revista de cultura # 31 - fortaleza, são paulo - dezembro de 2002

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Lances da pós-modernidade

Foed Castro Chamma

Foed Castro ChammaVivemos uma época de transformação, que se acentua desde meados do século XIX. A física empírica desenvolvida de maneira precursora na obra de Edgar Allan Poe precedeu tal transformação fraturando a Modernidade delineada no século XVII em plena Renascença com o Discurso do Método. O antropocentrismo renascentista encontra no Cogito cartesiano a imposição geométrica do Logos a delimitar na Persona a individuação como um fim, o qual se encontra no espelho da Semelhança, de maneira a prevalecer a partir do século XVII no conflito da representação a Semelhança como Identidade Heidegger no estudo que faz sobre a Sentença de Anaximandro, pessimista grego que viveu no século VI a.C, indaga de modo oracular: "Estaríamos nós nas vésperas da mais espantosa transformação de toda a terra e do tempo, do espaço da história em que ela se suspende?" Refere-se o filósofo alemão em sua indagação ao historial, ao epocal, ao definir o actualitás, que considera o Absoluto como relatividade do começo no sentido de atribuir ao aqui e agora o movimento estético em curso em nossos dias que se define de modo controvertido como pós-podernismo.

As teorias da relatividade e a ótica quântica predispõem a um comportamento crítico de iluminação individual que se supõe de exclusão da Identidade no espelho da Semelhança. O nº 31 da revista Rio Arte, publicação de Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro dedicado ao Pós-modernismo, traz um ensaio onde se lê a expressão em francês de Ben Vautier, citada pelo crítico e professor português Bernardo Pinto de Almeida, "A Arte é inútil - Recolhe-te a ti mesmo." (L'art est inutile - Rentrez chez vous). O que se supõe na sugestão da frase um anti-humanismo em relação à obra de arte, delimitada no pós-modernismo, está implícito, a meu ver, na Dúvida metódica cartesiana. A sujeição do pensamento moderno às coordenadas de Descartes é um bloqueio intencional à individuação e, quiçá, ao saber/fazer instaurado na Renascença…

João CâmaraEm As palavras e as coisas, Michel Foucault discorre sobre a Semelhança condicionada à cultura do Espelho. As Cinco Similitudes distribuídas como condicionantes de uma ars mirabilis a aprisionar o sujeito na redoma do logos é o eixo conflitante de uma relação de Identidade e Diferença. Os estruturalistas franceses com vistas na Semiótica de Peirce anteviram a função léxica do Icone como um duplo a superar a limitação especular da Semelhança. O Icone como um duplo, tanto na oração como na representação do ser, é uma figura de linguagem não subordinada ao logos. Sua lógica é a do simbólico, do qual a linguagem poética se nutre e transforma em obra de arte. Esta é pois uma prática "pós-moderna" na medida em que contraria o pressuposto epistêmico da Modernidade. Seu campo é anterior ao praticado nas rapsódias de Homero sobre a guerra de Tróia transformada em mito, tema da Ilíada e
da Odisséia. Acontecimento no qual delineia-se a nostalgia helênica do Logos, que se estenderá ao Ocidente como uma característica preliminar da História a se consumar com Heródoto e Tucidides, paralela à dialética heraclitiana, da qual Hegel se tornou o gênio epigonal contemporâneo. Uma posição idealista voltado para o futuro, contrário à teoria da Mônada de Leibniz e à Estética transcendental de Kant, à Lógica de Condilac e Locke, ambos identificados com o heliocentrismo de Copérnico, para quem o sol noturno é a direção do indivíduo: no pensamento está a imagem, no símbolo a imaginação, de cujo núcleo o duplo desponta, interferindo na representação do ser.

A suposição de que a Arte é inútil envolve um acirrado embate entre Essência e Aparência, entre sincronia e diacronia. A mecânica da Natureza, vista por Hegel como matéria inerte, é corpo em repouso. Neste sentido, os diagramas descobertos por Saussure recobrem a mecanicidade da composição lingüística subordinada a um esquema logocêntrico vigorando na estrutura do poema de maneira a determinar em sua semântica um conteúdo pré-radical. Neste sentido a Arqué implica interação originária da sensibilidade e do entendimento, de maneira a transformar-se a obra de arte em objeto da vontade de saber, um saber/poder, como pretendia Nietzsche, da tehkné como predica natural do ser.

A posição em que se configura a Semelhança sob a jurisdição do logos é estremecida dialeticamente pela diferença. O físico observa o fenômeno, visando a uma ordem cosmológica que tem como Unidade a cons-ciência. Tal implicação imposta na Modernidade é questionada pelo pós-modernismo ao retomar o pressuposto da diferença em razão das teorias da relatividade, cuja mecânica a luz percorre na extensão negra de retorno do pensamento iluminado que se emparelha ao imaginário.

João CâmaraDe inútil a Arte torna-se útil construção matemática de uma arquitetura que tem como referencial na Antigüidade o Pedreiro. A pedra não como obstáculo e sim como peça da argamassa de uma Babel que representa a unidade originária da língua. Tal reivindicação tem seu arcabouço no Grama aplicado às letras e transformado na ética dos Estóícos em estrutura gramatical. Oficina inesgotável associada ao bem falar, ao bem dizer, uma práxis enfim que liga o homem a si mesmo e por extensão ao real. Prática não mecânica, subordinada à Semelhança como princípio ôntico voltado para o sujeito e a necessidade de conhecer-se a si mesmo. A metodologia da Semelhança reduz o conflito da representação a uma norma convencional à qual o sujeito se ajusta ou sofre o corte psiquiátrico da alienação. O pensamento percorre a torre de Babel em busca do Alfabeto original e da língua, da armadura enfim da linguagem, que levou Jacques Derrida a conceber com a "desconstrução", o desmonte semântico da articulação da linguagem num processo que encontra correspondência no mito onde Eco é a voz de Narciso diante da imagem na fonte.

Tal périplo, descoberto por Allan Põe e exposto em seu último livro Eureka, traduzido por Júlio Cortazar, livro que tanto é uma síntese da pragmática oracular do poeta norte-americano como da física einsteniana ulterior e da teoria do Quanta, perfaz o percurso negro da luz no inconsciente, atinge o ápice do ser e retorna à claridade da consciência numa analogia a que se pode atribuir os ingredientes etiológicos da memória em um estágio tecno-lógico digamos do Acaso, do Acontecimento como Registro e realidade virtual. Órgão sem paisagem a que alude Julles Deleuze em A lógica do sentido.

O encontro de ciência e consciência, thekné e arqué, se consuma com a Ciber-Informática, de maneira a colocar-se o indivíduo como um deus diante da engrenagem mecânica e da simultaneidade dos fatos.

Certas expressões do filósofo brasileiro Márcio Tavares d'Amaral, em artigo intitulado Experiência e dispositivo no nº 14 de Veredas, revista do Centro Cultural do Banco do Brasil, dizem bem do Corpo-imagem emergente do contemporâneo, genealogia do imprevisível, da invenção, da Diferença e queda da Semelhança com o advento do Insólito sob o poder do Homem. A Renascença consuma-se nesta cláusula superadora da Dúvida, transformando a Modernidade em pós-modernismo e campo do Acontecimento totalizador da eficácia, "instituindo diferenças onde vigorava a identidade clássica." A Modernidade impõe uma delimitação que se pode vasculhar no pós-modernismo. O excluído é o tempo como errância do pensamento e sua temporalização. O caráter fundador do Acontecimento que o diferencia da ocorrência e começa na forma da simultaneidade como contemporâneo é o evento, que faz da diferença o jogo do futuro, não da identidade, do que advirá do dispositivo da imagem como mediação do ser.

João CâmaraO Templo de Delfos guarda em sua inscrição a chave que o futuro aguarda e tem a seu dispor a unidade reduzida ao enigma da Esfinge que Édipo, cego, transformou em Tecno-logia do saber. A leveza do mármore de uma catedral barroca, renascentista, dialoga com o advento do insólito. As idades se reencontram como corpo-imagem transfigurado pelo saber/fazer, reduzido, em última instância, a um jogo do futuro. A qualidade do ser na negação é o fundamento do imaginário e retomada da imagem fundadora da realidade na mente. Nesta medida, a Arte se constitui em uma atividade destituída de parâmetros condicionadores da Forma. A Geometria configura uma linguagem precursora do saber em um estágio análogo ao do simbólico de modo a associar-se a Arte a uma fabulação matemática que se revestirá da Forma em sua arqueologia. A Arte subverte a geometria da Forma, antecipando-se a uma ordem fundadora da imagem na imaginação. Neste sentido a experiência deformadora da figura corresponde à didática de Duchamp e o ready made em relação à contemporaneidade, uma repetição de ousadias cromáticas que extraem do caos noturno o belo.

O que se supõe uma paródia, é um aparato inovador da alegoria em curso desde a superação do "clássico". Exposto à réplica da diferença o espelho reflete a deformação provocada pela repetitividade. A suposta "não-necessidade em face da existência" faz da Arte objeto de equívoco nos museus. Seu campo é o da afirmação individual na intimidade do discurso, desde a negação originária. O avanço se dá ao nível da transformação da cultura como a que se oferece agora com a Informática e a globalização.

Foed Castro Chamma (Paraná, 1927). Poeta, tradutor e ensaísta. Autor de livros como Iniciação as Sonho (1959), Pedra da Transmutação (1984) e Filosofia da Arte (2000). Contato: foed@ig.com.br. Página ilustrada com obras do artista João Câmara (Brasil).

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