Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

 

 

 

 

 

 

 

Culpa

 

 

 

Augusto Frederico Schmidt


 

Ouço uma fonte


Ouço uma fonte
É uma fonte noturna
Jorrando.
É uma fonte perdida
No frio.

 

É uma fonte invisível.
É um soluço incessante,
Molhado, cantando.
 


É uma voz lívida.
É uma voz caindo
Na noite densa
E áspera.
 


É uma voz que não chama.
É uma voz nua.
É uma voz fria.
É uma voz sozinha.
 


É a mesma voz.
É a mesma queixa.
É a mesma angústia,
Sempre inconsolável.
 


É uma fonte invisível,
Ferindo o silêncio,
Gelada jorrando,
Perdida na noite.
É a vida caindo
No tempo!


Publicado: Fonte invisível (1949)
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

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Herodias by Paul Delaroche (French, 1797 - 1856)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Augusto Frederico Schmidt


 

Pequena igreja


Eu queria louvar-te, pequena e humilde igreja
Desta cidadezinha que está morrendo.
Eu queria agradecer-te a compreensão que me deste
Das coisas humildes e eternas.
 


Eu queria saber cantar a tua tranqüilidade
E a tua pura beleza,
Ó igreja da roça, adormecida diante do jardim cheio de rosas!
Ó pequena casa de Jesus Cristo, irmã das outras casas solenes
[e graves.
Escondida e modesta, com as tuas torres e os teus sinos
Que sabem encher o ar matinal com um tão doce apelo,
E no instante vesperal lembram que é hora de dormir para a
[grande família dos passarinhos inquietos,
Dos passarinhos que tumultuam o pobre jardim cheio de flores!


Publicado: Estrela solitária (1940)
 

 

 

José Alcides Pinto

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Hélio Pólvora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Augusto Frederico Schmidt


 

Soneto cigano


Lembra-me sempre a viagem, a grande, a estranha viagem.
As mulheres brincavam e riam ao pé das enormes fogueiras.
Rostos da cor do bronze, olhares misteriosos,
E mãos escuras para todos os misteres.

 

Lembra-me sempre a viagem, as estradas perdidas
Por onde seguíamos atrás das auroras ingênuas
Que corriam cantando, e atrás das horas fugidias
— Horas que pareciam dançar ao ruído de pandeiros.

 

Era tudo uma grande inocência e descuido.
O futuro sombrio, as ambições, os medos,
Não me lembro de os ter sentido nesses tempos.
 


Colhíamos, então, flores e frutos nos caminhos,
Amávamos o amor nas morenas mulheres,
E adormecíamos à mercê dos ventos e das chuvas.


Publicado: Mar desconhecido (1942)
 

 

 

Manoel de Barros

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Nelly Novaes Coelho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Augusto Frederico Schmidt


 

V (Sonetos)


Noites, estranhas noites, doces noites!
A grande rua, lampiões distantes,
Cães latindo bem longe, muito longe.
O andar de um vulto tardo, raramente.

 

Noites, estranhas noites, doces noites!
Vozes falando, velhas vozes conhecidas.
A grande casa; o tanque em que uma cobra,
Enrolada na bica, um dia apareceu.

 

A jaqueira de doces frutos, moles, grandes.
As grades do jardim. Os canteiros, as flores.
A felicidade inconsciente, a inconsciência feliz.

 

Tudo passou. Estão mudas as vozes para sempre.
A casa é outra já, são outros os canteiros e as flores
Só eu sou o mesmo, ainda: não mudei!


Publicado: Pássaro cego (1930)
 

 

 

Elizabeth Marinheiro

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albano Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Augusto Frederico Schmidt


 

Vazio


A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.
 


A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.


Publicado: Pássaro cego (1930)
 

 

 

Artur Eduardo Benevides

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José Nêumanne Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Augusto Frederico Schmidt


 

Soneto XLIX


Morrer, Senhor, de súbito, não quero!
Morrer como quem parte lentamente
Vendo o mundo perder-se pouco a pouco
E com o mundo as imagens da memória.

 

Morrer sabendo próxima e implacável
A hora de deixar o doce efêmero.
Morrer o olhar voltado para a altura
Para a Face de Deus, ardente e pura.

 

Morrer como quem vai se despedindo
A fixar as paisagens mais antigas
E os seres mais longínquos, já partidos.

 

Morrer levando a vida já vivida!
Morrer maduro, e não qual fruto verde
Por violência dos galhos arrancados.
 

 

 

Nauro Machado

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Benedicto Ferri de Barros