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revista de cultura # 10

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fortaleza, são paulo - março de 2001

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VITOR RAMIL: O CALOR DA ESTÉTICA DO FRIO
Luiz Horácio Rodrigues
ag10rodrigues1.JPG (17738 bytes)- Oseu CD À Beça, a meu ver, representa a sua obra. Faz uso dos elementos regionais combinado com o pop nada descartável que só artistas nada convencionais e autênticos como você conseguem. A seguir você lança Ramilonga, privilegia as milongas. Nei Lisboa e Bebeto Alves, dois cantores e compositores gaúchos que também viveram no Rio, ao retornarem ao sul lançam, respectivamente, álbuns com ênfase no candomblé e milonga. Não quero saber deles mas de você: qual o percentual de originalidade e oportunismo?

- Em primeiro lugar, de oportunismo não tem nada. O que há é a necessidade de definir uma linguagem. E não é oportunismo de parte de ninguém lá no sul. Na verdade está todo mundo buscando definir o que é a nossa música. Quando eu, aqui no Rio, tive o insight de procurar uma estética do frio acabei naturalmente chegando na milonga. Me dei conta de que sempre que eu ia buscar alguma matriz regional eu acabava lançando mão da milonga. Comecei a perceber que havia melancolia e outros valores estéticos na milonga que expressavam muito bem a nossa sensibilidade. Acho que o Rio Grande do Sul é muito novo, que estamos em uma fase de descobertas, e acho também que a pouca evidência da cultura negra diante da dita "cultura oficial" sempre foi um fator que dificultou a nossa pujança cultural. Por outro lado, venho de uma cidade onde a cultura negra sempre foi fundamental. Pelotas é o berço da cultura negra gaúcha e devo a ela muito do que faço em música. 

- Você falou que vem de uma cidade (Pelotas) onde a cultura negra sempre foi fundamental e que eu saiba foi justamente Pelotas um pólo nefasto da escravidão e consequentemente repressão a toda expressão da cultura negra. Como se manifesta atualmente essa cultura, são apenas vocês artistas que a percebem? 

- Eu agora estou bastante envolvido com o novo governo de lá, sou conselheiro da secretaria de cultura, mantenho contato com as pessoas, tenho feito reunião com o pessoal das vilas que fazem hip-hop, troco idéias, e te garanto que a cultura negra segue a mil, para além da minha percepção de artista. No momento estou afastado de lá, mas ao retornar vou retomar algumas atividades, não remuneradas, diga-se de passagem, e sim puramente de atuação, pois acho que eu tenho quase uma obrigação de contribuir com a cultura local. Pelotas tem sim uma presença negra que não se encontra em nenhum outro lugar do Estado, e lá houve realmente uma repressão ao negro muito grande pois a escravidão era muito severa na época das charqueadas. Como a produção do charque dependia da mão de obra escrava, em certo período a população de Pelotas contava mais negros do que brancos. Esses negros não desapareceram, e por causa deles o carnaval de Pelotas já foi um dos melhores do Brasil. A atual expectativa é de que haverá um renascimento da negritude na cidade, o que beneficiará todo o Sul.

- Como ocorre a influência dessa cultura negra em seu trabalho?

- Uma das recordações musicais mais fortes que tenho da infância, por exemplo, é exatamente a do carnaval na Rua XV, uma rua estreita por onde desfilavam os blocos burlescos (a marca do carnaval de lá) e as escolas de samba. O som da batucada, da bela batucada reverberando entre os prédios e o desfile entre o povo, sem cordão de isolamento, me emocionavam. Até hoje não posso escutar uma batucada sem me emocionar, tenho vontade de chorar.

- E as influências na música também influenciam a literatura? As letras de suas músicas são histórias curtas, mini contos, fogem ao formato convencional das letras de músicas. [Antes um esclarecimento: Para quem não sabe, Vitor é um grande escritor e seu romance de estréia Pequod colheu apenas críticas elogiosas.]

- Acho que tudo é uma coisa só, tudo me importa. A pintura, por exemplo, tem muita influência em meu trabalho, não só as obras em si, mas também as reflexões dos pintores a respeito do que fazem. O que Matisse pensava sobre o que pintava me marcou. E, assim como ele, muitos outros. Os pintores conceituam muito acerca do que fazem, sempre conceituaram. Hoje em dia as artes plásticas se tornaram quase que puro conceito. Independente disso, desde a época em que o conceito não tinha a importância que tem hoje em dia, sempre gostei de ler as reflexões dos pintores. E sempre gostei muito de ler ensaios sobre literatura, ensaios críticos, que hoje em dia enjoei um pouco de ler. Também foi importante ler escritores escrevendo sobre suas próprias obras. Hoje também faço minha viagens conceituais, busco a minha "estética do frio"…

- Você via de regra se refere a Armando Albuquerque com carinho e gratidão. Inclusive, em Ramilonga você canta "Ruas do Armando, ruas do Quintana/ Nunca mais, nunca mais". Quem é Armando Albuquerque? Que influência ele teve em seu trabalho?

- Armando foi meu professor na cadeira de Laboratório Experimental no curso superior de Composição e Regência. Eu nunca me adaptei à universidade, ao estudo convencional, e o Armando pra mim representava um escape dentro daquilo. A aula dele fugia aos padrões, ele era compositor e eu tinha uma grande admiração por ele e absorvia muito dele na aula, nas nossas conversas, era um homem de muita vivência, eu gostava de ir na casa dele. Admiro muito a obra dele. O Armando veio pra cá (Rio de Janeiro) depois voltou pra Porto Alegre, buscava uma música erudita do Rio Grande do Sul, e tinha também seu viés regional. Tive com ele uma relação breve mas intensa. Era um mestre.

- Vamos falar um pouco de cinema, sua relação com o cinema. Você fez a trilha ou algumas canções do filme Anay de Las Missiones?

VR- A trilha é do compositor gaúcho Celso Loureiro Chaves. Eu apenas compus algumas canções para o filme. A cena que ia ter uma delas, "Causo Farrapo", que até está no CD Ramilonga, acabou sendo cortada e a música dançou. Cheguei a acompanhar as filmagens, pois o Marcos Palmeira tinha que tocar uma música composta por mim e eu o orientei a tocar violão, a dublar o que eu tocava. Foi uma experiência boa e curiosa. No set de filmagens eu compus "Indo ao Pampa" , um dos temas mais importantes do Ramilonga, e compus assistindo à gravação da cena em que Anay tem de entregar seus bois para um grupo de "Farrapos" que está passando fome.

- E você tem outros trabalhos relacionados com o cinema?

- Não, nunca fui chamado pra nada, às vezes algumas pessoas me sondam mas nunca cheguei a realizar nada.

- E como espectador, o que mais te emociona no cinema, quais filmes, diretores etc.?

- Eu já vi mais cinema, mas hoje em dia está muito difícil. Moro numa cidade que não tem cinema atualmente…

- Pelotas não tem cinema!!!???

- Mais ou menos. Os cinemas foram fechando e lá ainda não tem nenhum shopping center. Como os cinemas hoje estão todos nos shoppings… Um grande cinema, o Cine Tabajara, que é perto da minha casa, está desativado e dizem que pode virar um templo religioso. Na verdade a cidade tem dois cinemas, mas com som e projeção precários, e uma programação que não me atrai muito. Talvez este ano inaugurem salas novas em uma galeria, inclusive com uma dedicada exclusivamente a cinema de arte. Estamos esperando para ver e crer. Pois bem, tenho ido muito pouco ao cinema, mas o cinema foi muito importante na minha formação. Na adolescência, em Pelotas e Porto Alegre, encarei muita fila para assistir ciclos de cinema italiano, francês, espanhol etc. Era uma época muito rica. Se eu tivesse que escolher o filme da minha vida escolheria "Oito e Meio", do Fellini. Esse filme resumiria o meu prazer pelo cinema.

- Dois ou três CDs seus contam com o apoio do Fumproarte da Prefeitura de Porto Alegre, um fundo que apoia a realização de projetos de artistas gaúchos. No entanto, chegam a mim várias reclamações afirmando que os contemplados são sempre os mesmos ou simpatizantes do governo petista. Qual a sua versão?

- Não, os contemplados não são sempre os mesmos, tampouco são todos simpatizantes do PT. Acho que as pessoas que não foram contempladas não devem ter apresentado bons projetos. É claro que existem problemas. Já participei de reuniões do Fumproarte com o meio artístico onde surgem sempre reclamações desse tipo. O próprio Fumproarte sugere que as pessoas se organizem, indiquem representantes para a comissão julgadora, para que o processo de seleção se aperfeiçoe. Mas músicos, por exemplo, só se reúnem pra tomar cerveja. Na hora de selecionar projetos, o Fumproarte chama um representante do sindicato, um representante da Ordem dos Músicos e outros órgãos oficiais que talvez não tenham a melhor visão do contexto artístico naquele momento. A cultura em Porto Alegre vive um boom atualmente, e acredito que 80% do que acontece lá tem apoio do Fumproarte. Meus projetos têm sido selecionados, inclusive o último, o CD Tambong, que na hora da seleção foi o último a ser escolhido porque sobrou um resto de dinheiro. E meus projetos, principalmente os CDs Ramilonga e Tambong, estão entre os mais bem sucedidos do Fumproarte, são projetos consistentes e baratos. O êxito deles é importante para a cultura local e para o próprio Fumproarte, que, ao realizar bons projetos, também se aperfeiçoa. Pode-se dizer que meus discos não são trabalhos de qualidade? 

- O Fumproarte também tem participação no seu CD Tango. De que maneira, pois Tango já havia sido lançado em vinil em 1987?

- O Tango foi um projeto de apenas remasterizar e fazer a capa, um projeto muito simples. Tem gente que pensa, muito equivocadamente, que eu não preciso do Fumproarte porque meu nome é conhecido. O fato do meu nome ser conhecido não significa que eu esteja atirando dinheiro pra cima. Sem o apoio do Fumproarte eu não poderia produzir CDs com a qualidade que venho produzindo, embora isso não signifique que meus discos sejam caros. Quanto a ser conhecido, Artur Bispo do Rosário era muito conhecido…

- Qual a sua relação com as gravadoras, você edita seus CDs, você tem uma gravadora? Pelo que você falou anteriormente dá para concluir que lançar um CD, sem fazer as nefastas concessões, continua sendo uma tarefa pra lá de árdua.

- Você tem que eleger suas prioridades: ou criar ou trabalhar para o sucesso. Quero criar. Não quero dizer com isso que não se possa criar dentro de uma grande companhia. Porém, quando lancei meus discos A Paixão de V segundo Ele Próprio e Tango foi uma frustração ouvir "o quê que esse cara fez?", "isso nunca vai tocar no rádio". O que acontecia? Lançavam o disco, cumpriam (quando cumpriam) um compromisso mínimo comigo, alguma divulgação e depois não fabricavam mais discos. Uma gravadora grande tem sua maneira de trabalhar, tem seus esquemas de colocar discos nas lojas, quantidade mínima de entrega etc. Às vezes um pequeno lojista para comprar Vitor Ramil tem que comprar junto algum outro produto que ele sabe que não vai vender para seu público, ou comprar uma quantidade mínima inviável para ele. Coisas como essas acabam impedindo aquela lojinha especializada de ter o seu disco, que é exatamente onde seu público irá procurá-lo. Engraçado dizer isso, mas hoje em dia é um risco muito grande entrar para uma grande companhia. Que garantia você tem que seu disco vai chegar ao seu público, que seu trabalho vai se adaptar à forma de trabalho da companhia? Se o artista der sorte, a gravadora investindo nele, as rádios e novelas tocando, parabéns, vá em frente, sua carreira deslanchou. Se for o contrário, o artista pode perder um repertório e um registro que lhe custou muito de talento e suor. O artista deve ser lúcido para perceber qual a melhor forma de conduzir sua carreira. Pode ser através de uma grande gravadora, mas pode ser também construindo sua própria estrutura de trabalho e consolidando seu nome mais lentamente. Eu fiz a segunda opção e hoje tenho a Satolep Music, meu selo, e estou muito satisfeito. Os tempos estão propícios para essas iniciativas. Meu disco Tambong alcançou praticamente todo o jornalismo cultural do Brasil, muitas lojas e rádios. E está se tornando conhecido numa velocidade que eu não poderia prever. O bom de tudo isso: o disco é meu, estará sempre à disposição de quem queira conhecê-lo. Não faço música para um só verão.

- Mas isso também mantém sua integridade e independência.

- Total, e meu prazer também. Vamos supor que a loja tal lá em Belém do Pará tem os meus CDs e que alguém de lá me envia um e-mail perguntando onde encontrar meus discos. Eu mesmo posso informá-lo, ou, se ele preferir, vender o CD pela Internet. É importante saber por onde anda seu trabalho, quem é o seu público. Esse tipo de informação é fundamental para se construir uma carreira. Tenho uma interlocução muito boa com as pessoas e ganho meu dinheiro dignamente. O público que consome a minha música é mesmo incrível. Posso dizer isso porque o conheço. 

- E como anda a vendagem de seus discos?

ag10rodrigues3.JPG (41613 bytes)- Minha vendagem é permanente e regular. O Ramilonga (1997), que não toca em rádio e é mais regional, está por volta de 15.000 CDs vendidos. Basicamente no boca a boca e em Porto Alegre. O Tambong, pelo tipo de disco que é, e pela divulgação e receptividade que vem tendo no Brasil (sairá na Argentina agora em abril), deve passar desse número em seguida. 

- Tenho a impressão que Tango foi seu vinil/CD que mais tocou.

- Tango foi o que mais tocou, ele saiu por uma gravadora grande na época, teve uma boa divulgação, viajei por vários estados e estourou no RS. "Joquim" é uma das 10 músicas mais pedidas e tocadas na história da Rádio Ipanema de Porto Alegre. É interessante, pois trata-se de uma rádio roqueira e "Joquim" está lá ao lado de Led Zeppelin. Interessante que na época que eu gravei o disco, o comentário na gravadora era: "o quê que nós vamos fazer com esta música que dura 8 minutos e que jamais irá tocar em rádio?" Agora no Fórum Social Mundial em Porto Alegre nós tocamos "Joquim" e eram 20 mil pessoas cantando junto, foi bonito de ver, todo mundo de braços para cima, e eu não estou acostumado com isso, não poderia imaginar um público tão grande fazendo aquela viagem comigo.

- E no norte-nordeste como é a sua receptividade, os caras entendem a estética do frio?

- Minha experiência no norte quase que se resume a Belém e São Luís, que já não é mais norte, é nordeste. Eu não sei agora pois faz tempo que não vou lá, mas em Belém era surpreendente o público que eu tinha, acho que ainda tenho. Eu tinha um público que quando eu chegava para fazer apresentações já estava tudo vendido antecipado. Cheguei a fazer shows em Belém, lotar todas as noites 700 lugares; viajar pra São Luis, voltar a Belém e lotar de novo.

- E depois do advento das milongas você retornou ao norte/nordeste?

- Sim, bem depois. Mas o Ramilonga não tem muito o feitio das rádios, e não repercutiu muito. Lá foi o Tango que tocou, e o meu primeiro disco que tem "Assim Assim, Estrela Estrela".

- Eu entendo que o CD com as milongas não se destina aos mercados gaúcho, argentino e uruguaio. É um trabalho pleno de inovações e muito curioso não só no que se refere às letras, aos temas enfocados, como também na parte instrumental, na maneira como você "faz a música"

- Ramilonga tem um quê de clássico. As pessoas o ouvem como sendo música proveniente de qualquer parte, ele transcende um pouco essa característica regional. A música "Deixando o Pago" só agora começa a tocar numa rádio gauchesca, muito ouvida, em Porto Alegre. Quando o CD foi lançado as rádios reclamaram que não tinha gaita. Agora está tocando, mas é um trabalho lançado em 97. Então eu já me acostumei. Eu vou fundo nas questões formais, com isso talvez acabe me antecipando um pouco. "Não é Céu" é uma canção que está composta há muitos anos, que eu já tinha gravado no meu CD À Beça, de 1995, que já tinha mostrado pra muita gente. Não tinham dado a mínima pra ela. E de repente, agora em 2001, as pessoas piraram com a música. Entraram numas que a música é um clássico, nasceu clássico. Só que ela nasceu clássico há muitos anos atrás.

TAMBONG - O TEMPO É O LUGAR. DE VITOR RAMIL

ag10rodrigues4.JPG (41743 bytes)Tambong é o título do novo CD, sexto, do cantor-compositor e escritor gaúcho Vitor Ramil. Um aviso aos tolos ou pseudo-letrados: Vitor não se aventura pela literatura como anunciou um desatento jornalista do jornal O Globo. Quem se aventura é aventureiro e à maioria dos aventureiros sobra incapacidade. Não é o caso do Vitor que escreveu o instigante Pequod e se aqui não me ocupo do mesmo é para não desviar do assunto principal. Mas estou à disposição não só do referido e aventureiro literário jornalista como de quem quiser conversar sobre Pequod. Segundo a sua assessoria de imprensa este é o primeiro disco produzido para o mercado internacional. Caso estivesse apresentando outro irrelevante e superficial trabalho de algum oportunista e efêmero cantor o rótulo até serviria. Mas alto lá! O artista em questão é Vitor Ramil, o que Tambong tem que os outros CDs de Vitor ficam devendo? Enquanto Tambong já nasce com passaporte permitam uma breve visita, "uma passadinha", aos imigrantes ilegais de Vitor.

Primeiro portão de embarque: Estrela Estrela (1981). Das obras-primas "Tribo", com participação especial de Tetê Espíndola, e "Mina de Prata". Conta com arranjos, entre outros, de Egberto Gismonti e Luís Avelar, e talentosos músicos como Ricardo Silveira, Mauro Senise, Vitor Biglione, Robertinho Silva e Wagner Tiso. Participação especial de Zizi Possi. Vitor já causa problemas a partir daqui, como enquadrá-lo, como rotulá-lo para melhor vendê-lo? Olha para o regionalismo para apreender o universo, avesso aos modismos e seus superficiais adereços o canto de Vitor sobre a imensidão do pampa. E a Estrela desconhece fronteiras.

Segundo portão de embarque: A Paixão de V Segundo Ele Próprio (1984). Traz a emblemática "Ibicui da Armada", a inquietação genial de "A Paixão de V Segundo Ele Próprio", e a inquestionável "Semeadura". A Paixão… traz entre seus arranjadores os irmãos de Vitor, Kleiton e Kledir, Wagner Tiso e o acréscimo erudito do maestro Celso Loureiro Chaves marcando de forma indelével a influência de Armando Albuquerque na obra de Vitor. Os músicos que assinam os trabalhos com Vitor são, mais uma vez, da primeira linha: Nico Assumpção, Arthur Maia, Gilson Peranzzetta, Luís Avellar… O regionalismo está presente, sem o ranço folclórico, como uma carteira de identidade (conforme a assessoria aqui ele ainda não merecia o passaporte) a provar sua maioridade como artista de rara criatividade. Vitor constrói sua obra apoiada em dois pilares, a princípio inconciliáveis, aquele que conserva as tradições e aquele que inventa, que inova sem desprezar o passado.

Terceiro portão de embarque: Tango (1987). Começa sua caminhada sobre a confessional "Sapatos em Copacabana", onde dá mostras da inadaptação ao grande e ilusório centro visto que o artista não necessariamente é obrigado a residir nas capitais; com passadas lentas surge "Joquim", a "quilométrica" e definitiva versão para "Joey", de Bob Dylan. Em "Loucos de Cara", em parceria com Kleiton, Ramil atesta a visão universal de sua obra. Os arranjos são do próprio Vitor e Banda que tem entre seus integrantes Carlos Bala, Repolho, Marcio Montarroyos, Hélio Delmiro, Léo Gandelman…

Quarto portão de embarque: À Beça (1996). Edição especial limitada, a meu ver o trabalho mais pop (no sentido pejorativo do termo) de Vitor, consequentemente datado e que não acrescenta qualidade à obra. Tal crédito pode recair sobre a guitarra "surrada" de Carlos Martau. O que não proibe Vitor de "cometer" algumas obras primas que seriam confirmadas mais adiante já livres do reducionismo pop, como é o caso de "Não é Céu", "Grama Verde", "À Beça". Ainda a ressaltar as líricas existencialistas "Deixa eu me perder" (destaque para André Gomes com baixo e sitar, e a ausência da guitarra de Martau) e "Resposta" (aqui um Martau em forma). O capítulo Martau e guitarras: exageradamente em primeiro plano. Os arranjos são de Vitor, André Gomes e Banda. Músicos: André Gomes, Alexandre Fonseca, Carlos Martau, Eduardo Neves, Guilherme Dias Gomes.

Quinto portão de embarque: Ramilonga - A Estética do Frio (1997). A problemática estabelecida com Estrela Estrela atinge o ápice, Vitor continua à margem e isso não é ruim. Evita a contaminação. Em silêncio ele trabalha com temas regionais acrescidos de sua visão de mundo, bem mais farta do que em disco de estréia, no seu talento para abordar o regionalismo sem cair no folclore para turista Vitor cria um clássico da tradição sulista. O sul nocaso vai até o fim do sul mesmo. Vitor didaticamente aponta a influência da milonga, tipicamente argentina, na cultura do seu estado - Rio Grande do Sul - e na sua formação. Instrumentos indianos enriquecem a temática regionalista. A ousadia simples que não despreza as referências. Vitor em um trabalho de pesquisa conseguiu registrar parte da obra oral de João Da Cunha Vargas e musicou os originais versos do poeta. A beleza triste de "Gaudério" , "Último Pedido" e "Deixando o Pago" dão o tom predominante da Estética do Frio, tom magistralmente quebrado com a épica "Indo ao Pampa" composta num set de filmagem. No quesito belo e triste vale um registro. Vitor Ramil fez longa e insuficiente temporada no início de 2000, na Casa de Cultura Laura Alvim em Ipanema (RJ), era comum presenciar "gaúchos" distantes dos pagos enxugando lágrimas enquanto Vitor cantava a clássica "Ramilonga". Entre os gaúchos chorões este que aqui se atreve.

Não foi anunciado como um disco para o mercado externo mas sabemos que serviu de passaporte permitindo a entrada de Vitor em outros países. Os arranjos são de Vitor Ramil e os músicos que contribuíram para o livre trânsito do CD são Nico Assumpção, Alexandre Fonseca, André Gomes, Roger Scarton.

Sexto portão de embarque: Tambong (2000). Gravado e mixado em Buenos Aires, apresenta as características que comprovam e consolidam a carreira de Vitor. A tradição envolta em novidades, músicos de enorme credibilidade, participações especiais que realmente participam, acendem o brilho da musicalidade e poética de Vitor. "Não é Céu" e "Grama Verde" aperfeiçoam a qualidade apresentada em À Beça, "Foi no Mês Que Vem" com Vitor ao violão e Egberto Gismonti, é delicada iguaria para ser degustada a cada manhã, enquanto você admira alguém ou algo que tanto ame. Não por acaso é dedicada por Vitor a Ana Ruth sua inspiradora companheira. "Um Dia Você Vai Servir Alguém" é uma versão para "Gotta serve Somebody" de Bob Dylan e que tem a participação de Lenine acrescentando a voz agreste e o violão de nylon aos sarcásticos versos de Vitor. "Você pode ser demente/pode ser doutor./Você pode ser sincero/ pode ter rancor./Você pode ser um crente,/você pode ser ateu./Pode ser um leitor vaidoso/ou uma miss que nunca leu./Mas um dia vai servir alguém". "A Ilusão da Casa", com Julio Barone na bateria e vocalise de Chico César fazendo lembrar Ali Farka Touré, serve como atestado da usina criativa de Vitor. "Espaço", com baixo acústico de Pedro Aznar, bateria e sitarina de Santiago Vazquez, e Vitor ao violão é uma mostra do melhor jazz, infelizmente em extinção.

"Valérie" é de uma doçura agressiva acentuada pelos violões de Vitor e Pedro Aznar. A síntese perfeita: literatura, música e imagens: "O rosto se perdeu/o gesto se desfez/ depois daquele beijo teu/nada real ficou./Nenhuma lágrima/ nenhuma dor sequer/ só o mistério desse amor/ pelo que já não sei./ Valérie/quero te ver/ só pra te esquecer." "Só Você Manda em Você" é uma leitura jazz/rock de Vitor para "You’re a Big Girl Now", de Bob Dylan. "O Velho Leon e Natália em Coyoacán", com a percussão de Santiago Vazquez, o acordeon de Pedro Aznar e o sax soprano de Carlos Lastra, criam atmosfera de um filme enquanto Vitor canta o enigmático poema de Paulo Leminski. "Subte" destoa no CD, pelo menos no CD em português, visto que há uma versão do CD estrategicamente direcionada aos "pueblos latinos". Trata-se de um Fito Paez com vantagem apenas nas vozes, o instrumental é farto em clichês argentinos.

Ao piano, Vitor apresenta "Para Lindsay" a versão de Claudio Willer para o poema de Allen Ginsberg, momento de estranheza e ritual que se repete pela impactante obra deste gaúcho, o Woody Allen da sua tão querida Pelotas. "Estrela, Estrela" dispensa comentários, exige aplausos. Penúltimo tema do CD a versão cuidadosa de "À Beça" indiscutivelmente superior a versão do CD de mesmo nome, contribuem decisivamente os baixos de Pedro Aznar. "Quiet Music", primeira composição em inglês fecha o CD. O que não significa silêncio, inevitavelmente aciono o play… Como podemos ver Tambong não possui nenhuma nova qualidade, nada que Vitor não tivesse anunciado em Estrela, Estrela. Apenas aperfeiçoou um pouquinho mais a quase perfeição. Ele já tinha seu passaporte desde 1981. [L. H. R.]


Luiz Horácio Rodrigues (Quaraí, 1957). Autor e diretor de teatro, escreve para a imprensa artigos sobre literatura, cinema e música. Contato: lular@terra.com.br.Tambong, Vitor Ramil. Pedidos pela Internet: http://www.vitorramil.com.br, e-mail: satolepmusic@terra.com.br. assessoria de imprensa; Valéria Libório. tel: (21) 527.0133, fax: (21) 579.3548, e-mail: vlibório@aol.com.

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