revista de cultura # 26 - fortaleza, são paulo - julho de 2002

aglogo (tarja).jpg (41350 bytes)






 

Livro terceiro: graus da realidade

Foed Castro Chamma

Foed Castro ChammaMediadora da representação, a palavra é ferramenta da linguagem. Recobre o pensamento, dando trânsito a sinais que se convertem em revelação da realidade e das coisas. O sujeito é um eco. O som que emite dá corpo à palavra. A Pessoa tem na palavra a revelação da memória a agenciar o discurso, ao qual se incorpora, assim como ao som que emite através da máscara de que se reveste. Tal é a função do mito, mediar os vínculos com a memória no desempenho da linguagem projetada pelo pensamento enquanto representação do ser.

O avanço do estágio ágrafo, arcaico, da língua coincide surgimento da tehkné a serviço de cerimônias identificadas com o culto às estações e outras práticas religiosas correspondentes a inquietações resumidas por outro lado na tentativa dos ferreiros de conciliar espírito e matéria no trabalho com o ferro e o fogo. Tal como ocorre com o sentido mítico da palavra, as práticas artesanais eram cerimonias fundamentadas no imaginário.

À medida que o mito se torna agenciador do fazer a herança arcaica cede ao discurso, emergindo então com o exercício do espírito criador a linguagem sincrônica que alcança através da obra de arte e a prática concomitante do saber a dimensão histórica do Conhecimento,

Acoplado ao simbólico, o sujeito se volta para o imaginário, a partir do qual delineiam-se os graus da realidade, em cujo âmbito desponta o duplo a entrelaçar a rede da representação, da qual o sujeito se nutre, tendo como principium causalitatis a negatividade, responsável pelo caráter inventivo da imaginação.

Ao recolher-se à realidade, que emoldura o pensamento, delineia-se o fator subjetivo originário da negação que projeta no imaginário a representação, convergindo o duplo para um eixo da realidade a escavar em sua descontinuidade sulcos que atestam a natureza metafísica do ser, atingindo a duplicidade situações críticas de ruptura do continuum na medida em que o tempo é o Nada a delimitar a ação, atributo especifico da alma, como se pode observar nos contos de Murilo Rubião, onde o significado se volta para o significante a girar em espiral, tendo como referencial o desenvolvimento de uma trama onde tempo e espaço se confundem. Ali o Absurdo se instaura emoldurado por uma realidade a atestar os vínculos do sujeito com o imaginário que delimita os graus da realidade.

A Pessoa identifica-se com o duplo ao fundar o campo do imaginário, cuja especularidade sofre a interação da diferença de maneira a configurar na semelhança o conflito da representação.

Prevalece na ficção de Murilo Rubião a intemporalidade configuradora do mito, no estágio em que figuras evanescentes comparecem, condicionando o imaginário à realidade. O discurso incorpora em sua extensão um domínio, tendo como limite do espírito criador a vontade de saber.

A ficção muriliana compõe um tapete cujo registro reescreve antigas ruínas que são hieróglifos de um mundo de alegorias que rompe com os preceitos da razão, retirarando dos subterrâneos da alma os domínios da luz que se estendem e transforma-se em leitura do insólito. Um campo com o qual se convive em vigília e é rejeitado pelo realismo historiográfico da Identidade.

Autores hispano-americanos c omo Júlio Cortazar, Juan Rulfo, Garcia Marques desenvolveram aspectos simbólicos dessa realidade, tal como o fizeram na pintura um Hieronymus Bosh, no teatro um Bertold Brecht e Kafka nos contos e romances. O descontinuo reflete estados psicológicos configuradores do mito de maneira a subverter o cânone realista ao configurar o Absurdo. Toda trama ficcional remete a uma realidade que sofre a interação do imaginário e desdobra-se em graus como fenômeno implícito na representação. O imaginário condiciona a realidade que sofre a interação do Sentido de maneira a projetar-se na escritura.

A ubiqüidade do duplo produz o simbólico, que se torna deste modo artífice da realidade a emoldurar o conflito e o conseqüente salto do sujeito no abismo da imaginação, de maneira a questionar a Semelhança no desempenho conflitante, ardente da razão, estampando na representação o drama silencioso e a fuga por corredores de um labirinto que incendeia os campos da mente.

O Absurdo é uma alegoria a projetar perspectivas que se ampliam revelando a dissimetria da representação condicionada à rebeldia do sujeito que observa na realidade o descontínuo desenhado em figuras que se concentram na retina do voyeur quais potencialidades míticas, diversificadas do duplo, no desempenho do Outro . A incursão ficcional pela área do Absurdo remete ao entendimento a descontinuidade do simbólico onde as figuras ao sofrerem cortes no tempo perduram como fulgurações do duplo no imaginário e são utilizadas de maneira a levantar a densidade ontológica do psicológico numa área que se vincula à filosofia. As implicações metafísicas do imaginário estendem uma rede na relação com o duplo, deixando margem ao Absurdo o qual, no exercício do espírito criador, configura o contingente atemporal que remete à ontologia parmenídica ao associar o filósofo ser e pensar a um só corpo.

Na mesma trama que adensa a ação como complemento dramático da representação desponta o anti-herói, cuja configuração emblemática tem como modelo os titãs a emergir da subjetividade vincados pelo conflito da Semelhança. O sujeito é um anti-herói solitário a desdobrar em silêncio o conflito especular cuja contingência desconcertante tem origem na da negatividade.

O Absurdo na ficção adquire conotações sociológicas na literatura ibérica ao revelar diferenças étnicas que remetem à questão levantada por Kant na Crítica sobre a Diferença em relação à Identidade. "O uso estético da razão está condicionado a tudo que seja visibilidade e percepção". Ao incorporar-se à Identidade a diferença é a trágica medida da contradição dos opostos.

Acompanhando o (duplo) sentido das coisas, de Platão, Nietzsche retomou no início do século vinte a noção dos pares de opostos, condicionando à representação os pólos primordiais advindos da negatividade, que dá margem ao conflito da Semelhança. A estética transcendental de Kant aborda o complemento fenomenológico da Identidade, atribuindo configuração ética ao ser fundante da representação. Nietzsche realça a estética como padrão existencial, sublevando o conceito aristotélico de Identidade de maneira a adensar o procedimento especular ao admitir o uso estético da razão.

A literatura tem feito o registro dessas singularidades filosóficas através de personagens-metáfora, cujo estigma sensorial é componente oculto da Semelhança a vincar a Identidade. O onirismo no cinema de Buñuel e Bergman é uma metáfora do descontínuo observada da mesma maneira nos contos de Murilo Rubião, corroborando tal abordagem ficcional o pressuposto de que a praxe converge para a lógica do simbólico, aderindo a realidade apofântica portanto ao fantástico, onde a imagem condicionada ao Tempo é um movimento para trás que reduz a Aparência à sombras que sonham condicionadas ao raio oculto na casa do relâmpago.

Hamlet, Dom Quixote, Tartufo, Capitu, Diadorim, são alguns arquétipos dessa descontinuidade emergente que o escritor apresenta como um duplo. Fatores antagônicos da semelhança comparecem na ficção como diferenças da subjetividade configurando o Absurdo que se insurge contra a irreversibilidade e a perda que o espelho impõe à Semelhança, de maneira a corresponder as diferenças aos graus da realidade, os quais desenham constelações no cotidiano, que se refaz ao olhar atento do observador e ao entendimento.

Mário BotasEscavar na memória as ruínas do sonho é um empenho na crista dos fatos com a côdea da razão. Para tanto os cortes, acidentes, rupturas são a severa realidade do texto que contraria o classicismo, cujo fundamento é a semântica da semelhança. O simbólico subleva a linearidade do discurso, impondo fugas que se estendem por caminhos obscuros onde tudo ao findar recomeça.

Em Partilha de sombra, de Walmir Ayala (Ed. Globo, 1981), tais cortes aderem ao mito que se delineia em torno de pessoas desenrolando a parca representação com suposto domínio de si próprias, submissas na verdade ao simbólico, cuja esfera se projeta no pathos individual e nutre-se de um jogo contraditório, racional e primitivo, jogo arisco que se desenvolve espelhando figuras que são requintes de treva como um lagarto se enovelando. A trama ficcional sobrepõe-se à realidade imediata qual metáfora de uma eitura que desvela o habitante do tempo mergulhado em sua subjetividade. A metáfora engloba configurações insólitas que caracterizam o descontínuo na origem do sonho como nos contos de Murilo Rubião, onde tempo e espaço se entrelaçam acompanhando a realidade.

O mito é o estado inicial na organização do universo individual, que se amplia como a recolher o vivido. O poeta e seus espelhos estão no mistério de personagens que o escritor desenha como um demiúrgo, correspondendo os signos à linguagem, a serviço do harmonioso exercício do espírito criador.

O simbólico e o racional entrelaçados configuram o mítico, na Antigüidade, e, no Renascimento, o aspecto científico da Modernidade. O Pós-moderno se sobrepõe ao racionalismo tradicional, identificando-se com a subjetividade expressionista do simbólico, indo de encontro neste final de milênio à física do quanta e às teorias da relatividade, voltadas para o antigo conceito do tempo circular, cujo aparato científico rompe com o horizonte da linearidade ao identificar-se com a Tecnologia.

Ao Acontecimento convergem o subjetivo e a memória integrados ao julgamento sintético e ao Registro. O sujeito ignora as diferenças em função da radicalização tecnológica, com evidências científicas que são um prolongamento determinante do saber, um avanço insuspeitado e um prenúncio da necessidade do humanismo contido no preceito do Templo de Delfos tornar-se realidade, implicando tal preceito uma ética salvadora do caos. Umberto Eco "subtrai o real da história", dando lugar ao significante, que tem na Biblioteca de um mosteiro medieval seu referencial emblemático. (Cf. O Nome da rosa, Ed. Record).

Os fatos desenrolam-se na busca de um livro que guarda em si as ruínas do pensamento. A Biblioteca é um duplo a determinar a contingência retornante do ser, colocado no grau zero da história, onde o semiólogo e romancista italiano resgata a individuação buscando salvar na linguagem que se estende como espelho de figuras que são frutos da imaginação e permanecem como signos no discurso romanesco, cuja trama está acima da Identidade em sua simbologia.

Em Partilha de sombra, de Walmir Ayala, a componente de Identidade é projetada na relação entre o retrato da morta e o retrato de Zaíra, que morreu para Rufino, amigo do pintor e que oferecia o alento necessário para realizar sua obra. Permeia o romance a ambigüidade transparente do simbólico que escapa e o pintor quer capturar a fim de realizar uma solidão a dois.

A diferença permanece mergulhada como Beleza no romance à procura de identidade de um eu que, simétrico à realidade, quer desenhar o próprio drama. Daniel é Rufino para o pintor. Isto implica o estigma da diferença compondo a ação, de maneira a realizar um discurso sem desfecho, como na novelística de um M. Butor e de um Robbe-Grillet, que oferece aquilo a que a obra de arte corresponde, a saber um a priori que não se submete a modelos na medida em que a invenção implica o descortínio de um horizonte que se perde como miragem e é logo recuperado.

O Absurdo atinge aspectos da realidade que ultrapassam o sentido crítico do leitor pela estranheza diante do insólito de situações causadas pelas diferenças e a ambigüidade do sujeito. O fantástico é uma crispação da realidade deformada no espelho e refletida como sinal assimétrico da diferença na Pessoa. Coaduna-se com o romantismo de uma arte feita de "feitiço e salvação" despojada do apolíneo, voltada para a composição dionisíaca de uma saga onde o mito corresponde à identidade cultural.

As marcas que denunciam o conflito da semelhança servem de ferramenta para o estudo da linguagem. A semiologia moderna avalia os desregramentos sensoriais em oposição à Gramática, que coloca desde os estóicos a ética em questão.

O eu oculto em sua fulguração interna transparece na linguagem, opondo-se à semelhança como a sombra ao raio. A realidade é extensão de tudo o que é aparência e se aclara à medida que se funde ao raio, do qual a linguagem é a revelação.

Anterior aos atos, o pensamento é uma ponte a ligar a substância de que é composta a realidade e o sujeito. Deste modo, a realidade se adensa retornando o sujeito à visão do imaginário como substrato da própria articulação na realidade.

A Arte espelha os graus da realidade, condicionando a Pessoa aos estigmas do imaginário em relação à semelhança. A essencialidade maquinadora da legenda de heróis é a mesma do mito que as formas simbólicas desenham ao desarticular o continuum e fraturar a empiricidade do discurso Os cortes no tempo são denúncias de perdas que caracterizam a fuga e a desocultação do eu em relação ao simulacro. Eivado de exclusão o eu denuncia a si próprio como o Outro que o mantém segregado em sua gruta.

Em O Alienista, Machado de Assis põe à mostra a "loucura" do dr. Bustamante, que subverte os princípios da razão na tentativa de encontrar cura para os pacientes recolhidos em sua clínica. A razão oscila entre um termo e outro da insanidade. Os níveis subjetivos do sujeito realçam a diferença que se perpetua na rede das idéias, antecipando-se ao ato de ver. Oculto nas dobras da linguagem o eu subsiste como consciência, certo de que a verdade implica vontade de saber. O verdadeiro constitui a certeza conciliadora da razão para o homem, supostamente morto, cuja recente aparição Michel Foucault viu como o homem-futuro robotizado pela Ciência.

A Verdade é consciência na medida em que se quer enquanto experiência despertar a imaginação, revestindo-se o sujeito da condição de interprete da representação. Deste modo, os graus da realidade estão vinculados ao sentido das coisas, cujo fenômeno não escapa ao espírito criador que engloba junto à realidade o mito.

Os opostos configuram a síntese à qual o duplo se incorpora ao ligar-se ao Outro como fenômeno vinculado à dinâmica da semelhança e à lógica da razão. O simbólico revestido de descontinuidade é o horizonte do imaginário.

O mito é espelho da realidade que evolui para a visibilidade dos fatos transformados em estrato da memória.

A diferença ao condicionar o sujeito ao conflito da semelhança tece a rede do simbólico, cujo lógica aclara os estratos obscuros do inconsciente que emergem e são capturados pelo espírito criador como registro do imaginário. A captura desses estratos visa à neutralizar o envolvimento do mal, cuja dinâmica corresponde ao Absurdo e é a mesma potência que induziu Descartes a conceber o malin génie. O maniqueismo desse entrelaçamento é vislumbrado não raro por uma percepção sagaz que as transforma em agentes de invenção do espírito criador.

Há exemplos de rupturas do bloqueio imposto pela convenção e a derrubada de princípios arraigados. O Discurso do Método nasceu da decepção com os estudos de humanidades do filósofo que adotou "acompanhando a idéia de Montaigne de que o campo de batalha da incerteza é o Eu", a dúvida metódica, de maneira a dedicar-se inteiramente ao princípio universal da matemática, certo de que "a deusa Razão ou o bon Dieu é a garantia do conhecimento científico." (Cf. Descartes, Col. Os pensadores, Abril Cultural).

Aspectos semelhantes da incerteza repousam no inconsciente, correspondendo segundo Nietzsche a uma humanidade que se manifesta no sonho durante o sono. O sonho é o refúgio da Aparência em ação, a res cogitans, que se estende com o pensamento e transforma-se em Conhecimento. Através da Arte a rede do inconsciente que repousa na memória se deslinda com o imaginário e converte-se em linguagem. O caráter ambíguo da representação se revela com a interpretação do simbólico cujo rito o espíritocriador comemora.

O ens imaginarium responsável pelos graus da realidade tem sua origem na negatividade que o duplo delineia de maneira a ocupar o espaço do pensamento que se transforma em tempo, movimento e representação. A complexidade concentrada do duplo permanece no imaginário e a memória retém, opondo-se ao tempo. A percepção do sujeito transforma o duplo em figuras opacas compondo quadros que são ecos a revelar as cenas do sonho ao eu que assiste à representação como artífice e espectador. A imaginação recolhe tais duplicidades que o sujeito projeta no espelho compondo cenas nas quais o eu é sol noturno de uma constelação que reproduz a Noite e o Dia, como no sistema de Copérnico. O eu é o centro planetário, o sujeito é o duplo, que o Logos recolhe. A realidade é concentração da imagem na linguagem da qual a representação é um degrau e o eu a fulguração interna.

A realidade desdobra sua cintilação em níveis delirantes de visões reveladoras de um novo marco em relação ao duplo acoplado ao Outro, configurando o fenômeno a defrontação do mesmo consigo mesmo no espelho, o visível e o invisível, o eu e o que sofre a limitação no tempo sem jamais alcançar enquanto Identidade a descontinuidade da diferença em relação à Semelhança. No entanto, a memória concede à palavra o descortínio do que subsiste na subjetividade como instrumento do mito que reconhece o verdadeiro enquanto Identidade.

O Sentido aponta a direção do raio ao compor a realidade. Sendo o caminho que o pensamento ao fundar percorre, a realidade é a alegoria de um campo de luz que se estende e o raio recolhe. O eu e o raio são pólos do pensamento transformado em imagem e realidade.

Refeito da reinvenção da imagem, o símbolo é a divisão primordial do pensamento. A memória e a palavra são desdobramentos que revestem a imagem de som. e linguagem, que se estende com o pensamento, retornando ao Sentido sob o domínio do raio. Com o retorno ao sentido o drama se desencadeia sob o crivo da razão.

A realidade espelha o paradoxo da negação colocada ao nível da razão que se ordena com a representação, símil ao real na Forma e na linguagem. A efabulação da realidade é o desenho da linguagem que recolhe a imagem e reduz o símbolo a ícone.

O espírito criador extrai da realidade a unidade estrutural ordenadora do Sentido que corresponde ao eu e à Pessoa, dividida em espelho e eco enquanto sujeito de um discurso ou efabulação que é o repto à razão.

A duplicidade é a projeção do simbólico convertido em espelho da Semelhança. A realidade é campo de certezas fundamentadas na experiência que o espírito criador reduz ao simbólico ao recriar a representação. Suporte universal da negatividade é o real enquanto corpo simbólico da representação a refletir a passagem da negatividade na síntese que a linguagem ao estender-se comemora.

A partir da negatividade configura-se o marco ôntico de um elo que tem no simbólico o fundamento do imaginário, que o enforma, retirando da pétrea condição de Coisa em si a imagem, que se concentra na linguagem. O simbólico corresponde a contingências míticas que adensam a representação e são fontes inesgotáveis do imaginário. Corresponde a ritos ancestrais de passagem que sobrevivem como identidade e, sendo verdadeiros, transcorrem paralelos ao plano empírico da linguagem a refletir a ambivalência do ser em sua variação especular. As projeções no imaginário advindas do eu são fontes do mito que o sujeito reconhece como um duplo cujo lineamento configura em sua plenitude ontológica um arquétipo. Sobre a origem de Deus, a Pessoa construiu uma arquitetura misteriosa e na sobrevivência levanta questões concentradas na pergunta "Que é isto o Ser? Deus é a Natureza? A consciência planetária de Deus é o eu? A plenitude mítica do eu projeta-se como imagem na linguagem. Figuração inesgotável do pensamento, a face unitária de Deus renova-se no eu, cuja imagem é análoga à da Pessoa, espelho da Semelhança. O desdobramento mítico do Ser se oferece segundo a lucidez e captura do duplo na medida em que, artífice da imaginário, emoldura a realidade. Assim, o invisível implica uma lógica que lhe concede a dimensão de verdadeiro, a saber o eu, em cujo trânsito o duplo se agrega.

Mário BotasDesmitificar o duplo é uma posição crítica em face do imaginário, cuja relação conflitante corresponde à negatividade, da qual poder dizer-se tratar de experiência e portanto de saber. A imaginação exerce projeção sintética sobre a realidade, configurando os graus que refletem o Absurdo. Aprofundando a negatividade, o espírito criador perfilha o simbólico de maneira a revolver o imaginário e interpretar o conflito, cuja leitura reincorpora ao plano da razão.

Os graus da realidade correspondem ao emparedamento e sublevação do sujeito, que encontra no imaginário o simbólico, o qual manifesta-se como fulguração da diferença que o exercício do espírito criador captura. "Tempos diferentes são partes de um único tempo", afirma Kant na Crítica. A certeza de não reconhecer-se a si mesmo induz à captura do duplo no espelho.

Segundo Hegel, o real é a universalidade em si concreta do ser. A verdade é a certeza triunfante. O mito funde-se aos atributos do duplo que se desdobra nos atos implicando o retorno ao real.

O que ao real se acrescenta como negação predispõe ao vôo do pensamento e transformação do real em realidade. A relação é a da imagem reincorporada ao real que s entrelaça no imaginário compondo o tortuoso itinerário do eu. Entre o ser e o real se processa a ambivalência da representação.

A fala pertence ao Outro. A voz é um eco. O Outro nega a si próprio como espelho e Semelhança. Os graus da realidade decorrem do que se acrescenta ao Outro como duplo a urdir o imaginário. Negatividade implica fuga à procura do Mesmo. Como foco originário da negação, o Mesmo visa a uma síntese formal que culmine na superposição do duplo. A desocultação do eu nos atos é experiência e invenção. A Aparência oculta o eu, cujo âmbito pertence ao Sentido, que delineia a realidade. O desdobramento da negação nos atos implica o pensamento a regular a linguagem que se estende como imagem. O Sentido produz a imagem que retem a alegoria do pensamento e concentra-se na linguagem.

Fantástico (phainesthat) são os graus da realidade, correspondendo a um espelho no qual transparece nos sinais o duplo. A máscara como espelho recobre a dor que, segundo Empédocles, é a semelhança. Na dor está a consagração do que o sujeito representa. A ponte que liga o pensamento ao real possui três estágios na linguagem, (1. imagem, 2. símbolo, 3. ícone), correspondendo o Signo a significante e significado, de maneira a revelar na dualidade a diferença como paradoxo da semelhança que a linguagem comemora, reunindo no discurso como síntese os sinais que se sobrepõem simétricos à verdade. Uma geometria manifesta-se na realidade, determinando a lógica do simbólico. De maneira que os graus da realidade associados a essa geometria correspondem à intemporalidade de um universo, do qual a memória enquanto núcleo intemporal e matriz tem como expressão temporal a sacralidade do rito, cuja função retornante pertence aos fatos, os quais são repetições em sua diversidade de um discurso de heróis e anti-heróis, de deuses e demônios, manifestações arquetípicas na verdade da representação que serviram de fundamento à mitologia e teologia de Homero. O imaginário é uma restauração permanente desse universo vinculado ao duplo, que se insurge contra o logos povoando a imaginação de figuras do sonho. À transcendência do Sentido se deve a presença de formas que pertencem ao homem à procura de uma segunda Morada. A Forma é um desdobramento do corpo que ordena a linguagem, englobando a sensibilidade.

A partir da negatividade se cumpre a extensão do pensamento que desfaz e refaz a rede do imaginário como uma vaga noturna de sombra exposta à leitura como tarefa do espírito criador que recria a imagem no espaço essencial da linguagem, a cujo corpo funde-se o fogo, corpo que se quer língua, um bem perigoso que serve à loucura, à Desrazão. O real reflete a dissimetria do imaginário e se quer como experiência na linguagem, a qual recompõe o universo fugidio da imaginação. A reciprocidade com o duplo funde-se à realidade, onde o real é um espelho. O verdadeiro atribuído ao real corresponde à pureza intencional de encontrar a fulguração do raio. O real não se desvirtua com o discurso que emerge da subjetividade e alça-se à categoria do simbólico, trazendo com o mito a fulguração que lhe empresta o pensamento. Recolhido à lógica do simbólico e expurgados os fatores impuros da imaginação, o sujeito atinge em liberdade o marco do saber no exercício do espírito criador.

A visão interna intensifica o conteúdo da imagem recolhida ao imaginário como carga nefanda deslocada para a realidade, cujo plano se incorpora à linguagem exercida como verdade incorporada ao discurso.

O tempo psicológico, não perecível, é o da invenção. Campo da mathesis, de onde emergem os sinais que se aglutinam em expressões matemáticas compostas de essências do universo que a ciência persegue e a linguagem poética exercita, impulsionada pelo imaginário. A produção do pensamento guarda essa pureza intrínseca na memória. Estende-se a assinalar a contradição dos opostos como eixo de um fundamento que a linguagem atravessa chegando ao campo da mente, onde exercita o descortínio de horizontes dos quais recolhe os hieróglifos e reduz a imagem.

A realidade corresponde a espelho e símbolo a oferecer passagem à união dos contrários. O drama reflete a transformação da imagem junto à realidade, onde o raio corresponde à representação do ser. As cintilações durante o sono reaparecem nos vultos que correm quais imagens acesas durante o dia e são frutos da imaginação.

O paradoxo da negação acolhe a pulsão do raio que esvazia a rebeldia do pensamento cristalizando-o na linguagem. A realidade transmudada em alegoria desaparece, circunscrita ao código imemorial do Logos.

Entre a diferença e a semelhança o sonho se interpõe, correspondendo ao imaginário a síntese da representação. Voltada para a realidade, sua trama é uma construção esquiva que coloca em trânsito o duplo a refletir o semelhante.

O duplo medeia as figuras do pensamento, dando margem a visões provocadas pela trama da imaginação e fuga à realidade, em busca do eu nos confins do pensamento, onde a matéria do sonho confunde-se com o imaginário nivelado ao caos de uma realidade pessoal exclusiva. Espelho do sujeito, o duplo é a base do sistema de sinais a envolver a imaginação.

As figuras que o pensamento inventa são fulgurações momentâneas, paralelas ao real, símeis à pacífica realidade iluminada pelo sol na rua, ou assentada na escuridão de uma insônia no leito. Ao contornar o realidade o real não exclui o imaginário, fruto exclusivo do eu, visitado pelo duplo e seus invólucros artificiais, de uma transparência enganosa e obstinada.

Tal rebeldia se coloca entre a fuga e a conquista de um tempo que adere à realidade na "loucura", a acompanhar a trajetória do eu em busca da unidade interna representada pelo sujeito que vive a evanescência do imaginário e a sublevação diante da realidade, em cujo duplicidade circula o mito.

A limpidez da imagem oferece à visão o lineamento inapreensível da luz que desenha com a realidade a fulguração do ouro numa folha estendida no chão. Assim vista, a realidade é imagem amarela de um delírio em que se descortina no tempo o trigal que ressurge da memória. O delírio tem lugar na fortaleza que se organiza oprimida pelo espelho afeito à lúcida cintilação do imaginário.

Uma escala a graduar a realidade delineia-se, compondo gestos intangíveis de figuras que se movem no espelho com a pureza intencional de alcançar os vínculos com o real que permanece carregado de negatividade, ao qual se atribui a premissa maior de um silogismo. Projetado na realidade como objeto da negação, o duplo é o fantasma que não se deixa alcançar e é perseguido na tentativa de elucidação do mistério da fuga.

O antagonismo se sobrepõe ao continuum como um tempo a configurar outro tempo, na medida em que o sujeito se espelha no duplo a envolver o desempenho de um quadro que reproduz figuras que se entrelaçam e se dispersam, entrecruzam-se e seguem acumulando sinais que recolhe e se desdobram em graus na realidade como a atestar o vários tempos de um único tempo vinculado à razão. Essência e aparência compõem a representação de figuras mobilizadas pelo pensamento que delineia a realidade, cujo cenário luminoso contém alegorias egressas do sonho que o espírito criador captura por emulação da vontade de saber.

Plasma de luz, o tempo é a matéria do pensamento. A ação tem como princípio o raio que produz sombra transformada em negação da luz. Sobre os atos paira a ação do que converge para a Forma e como imagem se concentra na realidade. O pensamento tem como cenário a realidade.

No espelho a interação da semelhança projeta o duplo, cuja relação com a realidade possui dramática luminosidade na ubiqüidade com que se apresenta no universo das correspondências, tecendo soberano a rede que culmina por estilhaçar a razão.

Mário BotasA realidade espelha a imagem, gerando a relação do ser com o real. No espaço da imaginação, a realidade é um ogro onde transita o duplo, apontado como semelhança a confrontar-se com o Mesmo, deflagrando-se então no espelho o pânico do sujeito e fuga à procura de um lugar onde desfaça e reconstrua a realidade. O imaginário é um espaço que remonta ao estágio elementar da imagem, mergulhada no universo da subjetividade, onde no limite da articulação o tempo é imaginação.

A verdade como salvaguarda do ser funde o imaginário ao mito, decorrendo de tal fusão a faculdade geométrica, metafísica da sensibilidade, que faz do duplo um desdobramento da Semelhança, ao qual no espelho (arte natural do maravilhoso) a Pessoa se expõe diante de si mesma e defronta-se com o duplo. O duplo está onde o sujeito está. Assim como o eco e o som, o duplo é um desdobramento da semelhança, que encontra na imaginação o campo de força universal do pensamento. A imagem desdobrada em Ícone evade-se da realidade, encontrando no espelho o duplo como premissa maior do imaginário. Tal é a mecânica do círculo que se completa na imaginação e do qual o artista se ocupa, fazendo uso da cor, do som, do ritmo, da luz, da sombra, emblemas do fogo e elementos naturais associados à imagem, que se alarga na Natureza com a realidade.

Como metáfora, o imaginário é uma ciência do sobrenatural associado ao Anjo e ao Herói, figuras emblemáticas do saber e da tentação, do nefasto, do sacrílego e do trágico. A imaginação é uma delimitação da realidade. Seu rito de transformação visa à redenção e reintegração ao centro primordial da imagem. A imaginação é uma loucura de Deus. Entusiasmo e Dor são o paradoxo do imaginário e a tragédia deliberada da lógica. O limite do sofrimento está no semelhante. Deste modo o homem pensa em si e em D(eu)s. Deus como revolta e reinvenção da razão, em razão do imaginário, é a morte.

A afinidade paradoxal do imaginário é o limite do possível e do impossível. Nessa medida D(eu)s existe. Ali, a imediatidade rigorosa, como pensou Heidegger, é a Lei, que prescinde do imaginário à medida que se instala como plenitude de Deus a Pessoa e a aliança com o povo, que transformou a realidade em um rito.

A dialética da imaginação é análoga à tragédia sintetizada na certeza do ver e do saber: "eu vi, eu sei". A imagem concentrada na ação volta-se para o Demônio do pensamento que descarrega no duplo a negação e o espelho acolhe como semelhança, desencadeando-se então o conflito da representação.

A essência do imaginário e da tragédia explica-se na tradição do novo a refletir e deliberar em sua metaphasis a realidade do amor e do sobrenatural, tal um mito, de que toda época é capaz. O homem é uma figura do saber, culpável e inocente como Édipo, por isso sofre a tentação do sacrilégio. A loucura de Deus na tragédia é fruto do imaginário. A desigualdade enraíza-se na mimesis e na purgação, cuja implicação com o imaginário está voltada para o transcendental. O duplo, comprometido com a semelhança, é uma mimesis, da qual a realidade é cenário, horizonte, fuga e catarse.

Ao delinear-se a tragédia no plano da representação o simbólico se interpõe entre o duplo e a semelhança, concedendo à astúcia do voyeur a espiral do imaginário que, ao recolher a imagem, se organiza no universo do pensamento e da morte, onde se consuma o que a catarse não revela, a saber o vazio na linguagem, o estatuto da tragédia encravado no reduto da imaginário, voltado o sujeito para a complexidade da imagem que desenha no plano da razão. A Letra, a serviço da palavra é marcada em seus desígnios pelo estigma de duplo sentido, o simbólico junto à função diacrônica, regeneradora da razão.

A idéia do duplo desapareceu no Iluminismo, do mesmo modo que o corpo, aplicando-se o sujeito à razão da representação, segregando o imaginário à esfera da loucura, tema da psiquiatria. O duplo reaparece no Romantismo e avulta-se na obra de um Victor Hugo, estendendo-se à sensibilidade suicida de um Gerard de Nerval, que, igual a Baudelaire, identificava-se com a visão simbolista do poeta americano Edgar Allan Poe, para quem o duplo em um de seus contos é uma figura transparente na multidão.

A razão sofre em todos os tempos a interação do simbólico. No plano do imaginário, inclina-se o sujeito à reconstituição do que lhe parece o duplo representar, o imaginável, sem outro fundamento que a suposição do plausível na arquitetura do inverossímil. Uma alegoria constante habita a representação, alçando-se não raro a uma síntese repleta de sentido, como ocorreu com a invenção do circo, em cujo globo coberto de lona o mágico, o palhaço, o trapezista, o saltimbanco, o que se equilibra na corda, praticam a mimesis e a catarse, que o espectador do mesmo modo executa com o riso e a admiração. A adequação entre a intuição e o divertimento reativa a alegoria que a vida representa e o senso lúdico retém em oposição ao aspecto racional da representação.

O núcleo da representação e fundador da realidade em seu eterno retorno é o pensamento. O pensar é pois o fundamento da realidade e a Verdade a salvaguarda do ser. Atento ao mítico e ao racional, o sujeito recolhe da realidade a imagem, que se completa no plano da imaginação e o logos recolhe, unindo os contrários. Como agente do imaginário a imagem tem no espelho seu campo de operação, onde o duplo é a semelhança que se funde ao real numa relação inesgotável, paradoxal, à margem da qual o pensamento concede ao imaginário arquitetar o duplo e com ele identifica-se oculto na representação. O real é o eixo dessa relação dramática configurada por sinais que vão do mítico ao racional, cuja simetria corresponde à Verdade.

O duplo é como uma teia frágil, exposta à viração, sempre se refazendo em silêncio e que se nunca visto. Sob a legenda de quem nada tem urde de modo seguro, transitando de um lado a outro, como a aranha a carregar nas costas uma bolsa de rodinhas. Sua representação é múltipla, possui graus, expõe sua realidade completando uma química na figura do Interdito * Na versão original se lê: Ao inventar a tragédia a representação faz de sua praxe uma intervenção inédita, interpondo o duplo na cena do mito onde o imaginário concede sua imagem à astúcia do voyeur, que as recolhe, organizando o universo de Deus, do pensamento e da morte, pois ali se consuma o que com a catarse não se esvazia, encravado no reduto da imaginação, voltado o sujeito para a complexidade da imagem, que a Letra desenha no plano da razão. A Letra, a serviço da palavra e da linguagem, cujo desígnio é marcado pelo estigma de (duplo) sentido, a saber o símbolo e a regeneradora função de aparar junto à razão a Identidade, cuja reciprocidade é o paradoxo da negação que se projeta debaixo de misteriosa geometria que se sustenta na astúcia do "não sei, não vi" (mah fih) do pensamento, fiel a um velho código e a uma Lei. Uma atividade encoberta por outra oculta um fim que se cumpre em círculo fechado, guardando na aparência a ruminação do sujeito. Interminável é o cordão que o tempo desenrola para trás, deixando na construção uma tapeçaria, de que o tapete de Penélope é uma alusão longínqua.

O real é unidade que se desloca com a negação para as camadas da subjetividade, onde se manifesta o entendimento das coisas.. O domínio do pensamento recria o simbólico, configurando a passagem da diferença sob a interação do Outro. O campo visível do símbolo é um emblema da realidade que transcende o real no imaginário, revelando o abissal, o trágico, que confluem com o duplo para a razão, de modo a projetar-se ali o saber.

A razão subjuga a negatividade, mas não anula os graus que se delineiam na realidade a abarcar a dimensão mítica do Ser. O que não é é, o que é não é, tal é a dialética da razão cujo paradoxo constitui o Absurdo. A negatividade conduz ao abismo da subjetividade. Sua leitura é uma escavação arqueológica do mito. O processo implica a praxe do simbólico, tendo como fundamento o Drama, cujo epílogo é a renovada legenda do duplo.

A máscara reflete no espelho o pensamento, que se incorpora à lógica da razão. O lado sombrio da representação, o desencanto, a melancolia, a dor, o entusiasmo, têm origem na herança cósmica atribuída ao Logos, que desencadeia a rebeldia do pensamento em relação ao aspecto apofântico da realidade. A língua é o corpo vivo que permeia essa relação conflituosa da representação, onde o sujeito exerce o papel de espelho do outro. O estigma (espelho, eco) tem como compensação na linguagem a distinção entre langue et parole, que Ferdinand de Saussure faz, a partir da qual se imprime com a imagem o cenário colorido no campo da mente de uma trajetória especular que o pensamento percorre, fundando o imaginário.

Desde E. A. Poe a literatura tem aprofundado as raízes semiológicas da língua ao voltar-se o escritor para a subjetividade, percorrendo assim o espaço transcendental do saber, onde o mito reconquista sua prioridade e ali ocupa o seu lugar.

Em Saguão de Mitos, de Roberval Pereyr (Editorial Cone Sul, 1998), o poeta afirma que o possível reinstaura o assombro de um eu no dorso de Narciso. Nesta síntese a diferença está voltada para uma realidade que atravessa o decantado realismo rilkeano, atingindo as camadas do imaginário. Ali, a simbólica mítica não é uma suposição clínica da esquizoa-nálise e sim o significante na linguagem poética que o mito desvela ao poeta ao questionar os arquétipos e reconhecer a imagem de Narciso na fonte. Espelho e eco se reúnem na conflagração da imagem que chega ao poeta ensimesmado diante do duplo no espelho.

Anterior ao espelho e o eco, o eu é a configuração primordial do Ser, cuja sincronia constitui a mathesis, fundamento da linguagem na matematização do simbólico. Sua restauração é um caminho inverso ao praticado pelos gregos que, ao inventar a cidade e a tragédia, buscaram na praxe uma intervenção inédita do mito na História.

Em Saguão de Mitos, a tragédia se insere na linguagem a devassar a tragicidade da Moira no cortejo da contradição dos opostos que Ésquilo, Sófocles e Eurípedes levaram às últimas conseqüências dramáticas e Roberval Pereyr revê em relação ao Outro e o Mesmo, essa dualidade conflitante, responsável pela poesia dramática de Fernando Pessoa, dominado pelo niilismo ao refletir sobre a metáfora de um teatro que tem como fundamento a persona. Nietzsche pressentiu o fenômeno ao pensar no Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. Essa mesma dualidade os alquimistas reduziram, ainda na Suméria, a uma relação mineral de Espírito e Matéria, abreviando no forno com o fogo tempo.

Com o Romantismo, consumou-se no pós-moderno a individuação diante do avanço da técnica ao colocar em série no computador o Deus ex-machina.

Foed Castro Chamma (Paraná, 1927). Poeta, tradutor e ensaísta. Autor de livros como Iniciação as Sonho (1959), Pedra da Transmutação (1984) e Filosofia da Arte (2000). Contato: foed@ig.com.br. Página ilustrada com obras do artista Mário Botas (Portugal).

retorno à capa desta edição

índice geral

banda hispânica

jornal de poesia