Agulha - Revista de Cultura

revista de cultura # 21/22 - fortaleza, são paulo - fevereiro/março de 2002

Agulha - Revista de Cultura






 

Montaigne: o teatro do mundo

Rodrigo Petrônio

MontaigneMontaigne é um dos autores mais cativantes de toda a literatura. E é preciso nunca tê-lo lido ou agir de má fé para atribuir inconsistência teórica a essa frase ou dizer que ela é impressionista. Porque os Ensaios foram escritos, como o próprio autor nos diz no prólogo, tão-só para registrar aspectos de sua personalidade, e conservá-los para a posteridade e para a memória dos próprios amigos e familiares. Se é um caso de modéstia afetada ou de uma espécie curiosa de captatio benevolentia, onde o autor, escondendo a pretensão de seus fins, oferece um espelho falso ao leitor, dada a riqueza de seus temas, assuntos e o trabalho retórico apuradíssimo, isso não cabe averiguar. O fato é que essa aparente simplicidade de proposta pode ter sido também uma estratégia que visa, não só criar um novo gênero literário, onde a consciência mesma do escritor seja a um só tempo o palco e a protagonista de todos os assuntos que ele venha a abordar, e seu intuito seja sempre o de fixar estados de pensamento como quem apreende retratos da paisagem e livra-os da sua fugacidade intrínseca, mas também personalizar a escrita de uma tal forma que muitas vezes nos sentimos entretidos numa longa conversa com um amigo, alguém muito próximo com quem travássemos um diálogo. Isso torna difícil julgar a obra de Montaigne: ela nos desarma do rigor crítico, pois nos elege como os sujeitos de seu universo verbal. É como se o autor nos dissesse: essa encenação dos meus pensamentos, cabe a vocês incorporá-la e vivê-la. Ao descrever o movimento de minha consciência, escrevo para que todos os homens o identifiquem nas suas. E esse aspecto literário acaba fisgando o leitor, menos pelo seu caráter lingüístico que pelo páthos, pela empatia que ela consegue mobilizar em nós. Montaigne não é mais o nobre dono de um castelo homônimo, cuja biblioteca gozava de inscrições de versos gregos e latinos no seu teto, que esteve à frente do poder militar do Estado francês, aprendera o latim como língua materna e dominava o francês com elegância e rigor. É simplesmente Michel, sofrendo com suas dores de gota, preocupado com a velhice, surpreso diante de crenças como a de Platão, que propunham que o líqüido seminal viria da coluna vertebral, e meditando, por intermédio dos antigos, sobre a morte, grande tema que perpassa seus textos.

Poucos escritores no decorrer do tempo conseguiram nos sugerir estados de espírito tão sutis, e uma tal proximidade e conivência com os leitores. Depois dele, só conheço Proust. Organizados de forma fragmentária, única capaz de dar conta do material farto e diverso de que trata, os Ensaios são uma espécie de repositório oblíquo onde a memória (que Montaigne dizia ser uma de suas faculdades mais defeituosas) encena suas peças. Ao fundo, o mote caro à época, e que se intensificaria nos séculos subsequentes, da realidade como ilusão, do mundo como um grande palco onde se dá esse estranho espetáculo a que chamamos vida, e as relações sociais todas reduzidas à simulação e às máscaras, fato que o desgostava profundamente, e o levou a colocar a dissimulação e o artifício entre os piores, os mais ignóbeis vícios conhecidos. Se fôssemos rastrear o motivo que levou-o a essa visão, poderíamos encontrá-lo no imenso artificialismo em que submergiam as coortes francesas, e as lutas por poder engendradas no interior da ordem aristocrática, da qual Montaigne fazia parte. Mas isso não nos interessa; é algo que deve interessar só a ele, como os indivíduos se preocupam e participam do seu momento histórico. Mas a partir dessa constatação, alguns críticos quiseram vê-lo como o criador do conceito moderno de torre de marfim, glosado à exaustão pelos poetas do fim do século XIX. Esse atributo não é nada justo. Pois a ataraxia, o ponto de neutralidade e distanciamento que Montaigne buscou em sua obra, não é uma recusa da realidade em prol da adoção de uma outra, formada a partir de um mergulho radical num repertório de mitos subjetivos e na elaboração perfectiva de uma Idéia, espécie de substituta de Deus num mundo carente de transcendência e de totalidade. É antes tomada aos filósofos estóicos, de Cícero e Sêneca a Marco Aurélio e Crisipo, e ao epicurismo de Lucrécio, numa curiosa síntese de correntes de pensamento opostas em sua origem. Não há negação da realidade, mas apenas uma distância crítica onde essa mesma realidade é incorporada e plasmada pela consciência em movimento.

É realmente difícil dar um curso a esse mar de fatos e idéias dos Ensaios. Tendo em vista o aspecto qualitativo da consciência, todos os seus momentos são igualmente significativos, e é pouco provável que consigamos dizer o que venha a ser a filosofia de Montaigne. Pois, como em Platão, ela tem um caráter eminentemente dramático, e ele articula inúmeras citações, quase todas de poetas e pensadores da Antigüidade, lendo-as no novo contexto do espírito quinhentista, e se apropriando delas para, de maneira ilustrativa e exemplar, corroborar suas indagações pessoais, sejam políticas, metafísicas ou de circunstância. Assim, do alto de sua biblioteca, ele forja e recicla uma série de lugares-comuns da literatura, como no belo ensaio sobre a tese de que filosofar é aprender a morrer, cuja tópica foi extraída de Cícero, e onde o autor nos diz, à maneira de um Camus no nosso tempo, que o único problema filosófico efetivamente sério é a morte, dada a inutilidade que a sabedoria demonstraria se ela não fosse um longo e duradouro aprendizado para esse momento único, resultado último para o qual toda a nossa existência converge. Alheio a conceitos como os de originalidade ou de plágio, Montaigne encena o drama de seu pensamento sempre ancorado na autoridade das citações; e isso não diminui em nada a sua arte. Se elas já existem, e compõem esse grande repertório de que dispomos, a leitura que o autor faz delas é rigorosamente nova, e toda a tradição revive em suas linhas sob uma nova perspectiva. Há também, é claro, o seu lado anedótico: como nos diz em Dos Livros, as citações vem sem fontes para tapear os críticos que queiram julgá-las conforme o apreço que tenham ou não pelo autor citado. No mais, tentar classificá-lo com nossos tristes conceitos de conservador e inovador, por estar fortemente arraigado ao peso ético da tradição e dos costumes, não passa de ociosidade intelectual.

Rudy EspinozaUma das idéias que atravessa quase todos os ensaios é a de que não é dada ao homem a revelação do divino no mundo - fato que Voltaire revirá sob a acidez de sua ironia -, e nada lhe parece mais estranho que a participação dos escolásticos, como Starobinski observou em seu belo estudo. Aliás, Montaigne não só uma vez se refere ao pensamento escolástico como um palavrório inútil, uma espécie de gaiola de conceitos que tenta resumir o mundo em si. Para ele, o divino só pode falar do divino e o humano, do humano: qualquer tentativa de permutação dessas realidades é uma falácia lógica, como o atesta na longa Apologia de Raymond Sebond, ensaio sobre as idéias do filósofo naturalista seu contemporâneo, autor da Teologia Natural ou Livro das Criaturas, e o deixa expresso na peroração, Da Experiência. O mundo criado se encontra numa espécie de redoma, e a divindade não nos é acessível sob nenhuma hipótese. Afinal, se Deus se manifestasse nas coisas, estaria contrariando sua condição de inteligência perfeita, e cedendo às substâncias que formam o universo, todas elas, na sua grandeza ou pequenez, falíveis e imperfeitas. No entanto, está muito longe de um ateísmo, que critica, e crê numa Providência que rege o curso da história e dos seres sem se imiscuir neles, como um grande artífice que se mantivesse exterior à sua obra, e na qual não pudéssemos distinguir nenhum vestígio seu.

Outra tônica dos Ensaios é a percepção. Montaigne é um entusiasta da relatividade de todas nossas idéias, e de que a verdade estará tão mais distante dos homens quanto maior for o seu desejo de conhecê-la. Isso colabora para dar certa obscuridade a alguns trechos da obra, e uma pletora de contradições aparentes, a ponto de ele conseguir negar algo que havia afirmado parágrafos antes. Já que todo o conhecimento está submetido à inconstância e fragilidade dos sentidos - expostas com a pungência que o tema exige nos belíssimos parágrafos finais da Apologia -, único meio de acesso de que dispomos para obter a realidade, ao defender um argumento Montaigne se preocupa mais com o estilo e a nobreza do desenvolvimento do que com a sua capacidade de persuasão. Se sua premissa é a de um mundo avesso à permanência, onde tudo é fugaz, móvel e passível de sofrer intervenções do acaso, querer encontrar um terminos ad quo para a reflexão é tão dispendioso quanto inútil.

Essa relatividade, extrapolando seu conteúdo ontológico e indo desaguar num questionamento etnográfico, gerou uma das linhas mais interessantes que já se escreveu sobre a diversidade cultural e biológica do planeta, contida de maneira dispersa nos Ensaios. Há momentos memoráveis onde Montaigne demonstra como os povos então classificados como bárbaros são, em muitos aspectos, superiores aos europeus e civilizados de modo geral. Seja no clássico ensaio dedicado aos canibais onde, baseado em relatos do viajante Jean de Léry, fala dos índios brasileiros, no dedicado às mudanças das leis ou no que trata de um costume observado na ilha de Ceos, o que transparece ao leitor é o raciocínio fino e heterodoxo de quem enxergava com clareza o que era obscuro e até absurdo para seus pares. Narrando mitos e fatos de culturas remotas, como Plínio o fez em sua História Natural, Montaigne tenta sempre evidenciar até que ponto nossas certezas morais são fruto de convenções e normas, e que essas variam de acordo com o tempo e as regiões onde vigem. E não pára aí: acaba questionando a própria supremacia do homem em relação aos animais, lembrando-nos que no reino animal há probidade e ética, e cada ação, mesmo as mais cruéis, tem sempre uma justificativa natural, o que não ocorre nas relações humanas. É certo que tal interpretação não é desinteressada, e nada tem de altruísta, benigna ou ingênua, como querem apropriações de cunho romântico, pois, em última instância, Montaigne as usa para um fim, que é político: questionar os princípios da teologia tomista, sobre a qual se fundamenta o catolicismo, com o intuito de alargá-los. A mesma estratégia retórica que Vieira usará para a defesa dos índios e negros do Brasil. Isso, no entanto, não invalida suas iniciativas, apenas frustra os caçadores de boas almas.

O nosso autor tem, entre as suas frases retumbantes, e não são poucas, uma que diz ser triste o resultado de todas aqueles que procuraram se inteirar da verdade. Paradoxal e, por isso mesmo, verdadeira: se por um lado vem de alguém que esteve perscrutando os meandros mais obscuros do pensamento, querendo entender seus mecanismos, e que tomou a filosofia como uma questão vital e alheia a compromissos públicos ou a prestação de serviços burocráticos, também veio da mesma pena que nos deu páginas das mais belas a respeito do funcionamento da nossa percepção, dos afetos e das armadilhas que o sensível prepara ao intelecto. Não sei se é exagerado dizer que Montaigne aponta para idéias que reaparecerão de forma sistemática no Tratado das Sensações de Condillac e serão caras à fenomenologia de Bergson e Husserl somente quatro séculos mais tarde. Já que uma das tolices modernas é valorizar autores pelo pioneiro de suas concepções, como se estivéssemos numa eterna corrida rumo a, quem pode saber?, uma sabedoria final ou a um paraíso terrestre, e o pensamento, em uma época tão pobre em metafísica e tão abundante em certezas materiais, seguisse a mesma lógica das descobertas científicas, sua importância não está em antecipá-las, mas na acuidade com que as trata. Mas percebo que me torno prolixo, e como os Ensaios começo a digredir sem querer atingir um objetivo. Voltemos à percepção.

O que Montaigne pretendia ao escrevê-los era tecer um amplo painel, um grande mosaico de costumes, valores e fatos, tendo como pano de fundo a sua consciência, e as oscilações do pensamento apreendido em movimento. Ora, fica claro então que se trata de uma técnica híbrida, misto de mosaico e auto-retrato, este ainda incipiente na arte do cinquecento, mas que mais tarde chegaria ao máximo de sua expressão nas mãos de Rembrandt e Velázquez. Partindo do princípio de que os homens são um amontoado de peças desengonçadas, e nos confidenciando que enquanto, em geral, se voltam para fora, ele se volta para dentro de si mesmo, inquire e se compraz na investigação do eu, Montaigne se elege como um palco onde os eventos, quer históricos ou casuais, se dão. É desse lugar privilegiado que ele nos fala, tendo sua percepção como o campo onde os significados se formam e transformam. Ao fazer isso, está submetendo a filosofia, que desde Aristóteles se pretende uma organização de conceitos com o intuito de se chegar a um senso comum impessoal chamado verdade, à doxa, à opinião e aos matizes de visão fornecidos por ele mesmo. Falando em opinião, vai lembrar o estóico Epicteto, considerado um dos homens mais sábios dentre os gregos, e dizer que, além dela, nada mais nos pertence e nosso único patrimônio é o vento. Mas, enquanto o caráter opinativo de Epicteto se apóia na complacência dos deuses, em Montaigne ele promove a fragmentação da própria realidade, e faz ela se subordinar a seu campo de atuação. E eis que introduz na filosofia um conceito novo: a perspectiva. Como Brunelleschi, Piero della Francesca e Pisanelo deram-na à pintura, Montaigne - ele mesmo - se torna o ponto de fuga para onde os enunciados de toda a tradição filosófica convergem. Troca o consenso, resultado último da maiêutica de Sócrates, pelo bom-senso, um dos seus temas prediletos.

Isso não o livra da necessidade de justificar eticamente cada uma de suas idéias. Mas sua premissa será sempre teológica por princípio, e pessoal por opção. Esse dado praticamente nos impede de olhar para sua obra querendo encontrar tópicas discursivas, ou tropos de linguagem da época, indiferentes às marcas individuais, coisa que talvez possamos fazer com autores como Rabelais, Tasso, Ariosto, Camões e Folengo. Porque quando ele coloca a beleza artificial no primeiro plano da feiúra, sabemos que está adaptando às suas palavras o famoso verso de Propércio, reciclagem de textos que a história das letras confirma. Mas o fato é que, inseridas no conjunto da obra, essas apropriações acabam cedendo à força catalisadora de uma única pessoa que emerge da escrita. A retórica mostra seus limites, e a persona é vencida pela personalidade.

Rudy EspinozaNesse sentido, uma coisa curiosa em Montaigne é que ele lê os clássicos adaptando-os livremente à sua maneira. Mais: chega a distorcê-los em suas preceptivas. Ao falar da estrutura geral dos Ensaios, diz-nos que são um rebotalho sem pé nem cabeça, onde a matéria não se conforma à técnica, nem o assunto ao andamento do raciocínio, ficando à sua conveniência falar disso ou daquilo e inserir um tema no meio de uma narrativa de teor que lhe seja estranho. O livro seria, em suma, um belo corpo de mulher com uma cabeça de leão e uma cauda de peixe. É exatamente essa a definição que Horácio, na Epistola ad Pisones, dá às obras mal feitas, aberrações poéticas que devem ser evitadas. E nisso Montaigne difere basicamente dos prosadores antigos, como Cícero, que, amparado no rigor da composição e no arsenal de leis fornecido por Aristóteles, via suas obras como testemunhos de seu caráter, no sentido retórico do termo. Devido ao fato de glosar ad infinitum gregos e latinos - são praticamente os únicos escritores que cita, afora La Boétie e um ou outro trecho da Vulgata e da patrística -, poderíamos, num primeiro momento, pensar que ele incorpora os seus valores, e propõe uma espécie de recuperação da Antigüidade, como é usual crer no que se refere à arte do século XVI. Não creio nisso. Parece-me que, como as alegorias, os tratados de iconologia e de emblemática, muito em moda então, e cujos mestres são Cesare Ripa e Andrea Alciato, onde um símbolo visual é acompanhado de versos e sucedido por um comentário moralizante, ou seja, o corpo e a alma do emblema, Montaigne extrai dos antigos simplesmente o valor ilustrativo e exemplar das frases para defender sua matéria, esta sim ponto central de sua obra.

Se fala do amor, do sexo, da traição, da morte, da presunção, do prazer, do casamento, das mulheres, e chega até a considerar e submeter à reflexão assuntos dos mais simples, como a troca de cartas, aos mais esdrúxulos, como a função dos dedos polegares e - pasme o leitor - as causas fisiológicas do peido, é para demonstrar as oscilações da vida do espírito quando entregue aos devaneios do corpo, à sua intermitência, onde todos os níveis e manifestações biológicas são igualmente importantes. Não há nada mais estranho à sua filosofia que a metempsicose de Pitágoras, doutrina segundo a qual as almas migram do Hades para a superfície da vida, e retornam a ela sob nova forma. Com os epicuristas, Montaigne cria que a forma de nossa existência condiciona a substância mesma de que somos feitos. O que morre não é mais o que era antes - diria Lucrécio -, não é possível dissociar corpo e alma, matéria e espírito. Temos tantas almas quanto as transformações por que passamos: não há uma unidade transcendente dos seres, há somente uma unidade onde o Ser se mantém íntegros a cada mudança. Assim, o acaso é negado, pois, se existisse, a multiplicidade dos seres se confundiria em uma multiplicidade de fenômenos, tese que a observação torna indefensável. Por exemplo: Lucrécio nos diz, com sua acidez particular, que se houvesse acaso a natureza estaria desprovida de qualquer seletividade, e todas as coisas poderiam se permutar entre si. E ironiza, perguntando-nos se acaso já vimos coelhos nascendo de árvores. Argumentação, se não de todo convincente, pelo menos plausível. Montaigne seguirá esses passos, e verá no corpo um espaço privilegiado para a apreensão da realidade, que dá uma eterna mobilidade ao pensamento, proporcional à gama de afetos que possamos produzir a partir de cada experiência particular. Isso o fará dizer que a natureza não unifica na mesma proporção com que a dessemelhança diversifica, e que o seu único intuito é evitar a produção de coisas idênticas, frase que lembra um pouco, com a licença do anacronismo, a poética de Alberto Caeiro.

Que sei eu? Esta é a divisa do nosso autor, visivelmente inspirada na técnica de Sócrates que, ao partir da ignorância absoluta, induz seu interlocutor, por meio de perguntas, a fazer emergir a verdade que está nele mesmo, e em todos nós, virtualmente. Esse vazio inicial produz uma grande abertura de raciocínio, pois parte do pressuposto de que todos os enunciados da realidade podem ser verdadeiros. Se não nos guiamos por esse critério, é bem provável (sugere Montaigne) que não estejamos lidando com conceitos, mas com preconceitos. Desmascaramento da filosofia semelhante ao que Nietzsche propôs em sua obra, sugerindo sentidos ocultos em palavras correntes e assim guinando o pensamento a fronteiras desconhecidas, de modo a minar suas próprias bases conceituais, o que só poderia ser feito por ele, um pensador que fosse também filólogo. Montaigne disse que a variação de nossos estados de espírito é tanta que torna impossível sabermos o que é a normalidade. Nessa frase singela, digna do nosso Machado, ele sugere boa parte da filosofia de Nietzsche e transforma a sua falação em torno do anticristo, da modernidade e de Dionísio em um desfile de redundâncias, além de pôr em evidência as suas limitações, que parecem ter sido a tônica sobre a qual o século XX legitimou o que há de mais fraco em sua filosofia querendo com isso embasar todo tipo de impertinência na autoridade das citações. Afinal, como explicar de outra forma o culto e a interpretação rasteira que este século lhe promoveu, geralmente inspirados em uma inversão de valores que é o oposto simétrico de tudo o que ele disse sobre o assunto?

Rudy EspinozaSegundo Sêneca, uma das condições indispensáveis para a boa conduta social e a conseqüente tranqüilidade da alma é a alternância de momentos de solidão aos de convívio, de onde nós descobrimos um princípio caro aos estóicos: a moderação. Montaigne glosa-o com insistência, e às vezes de forma contraditória, pois ao mesmo tempo em que fá-la uma das maiores virtudes, também elogia, contra a covardia, a coragem e o ímpeto de decisão, fundamentais para um estrategista militar. Essas contradições são normais em sua obra. O que podemos perceber, no entanto, é que ele adapta à sua obra a idéia de que, na multidão, perdemo-nos a nós mesmos, e esse é um dos piores males para a consciência, alijada da possibilidade de se concentrar em si, e a radicaliza, de tal modo que acaba negando os valores mundanos e corteses como frutos da falsidade, do erro e do desengano, como diz Galcilaso de la Vega e dirão poetas posteriores como Sor Juana, Gregório de Matos e principalmente o Gôngora das Soledades. No capítulo dedicado à solidão, Montaigne nos fala que o domínio de si é muitas vezes trocado pela glória ou pelo prestígio social, e declara seu desprezo àqueles que se guiam por eles, bem como ao público que promove essa encenação, e assim dá mostras da intensa dissimulação e falsidade das coortes. Em outra ocasião chegou a dizer que para uma relação salutar com os príncipes, a discrição não basta: é preciso mentir. No magnífico ensaio sobre a presunção, nos fala das máscaras sociais e das simulações. Mais uma vez estamos presos à sua falsa ambigüidade: se se trata de prescrição de gênero ou de um atestado de seu caráter no sentido positivo do termo é uma questão que só interessa àqueles que acreditam na existência de fatos. Quanto a mim, sempre vi a realidade como a invenção mais maravilhosa e inverossímil a que a imaginação humana já se propôs. Mas o que enfim percebemos é que ele inverte a moderação estóica, e propõe uma ruptura abrupta com a ética das relações sociais correntes, em troca de uma liberdade de atos e pensamentos só encontrável na vida reclusa. Ao flagrar esse mecanismo da sociedade, ele se neutraliza, e a partir do seu distanciamento pode manejar as máscaras, e recriar em sua escrita o grande teatro do mundo, sem se confundir com ele. A ataraxia dos estóicos serve de estratégia, mas não constitui o elemento fundamental de seu pensamento. E mais uma vez ele cita os antigos, mas nos despista com a citação, pois a substância que descreve não está neles, mas nas representações circundantes e naquilo que elide. Isso põe a baixo a crença de que Montaigne seria um mero comentador dos clássicos, crença que os letrados franceses nutriram até meados do século XIX, mesmo já tendo sido duramente criticada por Voltaire nas cartas endereçadas a membros da Academia.

São muitos os fatos dos Ensaios, um verdadeiro manancial de personagens históricos, idéias e situações cotidianas. Um deles pode-se considerar exemplar. No capítulo XXXVI do Livro I, Montaigne analisa as implicações morais e filosóficas do uso de roupas. Se partirmos da idéia de que as razões últimas para se julgar um ato ou costume são de ordem metafísica, e para estabelecermos uma regra, uma norma válida em toda parte e para todos os povos seria preciso saber as leis mesmas da natureza, inacessíveis porque fornecidas pela sua causa transcendente que é Deus, o que fazer? Negar-se a procurá-la. E ele se contenta em elencar inúmeros hábitos, desde os casos populares contados de boca a boca até aqueles narrados por Heródoto, Josefo e outros historiadores. Já que a causa primeira não é cognoscível e uma mesma finalidade pode ser atingida por caminhos diversos, subjaz ao conhecimento a inutilidade de procurá-los. Não se trata de negar a Providência, nem de afirmar a relatividade por ela mesma. Mas simplesmente se esquivar desse trabalho de Sísifo de rastrear origens e eleger fins. Ao invés do por quê?, origem de toda a reflexão metafísica, Montaigne propõe com sutileza outra interrogação que a invalida - o para quê? Concepção muito cara a Voltaire, cujo espírito pragmático e moderno, quando indagado sobre Deus ou sobre uma questão metafísica qualquer, se resignava a refutá-las assim: que elucidação uma tal pergunta pode trazer à estupefação humana diante do infinito, do absoluto e do milagre da vida? Esse tipo de espírito cético, então nascente, desviou os olhares da razão das coisas para a sua função, e teve desdobramentos que vão em duas direções contrárias: deu uma liberdade até então desconhecida à arte, possibilitando a Fernand Léger declarar que o criador da máquina a vapor era mais digno de admiração que o inventor dos aparelhos de perspectiva e de reprodução da natureza, mas também gerou uma peste que nos assola até os dias de hoje - uma concepção de pensamento instrumental. E ainda de ensejo a um equívoco grosseiro: a atribuição de ateísmo a Voltaire e seus pares, quando eles se mostram simplesmente anticlericais e contrários à ontologia cristã. Voltaire é o Mozart das letras. Chamá-lo de precursor do ateísmo moderno me faz rir, e me parece uma falácia e um engodo. Como comparar alguém que pôs leveza de pássaro, sagacidade, malícia, erudição e humor em cada uma de suas linhas com esses filósofos tristes do século XX, todos com tendências suicidas e dispostos a passar uma vida inteira ruminando lixo psíquico proveniente da indústria cultural? Sombras e neblinas.

Um dos aspectos da obra de Montaigne a ser analisado é a amizade fraterna que ele dedicou a La Boétie, fazendo incluir vinte e nove sonetos seus no capítulo XXIX do Livro I. As afinidades entre ambos transcendiam o caráter intelectual, como as que aproximaram Baudelaire da figura de Poe e Valéry de Mallarmé, convergindo para uma cumplicidade de irmãos, da qual ele nos dá mostras na extrema reverência manifestada pelo amigo em algumas páginas dos Ensaios. Montaigne falou da glória, do sexo, da visão, da audição, da virtude, dos coxos, dos odores, da linguagem, da vaidade, da covardia, e nos deu um painel dos mais vastos e complexos sobre os costumes dos antigos, sejam comuns ou ilustres, dos quais foi um defensor irrestrito. Falou dos povos do Sudeste Asiático e dos índios brasileiros, cujos hábitos considerava dignos da admiração de sábios como Licurgo e Platão. Meditou demoradamente sobre as funções biológicas, a morte, o prazer, a dor, a crueldade, sempre tentando fazer desses assuntos instrumentos para a liberdade da consciência. Professou seu amor às letras e o seu desprezo aos literatos, e nos legou até uma reflexão sobre a importância dos correios. Munido de força retórica e uma inteligência atípica, Montaigne é com certeza um dos espíritos mais joviais e singulares que a humanidade já produziu. Detratou os aduladores, a falsidade, o artificialismo, e questionou o papel das convenções, mesmo sendo um adepto fervoroso da sua manutenção e avesso a mudanças políticas e morais de toda sorte. Como conseqüência disso tudo, foi também filósofo. Mas um filósofo que tinha no sono uma de suas atividades preferidas, e que nos confessou gastar a maior parte do seu tempo dormindo.

Rodrigo Petrônio (São Paulo, 1975). Estudioso da obra de Luís de Góngora. Trabalha como assistente editorial e escreveu textos críticos para a revista Bravo! Publicou História Natural, poemas. Contato: pseudopetronio@hotmail.com. Página ilustrada com obras do artista Rudy Espinoza (Costa Rica).

retorno à capa desta edição

Edições Resto do Mundo

Clique aqui para conhecer o maior sítio de poesia da WWW! Quase 3000 poetas!

Collage, Floriano Martins

visite também a banda hispânica (jornal de poesia)