Agulha - Revista de Cultura

revista de cultura # 18/19 - fortaleza, são paulo - nov/dez de 2001

Agulha - Revista de Cultura






 

Foed Castro Chamma: a substância da coisa e seus efeitos

Leontino Filho

Foed Castro ChammaO discurso poético, quase sempre, traduz-se através da tênue linha tracejada entre a ficção e a autobiografia, entre a imaginação e a realidade. Nesse universo, a presença do sujeito-autoral, entendido como aquele que se desvela com palavras e texto, ou se preferirmos, um sujeito moldado na linguagem, revela a complexa dispersão de sentimentos e imagens que afloram de sua múltipla persona. A poesia, como exercício criativo de uma identidade, produz o efeito de alteridade no momento de sua própria enunciação. O poeta é esse ser híbrido em permanente conflito com os seus recônditos desejos, com as suas utópicas viagens e com os seus projetos de unidade de ser e não ser. Enfim, o indivíduo fantasmático que disseca os elementos componenciais de sua existência na própria ossatura social em que está inserido.

A representação da identidade no texto passa a ser o caminho mais curto e mais complexo para instaurar a flexibilização e a ambigüidade do sujeito como mera configuração do eu autoral. Em outras palavras, o poeta circula no meio da caótica sensação de possuir uma identidade íntegra e que pode ser requerida a qualquer momento, pois está à disposição do seu livre arbítrio. Na verdade, nesse entrelaçamento de fios, ele dimensiona sua posição, como sujeito, nas máscaras escriturais que nada mais são do que portas de entrada para a construção de sua história.

Na encruzilhada de personae poéticas instaladas na especularidade de um sujeito que se mira em sombra e luz, em concretude e abstração, em rastros e apagamentos do eu, entendemos A coisa em si de Foed Castro Chamma. Este poeta nasceu em Irati/PR em 1927. Publicou os seguintes livros de poemas: Melodias do Estio (1953), Iniciação ao Sonho (1955), O Poder da Palavra (1959), Labirinto (1965), Ir a ti (1967), O Andarilho e a Aurora (1971, reunião dos três últimos livros), Pedra da Transmutação (1984) e Sons de Ferraria (1989). Em 1998 foram publicados Mickiewicz Poemas (tradução), Epigramas Latinos e Navio Fantasma. E no ano seguinta Bucólica, de Virgilio (tradução) e Filosofia da Arte.

Em um primeiro momento, percebemos o estilo alquímico que se constitui como uma work in progress, estilo que vai se desdobrando enquanto busca dessa identidade. Provavelmente no fluxo de sua consciência, o autor caminha em direção à personagem que traz embutida em si mesmo, em forma de coisa ou em forma do humano. Numa segunda leitura, a tragicidade especular é vista ao mesmo tempo como calmaria e tempestade - a fugaz apreensão de um dizer que se esvai tão repentinamente. Tentando aproximar o concreto do metafísico e o cotidiano do eterno, pensamos que existe uma harmonia das coisas revelada pela existência de um eu em constante vertigem, em permanente desequilíbrio.

A urdidura táctil do espelho

Em certo sentido, o poema de Foed Castro Chamma busca penetrar a essência íntima das coisas, perspectivando a ação de um sujeito plenamente integrado e mesmo confundido com os objetos descritos. As palavras sensibilizam não apenas pela sua carga metafórica, mas, principalmente, pelos espaços lacunares que permitem a experiência crítica da não-identidade. Uma não-identidade que forçosamente, nos remete a questões existenciais, tais como o estar no mundo, o ser no mundo, a natureza humana das coisas e a realidade do tempo.

Ludwig Zeller (collage)Esse poema é uma espécie de ‘atestado autoral’, onde o sujeito lúcido e lúdico joga as contas de vidro de sua pessoa no espaço da linguagem. A linguagem modaliza a sua introspectiva viagem ao reino do desconhecido mundo da aparência. A exterioridade do mundo serve como âncora para refinar as suas sensações e para pluralizar o seu universo pessoal. Com isso, aguça-se a percepção de que a natureza problematizada de cada coisa guarda em idêntica quantidade, um número de imagens subjetivadas de modo diferente por um mesmo olhar. Um olhar que, de viés, constrói simultaneamente a imagem do mundo real e a imagem do mundo idealizado - realidade e ilusão recapturadas na presença ambígua do texto.

A seção inicial do poema revela o impacto da linguagem como representação do real na exata proporção das aparências fugidias e, por vezes, etéreas do pensamento. A linguagem é sempre um balão de ensaio, algo que muda de acordo com o espírito que paira no tempo. O homem percorre o conhecimento munido de sensações que tenta controlar, daí dizer-se que a linguagem não tem nada de apaziguadora, pelo contrário, ela instiga o ser pensante a melhor manejar as suas contradições. Inserido nessa forma de pensar e sentir o mundo, o eu do autor - o cristal de palavras -, questiona a própria aparência, ora rígida ora líquida do verbo: a dureza da pedra em contraste com a cristalinidade da água. Importa ao poeta, exercitar o pensamento como forma de resgatar a imagem perdida nos mínimos fragmentos do eu, ele próprio duro e cristalino como o aparecimento da linguagem.

Na estrofe seguinte, ergue-se o edifício in-acabado da linguagem. Esfacelado, o sujeito depura sua imagem num continuum que provoca rupturas as mais contundentes: incorporar trajetos, assediar sentidos, aceitar vontades, admirar desejos, multiplicar realidades, render-se à leveza paradoxal do espelho e apreender a dureza da imagem especular. O espelho verbaliza os fantasmas do canto e mimetiza a consciência poética que transparece no Outro que é a um só tempo ensinamento, comoção e deleite. O autor sai do seu papel de produtor de imagens e passa a ser o Outro que vai ler e entender o seu próprio texto. O reflexo do espelho pode ser admitido como a tentativa de sair do centro da coisa - a escritura - para ingressar na outra margem do papel - a leitura: o produtor passa a ser o leitor, a autoridade textual sai de cena e assume o estatuto pleno de leitor.

O mito do sujeito uno e indivisível fica totalmente abalado quando o poeta assume: "Aos espelhos me rendo neste ensaio", incorporando às coisas, sua identidade rasurada e organicamente processada na linguagem, com isso ele objetiva atingir um índice de identificação que é dado somente como reflexo numa superfície de vidro. O espelho projeta a sua personalidade multifacetada e circunscreve a persona poética nas palavras que perduram no espaço-tempo do próprio percurso imagético da coisa que é em si e per si. A imagem da autoria refletida pelo espelho, no poema de Foed Castro Chamma, encarna os múltiplos enigmas que porventura venham a existir numa identidade integral, já inteiramente desprovida de sentido quando o gerenciador de mitos despe-se dessa autoridade despótica de manejar as palavras e a linguagem como absoluto senhor do seu discurso. O poeta assume a sua precariedade ao nomear a silenciosa beleza do círculo que envolve todos os passos do humano incrustados na coisa.

A urdidura do espelho instala-se no questionamento crucial do autor quando ele destaca o caráter de integridade e dispersão, de mobilidade e imobilidade e de unidade e divisibilidade do eu que jamais deixará de refletir-se nas faces e fases da tessitura mutável da matéria. A forma circular do eu, metaforizada pelo espelho, encontra-se plenamente realizada no Outro, é a materialização de sua angústia, é a sua própria condição ontológica no mundo, definida, em síntese pela projeção consciente e/ou inconsciente de um duplo - interposto entre o mesmo e o Outro - uma máscara táctil que nasce do espelho que devora e se deixa devorar, esse é o seu princípio de individuação, o que move A coisa em si, o que abisma o poeta e singulariza cada novo exercício de leitura.

A consangüinidade de vozes

Ludwig Zeller (collage)Pensar a existência do autor nesse universo emaranhado de vozes, nessa contínua troca de papéis, nessa redistribuição de tarefas e nessa associação de perspectivas talhadas pela exterioridade do mundo assimilado pela interioridade de um sujeito plural, requer uma escuta dupla das palavras e uma minuciosa averiguação do deslocamento de sentido ocasionado pela pulverização do sujeito na teia textual. O autor, entendido como "aquele que dá à inquietante linguagem da ficção suas unidades, seus nós de coerência, sua inserção no real" (Foucault, 1999), aquele que estabelece o princípio de agrupamento do discurso e faz circular no texto a teatralidade dos gestos da sua própria realidade. É o que podemos denominar de fingimento da otredad - escrevemos para nos enxergar do outro lado da ponte. A alteridade vem a ser o desejo de ser Outro sendo o mesmo ou desconhecer o conhecido que reside em nós, na sábia lição de Ocatvio Paz. É nessa hora "que o poeta se torna aquele que não pode subtrair-se a nada, não se desvia de nada, é entregue, sem abrigo, à estranheza e à natureza desmedida do ser" (Blanchot, 1987).

A identidade do poeta, exemplificada em A coisa em si são suas máscaras; são todas as criaturas que o rodeiam; são suas catedrais interiores erguidas sobre areia movediça; é seu fingimento atormentado; é seu palácio de sombras, preenchido por pequeninas contas que reluzem na escuridão; é o seu eu esvaziado de sua essência: a multiplicação anônima de rostos em sua face; é o vazio povoado por tudo que não é seu; é uma espécie de vôo rasante executado por quem não possui asas, só a líquida aparência do espaço. A identidade do poeta é, em suma, o fantasma inquieto em busca de um pouso que ele jamais encontrará, pois o que importa para ele é a demência errante do caminho especular.

Todo exercício discursivo "faz parte da própria ficção autoral" (Buescu, 1998) e estabelece um jogo de estreito parentesco com as personas envolvidas. O nome próprio, o anônimo, o pseudônimo e o jogo heteronímico funcionam como estatuto consciente de um suporte biográfico que está em processo de rasura, ou seja, o que se pretende afirmar na cadeia do nome próprio, não é a inexistência do autor empírico, até porque a figura que assina a obra define-se, basicamente, como estratégia de lei dentro da sociedade. Por isso, a entidade autoral subscreve os mecanismos da fala neutra, indistinta, ociosa e errante que inspiram uma verdade multiplicada no fundo aparente das coisas. Em nenhum momento a memória do poeta deixa-se flagrar apenas pelo espaço interior no exterior do real. Além disso, a máscara autoral rende-se à linguagem que, originária da própria face, penetra a essência íntima das coisas.

Ludwig Zeller (collage)No livro segundo: O ser e o real de Filosofia da Arte (1999), Foed Castro Chamma reflete poética e filosoficamente sobre as questões de identidade e recria no exercício da linguagem tudo aquilo que está em sua trajetória poética. Diz ele, a certa altura da obra: "Como Identidade o sujeito submete-se à ambigüidade da diferença, instaurando-se pois na representação, paralelo ao continuum, o reconhecimento do duplo, o qual se delineia na imaginação". Tal afirmação pode ser associada com justeza ao poema A coisa em si, ainda mais quando o filósofo, analisando a consangüinidade das sombras com a identidade, conjuga o drama metafísico da existência à dissolução do imaginário mediado pela realidade cuja síntese funde tempo e espaço, ocultando a transitória máscara do espelhamento do Outro. Identidade e semelhança configuram a própria captura do duplo, eis o ensaio da linguagem - a coisa em si e per si - incorporado pelo sujeito da representação que foi "relegado à fantasmática condição de Presença perdida na dualidade do Mesmo". O Outro, como representação especular, abre-se para o real objetivado no ser da linguagem. Tal é a sua estratégia composicional, derivada da articulação de vozes que sobrevoam a sua obra. Já que o caminho transmutado do poeta, na coisa, é a perspectivização histórica ou seu esforço de afirmar-se no Outro, é sempre na linguagem que o Outro se define como unidade:

Procuro uma unidade para dar-me
inteiro mas disperso-me nas fímbrias
do vôo. A rosa foge, mais se alarga
à medida que a busco. Onde finda
meu tema? Onde me findo, se me alargo
para alcançar-me inteiro neste poema?

No final das contas, voltamos ao célebre, válido e sábio postulado do poeta francês Arthur Rimbaud, que com a máxima economia de meios decretou: "je est un autre". A minha Identidade definida de fora, pela linguagem - minha e marcadamente pela dos outros. O eu nas fímbrias do vôo do sujeito instalado nas coisas. A autoria como metáfora literária, como metonímia da viagem especular e narrativa fundamental de uma questão proposta: a ontologia da diferença grudada no espelho é ou não a imanência do Outro na dimensão sombria do mesmo? As coisas cintilam e quem sabe este já não seja um caminho para gerar outros percursos discursivos.

 

A coisa em si
(poema de Foed Castro Chamma)

 

A linguagem que ensaio comunica
o pensamento às formas recolhidas
e mudas, cujo espírito reside
encoberto na rígida aparência
da pedra:
às vezes líquida aparência
d’água.
Ensaio uma linguagem
que somente os espelhos poderão
apreender: pois que a eles é dado repetir
multiplicar os que falando os assediam.
A eles me rendo com toda a leveza
com que, multiplicado, me incorporo
ao milagre de aceitar-me sério ou rindo,
sem mais sentir-me o outro
no interior - o outro - o que admiro:
belo e fugaz - o outro -
senhor tão pouco de sua presença
pelo que se ausenta atrás da própria face
- sem atribulações.
Aos espelhos me rendo neste ensaio.
No mais quem dirá que serei leve
para me incorporar às coisas definidas,
para me repetir nos meus desejos,
dissociar-me, integrar-me como alento
intangível além da superfície
dos espelhos?
A coisa em si
o tempo
a duração
existe onde?
Em nós ou além do círculo
que nos circunda?
Seremos como o Deus
que estando em todos
é íntegro e disperso
é móvel e é imóvel
uno e divisível?
A coisa em si
o tempo
a sucessão
do ser para o não ser
da vida para a morte
da morte para o enigma
da reencarnação:
Eis o círculo -
e dentro o enorme enigma
a um tempo breve e eterno.
A linguagem que ensaio comunica
o sopro alentador.
Os límpidos cristais se livrarão
de sua beleza silenciosa e fria.
Tocados da linguagem cantarão
dissolvidos e vivos, livres
como águas azuis acomodadas
em seu curso de plena liberdade.

.Leontino Filho (Aracati, 1961). Poeta e Professor de Literatura Brasileira da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). É autor dos seguintes livros de poemas Imagens, Cidade Íntima e Sagrações ao Meio, entre outros. Tem inédito o ensaio Sob o Signo de Lumiar: Uma Leitura da Trilogia de Sérgio Campos. Atualmente faz o doutorado em Estudos Literários na UNESP, em Araraquara/SP. Contato: r.leontino@ig.com.br. Página ilustrada com obras do artista Ludwig Zeller (Chile).

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Collage, Floriano Martins

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