Agulha - Revista de Cultura

revista de cultura # 21/22 - fortaleza, são paulo - fevereiro/março de 2002

Agulha - Revista de Cultura






 

Livro Primeiro: vitalidade da arte

Foed Castro Chamma

Foed Castro ChammaOs problemas sociais desde o último quartel do século XX submetem-se a fórmulas visando solucionar a crise de todas as épocas que afeta os jovens, sobretudo no período atual de transformação dos costumes e da sociedade. Tal enfoque, dramático, aprofunda uma relação de causa e efeito, servindo-se de significados voltados em parte para a questão edipiana, estudada por Freud como uma das causas do conflito. A face original do problema delineado no mito grego encerra um dado de poder que a psicanálise busca desvelar. Nos anos 70 uma radicalização sociológica concebida por Gilles Deleuze e Felix Guattari transferiu para o sistema Capitalista a crise, generalizando como causa dos desajustes sociais a máquina repressora do desejo, em contraposição às coordenadas míticas tradicionais. A concepção dos filósofos faz da máquina a substituta do Pai. As maquinas desejantes seriam sínteses da libido (Cf. O Anti-Édipo, Capitalismo e Esquizofrenia). O pressuposto de um anti-eu corresponde à dialética materialista. "Todo objeto supõe a continuidade de um fluxo, todo fluxo a fragmentação de um desejo", concluem Deleuze e Guattari. Para Lenz Buchner, citado no início da obra polêmica, "a distinção homem natureza desaparece no sentido de natureza para ressurgir como processo de produção."

O problema edipiano, visto desse ângulo, ultrapassa o simbolismo da tragédia ao questionar uma prática que esvazia a densidade mítica de defrontação arquetípica originária, que se manifesta nas figuras do sonho, para ser repensada no sistema de produção. A defrontação do feto no útero com o duplo torna-se desta maneira objeto de História, cedendo assim o mito a fatores tecnicistas causadores de desmandos que os cientistas sociais tentam detectar, afastando-se do fator psicológico propiciador de neurose e matriz, por outro lado, do espírito criador que produz com a obra de arte a prática do saber. Nesse mesmo núcleo embrionário situa-se a consciência a a abarcar o universo interno com o pensamento em sua viagem alegórica a tecer o cordão do tempo na memória ou Morada do Ser.

Se tal abrangência torna-se complexa ao abordar o duplo, antevisto por Parmênides, o conceito platônico do tempo circular, retomado por Freud, induz a uma reflexão sobre a elaboração da obra de arte como matematização do simbólico e síntese portanto do conflito da Semelhança no processo de afirmação individual.

Não é no sistema que se origina o conflito o qual decorre, segundo Kant, de pressupostos da Lei, que se identifica com um tronco comum, como se pode ler no volume nº 1 da Crítica da razão pura (p. 302, Ed. Flamarion, 1934). "Existe uma antiga promessa, afirma o filósofo, de se chegar algum dia à descoberta do princípio das leis, pois ali jaz o segredo da simplificação dos códigos."

Eminente psicólogo brasileiro desenvolveu estudo neste sentido, sustentando sua tese em mesa redonda na Universidade Católica do Rio de Janeiro, quando da visita de Michel Foucault ao Brasil, em 1974. O estudo interpretava o conto A metamorfose, de Kafka, ao analisar a transformação de Gregor Samsa em uma barata. A opressão paterna teria reduzido o jovem à condição de um inseto. A ficção serviu de pretexto para a denúncia de um dado de poder no qual a implicação neurótica, contundente, manifesta-se através de uma metáfora. O enfoque extrapola o campo ficcional, servindo para questionamento que revê normas de educação com séria repercussão no comportamento social do indivíduo. A questão é suficiente para demonstrar a necessidade de abordagem de temas tabus que bloqueiam o universo individual normalmente dividido com o espelhamento do Outro.

A intenção do escritor tcheco ao dramatizar a autoridade do Pai pode recuar ao estágio uterino onde o feto e sua defrontação com a Lei encontra eco no Sofista. O tema é enriquecido por Platão, que aprofunda a configuração especular projetando-a na imagem, na cópia e no simulacro, pois esses "gêneros" fazem parte do que Platão discorria como desdobramentos que confluem para o sujeito. A abordagem torna-se instigante ao analisar a figura do duplo. A retomada do tema por Deleuze e Guattari em relação ao sistema de produção sugere nova leitura do conflito da Semelhança, o qual, em princípio, predispõe à elaboração da obra de arte e corresponde à mathesis, aglutinadora do simbólico, de maneira a se observar o problema sob o ângulo da diferença. A análise atinge camadas mais profundas chegando ao embrião, onde tempo e espaço correspondem ao estágio inicial do conflito e a uma relação entre matéria e espírito como entrelaçamento do Ser e prenúncio da Ordem e da Lei configuradas no sistema político.

O conflito da Semelhança é referencial inclusive de manifestações coletivas. A rebeldia dos jovens (Geração Beatnik), o poder negro na América, o women libs em todo o mundo são atitudes de criaturas que buscam se afirmar através de impulsos liberadores das cargas opressores do poder dominante. Tais manifestações projetam como composição emblemática do conflito a imagem do Pai como arquétipo representado pela figura da autoridade.

A dialética encontra correspondência em discursos que se entrelaçam e manifestam-se sob várias formas, seja no campo da filosofia, da poesia ou da história.

Com a Revolução francesa, p. ex., surgiu na Alemanha movimento literária a dar ênfase ao antropocentrismo renascentista cuja fundamento era o indivíduo. O binômio Entusiasmo e Dor que caracteriza a poesia de Friedrich Hölderlin (1770-1843), contemporâneo de Hegel e Schelling, voltados ambos para a Natureza, tem como seguidores Goethe, Schiller, Heine, Herder. Hölderlin teve sua poesia dividida entre a sanidade e a loucura, afeiçoado ao paganismo primitivo e a uma nostalgia da Grécia. O enciclopedismo, objeto da Ilustração, o poeta rejeita, como se observa em carta escrita a Hegel em 26.01.1795 sobre o sistema filosófico de Fichte, "que fazia do Eu absoluto sair todo o mundo e que conduzia à aniquilação do eu individual." (Cf. Poemas, tradução de Paulo Quintela, Ed. Atlântica, Coimbra 1959.) O Eu subsiste para Hölderlin e produz o imaginário, o qual é projeção do Sentido, síntese do Eu absoluto. Com a razão desenvolve-se o imaginário, que se aproxima do real ao nível do simbólico e a linguagem poética recria. A razão e a imaginação mesclam-se pois numa interação criadora, desenvolvendo o núcleo da fecundidade cósmica individual. Note-se que a poesia de Hölderlin coincide com o rigor ático diante do real no convívio com os Deuses, os quais são representações da realidade. O desvirtuamento ulterior é causa de sofrimento e a purgação é transmudada em prática do saber.

A Filosofia tem seu delineamento na Poesia como corolário da Verdade e da Beleza, ambas enlaçadas ao espírito criador, o qual encontra extensão nos atos. A Verdade é um desafio desvirtuado muita vez pela imaginação ao reduzir o real ao simbólico. No entrosamento da imaginação e da razão ocorre a captura do que subjaz à margem do real e se oferece como revelação ao Conhecimento. Conjugada à razão, a imaginação atende ao exercício do espírito criador cuja escalada vai do conflito da representação à leitura, interpretação e elaboração da obra de arte, a qual é crítica na identificação concomitante dos graus da realidade e o encontro do indivíduo consigo próprio.

O tempo preside o exercício do espírito criador, enriquecendo o desdobramento metafórico da linguagem. O universo individual delinea-se pois no processo da criação. Tal pressuposto é observado no longo poema de Jorge de Lima, Invenção de Orfeu, onde o poeta aprofunda a tradição virgiliana da epopéia ao colocar no discurso a dimensão individual. Tempo e espaço conjugam mito e história, desenvolvendo o sentido órfico que converge da Renascença para os vínculos ibéricos da heráldica portuguesa, presente na paródia camoneana de Inês de Castro.

Rudy EspinozaCobrindo extensão rigorosa, o poema registra a parábola de Orfeu representado no Homem/Ilha a simbolizar o arquétipo planetário da Poesia. A ilha define a solidão cósmica do homem concentrado no conteúdo histórico a entremear os Cantos, onde se fundem os vínculos intemporais do hierofante. Paralelo aos Cantares de Ezra Pound, "poeme d'un millier de verses, com rupturas de sintaxe, incidentes, arcaísmos, gírias, mistura de línguas, jogo de situações, alusões históricas e literárias, fragmentos homéricos, trovadorescos, medievais, renascentistas, uma súmula enfim de toda a poesia ocidental", o poema de Jorge de Lima se atém todavia ao universo metafórico da escolástica cristã e à redução órfica que resgata a origem da poesia ocidental.

A síntese hermética do poema-rio não atenua a opressão que se abate sobre a natureza histórica do homem. Cada idade institui seu campo de interpretação e formulação estética, desafiando o espelho da Semelhança que aprisiona o sujeito. O homo viator, segundo Gabriel Marcel, atinge sua disponibilidade absoluta ao mergulhar no espaço à cata de uma presença para lá do tempo. Vai o homem em busca do núcleo cada vez mais próximo da intemporalidade onde se revela a atmosfera do mito tal uma utopia a ser reincorporada. A razão confunde-se com o mito reduzida à rotina das viagens espaciais. Deste modo, o físico e o poeta se colocam entre as sondagens do que subjaz no inconsciente e aflui para comemoração do que se manifesta na obra de arte e da ciência, pois ambas têm o Cosmos como essência da configuração temporal do homem. Os extremos aproximam-se no poema Um lance de dados, de Mallarmé, tendo o Acaso como motivo, ao qual os dados convergem configurando, segundo Haroldo de Campos, a mensagem na Teoria da Informação (Cf. Correio Paulistano, Invenção 14.08.60). A mesma relação encontra correspondência na Identidade, a qual se cumpre fazendo convergir para a Semelhança o conflito da representação. Tal correspondência atende ao projeto da ciência que concede ao Sentido o acaso e ao tempo a máquina. O pós-moderno reavalia o emergir do Eu na elaboração da obra de arte, onde a diferença se cumpre na comemoração da linguagem.

A leitura do jovem Nietzsche dos Fragmentos pré-socráticos possibilitou o descortínio da sincronia no Signo lingüístico, que os chineses utilizam e tem como remanescente as línguas indo-européias, recompondo deste modo o filósofo o aqui e agora das teorias da relatividade, cuja relação sígnica rompeu o bloqueio de uma cultura que ideologizava sua função. O Romantismo antecipa tal leitura, passando a escola por várias etapas com as vanguardas atentas a um rumo que concilia a semiótica com a Era Industrial, cuja realidade histórica criou um clima de ruptura com o estabelecido, como na Arquitetura, p. ex. e a Gestalt, no início do século.

Em São Paulo, jovens poetas inauguraram nos anos 50 um movimento estético denominado concretismo, radicalizando a descoberta de Ferdinand de Saussure dos Anagramas com a "desconstrução da palavra e da sintaxe. Os jovens não conseguiram impor todavia à geração do mimeógrafo a ânsia de comunicar a agonia de um humanismo que se recusa a perecer. O poeta gasta os dias retalhando louças na busca de madrepérolas (Cf. Olho d'água, Lúcia Soares de Moura, Ed. Fontana, Rio, 1980). Nesse esforço de oficina confessa a poetisa que é um tempo sem nada a contar/ é um tempo ainda. O tempo traz a configuração em dois planos de uma poesia impregnada de um saber ao proclamar tal disposição. A contenção verbal mais parece o início de uma reflexão na nomeação do objeto como fundação do Ser. A palavra é contida ao afirmar não apenas os limite temporais como a transparente perplexidade diante do que separa o ser do ente. A metáfora não oculta o predomínio da consciência, pois é toda harmonia e dela se desprende o ritmo que a enlaça à tentativa de encadear o discurso interrompido na brevidade da alocução.

A "transferência da fala", que Michel Foucault distingue no conflito da representação como manifestação do Outro, converte-se em objeto do saber. A visão do mundo como fenômeno configura a assertiva de Hegel ao comentar Zenão (Preleções sobre a História da Filosofia) de que só o Conhecimento é fenômeno. Assiste-se a uma situação original com a nova poesia. O Canto delineia-se em frases curtas, as quais dão a medida do poema. Cada síntese é uma reflexão, o poeta é o centro do universo que só existe por sua causa. Os vínculos estéticos desse humanismo estão na arte japonesa de Socan Iorikito, Bashô, Bunçon, cuja fórmula desenhada em breves hai-cais obedece a um preceito budista. Os teorizantes do concretismo incluíram, via Ezra Pound, a fórmula poética da Ásia, a qual corresponde ao limiar da filosofia ocidental onde léthos (Morada) dá origem a A-létheia (Não-esquecimento).

A consciência atinge um registro que o mito não obscurece, pois à medida que se aprofundam as espirais nos poemas de Lúcia Soares de Moura a revelação adensa uma presença da qual a poetisa é testemunha. A poesia não busca fórmulas. Situa-se no estado que confere tradição à imagem como processo e fusão do ser e o real.

A relação entre o empírico e o simbólico perturba por sua relatividade. A superação não se dilui na memória. Salvaguarda da imagem, a memória é recriada no pensamento, que nega o real, configurando o real recriado pelo pensamento que o nega. A imagem é o eixo da linguagem.

No retorno ao real a obra de arte se oferece com a experiência como objeto do saber. Ao emergir da subjetividade o simbólico tem como mediação a simetria do real, cujo brilho corresponde à unidade do ser. No exercício do espírito criador o artista se detém na avaliação do imaginário em termos de invenção. A Arte é configuradora intrínseca da Verdade e da Beleza, que o físico identifica no reconhecimento do Cosmos. Enquanto invenção a linguagem é mediadora do Ser ao recolher ao logos o brilho do imaginário transfigurado pela simetria do fogo em sua fulguração formal. Ao conciliar os opostos a linguagem corresponde ao rito que os poetas oficiam desde os primórdios, sendo Lino e Orfeu na Trácia seus arquétipos. Nesta medida a função sacerdotal do poeta é reunir em seu culto elementar o ser e o real. A Arte corresponde pois à interação espaço-temporal do ser em liberdade, conjugando-se a identidade a princípios originário dos fatos e da imaginação. A imagem recriada nos atos dá conteúdo à linguagem que o físico utiliza ao equacionar o real.

Rudy EspinozaApós o período dos Reinos Combatentes, a China encontra em Confúcio a legislar e Lao tse a compor o Livro de Tao, soluções de caráter filosófico em favor do povo, aplicando métodos que correspondem ao saber onde a imaginação e os atos se completam.

O fundamento do ser é a realidade. "A imaginação reduz à imagem o que existe na intuição." (Cf. Crítica da razão pura. Apêndice). O axioma corresponde à obra de arte, na qual sujeito e objeto têm como síntese o simbólico a estreitar o nexo que se desenrola na linguagem, cuja empiricidade se efetua nos atos. O que se encadeia com o simbólico é reunido na obra de arte, a qual possui correspondência na realidade, refletindo o espelhamento da Semelhança.

Na relação com o simbólico o real é o horizonte do imaginário a animar o espírito criador. O reconhecimento do simbólico ocorre na imaginação como registro de uma crise que se cristaliza na linguagem. Da tensão criadora emerge o equilíbrio emocional.

A imagem é o núcleo do que se oferece como eixo de uma relação entre espírito e matéria, a qual tem no real sua correspondência racional. A poesia se confunde com a religião. Religião e Poesia nutrem-se da lógica do simbólico.

Como negatividade o ser imita o real. A afirmação configura a imitação, reduzindo a imagem a linguagem, na qual desenrola-se a identidade que se cumpre nos atos. Atributo da negação, a imagem é recriada na imaginação como invenção. Ao encerrar-se na linguagem o ser tem como fundamento a imagem que se incorpora à realidade como imaginação. A palavra ao encadear os graus da realidade na linguagem corresponde à imaginação. O real é o princípio e o fim do ser da linguagem.

Os graus da realidade decorrem do conflito da representação que determina a leitura purificadora e reveladora do imaginário concentrado no discurso do simbólico. A complexa graduação da realidade elevada à tensão e revelação do que subjaz como síntese no imaginário é uma ferramenta na prática do saber através da obra de arte. Graus da realidade são configurações originárias do que flui da imaginação e resumem de um lado a diferença e, de outro lado, o duplo como foco da imaginário e mediação do entendimento.

Sobrecarregado de envolvimento com o imaginário o sujeito transforma o conflito da semelhança em objeto de recriação de figuras que pululam como um duplo, incitando a fuga ao real e o ordenamento da visão estampada no imaginário onde o conflito se delineia, de maneira a provocar o encontro do sujeito consigo mesmo no âmbito da razão. A representação é o estágio elementar do conflito que se desenvolve fundando espaços imaginários à medida que o paciente mergulha no caos da representação provocado pelo conflito da semelhança. A realidade é a moldura a mediar o imaginário que envolve uma síntese configurada pelo duplo. Enquanto substância do pensamento a realidade é matéria da luz que se cristaliza na imaginação. À medida que atinge o horizonte da razão a fulguração da imagem que em si é imaginação se reduz a entendimento. A matéria de luz se reflete na realidade como espelho do pensamento a ponto de confundir-se com o que transparece como duplo e o entendimento recolhe, dando corpo à imagem como espelho do Outro. Um e outro são o Mesmo. Um é espelho do outro.

Enquanto imagem a realidade é espelho a delinear o pensamento que atinge na plenitude do imginário a contingência mítica da palavra recriadora da realidade. Na imaginação a matéria de luz transforma-se em Fantasma, insurgindo-se a imagem de maneira a subverter a realidade, de onde emerge o duplo como espelho cuja treva interior se consuma de modo oblíquo no Outro. A defrontação com o duplo é originária da imaginação que se desvela no plano ardente da razão. Em sua extensão o pensamento corresponde à articulação do duplo no imaginário, remetendo a níveis empíricos de intuição e percepção a realidade a iluminar o entendimento que estimula a captura do fugaz, o qual atravessa a representação desenrolando a lógica do simbólico. O registro dos frutos da imaginação estreita-se, emparedando o sujeito na trilha labiríntica que o duplo percorre, concentrado o Mesmo em si mesmo na rede articuladora do mito devorador do real? Simulacro do Outro e sua cópia, o duplo desarticula o Análogo, fazendo-o não raro sucumbir na floresta ou iluminar-se algumas vezes na lucidez da linguagem e desocultar-se na clareira. Recompõem-se deste modo para o entendimento os estilhaços do mito que o duplo como sombra representa e acompanha.

Rudy EspinozaA imaginação nutre-se da realidade fundadora do mito, tornando-se repositório da carga especular da semelhança que se organiza, ocupando espaço no conflito da representação. Ao refletir o sujeito delineia-se na imaginação a figura supra-real, arquetípica do duplo enquanto espelho da semelhança. Entre razão e imaginação o Ausente se delineia no conflito da representação. A captura visa a desatar o nó da dualidade, elucidando o drama que atinge com o entendimento a lógica da razão. O duplo se repete como o Número: sendo um espelho do outro o duplo é plural. Enquanto instrumento do saber o duplo desloca para a linguagem os estilhaços de um discurso que incendeia os sentidos, abertos à lógica do simbólico.

No novelo da imaginação o mito se desenvolve configurando a ambigüidade do sujeito, recoberto de correspondências e analogias que são as marcas do simbólico, cuja leitura se coloca ao nível de um saber compatível com o pragmático objeto da realidade. A imaginação tem no duplo os sinais da semelhança, onde um é espelho do outro, de cujo elo o sujeito retira a trama do imaginário, que tece em silêncio.

Com o simbólico como objeto de leitura desenvolve-se a prática do saber. Evidenciando duplicidade no conflito da semelhança, a correspondência entre Entusiasmo, Dor, Beleza, Verdade atende a uma rede obscura de significados reveladores do conflito que se transforma em objeto do Conhecimento.

Incorporado à imaginação, o Número adensa a realidade, disposta de modo a configurar a idéia fermentadora do mito que reúne como Coisa em si a pluralidade sensível que a linguagem captura associando-a ao duplo. O Número traz em seu bojo a qualificação do Numinoso, cujo simbolismo intrínseco a imaginação ao resgatar vincula ao duplo como pluralidade sensível.

O universo da negatividade deflagra os contornos do imaginário, associando o visível ao invisível, de maneira a iluminar a imaginação, tornando deste modo mais claras as grades do conflito. Na representação o invisível recompõe o imaginário, refletindo a máscara que a figura do duplo desenha, cuja trama conflui para a linguagem. Ao emergir da subjetividade o duplo tem como limite o real, i.e., o verdadeiro. Etheós, apontado para o real como ato de ver a Verdade. O Outro é pois o real que se deixa ver pelo ente e nomear (Cf. O fundamento do ser, SLMG # 796).

Ao dispersar-se na pluralidade do ente a diferença dissemina-se nos atos enquanto identidade. Isto (eté) sou eu, lá onde não me alcanço, diz o pensar, e cria, manifestando-se através do corpo sonoro da palavra a configurar o real como imagem, símbolo e indicador. O Outro condiciona o emergir do ser na linguagem.

Há, portanto, no demonstrativo Grego a apontar o real como o verdadeiro (eté) função sígnica de Abrigo (léthe) e trânsito ao que se refugia na Alétheia, i.e., na Verdade. O pensar é a errância do ser que se transmuda em imagem e símbolo, projetando assim na linguagem o sujeito da representação. O real implica configuração lingüística e instrumento dialógico a dar função ao ser, correspondendo a palavra (mythos) ao desdobrar da representação a envolver o componente subjetivo do ser o qual, sendo o simbólico, aponta o real como o verdadeiro. A floresta é pois contida pela clareira, da qual a consciência é o raio, como sugere o Fragmento 64 D.K. de Heráclito. A consciência é matéria da luz a envolver o ser que o Logos recolhe.

Sendo orgânica, a língua faz do Signo objeto de conexão da imagem, à qual o sujeito se volta como ser da linguagem. A via da Verdade é conquista do que reconhece no real identidade, de maneira a corresponder o real ao paradigma da representação e à consciência do raio. O ordenamento do ser é função da linguagem a qual à medida que se desenrola recria o simbólico que adquire a função de duplo da linguagem. O pensar é desocultação do que se coloca como linguagem e incorpora-se à representação como duplo. Na linguagem enquanto instrumento do pensar o ser se recolhe. O logos é o sujeito da linguagem onde ocorre o ordenamento do ser. Nomear o real é fundar a realidade que emoldura a representação. A linguagem é reveladora do ser, do qual a realidade é a síntese a encobrir o simbólico que se desoculta como o duplo na figura do Outro.

A configuração do pensamento é negatividade, cujo estigma estampado na visibilidade do Outro é imagem e realidade. O ser e pensar é imagem, imaginação e entendimento produzido pela razão impressa na máscara da representação, sendo o sujeito, portanto, Aparência, ou o Nada, como Hegel entendia, na trilha de Heráclito, ao conceber a história como o Absoluto.

Descartes enfatiza o ser e pensar parmenidiano em relação ao Empirismo de Locke ao apontar no século XVIII a Era Industrial. A linha divisória entre o cartesianismo e o hitoricismo hegeliano é retomada por Nietzsche que retorna ao início Grego da filosofia reacendendo a discussão sobre o Ser, que Engels considerava impossível pela "incapacidade englobante do saber." A leitura dos Fragmentos pré-socráticos adquire configuração epistemológica fecunda à medida que estudos das marcas e sinais elevam a lingüística no século XX a uma categoria exemplar. O significante torna-se objeto de estudo dos estruturalistas.

A questão do ser e pensar encontra no Cogito, na monadologia, na analítica transcendental e em Martin Heidegger, o que Anaximandro (610-547 a.C.) pressentira como Justiça (dikia) ao radicalizar na fala o saber. O princípio e fim da filosofia pertencem à Grécia. Heráclito de Éfeso de modo peremptório nega o ser ao admitir o Logos. Na A-léthéia (Verdade) está implícita a desocultação do ser. A Palavra é virtude. Corresponde tal prerrogativa aos aristoi, cujo atributo ético está associado a "honra e dever".

A Arte tem na linguagem o fundamento do saber. O real é objeto ambíguo de uma relação que se basta a si mesma, derivando das camadas profundas da negatividade as vozes primordiais quais elos das correntes do pensamento, do qual o simbólico é um eco. A Beleza padronizada apelo conceito neo-platônico de Plotino sofre como expressão racional da reformulação com o advento do simbólico a aprofundar os limites da res no âmbito do continuum. Deste modo, linguagem é interação na dissimetria do belo ao configurar a lógica do espírito criador que escava na rocha a sincronia do discurso, restituindo assim à clareira a floresta encoberta pelo duplo a povoar a imaginação. Tal é a dialética que transforma a fulguração do ser em saber.

O afastar-se da imitação do real é próprio da rebeldia do pensamento na produção do sonho e está no preceito que atribui ao belo a consagração esboçada em todo sacrifício. O Entusiasmo é cintilação do fogo a produzir com a luz a dor. O deslocamento da correspondência com real permite conceber a magnitude da Ordem no mergulho do sujeito na subjetividade à cata do ente, i.e., o Eu, a partir de cuja experiência se consuma a arquitetura do mito, ao qual se apela como a um D(eu)s.

A fenomenologia de Hegel coincide com o advento do Romantismo alemão e identifica-se com naturalismo de Schelling. A teleologia do filósofo aponta para a mecânica da Natureza como fundamento da realidade. No bojo dessa questão está o projeto epistêmico da Modernidade. O deslocamento de enfoque para o intemporal por outro lado permite a revisão estética do fenômeno que dá origem ao salto para o Conhecimento.

Foed Castro Chamma (Paraná, 1927). Poeta, tradutor e ensaísta. Autor de livros como Iniciação as Sonho (1959), Pedra da Transmutação (1984) e Filosofia da Arte (2000). Contato: foed@bol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Rudy Espinoza (Costa Rica).

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