revista de cultura # 25 - fortaleza, são paulo - junho de 2002

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Três livros de Jorge Lucio de Campos
(prólogos de Cláudio Daniel, Claudio Willer e Floriano Martins)

 

__ 1 Ausência de Lis

Jorge Lucio de CamposPintar as cores do branco, para esboçar a música do silêncio. Gestos mínimos, concisos, de um artista japonês: traços rápidos do pincel no espaço da tela, para iludir a idéia de tempo; para alucinar a consciência da forma. Ausência de lis, de Jorge Lucio de Campos, é um tratado lógico do delírio, uma construção rigorosa do impreciso, que nos fascina e seduz com sua nervosa beleza. O poeta ordena uma realidade recriada, ou paisagem onírica, tirando os objetos de suas funções ordinárias para redesenhá-los, realinhá-los como entes do imaginário, mas sem abdicar do acurado jogo de linguagem e da pesquisa semântica. Assim, por exemplo, no poema O museu da noite: "Esse o resto / de uma lua / entristecida – / já sem cor – / só maçã e / andaluzia", ou ainda em Paisagem filosófica: "Um só volume / de lábio e / montanha" (...) / "coisas que / falam de um / sol quebrado". Os poemas desta coletânea notável não formam um ciclo ou série, como a seqüência de fotogramas em uma película ou a irrupção de ideogramas no haiku; porém, há uma unidade consistente, sutil e inconsútil, nas três seções que a formam – Desenhar, Ad infinitum e As estações da razão, que somam 30 poemas (número que sugere a multiplicação do Três, a Trindade, pelo círculo mágico, o Dez, numa aritmologia poética). A impressão inicial que temos na leitura dessas miniaturas (ácidas e delicadas, como flores do inferno) é que o poeta transtornou o olhar, para ver as coisas pelo avesso da pupila. É o próprio autor que nos diz, em Azul frontal: "Há olhos que / nem sei – / devoram toda / a realidade / De algum modo / há olhos mais / agudos do que / um gesto atroz". Em outra peça do volume, Variação de cubos incompletos, a mesma referência à visão visionária: "Olhos que não / deixo de vestir / sempre que posso / – o inverso de / um buquê de crisântemos". O afastamento da lírica coloquial, centrada no cotidiano, em sua banalidade castrada (canonizada), não implica recusar o debate do estar-no-mundo, não foge à questão do ser no tempo; ao contrário, em Jorge Lucio de Campos, a tensão entre arte e vida, pele e página ganha contornos dramáticos, até expressionistas, como em King Kong: "Naco de carne da noite / nesses dentes podres / que, afiado, inflo / num bafejo intenso / de silêncio e dor". Poesia como reflexão (fala) do corpo, da palavra e da mente, em sua unidade (totalidade), em sua condição de cíclico sofrimento e gozo, destino de fera entre feras, de reflexo no espelho do lago (onde brota o lótus, entre água e lama). No final do volume (virtual e onírico) encontramos (como Ulisses, na Odisséia) os espectros de filósofos pré-socráticos, como Heráclito e Parmênides, convertidos em personagens, em sujeitos semânticos de um discurso amoroso cuja Vênus (ou Sophia) é a linguagem, as palavras carregadas de informação nova, de coração e cérebro ("No breu do éter / outro éter se / dilata – em meio / ao mar um novo / mar já esquecido"). Em Ausência de lis, Jorge Lucio de Campos reafirma a qualidade de seu trabalho anterior (o poeta tem já cinco livros publicados) e desponta como um dos mais interessantes nomes da poesia brasileira contemporânea. [Cláudio Daniel]

 

Luis Caballero

__ 2 Lição de Alvura

Ler uma paisagem? Mas isso é possível?

Sim, para Jorge Lucio de Campos. Ao menos, em Lição de alvura, declara gostar de "um lugar onde / se possa ler // em voz bem / alta, um novo // dia de sol". De modo evidente, aqui e no restante deste livro, ele quer suprimir ou ultrapassar uma mediação, uma distância entre as palavras e as coisas. Busca a unidade do símbolo, ou signo, e da coisa simbolizada ou significada, superando a contradição entre as duas esferas. Por isso, poesia, para ele, não é linguagem ou criação sobre alguma coisa, referente a algo que lhe é externo, porém a tradução da própria coisa. Na passagem citada acima, o poema não trata apenas do poético: vai além, identifica-se a ele. O texto não descreve um dia de sol; antes quer ser o dia de sol escrito. Assim como – e isso já observei em outra ocasião – ao voltar-se para obras de artes visuais, este poeta não as está comentando, porém criando equivalências, no plano da palavra, ao que vê e sente.

Em uma obra regida de tal modo modo pelos princípios da analogia e das correspondências, a palavra é ativa, tem uma dimensão mágica, age sobre as coisas: "logo // o mar / se tolda // enquanto / falo". Aqui também, não se está falando de um mar que se tolda: fala e mar, palavra e mundo exterior a ela, se correspondem.

Em tudo isso, há uma superação de limites da própria linguagem, para registrar o "Som sem / nome – // ereto em / seu mistério", e descrever o indescritível, ou então, vamos logo utilizar o termo certo, por mais gasto que esteja, alcançar o inefável: "querendo/ apenas se // mostrar no/ que não // passa e / não se // pinta – // no que / se vê e // não se / capta". Às vezes, esse registro silencia ou se retrai, limitando-se a reconhecer o indizível: "Cá dentro / na cama // não sei o / que digo // (o que / penso?) // do gris / que lambe // as trevas".

Fiel à radicalidade de seu intento, Jorge Lucio de Campos acaba, em passagens de Lição de alvura, por desconstruir a palavra: "crespo / ainda / quando / dobra / fala língua / dentromar". Ou então, por aproximar-se da glossolalia, do fonema não-semantizado, inventando uma linguagem própria, assim como o fizeram, cada qual a seu modo, Huidobro, Michaux e Artaud:

                – aq
        ui s dor
      me
     de
      ver
       da
        d a m nch
                       s
                        co
                       a
              d v g r

De modo mais evidente neste poema, mas também no restante de Lição de Alvura, a condensação é um valor que pode ser associado à poesia de Jorge Lucio de Campos. Economia não é, em si, atributo indispensável da boa poesia. No entanto, estes versos curtos, às vezes quase monossilábicos, com algo de telegráfico, podem ser associados ao rigor, a um grau extremo de precisão e concentração. Cabe lembrar, a propósito, a palavra alemã para escrever poesia, dichten, que contém dicht, 'denso', 'concentrado'. Portanto, escrever poesia, em sua acepção original e na obra de Jorge Lucio de Campos, é adensar, tornar mais concentrada a linguagem.

É um sintoma de crise das mediações, especialmente da crítica, que Jorge Lucio de Campos não esteja catalogado como um dos principais poetas contemporâneos brasileiros. Por mais que já tenham sido repetidas, ajustam-se a ele com especial precisão as observações de Octavio Paz sobre os autores tidos como herméticos em El arco y la lira: "A solidão do poeta mostra o descenso social. A criação, sempre na mesma altura, acusa esta baixa de nível histórico. Daí que, às vezes, nos pareçam mais altos os poetas difíceis. Trata-se de um erro de perspectiva. Não são mais altos. Simplesmente, o mundo que os rodeia é mais baixo".

O autor de Lição de alvura e de À maneira negra e Belveder ainda não estar sendo discutido e estudado serve como sinal de alerta, mostrando que essas observações continuam valendo para o cenário cultural brasileiro. Mas, enfim, se aqui já estamos começando a ler autores como Paul Celan e Yves Bonnefoy, algum dia também leremos os poetas "difíceis" que não estão aí para brincadeiras e modismos e são nossos contemporâneos, os Age de Carvalho, Jorge Lucio de Campos e (felizmente) mais alguns. [Claudio Willer]

 

Luis Caballero

__ 3 Abraçar Ordenhar Aleitar

A poética de Jorge Lucio de Campos soma-se às reflexões sobre a obra plástica de inúmeros artistas, ensaios que vem publicando em livros e revistas, na condição de uma vertiginosa compreensão do que ele próprio já chamou de A dor da linguagem, belo título de um livro de 1996. Neste livro, aliás, logo no prólogo, Marco Lucchesi o chama de "poeta peregrino", no que acerta por completo, tanto pelo sentido de rara beleza que ali alcançam as imagens como pelo incansável percurso desfiado por Lucio de Campos à procura de uma voz interior que o distinga da paisagem à volta, ao mesmo tempo em que lhe afirme, com base na própria individualidade, como parte essencial dessa mesma paisagem. Não à toa a idéia de incomunicabilidade que o título sugere é igualmente uma afirmação de seu revés, o dentro e o fora como vasos comunicantes, interrelacionados.

Em um livro seguinte, uma vez mais no título, a chave para o entendimento de uma poética: À maneira negra (1997), sugerindo uma nova faceta da dor da linguagem, a aflição do transitório, como acerta Carlos Lima no prólogo, sim, mas também o conflito da simetria, pois ali se percebe, mais do que em qualquer outro momento da poesia de Lucio de Campos, a tensão entre homem e natureza – uma indagação lancinante se encontra em poema dedicado a Escher: "pode a linha do corpo / a cada hora do dia // por no rosto uma cor / não constante". E logo: "pode a esfera / começar o transe // sem que nada / mude?"

A propósito de Escher, cabe lembrar que também este livro confirma a plasticidade de uma poética, a afirmação de uma visão de mundo através do diálogo com inúmeros artistas, a rigor: com a obra desses artistas, com os silêncios, as iluminações, recortes, sombras, fluir e refluir de outras linguagens caídas em um mesmo abismo de identificações. Lucio de Campos não oculta a conversa que mantém com o mundo, a fonte de experiências dos poemas, ao contrário: vê em tal revelação uma forma de convivência, o que, inclusive, lhe dá a medida de um conhecimento, precário, dolorido, turbulento, sim, e por isto humano. E observo ainda que esses diálogos nos levam a compreender que não há motivos para que escritores, músicos, pintores, quaisquer artistas, vivam em mundos isolados, como se não fosse a mesma a dor da linguagem.

Em um ensaio intitulado O poema em prosa como forma em evolução, Robert Bly gera um delicioso comentário de Heriberto Yépez, que o traduziu para a revista mexicana Paréntesis, quando menciona "a diligente percepção intelectual e a intensa descrição amorosa que exige o perfeito poema em prosa". Bly concentra-se na eleição por um object poem, a exemplo do praticado por autores como Francis Ponge, Tomas Tranströmer, Murilo Mendes, José Antonio Ramos Sucre. Refere-se a uma "composição integral", cuja medida essencial é dada não por um padrão – o metro, a estrofe – mas antes pelas "mudanças que a mente tem enquanto observa". Se me estendo aqui na referência, o faço pelo fato de que Lucio de Campos tem praticado o object poem com uma freqüência considerável, o que inclusive nos leva ao presente livro, na verdade uma recolha de poemas em prosa, em boa parte já inseridos em outros livros, que constituem uma afirmação por essa poética de exceção com a qual se identifica.

A idéia de um aprendizado ou convivência com o "jogo do mundo" a que se refere Badiou, logo na epígrafe de Abraçar ordenhar aleitar, me parece que nos leva a uma discussão já apontada por Bly, ao mencionar que a idéia de forma fixa está ligada ao homem e não à natureza. Recordemos o comentário acerca de À maneira negra, quando me referi ao conflito da simetria. Bly acentua: "a forma na natureza remonta à tensão entre a espontaneidade individual e a rigidez impessoal". Então relacionemos as tensões, de reflexão e criação, sem deixar de perceber as linhas de acesso à impessoalidade e o que Bly chama de "forma pessoal que deseja adquirir" o poeta.

Lucio de Campos nos mostra em Abraçar ordenhar aleitar uma confluência admirável que lhe define a poética. De exceção? Sim. A ruptura com um clima harmônico de dizer está presente, mas sem deixar de atentar para a elegância do discurso. Acentuar a condição de exceção, no caso brasileiro, exige uma leitura outra, já de muito necessária, de compreensão daquelas zonas de tensão apontadas por Bly. O presente livro de Lucio de Campos situa o desdobramento e a confirmação de uma poética. Não se priva a um diálogo com o mundo, antes o afirma à maneira da própria vertigem, longe da impessoalidade, mergulhado na matéria ressonante da existência humana. [Floriano Martins]

Luis Caballero

Três poemas

 

__ 1 A casa em Bellevue

a Paul Cézanne

Uma vez
mais aragem

e ferramenta
se espalham

ao longe
de tudo

querendo
apenas se

mostrar
no que

passa e
não se

pinta –
no que

se vê e
não se

capta –
como se

em mim
(e só

em mim)
houvesse

um fluxo –
penosa

traição das
coisas

[de Lição de Alvura]

 

__ 2 Retrato de Dora Maar

a Pablo Picasso

Nunca pensei em ti mais do que permite
um abraço triste em fond rouge
        que o vento rasga quando passa

indefinível por horas embora se o receba
e com seus textos de ar e ambivalência se
        vá rumo ao que não creio que sequer

exista um pouco quando espelho não decifra
muito aquém do que, ao contrário, claro
        e denso, te aprisiona em mim.

 

[de Ausência de Lis]

 

__ 3 Como água em água

a Jorge Luis Borges

A madrugada em Dynnik costumava ser impiedosa. Pelo que dizem, nela tudo congela: até os humores mais íntimos, mesmo os mucos e as lágrimas... O que significa dizer que chorar para os nórdicos daquele lugar é uma ação inútil, um verdadeiro desperdício se o fato que o motive for noturno.

Quando fomos para a cama, já havíamos feito amor seguidas vezes no jardim-de-inverno, na sala de estar, na cozinha... Após tomarmos alguns goles de genebra e conversarmos alguns minutos sobre a vida, notamos que anoitecia e nus, como estávamos, percebemos o quanto isso era uma ameaça.

Pus sobre nossos ombros uma grossa pele de arminho que eu comprara na quermesse de Kragerö. Deitamo-nos de lado de modo a podermos vislumbrar, pela janela, o monte Yunni que, naquela época, costumava estar mais branco que nunca, verberando no painel da noite. Comecei a beijar, suavemente, sua nuca e costas e, a certa altura, virando-a toda para mim, contemplei seu belo olhar eslavo, assustadoramente azul.

E foi assim que adormecemos acompanhando o movimento pendular da lua. Era possível sentir que ela descia, devagar mas decididamente, sobre o vilarejo como uma grande esponja a sorver todo o branco possível de existir: o de nossos dentes, nossas unhas, o do próprio tapete de neve que se estendia, indefinidamente, ao inesperado das montanhas.

Só na manhã seguinte é que nossos corpos, enrijecidos e quebradiços, foram descobertos. Estavam tão firmemente encaixados um no outro que não foi possível separá-los numa primeira ou segunda tentativas. A exemplo de nossos olhos – que ainda se fitavam – os corações também batiam, quiçá tentando dizer algo sobre aquela noite inesquecível. Palavras doces, mas silentes: impossível saber quais eram...

[de Abraçar Ordenhar Aleitar]

Jorge Lucio de Campos (Rio de Janeiro, 1958). Poeta e ensaísta. Autor de Belveder (1994), A dor da linguagem (1997 e À maneira negra (1997). Contato: jorgeluciocampos@bol.com.br. Claudio Daniel (São Paulo, 1962). Poeta e tradutor. Autor de Sutra (1992) A Sombra do Leopardo (2001) e Estação da Fábula (2002), com traduções de Eduardo Milán. Claudio Willer (São Paulo, 1940) e Floriano Martins (Fortaleza, 1957) são editores da Agulha. Página ilustrada com obras do artista Luis Caballero (Colômbia).

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