Agulha - Revista de Cultura

revista de cultura # 18/19 - fortaleza, são paulo - nov/dez de 2001

Agulha - Revista de Cultura






 

A carta de Maria de Povos a Gregório de Mattos

Adriano Espínola

Adriano Espínola (Foto de Socorro Nunes)Hoje sabemos quem ele é, mas durante todo o século XVIII e metade do seguinte, ninguém sabia da sua existência. O que teria acontecido? Talvez estas linhas esclareçam um pouco o mistério que cerca o poeta barroco Gregório de Mattos, conhecido como Boca do Inferno.

Creio que já posso contar o que descobri na seção de manuscritos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Sou forçado a concordar com os metafísicos e espiritualistas que afirmam que neste nosso estranho mundo nada ocorre por acaso. Pequenos acidentes aparentemente irrelevantes, ou a associação entre eles, podem modificar o destino de uma obra, tanto quanto o de um homem. Assemelham-se, por vezes, a certas rápidas visões ou sensações que temos no cotidiano de algo (os traços de um rosto que passa, uma gravura estampada em uma página qualquer, o odor de uma fruta, o piso irregular de um corredor, a umidade da parede, etc.), capazes, porém, de deflagrar, mais tarde, lembranças ou sonhos vertiginosos... O fato é que, à época, nem sequer levei em consideração a descoberta, quando preparava um pequeno ensaio sobre o escritor baiano, para uma revista, que me exigia algo inédito na matéria.

As biografias, que hoje proliferam em torno de Gregório, informam que um de seus irmãos era também poeta, o padre Eusébio. Poucos sabem, entretanto, que teve uma irmã, chamada Justa Fernandes, que escrevia igualmente (constatei isso agora), casada com Domingos Dias, aquele mesmo que o bardo menciona no início de um soneto, em que aconselha alguém a obter êxito social, na cidade da Bahia ("Converse à porta de Domingos Dias/que pega fidalguia mais que tudo"). Nenhum biógrafo falou, até o momento, nessa sua irmã escritora.

Ao reler outro dia a obra do erudito Pietro Ramón sobre Gregório de Mattos e a Bahia do século XVII, liguei de repente o nome de Justa a um texto que encontrei, há uns sete anos, inserto em um volume (lembro-me bem), amarrado por uma fita, de capa escura, bastante estragada, quase despregada do miolo, que me chegou às mãos, por engano do funcionário da seção de manuscritos. Confesso que o estado da escrita e do papel me desencorajara a leitura das primeiras páginas. Já ia devolvê-lo, quando notei referências a Tomás Pinto Brandão, o jovem amigo português de Gregório. Senti que havia algo próximo do que eu queria, mas abandonei o volume, desinteressado naquelas referências a Tomás e por não saber quem era Justa Fernandes.

Ludwig Zeller (collage)Desta vez, ao me deter em seu nome, no livro de Ramón, retornei, curioso, à Biblioteca, a fim de checá-lo naquele tosco volume. Por sorte, havia guardado a indicação do catálogo em um caderno.

Com efeito, o nome da senhora Domingo Dias lá continuava, em elegantes letras vermelhas e pretas, apresentando-se como autora de alguns confusos episódios familiares, envolvendo amigos e conhecidos (um deles, o Tomás). Prestando mais atenção ao códice, pude identificar, páginas adiante, o nome de Maria de Povos, a esposa brasileira de Gregório (fora casado em primeiras núpcias com uma portuguesa), encabeçando um texto em prosa, entremeado de versos.

O texto de Maria de Povos (ou seria de Justa Fernandes, transcrevendo as palavras da cunhada, já que a caligrafia era a mesma?) fisgou-me. Ao que parece, narra episódios amorosos com o poeta. Encontra-se na primeira pessoa. Digo "parece", porque a grafia é ruim, e algumas passagens e personagens vêm borradas pelo tempo (lá se vão 300 anos). Passei mais de 15 dias tentando laboriosamente transcrevê-las para o português atual. Tive que mexer na sintaxe e, em alguns casos, no vocabulário, para torná-las mais compreensíveis. Creio que não fui bem sucedido: não consegui fixar a íntegra da narrativa, mas deu para perceber que se tratava de uma carta de Maria ao poeta. Talvez a última entre eles.

Passo a transcrever trechos da aflita missiva, em que começa falando em "(...) rigorosos tormentos de amor que padeço causados de saudade". No alto, à esquerda da página, lê-se: Bahia, 21 de junho de 1695. Assim continua: "(...) não deixando de fora seus amantes desejos. Desde que tu foste obrigado a partir para Angola [trechos ilegíveis] o soneto que me enviaste por um emissário, pouco antes de embarcar, a mando do governador dom João d’Alencastro:

Não sei em qual se vê mais rigorosa
a força desta nossa despedida,
se em mim, que já sinto perder a vida,
se em vós, a quem contemplo tão chorosa.

Não posso continuar (...). Mostro a dor em água convertida (?). Tenho aqui comigo teus quatro tomos, guardados no baú. Releio de vez em quando os poemas amorosos (...) para mim. Lembro que, uma vez, ao embarcares para a cidade, chorei de saudades antecipadas.

Lágrimas afetuosas
brandamente derretidas,
o que tendes de afligidas,
tendes de mais poderosas:
sendo vós tão carinhosas,
quão tristes me pareceis,
que muito que me abrandeis,
quando ausentar-me sentis,
se por me cobrar saís,
e em busca de mim correis?

Ludwig Zeller (collage)Mas agora tudo parece distante, menos teus poemas, que aqui estão comigo como as lembranças (...) [trechos ilegíveis] (...) quando vim amarrada da casa do meu tio Vicente como escrava fugida. (...) nasceu Gonçalo, para lembrar que quem canta aqui é o galo (...). Tive então muita raiva de ti, não tinha o que comer, mas te perdoei pelas lisonjas que me fizeste (...) [trecho ilegível] (...). Recebi notícias de que agora assistes no Recife, de volta de Angola. Ontem, esteve aqui comigo um homem estranho, mas de bons modos, que se dizia letrado e de nome Ribeiro. Queria muito saber de ti. Prontificou-se a levar pessoalmente os tomos a ti, na próxima nau que for para Recife. Disse que venera e estima muito tuas obras, de agigantadas maravilhas; quer conversar contigo, a mando do governador, como ele, admirador dos partos de tua musa (...) Devo [nele] confiar? Temo algum inimigo roube daqui os poemas para destruí-los (...) Responda-me logo o que fazer. Estarei esperando tua carta na chácara de Marapé, ao lado de Gonçalo, que já mostra natural inclinação à poesia (...) até teus inimigos nesta cidade viciosa, ingrata com seus naturais que é a Bahia (...)".

Nesse ponto, o texto se torna truncado, intransponível.

Teria a esposa entregado os tomos ao letrado Ribeiro? Sabemos que somente em 1850 é que iriam aparecer impressos, pela primeira vez, os poemas de Gregório de Mattos, enquanto sua biografia viria à luz, anos depois, em 1882, escrita por um tal licenciado Manuel Pereira Rabello, que teria juntado os textos em vários volumes. Como os teria encontrado? Quem seria esse Rabello? Ou tudo não passaria de invenção do ardiloso poeta barroco?

De todo modo, me dispus a divulgar (como o faço agora) os fragmentos da carta acima.

Ludwig Zeller (collage)Mostrei-a primeiro ao professor José Mariano Pereira, que viu nela boa oportunidade de estudar as variantes textuais de alguns versos do baiano. Depois, ao professor Leo de Gaia Macedo, que conjecturou que Maria de Povos estaria se referindo, na verdade, ao licenciado Rabello e não ao letrado Ribeiro, enquanto o crítico Dílson Mazim observou, em sua coluna, que Gregório não poderia ter reunido, como um autor moderno, seus textos, pois ninguém fez isso, no final do século XVII, a não ser o padre Vieira, porque era padre. O crítico e bibliófilo Antônio Carlos Serafim entusiasmou-se pelo achado, atestando sua autenticidade. Houve, entretanto, acirrados debates entre os especialistas sobre o conteúdo da carta, durante o IV Congresso de Literatura e Lingüística ocorrido na Universidade do Rio de Janeiro, no ano passado.

O certo é que ninguém reparou que, se a discreta e formosíssima Maria não amasse o marido e dele não estivesse saudosa; se a cunhada Justa Fernandes também não fosse escritora e não se dispusesse (suponho) a transcrever os sentimentos e aflições da mulher do irmão; se não tivesse ocorrido a visita do letrado Ribeiro ao sítio de Marapé e uma provável resposta à carta enviada da Bahia; se tudo isso, enfim, não tivesse se reunido misteriosamente em uma cadeia de eventos, alguns por certo irrelevantes, no tempo e no espaço, a vida e a obra do escritor barroco não teriam existido, pois os textos não teriam chegado até nós. Não teríamos conhecido a vertigem do poeta.

Quanto a mim, se não admirasse nem amasse Gregório de Mattos, simplesmente não teria transcrito esse sonho do passado - que os professores crédulos chamam de pesquisa histórica - e divulgado a carta de Maria de Povos.

Adriano Espínola (Fortaleza, 1952) é autor dos seguintes livros de poesia: Fala, favela (1981; 2a. ed., 1998), O lote clandestino (1982; 2a. ed., 2002), Trapézio (1984), Táxi (1986), Metrô (1993), Em trânsito (1996) e Beira-Sol (1997; 5a. ed., 2001) e do ensaio As artes de enganar: um estudo das máscaras poéticas e biográficas de Gregorio de Mattos (2000), os três últimos pela Topbooks. Contato: adrespinola@uol.com.br. Página ilustrada com obras do artista Ludwig Zeller (Chile).

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Collage, Floriano Martins

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