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revista de cultura # 21/22 - fortaleza, são paulo - fevereiro/março de 2002 |
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Somerset Maugham: no fio da navalha Vicente Franz Cecim Somerset
Maugham: Dizem que o velho William Somerset Maugham, inglês de literatura mas nascido em
Paris em 1874 e órfão aos 10 anos, ao morrer em Saint-Jean-Cap-Ferrat em 1965, aos 91
anos: logo, tendo sido Pai & Mãe de si-mesmo durante longos 81 anos, estava bastante
chateado com os críticos que o consideravam apenas um contador de histórias. Em
tempos de Joyce & invenções de linguagens, ávidas tentativas de criar novas vias
para viagens através do Enigma, a Vida, faz sentido. Maugham não era um inventor de
linguagens. Mas, sendo essa uma exigência profunda, também é superficial. O que é a
Literatura senão a Grande Mãe Contadora de Histórias, mesmo que hoje já quase sem
histórias com começo-meio-e-fim para contar, sem um fio-de-meada, como se dizia
antigamente quando novelas que eram Novelos de Lãs de histórias imensas lentamente
publicadas em folhetins nos jornais, que, diz-se, as famílias liam aquecidas pelo fogo
das lareiras vitorianas, como o Dickens pré-kafkiano da obra prima A casa soturna
ou do também alegórico e belo As grandes esperanças? Tempo balbuciante, este
nosso, narrando fragmentariamente um Universo: o Mental humano, que se despedaça e vira
Galáxia de ecos & rumores & espreitas & murmúrios interiores &
exteriores: como em Beckett, Kafka, Proust, Rulfo. Incoerentemente, pois, neste
estilhaçado Labirinto que habitamos atualmente, e como um sonâmbulo nostálgico de uma
Unidade perdida, lanço este texto para Maugham, como uma homenagem ainda que tardia ao
velho contador de histórias. Ele até evoca o título em português de um dos seus
livros mais famosos: O fio da navalha, na verdade The razors edge no
original. Mas, mais do que a Maugham, eu gostaria mesmo era de dedicar este texto ao seu
personagem Larry Darnell, aquele que preferia não-viver a vida por fora, que
estava indisponível para as seduções & armadilhas externas, pois preferia
viver a vida vivendo-se: isto é, por dentro. O que é uma arte muito sutil.
O FIO DA NAVALHA:
Sobre isso de navalhas há um provérbio hassídico que diz: A vida é um fio de
navalha. De um lado, o Inferno. Do outro, o Inferno. Então é esse o equilíbrio que
Ela, a vida, a sonhada, a vôo sem asas, a agoniada transparente, a semilouca dos véus
nos recobrindo, nomes por que foi chamada em Terra da sombra e do não, o
terceiro livro de Andara, exige de nós? E o único Paraíso que temos ao nosso alcance
consiste em nos mantermos delicadamente sobre o fio de uma lâmina: ou, como também se
diz: por um fio? Como Advertência para depurarmos nossos tumultos humanos,
aceitemos. Mas olhem, é preciso sempre suspeitar, para além das sabedorias da Cabala, do
rancor que impregna a mística hebraica. Herança de que se fez herdeiro o misticismo
católico, aquele que, contra a mansa vontade da vítima, que preferia oferecer a Outra
Face, nos ofende com o peito aberto e o sangrento coração de Cristo pregado
numa Cruz: segundo Suzuki, o sábio zen, imagem assustadora & insuportável para um
oriental a quem, ao contrário, é oferecida à contemplação a imagem de um Buda
sereno, os olhos fechados, placidamente em repouso sob uma árvore que os homens não
abatem & talham & transformam em objeto de tortura em forma de cruz. Mas sigamos,
sobre a lâmina sinuosa deste texto. Nietzsche, em Assim falava Zaratustra,
transmuda o fio da navalha em corda. E diz: O homem é corda estendida entre o animal e
o Para-além-do-homem: uma corda sobre um abismo. Perigosa travessia, perigoso caminhar,
perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. Antes de prosseguir, deixem-me
insistir em que Nietzsche nada tem a ver com o açougueiro Hitler, que, como os maus
tradutores da obra do filósofo, induziu à expressão Super-Homem para simular o
falso mito ariano da superioridade racial alemã. Nietzsche escreveu Ubermensch,
que uma leitura não-manipulada entenderia, literalmente, como Para além/Uber do
homem/Mensch. Só a má-fé pode explicar a má interpretação do sentido de um texto
que duas páginas antes, claramente, diz: O homem é superável. O que fizestes para o
superar? Mas não era exatamente disso que eu queria falar.
Aliás, eu não queria falar de nada: estou só falando. SILAS & O INFINITO: Bem, talvez seja mais
simples do que parece fazer a travessia sobre o fio da navalha hassídica ou a corda de
Nietzsche. Talvez baste fazer isso cantando, como um Homo Ludens de Johan
Huizinga, superação do Homo faber & do Homo Sapiens, como o Ubermensch
de Nietzsche quer ser uma superação do homem como nós ainda o conhecemos. Tentemos. A
música. Ouçamos a música, então. Quem sabe aquela mesma música inaudível que
escutam os adultos de Brueghel quando, possuídos pela Alegria, se tornam outra vez
crianças? Por enquanto, só ouço Jorge Mautner, ouçam comigo: Andando e cantando/ no
fio da navalha/ eu sou um faquir/ eu sou um palhaço/ e um grande canalha. Mas talvez
vocês achem que isso é só música popular, sem valor como referência. Que tal então a
Poesia? Ei-la, Mário de Sá Carneiro, o amigo suicida de Pessoa: Eu não sou eu nem
sou o outro/ Sou qualquer coisa de intermédio/ Pilar na ponte do tédio/ Que vai de mim
para o Outro. Vejam: o fio da navalha que virou corda sobre o abismo agora acaba de
virar ponte do tédio. De metaformose em metamorfose, onde é que nós iremos parar? O
homem é travessia, dizia Guimarães Rosa. Que logo acrescentava: Viver é muito
perigoso. E Silas de Oliveira, o sábio do samba & mestre do jongo, anunciado lá
encima e até agora oculto? O que tem a ver com isso? Ó Ariadne, dá-me o também o teu
fio para que eu, como Teseu, possa sair deste labirinto de Minotauro onde estou cada vez
mais extraviado neste texto que vai indo ao sabor de si mesmo. Se meu apelo for atendido,
trarei mestre Silas pela mão. E com ele o Infinito. PASCAL
& O SAMBA: Agradeçamos a Ariadne, ou a Marcel
Proust, por eu ter conseguido emergir daquele Labirinto de Texto de Creta em que havia me
metido. Pois escrever também é andar sobre uma corda suspensa sobre um abismo, perigosa
travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar, como
dizia Nietzsche. Eis-me aqui, então. E como foi prometido, trazendo pela mão Silas de
Oliveira que vai nos dizer o que é o Infinito. Como, um simples sambista de morro?
Pois é, vejam vocês: exatamente como Somerset Maugham era um simples contador de
histórias. E já que voltamos às histórias que se contam, tantas histórias ainda
para contar, ah, deixem que eu conte mais essa para vocês. Um dia, Silas de Oliveira
amanhecia mais uma vez com o seu amigo inseparável Mirinho ao lado de uma também
inseparável garrafa de cachaça. Talvez permanecessem como aqueles homens de quem Max
Ernst disse que nunca saberão. Mas Silas perguntou: - Mirinho, você sabe o que
é o Infinito? Talvez nesse momento um outro bêbado fosse anonimamente subindo lá
adiante uma ladeira de favela, não precisamente indo para o céu, embora parecesse, na
luz irreal daquela manhã: irreal como são todas irreais as luzes das manhãs que nascem
para os olhos daqueles que atravessam insones noites ébrias.
O que é certo é que Silas disse: - Você vai andando por ali e o Infinito vai te
acompanhando. Mirinho comentou envaidecido: - Um poeta nos mínimos detalhes, o meu
amigo Silas de Oliveira. A manhã já podia nascer plenamente, radiosa. Por mim, não
conheço definição mais lúcida e translúcida de Infinito, isso que cada homem
traz dentro de si, seja como realidade, seja como desejo de que se realize. Pois
vocês podem até não acreditar, mas o Zen do Povo existe. Senão, como explicar
que a frase de Pascal, o místico cristão, um dos seres que foi mais íntimo da sensação
de infinito: Le coeur a des raisons que la raison ne connait, apareça
subitamente, saindo das páginas vertiginosas dos Pensamentos, na letra do samba
que diz: O coração tem razões que a própria razão desconhece. São indícios
de que existe uma sabedoria comum à condição humana, que não se aprende na escola. E
é menos absurdo aceitar essa versão generosa do que a hipótese de que o sambista
traduziu a frase do original francês, depois de ler os Pensées. Entre um gole de
cachaça & outro, certamente. O Zen do Povo realmente existe. Há muitos outros
indícios: por exemplo, quando alguém, mesmo pobre & faminto & esfarrapada
vítima social deste país de III Mundo diz, ao nosso lado: Vou me fingir de morto.
O que você acha que ele está dizendo? Do fundo da sua Ignorância Culta, entenda que ele
está citando a filosofia Zen que deu origem ao Judô. Embora não saiba necessariamente
disso. E eis mais uma história. Vamos sentar um pouco na beira da estrada do fio da
navalha e, enquanto descansamos desta obscura viagem, ouvi-la. AS ESTAÇÕES: Vindo o Inverno, um mestre Zen
viu que as árvores reagiam à neve de maneiras diferentes. Umas, resistiam, e sob o peso
da neve seus galhos acabavam se partindo. Outras, cediam ao peso da neve, e, flexíveis,
em vez de se partirem se curvavam até o chão. Quando o Inverno acabou: as que haviam
resistido estavam irremediavelmente mortas, as que haviam cedido, lentamente se distendiam
outra vez e voltavam a se erguer, ainda vivas. As segundas haviam se fingido de mortas
até o Inverno passar. Pois não é exatamente isso o que o Zen do Povo diz: Não
há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe? A Vida, como as Estações,
também tem seus Invernos & Primaveras & Verões & Outonos. Ou, como diz um
outro sábio popular, Paulinho da Viola: As coisas estão no
mundo, só o que é preciso é aprender. Aprenda a viver o Verão como Verão & o
Inverno como Inverno. Não é tão difícil assim, quando se trata das Estações
lineares. Quero ver é você aprender a viver as Estações e os Momentos mais sutis: a
Primavera como Primavera & o Outono como Outono. Isto é: as Ambigüidades.
Para isso, ajuda ler Kafka, Considerações sobre o pecado, a dor, a esperança e o
caminho verdadeiro, onde ele diz: Existem dois pecados capitais no homem, nos quais
se originam todos os demais: impaciência e indolência. A impaciência fez com que fosse
expulso do Paraíso, ao qual não retorna por causa da indolência. Mas talvez não existe
mais que um só pecado capital: a impaciência. Por causa da impaciência foi expulso, por
causa da impaciência não retorna. RAMANA: Caminhando sobre o fio da navalha, é sempre bom ir bem
acompanhado. Por exemplo, de Ramana Maharshi, de quem Jung disse que na Índia é
considerado o ponto mais imaculado na brancura dos céus. E que tinha um único
ensinamento a dar: a pergunta: Quem sou eu? Que ele recomendava que nos fizéssemos
permanentemente, para fazer aflorar, pela dissolução do tolo & arrogante Eu
Inferior, vulgarmente identificado como Ego, o luminoso Eu Superior, aquele que,
nunca-nascido, também nunca morre. E que, afinal, é a única realidade na irrealidade em
que somos. Já que somos feitos do mesmo estofo de que são feitos os sonhos, como
dizia Shakespeare. Em boas companhias, se aprende coisas. Como eu aprendi uma vez. Vivendo
uma situação brutal, tendo caído numa armadilha da vida, quanto mais tentava vir à
tona, mais me afundava. Então perguntei ao Velho Sábio, o I-Ching: - O que
devo fazer? - A montanha não se move, ele me respondeu. Parei de lutar, me fingi
de morto, e uma semana depois estava livre. Terá sido em companhias assim que andou
Larry Darnell, o personagem de Somerset Maugham a quem este texto inicialmente foi
dedicado? E com isso voltamos ao começo: o anel se fecha. Mas mesmo não sendo Larry
Darnell, ou Bartleby, o personagem mágico & imponderável de Hermann Melville que a
tudo que lhe propunham dizia: - Prefiro não fazê-lo, ou nem mesmo sendo alguém
que não é um personagem de romance mas um ser real, como o meu filho Arthur Cecim,
alguém que nunca lhe dirá Não nem nunca lhe dirá Sim, pois vive
aprendendo a ser só um habitante do Talvez das eternas disponibilidades efêmeras:
creia: A mente é tudo. Faz do Céu um Inferno e do Inferno um Céu. O que o Zen me
ensinou e eu ensinei ao Arthur e ele agora vai ensinando ao seu filho Arthur Franz Cecim.
Quem sabe assim, de gerações em gerações, mais leves de corpo & mais pesados de
espírito, conseguiremos, pacientemente, fazer a travessia sem já nos ferir tanto, e uns
aos outros, no fio da navalha? É possível. Se mais fino for o fio das ternuras. |
Vicente Franz Cecim (1946). Escritor e jornalista. Em 1988, recebeu o Grande Prêmio da Crítica, da Associação Paulista de Críticos de Arte, de São Paulo, por Viagem a Andara, o livro invisível, reunião dos primeiros sete livros visíveis de Andara, região imaginária em que transfigura a Amazônia onde nasceu. É autor ainda de Silencioso como o Paraíso (1995) e Ó Serdespanto (2001). Contato: andara@nautilus.com.br. Página ilustrada com obras do artista Rudy Espinoza (Costa Rica). |
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