – lascas de sol nordestino que lhe impregnam a pele e a alma -, o poeta como que realiza uma outra volta às origens; desta vez, à raiz do próprio pensamento ocidental, ao lado de Heráclito de Éfeso, quando este nos assegura que "todas as coisas são trocadas em fogo e o fogo se troca em todas as coisas"(D90); ou, ainda, que "este mundo (...) foi sempre, é e será um fogo eternamente vivo, que se acende e que se apaga com medida" (D30). Ecoando-o, Maranhão afirma que "todas as coisas estão grávidas/ de fogo" e que "há incêndios na raiz/ do gesto. Vestígios/ de pólvora nas palavras".

A terceira razão se localiza no ritmo e sonoridades várias, que conduzem de modo quase icônico as imagens candentes, em "teares de afetos" e pensamentos. O autor, movido pela memória ancestral da raça e da terra ("minha terra é minha pele"), sabe "terçar atabaques na noite" e "desatar fonemas à fervura do poema", consciente, como todo bom poeta, da decisiva interação eufônica dos significantes no verso.

Por fim, diria que, pela maneira com que trata o corpo da língua, neste livro – a golpes delicados de imagens e ritmos precisos, praticando aqui uma espécie de reiki verbal, em que infunde doses de energia vital à linguagem cotidiana -, o resultado desse trato não é outro senão o de proporcionar prazer e encantamento ao leitor. O que me leva à conclusão que a poesia é uma arte corporal; lê-la ou praticá-la faz bem ao corpo. Como nos demonstra aqui a mão de mestre de Salgado Maranhão.

(Adriano Espínola)

Passeio ao longo do Reno, de Viviane de Santana PauloPasseio ao longo do Reno. Viviane de Santana Paulo. Gardez Verlag. Alemanha. 2002. 82 pgs. Contato: info@gardez.de.

Já de algum tempo conheço a poesia de Viviane de Santana Paulo, paulista nascida em 1966, e que vive na Alemanha desde 1988. Na Agulha já publicamos alguns de seus ensaios, sendo igualmente substanciosa sua contribuição nesta área. Em Berlim, onde vive mais recentemente, acaba de publicar Passeio ao longo do Reno, sua estréia em livro.

Por mais que percorra com seus versos a sinuosidade do Reno, trata-se essencialmente de uma poética do exílio. A certo momento diz que somente dentro do rio, quando vê as duas margens passando, é que percebe o quanto estão irmanadas, o quanto são atávicas. E naturalmente reporta-se a uma ambigüidade mais ampla do que simplesmente as margens de um rio.

Ao conversar com ela sobre a trama poética do livro, me disse:

VSP - Procurei reconstruir nos poemas a ambigüidade que nós, imigrantes brasileiros, sofremos no decorrer de nossa vida longe de nossa pátria e família. Tenho em mente o que Vilém Flusser escreveu a respeito deste sentimento. Ele utiliza uma metáfora do cordão umbilical cortado, a pátria nos alimentava sem que tivéssemos que fazer algum esforço; agora fomos lançados à liberdade e estamos constantemente nos reconstruindo, debatendo-se com um cotidiano cheio de elementos estranhos e regras desconhecidas, as quais passam a ser parcialmente dominadas, mas nunca deixam de ser obstáculos. Refiro-me a coisas rotineiras, como lidar com a língua, a burocracia, com os novos costumes, as compras, amizades etc.

Viviane põe-se diante e dentro do Reno em busca de si mesma, dialoga com o rio em busca de um sentido para o abismo que a percorre. Metáfora sobretudo do movimento incessante, que opta pelo rio e não pela malha urbana, por exemplo, por uma intensidade humanística que Manuel Bandeira e Hölderlin, Rilke e Augusto dos Anjos, poetas que tanto admira e certamente lhes são guias em seus mergulhos nessas margens misturadas de um mesmo enigma, um mesmo labirinto.

VSP - A existência dentro da sociedade alemã, uma sociedade oclusa e contrastante, é marcada pela solidão e saudades. Mesmo os brasileiros integrados nesta sociedade, sofrem as fortes diferenças culturais e o longo período de inverno, repleto de dias cinzas, chuvosos e frios. Deixar a pátria para viver em outro país, significa desvencilhar-se de muitos hábitos arraigados no indivíduo e estar preparado para adquirir novos hábitos, significa recordar o passado como se ele estivesse sempre presente, sempre à mão para suprir os momentos de desespero, quero dizer, pura saudade, significa redescobrir nosso país através de outros parâmetros criados pela distância e uma mescla de imagens e sentimentos, que nada mais é do que a constante busca em diminuir as diferenças entre as duas realidades.

Na verdade, a memória está presente neste Passeio ao longo do Reno não propriamente como mero saudosismo. Ali o que se busca não é reconstruir a geografia humana deixada para trás, mas reencontrar-se consigo mesma a cada instante. Reerguer uma cidade inteira em todos os sentidos, todo um mundo de vivências que não pode limitar-se apenas a uma melancólica saudade. Daí que o poema não dialogue com o passado (um rio brasileiro), mas sim com o presente (o Reno).

VSP - O migrante deixa de pertencer ao seu país apenas. Mesmo que ele regresse terá esta cicatriz marcando-lhe a vida, a experiência e reminiscência vividas no exterior. Naturalmente, trata-se de uma experiência, sem sombra de dúvida, enriquecedora, com ela o indivíduo passa a conhecer diferentes formas de vida em sociedade e adquire um recurso de aferição que o ajuda na compreensão do sistema político de seu próprio país.

Pergunto-lhe então como foi sua mudança de país e em que exatamente o Reno lhe chamou a atenção.

VSP - Depois de São Paulo, vivi 12 anos na pequena cidade de Bonn, à margem da bucólica paisagem do Reno naquela altura. O Reno é um rio impressionante, muito largo e longo, percorre quatro países (Suíça, França, Alemanha e Holanda), serve como via fluvial e é um chamariz turístico importante na Alemanha. Nos meus primeiros anos longe do Brasil senti muita falta do mar, de ver o mar, de passear na beira da praia. O Reno teve que substituir o mar, pois as minhas melhores lembranças de infância são os finais de semana, feriados e férias passados em nossa casa no litoral. Em Passeio ao longo do Reno o rio metaforiza o estado der espírito de uma brasileira dilacerado pela melancolia e monotonia do inverno, fragmentado pelos costumes alemães diferentes do seus: hábitos de manter a distância entre as pessoas, de ser formal com as pessoas, de não sentir a vida com alegria.

Mas é também o livro inegável de uma viagem, relatos do amadurecimento de uma linguagem que percorre as entranhas misturadas de duas experiências. Dizia o argentino Aldo Pellegrini que "a liberdade vive na própria poesia, em sua maneira de expandir-se sem travas, em seu poder explosivo". Neste sentido a poesia de Viviane de Santana Paulo possui um acentuado recorte filosófico que sabemos raro na tradição poética brasileira.

VSP - A filosofia teve grande influência na minha aprendizagem, devo muito a ela. Descobri a filosofia aleatoriamente, passeando pelas diversas disciplinas na universidade. Costumava visitar algumas aulas que não tinham nada a ver com o meu curso (filologia germânica), turistei pelas aulas de teologia, história, política, sociologia, história da arte e filosofia. A filosofia foi a que mais me despertou para muitas coisas. Porém, só fui passear por essas disciplinas depois de perceber ser a poesia um misto de todas elas. As obras de Rousseau (Discurso da desigualdade e Contrato social) pregaram minha opinião política, assim como Ortega y Gasset (Rebelião de massa) e Platão (Politéia). Adoro o ceticismo de Nietzsche, Sartre e Camus, assim como a ironia e sarcasmo de Voltaire.

Naturalmente nos fala a poeta de uma filosofia que não pode ser entendida longe da perspectiva poética, cabendo evocar a intrínseca relação entre conteúdo e continente, visível e invisível, a reciprocidade no acasalamento de forças antagônicas. Também aqui, na percepção do outro, na busca de um diálogo essencial entre passado e futuro, onde Viviane de Santana Paulo sabe tecer uma poética própria, ela se distancia de sua geração brasileira, onde não encontramos igual perspectiva filosófica, onde o afazer (já considerado uma afasia) deteriora-se em simulacros de uma linguagem fria e desprovida de sentido.

VSP - É difícil falar de um poeta que tenha me influenciado, pois há muitos. Para mencionar alguns, Rainer Maria Rilke me ensinou a observar as coisas através de um outro prisma, de uma perspectiva contrária, e isto foi o que me surpreendeu em sua poesia e é o que procuro fazer em alguns poemas, simplesmente mudar a perspectiva: em vez do objeto ser observado é ele que observa. Pablo Neruda e Octavio Paz me ensinaram a trabalhar com as metáforas, desenvolver imagens nítidas e inéditas. Fernando Pessoa e Miguel Torga me ensinaram a variedade de meu idioma: Torga a simplicidade e Pessoa o abismo da alma. Montesquieu me revelou a importância da expressão nas Cartas persas.

Também aí um agudo sinal de consciência do que sonda e realiza. E o que busca Viviane de Santana Paulo é a própria fluidez de seu humanismo. Neste sentido, Passeio ao longo do Reno é mais do que um simples livro de estréia, uma vez que nos revela uma voz poética consciente da ambigüidade que une linguagem e experiência. Ao recorrer à metáfora do rio percebe com exatidão sua extensão conceitual: "O rio não é como a vida, / mas a vida flui… / E nem é nenhum Reno, mas o efêmero."

(Floriano Martins)

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